
agrupamento independente de pesquisa cênica
Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.
São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.
Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.
A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.
quinta-feira, novembro 20, 2008
Rede colaborativa tecida por encontros e desejos
Cada dia com seu tema mais específico e um formato diferente.
A partir do "cruzamento" de conversas com Joyce e Idelino, sinto agora uma necessidade de uma contaminação de procedimentos ou uma fricção desses materiais, na tentativa de surgimento de novas tessituras cênico-performáticas. Necessito de um agir colaborativo para que minha pesquisa ganhe novos contornos.
Um elemento presente em todos os relatos foi o PROCESSUAL da pesquisa de cada um. As pesquisas sofreram desvios, encontros, contaminações e momentos de dúvida e falta de certezas. Não é possível reter o fluxo dos acontecimentos e agenciamentos.
Eu pude no dia do Fórum perceber que tinha abandonado alguns procedimentos interessantes e que agora sinto o desejo de recuperar alguns territórios ainda potentes. Como lotes abandonados, para mim torna-se necessário voltar a ocupá-los e rever o que está no meio da sujeira.
A escrita de Nina, o ato de riscar os corpos das mulheres, ainda me fascina muito. Ela trabalha com a questão das mulheres mortas. Quando recuperei o ato dela, na verdade eu tinha a idéia de atuar no campo da umbanda quando riscar no chão com a pemba é grafar uma presença ou evocar uma Linha de Proteção, ou ainda circunscrever um espaço circular e fechado para a magia e procedimentos de cura.
Se em Nina temos uma dramaturga que atua, penso em meu procedimento que sou um atuante num ato dramatúrgico. Os objetivos são diferentes e os universos também. Recupero a questão do "corpo emprestado" que também considero muito interessante. Fora a questão dos esgarçamentos das funções criativas dentro do Núcleo Obscena. Até onde ator, diretor e dramaturgo? Temos uma pesquisa riquíssima em nosso trabalho.
Outra reflexão : até onde a autonomia do pesquisador e até onde seu agir coletivo?
Penso que se trata de um "trânsito ininterrupto", sempre em movimento contínuo.
Temos nossas pesquisas individuais sim, mas estamos numa rede colaborativa, logo um agrupamento de trabalho e então nos provocamos, discordamos e somos, em algum lugar, responsáveis ou co-responsáveis por todas as outras pesquisas.
Afirmo isso, porque no Fórum senti-me parte de tudo o que era exposto, e mais, eu conhecia de perto todas as pesquisas, sempre procurei estar acompanhando os procedimentos, discutindo ou escrevendo minhas observações no blog. Nada do era falado soava estranho para mim, pelo contrário, eu me misturava naquilo tudo e sabia da importância dessa rede de colaboração.
Autonomia e Coletividade são dois aspectos importantes desse núcleo de pesquisa. E acredito que construímos isso juntos e de forma singular.
Idelino afirmou que para ele PROCEDIMENTOS COLABORATIVOS são: perguntas, acompanhamentos de pesquisas e disponibilidade de colocar o CORPO numa proposta do outro. Porque se cria uma rede de confiança, de diferenças, abandona-se certezas e pode-se descobrir a aprtir de dois, por exemplo, uma terceira coisa. Foi uma dificuldade assumida pelo pesquisador Marcelo Rocco. Ele acredita que esta exista devido à sua formação de diretor como figura mais importante num processo de criação. Acredito que um agir colaborativo é um aprendizado constante. E mais : confrontação e concessão são aspectos fundamentais de um fazer colaborativo.
Torna-se necessário destacar os trabalhos colaborativos do Fernando e do João, que chegaram de fora e que trazem novos olhares sobre a nossa pesquisa. Como não ser afectado pelas imagens do vídeo do Fernando ou as fotografias do João? Além de registros preciosos sobre nossos processos , são LINGUAGENS que se contaminam com nossa prática e influenciam nossas pesquisas. Então o Obscena vai aumentando essa rede colaborativa. Rede frágil, rede forte, rede dinâmica, mas acima de tudo uma REDE DE DESEJOS, ainda que obscênicos.
segunda-feira, novembro 17, 2008
o retorno ao deserto
o segundo dia (no qual me atrasei, outra lástima) foi bem interessante e esclarecedor para mim em vários sentidos: a percepção nítida das relações intrínsecas não só entre as pesquisas expostas nesse dia, mas delas com, pelo menos, as do terceiro dia...
mas, o mais interessante, a clareza dos pesquisadores - ainda que em fase de experimentação - em relação a meios e objetivos. as questões subjacentes aos materiais desenvolvidos, o caminho de amadurecimento dos olhares. e, volto a dizer, as relações entre esses caminhos e os caminhos que se apresentaram no terceiro dia... sim, porque enquanto ouvia idelino, clóvis e joyce falar, eu, no meu vício dramatúrgico, já tecia fios de ligação entre os elementos expostos ali e aqueles que venho buscando desenvolver em minha própria investigação.
a relação entre corpo e função (o corpo que deve estar ali é o meu?), a pomba gira que, sendo entidade, é uma mulher morta que retorna, que assume outro corpo. o estranhamento entre essa posse e o corpo que a rejeita. os estados desse corpo/mulher pomba gira. os lugares de representação dessa figura...
em clóvis, a questão dos objetos despachados, a relação entre esses objetos bonecas e as bonecas objetos que estão se desenhando... as influências das caminhas performáticas sobre este material que se delineia. em joyce, a relação entre as entrevistas e os corpos/estados/figuras desenvolvidos pela lica. a questão, principalmente, da transição entre esses corpos/estados: da jovem que sonha com a quarentona que já se desiludiu.
no terceiro dia, achei muito importante a presença da marcha mundial das mulheres, tanto na oficina quanto na fala, quanto na "assitência" da exposição de bonecas realizada na vitrine.
apesar do avanço do formato (o fórum, ao invés da mostra), o qual, acredito, nos servirá de modelo para a contrapartida que realizaremos junto ao arena de cultura, creio que ainda falta muito.
obscena: agrupamento independente de pesquisa... parece-me que nos faltam ainda mecanismos próprios de autonomia, não do agrupamento, mas dos pesquisadores. falta ainda relacionar essa autonomia com a noção de coletivo: um coletivo do qual usufruo, mas, principalmente, um coletivo que construo. que depende da construção diária e constante.
somos uma rede de colaboração? essa rede implica somente nos materiais criativos, ou estamos falando de um modo de produção? como me colocar como produtor de meios para que este coletivo se estabeleça, para que ele encontre caminhos possíveis para o aprofundamento dessas investigações/materiais? para onde queremos ir?
para mim, a pergunta fundamental que cada um de nós deve se fazer é: o que eu levo nessa viagem pelo deserto?
nina caetano
domingo, novembro 02, 2008
Relato(´rio) Obscênico 02 de Novembro

Relato (´rio) Obscênico, 20 de Outubro de 2008.
Viaduto Santa Tereza. Eu, Erica. Uma mulher de 29 anos enfim. Entrando de fato em meu retorno de saturno. Ontem, o assassinato da menina Eloá. E eu a construir minha ação/situação sem me ater a esse dado. Esse fato fatídico. O namorado que mata a namoradinha de 15 anos por não aceitar a perda. Mais uma vez estamos diante dos encantos da buceta. Não. Não estou tripudiando sobre a dor e desgraça alheia. Não mesmo. Estou apenas suscitando o valor da carne. A paranóia da carne. A posse travestida de amor, paixão.
Pois bem, cheguei eu com minha bugigangas. Está claro ainda. Vejo um caixote no passeio do parque. Vou até ele. Joyce já está a descer a rua. Faço menção para que fique próxima a mim. Estou um tanto quanto receosa. Há uma mulher mais velha a falar com uns meninos no banco, aos fundos do local onde depositei minhas peças de trabalho. Neste momento eu trabalho. Meu corpo se fortifica com a exposição na rua. Não conheço quem passa e ninguém me conhece, o anonimato que nos aproxima. Vou até um butequim e peço ao senhor que encha, por favor, o meu balde, desejo que todos tragam um. Aos poucos os obscênicos vão chegando, peço que encham seus baldes. Joyce e Nina me ajudam a desfolhar as revistas. Hoje eu enclui as imagens de revistas sobre mulheres: pornô, crochê, gravidez e nomes de bebês... cada uma pertencente a um corredor do grande ‘mercado da buceta’, sim este mesmo que fora responsável pela morte da menina Eloá. Tristeza. Aos pés da estrutura de ferro - que não faço idéia do que represente - instalo minha ação/situação: um tapete das imagens das revistas, o caixote, sedas por sobre a madeira. Os brinquedos de casinha em cor-de-rosa compõem o interior do castelo que está erguido à frente da imagem principal. Uma evolução de invólucros:à frente o castelo como uma muralha de proteção, à seguir um piso/tapete das páginas das revistas, por sobre este os móveis de plástico rosa, boneca e bonequinho, ao fundo o altar coberto com as sedas, um corpo de mulher sobre o salto, roupas que transfiguram o corpo natural, traz nas mãos assim como um buquê de noiva os objetos da rotina caseira – rodo, vassoura e pá, em miniatura. Coloco-me ali e peço aos obscênicos que destruam aquela imagem. Meu pedido é sincero, mas ainda não tem a força suficiente para passar de desejo a realização. Este é um ponto de reflexão do experimento.
A senhora que falava com os meninos que ali habitam vem para ver o que se passa. Num primeiro momento usa o escudo da religião para nos falar. Depois relaciona com a morte da menina Eloá. Ela se aproxima do meu corpo, tenta ler a faixa do ‘dia das mães’ que trago entre os dentes. Já babo. Ela levanta a calcinha sobre meus olhos, mas uma senhora branca e pequeno burguesa se intromete: _ não mexe não que ela é estudante de teatro, isso é arte. Que merda, penso eu. Quando ia conseguir a reação desejada essa estúpida me atrapalha, mas enfim, é o outro lado da moeda não é mesmo?!
A polícia passa.
Há incômodo entre os que estão a me olhar, a ‘macumba’ é sempre a culpada de nossos atos obscênicos, engraçado isso.
Continuo ali. Lica já me jogou água. Nina retirou o buque das minhas mãos, Joyce mandou água na casinha. Um rapaz muito ligeiro chutou o castelinho!!!
Continuo ali.
Frio.
Já não sinto direito os braços, estáticos. Essa sensação de inércia é muito boa. As pessoas me perguntam o que faço ali. Não há o que falar. Simplesmente estou.
Um moço de roupa social achou que a calcinha na cabeça era a que estava na buceta, foi checar minha bunda e viu a marca da minha cueca. Fez questão de salientar para todos que eu estava com os fundos protegidos apesar da tanga sobre os olhos. Escroto.
A polícia vem novamente e pára. O moço vai até eles e dedura os meninos que ali habitam. Obviamente: batida. Seguro minha ação/situação, assim não há como os policiais serem agressivos com os meninos. As pessoas se dispersam e nós também.
Sinto-me renovada.
Sinto-me envergonhada.
Sinto-me depenada.
Sinto-me inquieta.
Há que se fazer isso mais e mais.
.SARAVÁ.
sobre a potência das ações
Mesmo sem ter podido mostrar para o meu mais querido e arguto interlocutor esse material como era meu ardente desejo, conversamos sobre a proposta, sobre o que ele viu de cidades mortas e sobre o que já foi feito no obscena, em termos de relações com a rua. Já é um canal aberto de uma comunicação que desejo muito fortificar para o agrupamento como um todo. Mas é um caminho que é preciso que trilhemos todos no sentido do rigor e de busca de clareza de nossas ações. Para onde queremos caminhar?
Verticalizar os experimentos no sentido de uma ação clara. O que é potente no que estamos fazendo? Quais os perigos e desvios? Como condensar as propostas, engrossando esse caldo?
Vejo uma imensa potência nessa exposição de bonecas, nessa estrutura aberta que articula nossas ações em uma rede colaborativa, num diálogo que ocorre no aqui e agora, no calor de nossa sala de ensaio, a rua. Interessa-me, sobretudo, isso. Essa obra se fazendo ali, do cruzamento de nossas vozes autônomas, de nossos fluxos paralelos. Em permanente diálogo.
Por meu lado, eu devo assumir esse corpo dramaturga atuante em fluxo também de escrita. Em permanente ação obscena filtrando espectadora a paisagem da rua. Estou dentro/fora? Que lugar é esse?
Como vejo extrema potência nesse experimento que já estabelecemos, lica e eu, entre escrita e ação, entre mortas que se multiplicam pelas ruas e essa mulher objetos em suas diversas ações: numa ação concentrada, em determinado espaço. Ela nômade invasora de lojas espaços privados de consumo imediato.
Como viabilizar o aprofundamento desses experimentos?
Nina Caetano
sobre a educação da mulher
Em frente ao tapete, um caixote de madeira, desses de mercado. Ela finaliza seu ritual. Sobre a roupa que veste outras roupas nas quais não cabe. Essa mulher de corpo apertado martirizado "enroupado" sobe em seu pedestal de mãe mulher, nas mãos uma vassourinha, um rodinho e uma pazinha. Brinquedos de menina. Debaixo do viaduto Santa Tereza, às sete horas da noite, sobre um caixote de feira, sobre um salto. Um altar. Ela pede que destruamos a imagem. Difícil tocar nela. Mais fácil destruir os objetos. Mas algo acontece.
Aproxima-se desse altar uma senhora de rua a quem inquieta essa imagem meio nossa senhora meio santo de terreiro com aquela calcinha cobrindo a cabeça. A senhora, Celina, diz “é coisa de quem não tem deus”. Ah, a senhora Celina... gloriosa intervenção no rumo dessa ação provocativa. Ela se incomoda, avança, toca, interroga, provoca e é provocada. Mas sua ação também incomoda as certezas de uma senhora burguesa que está tentando entender e mastigar tudo isso. Celina toca, avança a mão sobre a cabeça da atriz, a calcinha a deixando inquieta. A outra, a senhora burguesa, parece também ter ímpetos de ação que se diluem na sugestão de chamar a televisão e tentativas de ordenação “Não toca, você está atrapalhando. Não está vendo que é arte?” “A senhora podia ter pelo menos educação e me chamar num canto se queria falar comigo”, responde Celina altaneira.
Ah, gloriosa Celina... Também saio de lá provocada, desejosa.
Baby dolls.
Nina Caetano
domingo, outubro 19, 2008
Relato(´rio) Obscênico 19 de Outubro

Local: Praça da Savassi, point das bonecas de belo horizonte.
Proponente: Nina e Lica
Executantes: Lica, Nina, Nêga e Joyce.
Dia 13 de outubro. Venho de uma semana de muito trampo e muito rock. Muito álcool, poucas horas de sono e ouverdose de produção. Estou lenta. Muito lenta. Minha cabeça não funciona: a buceta e sua vida no mercado de trabalho. Eu a buceta cansada e momentaneamente alienada. Sim, era assim que me sentia naquela segunda-feira, sugada. Cheguei na casa de Nina e ainda não tinha claro o quê e com o quê trabalhar... perdida. Por fim, as roupas de Nina me trouxeram um problema: roupas pequenas para meu corpo cheio. O paradoxo do corpo natural e o corpo da moda. A estética da beleza formatada, prevista e afirmada pela mídia. Mesmo assim saí para a Savassi com um nó na boca do estômago: não sabia o que fazer, sentia-me alienada do espaço para onde íamos, sentia-me inerte nessa segunda. Descemos do carro. Lica com suas sacolas, hoje em menor número. Joyce já de boneca com seus ‘clones’ de plástico numa bolsa a tira colo. A Savassi com os bares tomando as calçadas. Vitrines. Lica começa sua trajetória, logo é notada. Joyce é possível. Uma boneca seriada e possível. Uma lente e grau na realidade. Um ângulo pouco mais agudo, quase imperceptível para um distraído. Ela multiplica sua imagem e semelhança. Lica multiplica em objetos o objeto mulher domesticado. Eu tentava encontrar um ponto de incomodo, ainda estava alienada. Aos poucos a fumaça dos carros foi-me trazendo o lugar para minha respiração, atravessei a Cristóvão Colombo e juntei-me as demais frente à Melissa. Comecei a me inspirar naquelas bonecas, nas nossas e nas demais, e saquei as roupas, a maquiagem, o salto e fui-me transformando aos poucos numa desajeitada e incabível boneca. Rosa? Não conseguiu ser. Bela como as das Vitrines? Não, suas medidas não são ideais e suas roupas estão fora de moda. Exarceba na maquiagem, o ridículo daquele corpo tentando caber onde não havia como. É preciso ser magra. Seriada para caber nas roupas das Vitrines. As três agora desfilam e vez em quando deitam-se no chão para que nina teça suas mulheres mortas. Comecei a perceber uma certa idiotice naquela minha situação. Gerou-se em mim uma alegria imbecil, esse estado creio que foi um entorpecimento causado pelas inúmeras vitrines e a mira das câmeras. Neste procedimento decidimos assumir a câmera e nos relacionar com ela. Eu sorria numa felicidade idiota. Um sorriso vazio de senso crítico e impotente de qualquer natureza anárquica, mas que por sua repetição possibilitou perceber organicamente o que o espetáculo da cultura do consumo nos causa. Vejo Túlio com um sorvete da Mac nas mãos, chamo-o, ele resiste, por fim cede. Vem a meu encontro e oferece o sorvete, diz que quer trocar e eu pergunto pelo o quê, ele sorri e não responde... Pergunta se vou sempre ali e respondo que só vou quando quero ficar bonita, uma mocinha nos observa e eu direciono a mesma pergunta a ela, sua resposta é seca:_não tenho com o que me divertir aqui porque não tenho acesso às lojas de grife... Fiquei a me perguntar o que ela fazia ali, mas ela se foi.
Três locais foram mais potentes: porta da Mac, porta da Loja de Enxovais e porta da loja Rede. Nesta última quase fomos contratadas pelo gerente para promover a loja de comésticos... Eu fiquei a imitar a moça do banner da porta com seus lábios sensuais prontos a serem consumidos.
Bem, três bonecas foram construídas: a noiva; a boneca seriada; a boneca que não cabe.
É isto.
.SARAVÁ.
Relato(´rio) Obscênico 19 de Outubro

Dia 29/09 – chego no Marília e Clóvis já está quase pronto e extremamente ansioso. Natural. Eu estou à seus serviços hoje. Irei buscar mulheres dispostas a se abrir para um estranho. Falar de suas mazelas, medos, derrotas, fracassos amorosos, enfim...
Saio pela Alfredo Balena, fim de expediente, muitas mulheres de branco – área hospitalar. Vejo um casal de adolescente, duas meninas de mãos dadas. Aquilo me chamou atenção. Comecei a segui-las. A imagem era bela e sedutora, duas meninas em pleno exercício de suas liberdades sexuais. Século 21. Será? Enfim, continuei a observá-las. Conversavam como as demais de suas idades. Parei para comprar uma porcaria para comer e deixei que passassem na minha frente. Continuei com elas até a Álvares Cabral. Maleta! Pensei. Lá devo esbarrar com alguma fodida. Isso me veio a mente. Das adolescente vivas queria agora uma mulher detonada: Maleta! Entrei. Cheio. Subo a rampa do Lucas e paro em frente ao Chock Chock. Um casal na mesa a frente esquerda em chama antenção. Sempre estão por ali, mas não são namorados. Ela, negra magra esguia e com movimentos sinuosos; ele, negro seco cabeludo malemolente e belo. Peço licença, sent0-me, estou ansiosa. São pessoas fortes, mas do rock. O que nos confere certa familiaridade. Ela tem o rosto marcado e é forte e bela a seu modo. Muito dor no olhar, são profundos e negros. Sua fala é certeira e cheia de gírias e malandragens. É mais masculina. Assertiva. Explico meio formalmente qual é meu objetivo ali. Eles se espantam e ela por fim começa já o processo de confissão. Eu não sei o que fazer. Escuto, mas vou ao mesmo tempo fisgando-a para irmos o mais rápido possível para o teatro, tive medo de que se esvazia-se ali no buteco enquanto se enchia de álcool. Onde mais encontramos tão concentrado num mesmo metro quadrado tantos corações partidos do nos butecos da vida. Todas as dores de cutuvelo são curadas numa boa bebedeira, mesmo que esta seja diária. Ao chegarmos no Marília, Clóvis escutava Lica. Minha convidada se impacientou. O rock a solicitava. Seu amigo me ajudou a mantê-la ali, sentada no porão a esperar para se confessar. Igreja? Não, mas remete.
Ao fim, abraçamo-nos e ficamos a fincar o pé no chão, pois a dor é muita e ela nos afeta.
FIM
Relato(´rio) Obscênico 19 de Outubro

Praça Sete
Lica já havia abandonado a ‘noiva’ quando cheguei. Estavam na rua rio de janeiro. Mulher coisa, vaca, maravilha. Muitas sacolas de loja, muita embalagem de plástico, descartáveis, potes, uma infinidade de apetrechos domésticos e domesticantes. Vez ou outra esta deitava-se no chão e Nina escrevia a mulher morta que ali jazia. Seu inventário. Seu testamento. Sua condição sócio econômico e cultural. Nossas graças e desgraças.
Eu mantive meu olhar mediado pelo vídeo e câmera do celular. Por isso fiquei igualada ao público. Muitas pessoas filmam e fotografam a ação das pesquisadoras, é bom desfrutar desse voyeurismo. Os homens lêem e se excitam. A carne é muito mais forte que o verbo. Certamente. Mas Nina persiste e Lica também. Carne e verbo em exercício de comunhão.
Será que os homens entendem? Será que eles associam os objetos domésticos acoplados ao corpo dela com a domesticação das mulheres ou eles acham que uma fantasia de um protesto feminista?
Algumas mulheres repreendem a ação. Outras ficam curiosas e se aproximam. Uma na praça sete interferiu todo o tempo falando com Lica como se ela estivesse fazendo um programa de TV e fosse seus 15m de fama... Nina a convidou para deitar-se, mas mesmo muito falante não teve coragem de dar seu corpo à prova. Verbo e carne em total desarmonia.
FIM
Relato(´rio) Obscênico 19 de Outubro
Procedimento: CLASSIFICADOS
Marcelo Rocco, proponente.
Saulo e Didi, executantes.
O universo gay. A transexualidade. A prostituição. As drogas. O álcool. O submundo. O preço das coisas e das pessoas coisificadas: está tudo nos classificados.
Seres humanos à venda. E no momento final, quando Saulo e Didi já não podiam e tinham condições de arcar com mais nenhuma representação desponta o humano. Numa ação a principio sórdida mas extremamente forte e rica: Didi de pernas para o alto e bunda arreganhada e Saulo a entuchar em seu cu a ponta do revolver: do espetáculo à confissão da memória familiar, da opressão paterna à opressão do outro em cena, o jogo que se estabelece enfim e os coloca no x da questão: quem vai comer o cu de quem? Porque no final é justamente o que fica: quem fodeu e quem foi fodido. Neste momento vejo potente a questão que se desponta na pesquisa de Marcelo. Lembro-me do tcc – boate lilás – momentos potentes como estes havia: o sorteio da putinha pelo menor preço oferecido; a bunda masculina a rebolar e os homens heteros a babar... rupturas em forma de alegoria. A carnavalização da cultura brasileira. Devemos sempre festejar mesmo sendo fodidos. Por isso ressalto essa passagem do procedimento, havia em Didi a alegria estúpida de ser fodido, a crueldade máxima: a idiotice estampada em nossos corpos carentes de afeto e alienados de si que mesmo ao serem ‘fodidos e mal pagos’ saem gabando-se, pois não há mais contato além deste e resta-nos a fudeção.
O que resta a prostituta que empina o rabo para a porta do quarto à espera de algum peão que a coma para que ela dê de comer aos filhos?
O que resta a um transexual num país como o nosso? Há assistência médica/psicológica digna?
O que resta às mães solteiras?
Estamos todos com o cano da arma no cu e não notamos.
Continuamos rindo idiotamente relevando o urgente.
FIM
sexta-feira, outubro 17, 2008
ESCRITO TARDIO.RELEXÃO SEMPRE EM TEMPO
RELATO A PARTIR DA PROVOCAÇÃO DA ERICA – 22/09/08
Despachando textos
Qual é a sua questão, enquanto pessoa-criador? O que você está querendo discutir aí?
Toda vez que esta “provocação” vêm á tona, de alguma forma nos deixa a todos, em situação desconfortável. Ao passo que nos faz buscar o ponto de partida do nosso trabalho e rever o percurso e o que tem prevalecido.
Ontem, a provocação (com tom sempre exagerado e austero bem característico e que dá margem sempre a algo além da própria provocação) da Erica mediante o procedimento do Marcelo, certamente fez cada um revisitar o próprio umbigo. E, naquele exato instante, refletir, criticar, provocar a própria criação que vem desenvolvendo.
Acho necessário, ao mesmo tempo que cruel e delimitador. Me pergunto se querer “definir” não é também a ânsia de manipular um trabalho que precisa ser refletido num resultado e não necessariamente num produto. Ou, não será o momento de dizer que estamos no final e precisamos definir, assim mesmo, como está? Mesmo compreendendo que a questão levantada refere-se á questão da “pessoa criadora”. E não do material em si. Embora estas coisas se confundam.
Eu, particularmente, nem de longe consigo encerrar o trabalho iniciado. É possível fechar? Sim. Obter resultado algum? Sim.Mas, não tenho certezas alguma, já que outras questões vão surgindo e transformando as idéias e ou sugestões iniciais.
Inicialmente queria trabalhar a partir da Pomba Gira e com os seus elementos de identificação numa gira. Mesmo sem saber, inicialmente, como.A medida em que fui “explorando”-num sentido mais imagético e menos prático -, possibilidades para achar um ponto interessante, concluí que seria pertinente dispor mulheres com estes elementos. Alguma leituras sobre a entidade, sobre a formação da mulher, desde o édem, me fizeram considerar o confronto entre os opostos.
As mulheres acham até bacana o convite.Ficam empolgadas. Num primeiro momento afirmam não saber o que de fato é uma Pomba Gira.Num segundo, retornam e questionam sobre o andar descalças.
O medo que se instaura ao falar de Pomba Gira é geral.Mesmo sem conhecer o que é e como é, e talvez por isto,torna-se inviável uma disponibilidade para o procedimento: colocar-se neste, como mulher.
E uma coisa é evidente, as mulheres não sabem do que se trata em essência, mas, dispensam um temor.Neste sentido,minhas reflexões parece que ganham sentido.Se a virgem é espelho , portanto, da imagem da mulher social ideal, a Pomba Gira é a negação disto. A cultura da negação está imposta e tem grande influência, percebe-se.O demônio sempre esteve pintado de vermelho e preto, razão pela qual uso tais cores, assim como a “puta” passou para a margem, quando este modelo ideal, pautado na religião, se instaurou.
Se o Brasil ainda é o maior país católico e todos fomos criados, direta ou indiretamente sobre os conceitos da moral cristã,tudo que vier contra isto, não será consciente ou inconscientemente negado? Em nós, por nós?
Outra questão que me suscitou e provoca: quem deveria negar quem: a Pomba Gira a mulher? Ou a mulher a Pomba Gira? Será isto procedimento prático ou pesquisa teórica?
O preconceito é imenso e desafiador.Desenvolver um material palpável que aborde todas estas questões surgidas, vejo como uma longa estrada a percorrer, a pé e descalço.
Porém, voltar sempre a estas questões, é edificante por que nos obriga a deixar um pouco mais claro o nosso desejo. E estar diante de uma provocação como esta, da Erica, nos torna mais excitados a ponto de buscar conteúdos mais esclarecedores e fazer emergir mais perguntas.
Para concluir,
O que isto provoca em você enquanto mulher?
quarta-feira, outubro 15, 2008
Bonecas na Savassi : um sonho Imperfeito.
No ponto de ônibus em frente vejo pessoas incomadadas , umas riem, outras perguntam se é teatro ou show e existem aquelas que se irritam por serem interrompidas em seu cotidiano.
O fato é que algo de ESTRANHO INVADE O ESPAÇO URBANO. Um procedimento na fronteira.
Joyce, a boneca seriada. Lica, a noiva feliz e dona de casa coisificada. Érica, a mulher corpo-propaganda, a gostosa, o corpão que vende, anuncia e seduz. E Nina e a escrita que corta, denuncia, desvela, o grito escrito nas ruas e passeios da cidade.
Uma imagem avassaladora: mulheres mortas de frente a loja de enxovais. Mas o que significa isso?Mulheres embalagem e espetaculares. Muitas fotos, muitas imagens e viva o mundo da espetacularidade!!!!!!!!!
Um procedimento agressivo, debochado e muito potente. O tempo é outro aliado. O tempo não-representacional, mas o tempo de se configurarem IMAGENS, ESCULTURAS, IDÉIAS E PROVOCAÇÕES.
Vale investigar a potência desses corpos, o que querem gritar e denunciar?
Um procedimento que se compõe com várias pesquisas e há um encontro de forças potentes.
Um quadro vivo. Teatro Imagem. Corpocidade.
No final mulheres mortas de frente a um Café e ninguém olha e se incomoda. Estamos tão midiatizados que tudo é teatro, arte e espetáculo. Não há uma interrupção. A espetacularidade tornou-se companheira de todos nós.............
terça-feira, outubro 14, 2008
Brincando de bonecas

vamos planejar nossa ação de segunda? como já disse, a idéia é nos encontrarmos às cinco em minha casa, para daqui sairmos para a savassi.
temos uma dramaturga e três atrizes.
lica irá trabalhar a partir das figuras que está desenvolvendo. sugiro, lica (não sei o que você pensa), experimentar a noiva nesse dia. com o carrinho (ou mesmo com as sacolas), repleto de objetos do universo feminino. eu destacaria os de beleza, mais do que os de casa.
que em momentos específicos, você montasse sua instalação de vaidades, talvez buscar ações dentro desse contexto de formatar um corpo boneca noiva quer casar...
penso que para a nega pode ser interessante trabalhar com a educação da mulher, a partir dos objetos de infância: os brinquedos de cozinha boneca sabe cozinhar...
joyce, não sei o que você está pensando nem por onde está passando a sua pesquisa. eu tinha uma viagem, a partir de uma reportagem que lica trouxe das mães japonesas (as filhas são suas reproduções exatas), de você buscar algo nesse sentido. de criar um duplo com a erica, ou ser boneca dela.
ou ainda você criar um duplo para você: uma boneca joyce com quem você brinca. outra possibilidade, é atacar o estereótipo da mulata brinquedo sexual masculino, exagerando suas qualidades traços de mulata, talvez uma mulher sanduíche onde possamos escrever suas aptidões físicas. podemos, inclusive, usar o registro para intensificar isso. uma câmera que te siga, por exemplo, o tempo todo e vc faça tudo para

eu vou interagir com as instalações das três. não sei se vocês ficarão juntas ou separadas, mas penso que próximas é necessário, para configurar um único acontecimento: a exposição. como se fossem nichos, prateleiras ou vitrines. podemos andar com a exposição pelos quatro cantos da praça e cercanias.
vou trabalhar com escrita em papel de propagandas e com o giz no chão. vou querer que, às vezes, vocês se deitem e eu possa desenhar seus corpos no chão e escrever. o trabalho demandará um tempo. podemos alternar suas ações e minhas escritas no chão. enquanto desenho uma, para escrever a partir dela, as outras continuam em ação. podemos também alternar a isso, uma ação conjunta. os três corpos deitados no chão.
enfim, essas são as questões que estou pensando...
e pra vocês?”
Um email. Minha tentativa de organizar uma proposta ainda muito incipiente. Algo me interessa muito na idéia de uma exposição de bonecas. Bonecas domesticadas pela tv. Expor a boneca das outras mulheres/transeuntes por meio dessas que proponho.
Da experiência concreta, realizada ontem, dia 13 de outubro (não foi por acaso a proximidade com o dia das crianças), muitas coisas interessantes e potentes surgiram. Os corpos das mulheres mortas (o conjunto aumenta a potência disso). Aliás, o conjunto é bem favorável. Noções de invasão. As bonecas da Joyce, elas em série. Ela, mais uma. Reprodução de estereótipos, de corpos manequins de vitrine. Joyce escultura. O corpo martirizado de Erica, apertado pelas roupas pequenas demais e pelo salto alto. Sua felicidade idiota. As possibilidades de exploração de uma espetacularização exacerbada: o fio da navalha. Como quebrar o conforto/comodidade que ela proporciona, ordenando e explicando, tornando aceitáveis aqueles corpos/ações/invasão?
Muitas questões surgiram: como garantir essa ruptura do conforto que as câmeras proporcionam. Exacerbar mais ainda: invasão de paparazzi? A necessidade de estudo desse espaço a ser ocupado. E de outros espaços possíveis. O que queremos do espaço, o que dele é necessário?

Um estudo dos corpos: a hipérbole dos corpos? O corpo cotidiano? Os estados alterados: felicidade/martírio. Desfazimento dos corpos. O estudo das ações e relações: entre nós e de cada uma. Experimentar as variações de tempo e ritmo. As pausas. A relação com a escrita.
Pensar um roteiro de ações? Também ficou a necessidade de maior organização e planejamento. Definir mais claramente os objetivos individuais e as possibilidades de rede.
PROPONHO ESSA AÇÃO COMO UMA ESTRUTURA DE DIÁLOGO COM OS MATERIAIS DAS ATUANTES. NÃO QUERO CORPOS AO MEU SERVIÇO. PROPONHO O ESTABELECIMENTO DE UM DIÁLOGO EM TRABALHO. DE UMA ESCUTA DOS CORPOS E DAS POSSIBILIDADES DE AÇÃO DO OUTRO E COM O OUTRO. A PREPARAÇÃO SE FAZ NECESSÁRIA.
Nina Caetano
sexta-feira, outubro 10, 2008
Vozes errantes: escutas de dores femininas nos prostíbulos da cidade
Para conseguir a escuta de uma mulher pago dez reais, o equivalente a um programa sexual.
Deitado na cama de Rosângela escuto sua história de dor e abandono: a prostituição como única saída para a sobrevivência. Ela diz precisar do dinheiro para criar o filho que sabe da vida da mãe. Escuto um relato de prostituta e provoco a mulher pedindo uma história mais subjetiva. Então escuto um relato que fala da perda da mãe aos sete anos de idade, o sofrimento com a família que a humilhava e o sonho e a possibilidade de fazer uma festa de aniversário trinta anos depois.
Mais ainda assim sinto falta de tempo e de uma escuta e uma fala mais efetivas. Mas escuta pede tempo e relação de confiança e isso é impossível num primeiro contato e numa noite de um lugar onde o movimento é grande e "time is money"...
Fico incomodado e não gosto do procedimento, acho que ele não funciona e o ambiente me agride de alguma forma. Ter que pagar ainda me remte à idéia de tratar o Outro como mercadoria, mesmo sabendo que se trata de um trabalho.
Percebi também que é um lugar onde pouco se fala e muito se faz. Ou então as palavras são sempre vazias e não dão conta da realidade.
É uma atmosfera árida e anti-erótica onde humanidade e respeito passam longe.
Assumo minha incompetência de atuar nesses lugares, talvez isso agrida de alguma forma meus valores. Pretendo escutar as histórias no Teatro mesmo.
O que vivenciei nesses lugares foi uma dor mascarada e negada até mesmo por uma questão de sobrevivência humana. Ou se sofre ou se trabalha, não há saída. A dor moral é grande, mas o "teatro do desejo" é que impera e o importante é gozar num corpo feminino mesmo sabendo que aquela mulher só deseja é o dinheiro.
quinta-feira, outubro 09, 2008
o anti erótico de Clóvis
Era a primeira vez que Clóvis adentrava naquele sub-super mundo. Recheado de homens, gorjetas e dor. "Qual dor?" uma mulher nos perguntou. "A dor Moral?", esta é a pior.
Conseguimos, após resistências de algumas mulheres, uma entrevistada. entramos em seu quarto que cheirava suor e alvejante.
Vestida de calcinha e sutiã, parecia não estar tão à vontade mais, como se estivesse nua, estivéssemos a desnudando.
Sorria com timidez tentando esconder alguns dentes perdidos pelo caminho.Seu nome: Rosângela (talvez um pseudônimo). Nos retratou que tem um filho de 13 anos e ele sabe... falava isto com se fosse uma criminosa, algo que a fizesse se esconder embaixo da terra.
Falou diversas vezes que detestava aquele lugar. Queria embora. Estava presa... presa a quê? R$600,00 que ganhava mensalmente. Presa à memória da mãe que batia com diversos instrumentos em sua cabeça. Presa ao ex-macho que a desprezava, Presa à uma idéia deturpada de família. Presa à capinagem da roça na infância.
Disse que seu último aniversário (tinha 37 anos de idade)foi aos 7 anos , e ela juntou dinheiro, advindo de gorjetas de 10,00 reais por programa, para fazer uma grande festa de aniversário. durou dois dias. Era seu aniversário. Ninguém tiraria isto dela. Até sorriu mostrando a falta dos dentes. Sua voz ficou macia ao falar desta gota de felicidade, feito de minúsculos momentos.
Agradecemos. Fomos embora, e Clóvis, ainda um pouco inerte e abalado me falou do anti erótico, daquilo que finge ser, da imagem das putas tristes disfarçadas com gliter, batom, e preversidade.
terça-feira, outubro 07, 2008
Qual esse corpo?

A trajetória é longa entre o desejo de uma ação e seu sucesso. Derrida associa o conceito de performatividade à sua relação com o sucesso da ação. Logo, um teatro performativo deve não só agir, mas também não fracassar no seu intento.
Cigana. Pomba gira. Mulher livre, voraz realizadora dos seus desejos. Como ação que se propõe não representacional: buscar esse estado em mim e sair pronta para fazer o que eu quisesse. O que eu quero e o que ela quer? Não representar. Usar os elementos: preto e vermelho, colares, anéis, taça e champagne nas mãos. Sair descalça.
Prontifiquei-me a me colocar nessa ação, experimento proposto por Idelino. Deveria percorrer a N. Sra. do Carmo e, depois, seguindo o trajeto que quisesse, chegar ao Shopping Cidade, onde eu deveria entrar. Devo dizer que não sou atriz. Sou dramaturga.
Lá fui eu com esse corpo de cigana: champagne na mão. Não foi fácil bancar essa mulher pelas ruas vizinhas à minha casa. Resolvi explorar algumas ações/relações com os espaços pelos quais passava. Mas o espírito era de coelho e meu corpo exposto me dava medo. Passei por uma vitrine cheia de sapatos de salto. Um vermelho me chamou a atenção. Do lado de fora, comecei a “experimentá-lo” no meu pé até assumir esse andar. Desci a rua calçando o meu salto descalço.
Alguns poucos momentos me senti sincera: na loja em que a moça me deixou experimentar um spray de cheiro de morango e saí dali tão perfumada. No vento que sobe a grade levantando minha saia.
As vitrines de salto alto me davam uma motivação: a dramaturga adentrando esse corpo de atriz (?) atuante. Colocava o corpo de outras mulheres dentro do meu. Mesmo assim, poucos momentos de sinceridade. Resolvi embarcar para o centro. 9106. Tomei o ônibus e meus companheiros – Lica e Idelino – ficaram para trás. Conforme o combinado, rumei para o Shopping Cidade. Mas antes, passei por outras lojas. C&A: entrei na loja portando minha taça de champagne. As bijuterias logo me atraíram. Grandes pulseiras de plástico. Vermelhas. Pretas. Brancas. Colares de contas ou de formas plastificadas coloridas. Experimentei vários. Experimentei lenços.
Rumo ao Shopping Cidade. Respiro fundo e entro. Logo um homem de preto vem atrás de mim. É proibido entrar no shopping descalça. Norma interna. Quero ver a norma. Aquilo atrapalha o homem de preto. Eles se comunicam com seus aparelhos. Uma vitrine de rosas vermelhas me atrai. Começo a passear no shopping enquanto aguardo a norma. Sorvete de casquinha. A norma não vem, mas vem o tenente da polícia militar. Chefe da segurança. Sairei assim que me mostrarem a norma. Até lá, me permitirei passear descalça, obrigada. Por mais inconveniente que a minha conduta possa parecer. Ou minha roupa de cigana puta inadequada. O bom é que em tempos de exposição de bonecas filés melancias samambaias na TV fica difícil considerar qualquer vestimenta imoral. Mais imorais são a minha liberdade absoluta e minha consciência dela. Meu corpo agora encontra sua sinceridade e quer desfilar nessa vitrine onde outros corpos se enquadram. Mesmo que meus pés descalços não caibam na norma invisível e que homens de preto me sigam.
Nina Caetano
domingo, outubro 05, 2008
DIARIO DE UMA ESPERA SILENCIOSA.
Aqui se inicia um relato de uma espera.
19:00hs. Estou aqui te esperando. Visto branco e estou sem sapatos.
19:15hs. Erica pega comigo os anuncios do procedimento e vai tentar buscar vozes femininas para uma escuta silenciosa. Hoje vou pedir permissao para gravar os relatos.
19:30hs. Continuo sozinho aqui. Eu espero. Acho que vou ler um pequeno livro sobre pomba gira que o Idelino me emprestou.....
20:00hs. Muito sozinho aqui. Espero. Talvez hoje nao escutarei nada. Pego um livro da Adelia Prado para ler onde uma mulher de meia idade fala de suas crises existenciais. Sera uma forma de escuta? Vou escutar Felipa essa noite.
20:15hs. Nada, nada e nada. Escuto somente os sons da avenida movimentada. Agora escuto mulheres rindo e contando fatos estranhos. Talvez sofrer esteja fora de moda.
20:25hs. Saulo aparece e pede para ser escutado. Claro que sim. Homem tambem tem mulher nas entranhas.
20:30hs. Saulo falou pouco. Tentou falar...falou? Sera que a Lica vem se confessar?
20:40hs. A Lica vai falar agora.......
21:20hs. Estou atravessado pela fala de Lica. Uma escuta preciosa aconteceu. Lica toca fundo nos sentimentos e faz musica. A mulher nao tem medo de tocar em todas as teclas do piano.
21:21hs. Erica traz uma mulher para falar, foi achada no Maleta. Escuto. Muita dor pede poucas palavras ou melhor, elas faltam e nao conseguem dar conta do real. Fala, mulher. Perfumo os pulsos dela e afirmo que a dor perfuma a vida.
21:27hs. Fim do trabalho. Erica me aperta e conforta. Foi bom escutar essas pessoas. Saulo traz o homem para a mulher que habita esse procedimento. A espera feminina. A espera do feminino.
terça-feira, setembro 30, 2008
setembro das flores

Com a abertura dos trabalhos de investigação ocorridos durante a semana, ou seja, no dia-a-dia da experimentação, da investigação em ação de cada um de nós, conseguimos, parece-me, atingir o caráter processual inerente à pesquisa que estamos nos propondo a realizar. Falo dos trabalhos públicos que ocorreram nos dias 08, 15, 22 e 29.
Nos dias 15 e 29, realizamos, eu e Lica, mais algumas investigações em torno do experimento que intitulamos cidade das mortas. No dia 15, já registrado em relato anterior, eu e lica nos encontramos mais cedo na casa dela, de onde saímos por volta das cinco e meia da tarde. Como já havíamos experimentado dias à tardinha, início da noite e gostado das possibilidades, optamos por começar o trabalho mais cedo do que o marcado para o encontro dos obscênicos. Nesse dia, novamente trabalhamos na praça da estação e na praça sete. Na praça da estação comecei a filmar a lica, ação logo complementada por Fernando. Também não demorou muito e apareceu a guarda municipal. Evento, tem que ter autorização. Como tem que ter autorização a palavra escrita dano ao patrimônio público pichação em giz. A palavra escrita, o registro, são marcas inegáveis de uma subversão da ordem. São marcas do perigo.
Na praça sete a escrita sujeita ao giz. Aqui, o chão é liso e possível. Praça reformada para descentralizar o centro, esse olho do furacão. Aqui, o fluxo de passantes nos engole e esconde. O centro da cidade é um circo e nele faremos o círculo, percorrendo todos os monumentos dessa praça para terminar no monumento MacDonald´s, com seu imenso M. mulher.
Quem é essa mulher? Não é possível explicar, é necessário construir.
No âmbito desse trabalho, a minha questão principal se relaciona com a prática de dramaturgia que tenho proposto. Dramaturgia do instante. Coincidindo com a investigação dessa escrita no espaço da ação, vários foram os encontros felizes ocorridos nesse mês das flores e tempestades de granizos: as discussões no projeto laboratório acerca do conceito de intervenção urbana, a presença marcante de Antônio Araújo, a tese de José da Costa sobre as escrituras cênico-dramatúrgicas conjugadas; que acabaram por me colocar diversas questões em relação a essa pesquisa: da relação com o espectador/transeunte, das possíveis formas de inscrição textual, do lugar do “dramaturgo”, do texto como elemento material e da dramaturgia como escritura/leitura. E ainda: a mim caberá o todo? Tais questões apareceram mais fortes após a experiência do dia 29.
Savassi. Dia 29 de setembro. Dessa vez, saímos do Sion. Lica propôs experimentar sonoridades e corporalidades animais. A proposta hoje era percorrer as lojas, vitrines. Interagir com o ambiente consumo. Sempre que possível – o chão ali não

Mas não nos apressemos. Percorramos o percurso. Avenida Nossa Senhora do Carmo. Os carros em alta velocidade e os pedestres perplexos. Aqui o chão é liso. Bêbados nos tiram a concentração. Esse corpo mulher sacolas atravessa a avenida. Olha ela na passarela.
Esse corpo mulher sacolas perambula pelas lojas do Pátio Savassi. Gravar não pode. Só o celular democrático de uso geral. Todo mundo tem câmera Bluetooth mp3. as caras nas câmeras redes de TV. A câmera caracteriza normaliza o acontecido. Este se torna evento. Teatro arte propaganda marketing novela das oito. Filme. No mundo do mercado o mercado explica tudo? É necessário criar o atrito. O estranhamento. Essa mulher produzirá sonoridades corporalidades animais.
Por que você está vestida assim? E você? Por que a prancha escova progressiva inteligente jeans da moda o roxo bata pode. Por que o sexo forçado marido namorado um tapinha não dói. Homem faz sexo mulher faz amor lipoaspiração drenagem linfática. Tintura. Depilação epilação hidratação cauterização ballayage plástica botox silicone. Não é possível explicar, desculpe o transtorno. Estamos trabalhando para você.
Descemos a rua em atrito com as lojas que encontramos pelo caminho. Drogaria Araújo. A mulher super vaca maravilha rebola reboa seu sino nos corredores vidros prateleiras produtos. A ação é sutil. O som na drogaria. A pose em frente às lojas da Rede. Em frente à Travessa, o diálogo com a estátua da mulher escritora. A prateleira de bonecas da loja de brinquedos. Aqui, as escritas se multiplicam, geradas pelo atrito contato com esses mundos. Materiais. A prateleira rosa. O banquinho branco em frente aos contos de fadas da melissa. A estátua escritora e a boneca de papel da propaganda de desodorante.
Mulher. Uma obra em construção.
Quem é a obra de quem?
Filé. Delícia. Gostosa. Carne de primeira. Gatinha. Cachorra. Cadela. Vaca jaca galinha piranha. Mulher melancia. Mulher da vida. Mulher da zona. Mulher da comédia. Mulher à toa. Mulher. A esposa em relação ao marido. Moça que atingiu a puberdade. Samy. 18 aninhos. Morena gostosa. Safada, sapeca como você gosta. 100% completa. Sexo anal total. 69 gostoso. Foto original sem retoque. Gosto de beijar. Amar. Cuidar. Transar. Mesmo sem vontade. Esquecer. Perdoar. Compreender. Sujeitar. Sacrificar. Esquecer. Esquecer. Embalar. Adestrar. Ensinar. Mesmo sem vontade. Educar. Amamentar. Brincar. Parir. Amar. Limpar. Passar. Jogar no rio. Na privada. Na esquina. Na esquina.
Desculpe o transtorno estamos trabalhando para você. Uma obra em construção. Barbies. Pollys. Princess all globe. Bonecas domesticadas pela TV. Hidratantes. Desodorantes. Perfex. Batom. Antiaderente. Drenagem linfática Jet bronze endermologia com arte é diet light in out enterrada menina de 14 anos encontrada morta e estuprada. Metida. Fodida. Arregaçada. Como você gosta.
Cerveja. Boa. Gostosa. Gelada.
Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne.
Nina Caetano
terça-feira, setembro 23, 2008
SOBRE DOIS PROCEDIMENTOS DE SETEMBRO
Logo depois chega Didi, quase nu, vagando perdido em meio à multidão que atravessa a praça a noite. Logo percebo os olhares incomodados das pessoas. Didi vai até um contorno de uma mulher morta e se deita ali, mas configura um novo espaço: está de óculos escuros e toma sol na noite da praça. Mais confusão e seu corpo desnudo e obsceno cria um acontecimento no centro da cidade. Um procedimento se alimenta do outro, o problematiza ou o desterritorializa.
Há gente que pára, gente que ri e gente que começa a xingar e reclamar dessa gente que "corrompe" as ruas de Belo Horizonte. Sou testemunha de um trabalho de alto risco e muita exposição. Realmente chego a ficar alterado e com as mãos frias.....
E logo depois vem atravessando a Afonso Pena uma mulher "absurda" de tão estranha, carnavalesca, objetada de coisas de casa e causando muita curiosidade entre os transeuntes. É Lica e sua caricatura dessa mulher domesticada que tem seu corpo violentado pelas boas maneiras de uma mulher culturalizada. Nina vem sempre junto e assim em "colaboração" elas rabiscam o corpo concreto da cidade e param o fluxo nas ruas.
Lica tem um trabalho mais teatral, ela parte de uma constatação do cotidiano real e vai para uma tentativa de ficcionalização dessa mulher. Já Didi tem um procedimento mais "fronteiriço": propõe um jogo ficcional para um outro interlocutor que recebe esse jogo como algo na ordem do Real. Marcelo Rocco traduziu bem esse trabalho: Didi parte do efeito do Real para atingir o Real.
Enquanto no trabalho de Lica e Nina percebi a questão do espaço e como cada lugar altera a potência do procedimento, no caso de Didi apontei a questão do LIMITE DENTRO DE UMA PROPOSTA ARTÍSTICA. Para o Didi fiz a seguinte provocação : até onde começa e até onde termina o jogo que você propõe ao outro nessa sua caminhada pela cidade? Você tem controle e consciência do jogo perigoso que você cria o tempo todo? O que você pesquisa nesse procedimento? O que você deseja pesquisar: estratégias de jogar mais lucidamente essa proposta ou como se colocar mais em risco? O fato é que se trata de um jogo tênue e que é necessário e salutar saber a hora de começar, continuar e parar.
Presenciar dois pastores pregando e exorcizando a pomba gira do corpo de Didi, que cantava e se divertia com tudo, ao mesmo tempo que jogava com esses homens, foi uma experiência maravilhosa e a constatação desse trabalho que coloca tudo em deslizamento: onde ficção e onde realidade? Fiquei muito impresionado com o que vi e vivi.
Foi mais uma noite de perguntas e muitas possibilidades de investigação.
Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008. Teatro Marília. Porão. Procedimento coletivo envolvendo as pesquisas de Marcelo, Didi e Saulo. O universo da prostituição e do travesti. Seres da margem e da beira ? Várias questões se apontam.
Presenciamos momentos de alta exposição dos atuantes, até onde o limite e o constrangimento que vivenciamos?
Em meio a objetos espalhados pelo chão e a uma atmosfera de sexo, vertigem e agressividade, os performers Didi e Saulo se experimentam e nos experimentam. Beiram vários lugares jogando-nos na fronteira desse experimento: tempo real se mistura com tempo ficcional , ligações do celular ao vivo para profissionais do sexo causam interesse e até incômodo, enfim são muitos lugares sem definição borrando qualquer possibilidade de identidade.
Fico exausto com tanta perversidade, dor e exagero. Meus limites foram testados, mas consegui chegar ao fim. Momentos de nudez, cenas grotescas e lapsos e vazios invadindo o espaço o tempo todo.
Vejo o diretor Marcelo criando provocações para os atuantes e colocando músicas diferentes que sugeriam novas atmosferas de vivência. Houve um momento muito bonito: se escuta a Ave Maria e Didi de noiva está sentado solitariamente sobre uma caixa. O contraste cria uma imagem forte e traz sensações de abandono.
Saulo traz os belos textos de Caio Fernando Abreu em alguns momentos e Didi narra fatos e histórias de dor e violência. Num dado momento Didi fala de si mesmo e conta da relação com o pai e a negação deste diante da homossexualidade do filho. Parece-me que essa narrativa surge a partir do contato com uma gravata que trouxe a presença do pai. Didi então afirma : “Eu fico em silêncio e respiro”. Foi um momento tocante, de poucas palavras , mas onde se percebe que o sujeito ESTÁ ali.
Acontecem momentos em que os atuantes estão perdidos, fragilizados e até desesperados, tentando fazer algo, encontrar um sentido, mas estão exaustos, e isso é tão bonito de ver e partilhar.....
O trabalho falava dos CLASSIFICADOS, mas como , se também classificava a tudo e a todos? E a questão para os pesquisadores, como se apresenta? Como falar desse universo e deslocá-lo de um lugar já conhecido? Como dar um novo olhar? Se fala de qual é o valor de cada um no mercado da vida, quanto valem esses que se dizem pesquisadores de arte,ou melhor, meros pedaços de gente como toda gente?
Foram nas faltas, no caos, no desamparo artístico, quando não se tinha nada a fazer e a dizer, que tudo foi feito, dito e vivenciado.
Classificados
Didi se oferece para trabalhar, pede dicas de comportamento e procedimentos em agências para prostiuição.
Flerta com os garotos de programa, depois transforma o risco em piada, saindo do lugar de investigação para o trote. Desvia o olhar para o lugar cômico. depois Saulo, começa a narrar várias desventuras, propondo um misto, juntamente com o Didi, sobre histórias inventadas e histórias reais de suas vida particulares. didi vê uma gravata, narra sua infãncia e o desejo de seu pai em vê-lo casado, masculinizado, engravatado. Saulo usa suas narrativas de Caio Fernando Abreu, ambos falam de seus sonhos, em uma miscelânia de ficção, tempo real e vidas atorais: o olhar de casamento para o travesti, ter filhos, o cotidiano da rola, "o mundo te engole" - diz Didi abrindo e fechando o ânus. Ambos ousam dançar, proponho musicalidade para envolver, em certos momentos, jogos dramáticos,os atores interagem pouco com a música, vestem e desvestem roupas, constróem performances mescladas de drag queen e travestis. Saulo mantém uma voz forte em uma mistura de masculinidade e homo eretus. Dançam, desfilam para o público. As vezes são agressivos, como uma arma apontada no cu, na boca.
Tudo é normal: rola, cu, dinheiro, rola, cu, dinheiro, o círculo diário do programa. Didi desvia o caminho para um desfile de moda.
Percebemos cansaço nos atores, esvaziamento, "o que faço agora?" pensam os atores, e propõem mais e mais, se esgotam. Peço para parar.
Na discussão ouvimos opiniões interessantes, sobre o olhar da ligação, como conversar ao vivo com um travesti pelo telefone sem expô-lo ao lugar de produto novamente? como falar da margem sem mantê-la no mesmo lugar? Érica diz que todos nós temos um preço: para alguns pode ser uma pequena soma de dinheiro, para outros um simples Eu te amo!, outros um jantar, etc. como nos colocamos neste lugar? o caos iunstaurado no laboratório pode desviar? etc . e etc.
segunda-feira, setembro 22, 2008
A cidade das mortas: Experimento cênico inacabado.
Alguma hora da noite e estamos na Praça Sete.
Uma mulher caminha carregada de sacolas. Seu corpo objetos. Embalagens plásticas metalizadas produtos de limpeza cosméticos mantimentos eletrodomésticos utensílios do lar higiene pessoal familiar.
Uma outra mulher a segue, nas mãos uma embalagem de creme de cabelo da qual saca seu instrumento. Um giz. A dramaturga vai desenhar e escrever continuamente. Narrativas jornalísticas poéticas científicas dicionarescas inventadas documentais. Escritas do momento.
A mulher objetos caminha. Instala seu corpo no espaço. Nos monumentos. Nas ruas. Destaca a arquitetura. Deita-se no chão.
A dramaturga desenha. A Cidade das Mortas. Seus corpos objetos no calçamento da cidade. Os anúncios das prostitutas de Curitiba devem percorrer esses corpos mortos, desenhos a giz no chão. Também devem estar lá o verbete do Aurélio e o inventário de tarefas inúteis. As manchetes e estatísticas. E os desejos de consumo das mulheres domesticadas pela tv. A dramaturga já começa a criar preferências. Ah, adoraria poder deitá-la no asfalto. Desenhá-la em meio aos carros. Parar o trânsito.
Mulher. O ser humano do sexo feminino capaz de conceber e parir outros seres humanos e que se distingue do homem por essas características. Mulher da vida. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da comédia. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher.
Parir. Limpar. Amamentar. Trocar. Compreender. Amar. Sujeitar. Sacrificar. Lavar. Passar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Perdoar. Aquecer. Embalar. Beijar. Lamber. Chupar. Dar de mamar. Transar. Mesmo sem vontade. Mulheres domesticadas pela tv. Mulheres eletrodomésticas.
A mulher em relação ao marido. Esposa. Rolinhos pregadores talhares bicos de mamadeira chupeta fralda peneira vassoura escova botão linha tampa bombril perfex avental sutiã calcinha meias batons potes hidratantes depiladores filhos planos de saúde férias marido. Feia. Gorda. Velha. Usada. Jogada fora.
A gente pensa que é mulher e é só fêmea. Bichinho de estimação. Gatinha. Cachorra. Cadela. Vaca. Galinha. Piranha. Filé. Gostosa. Gostosa. Samy. 20 anos. Morena mestiça. Safada e sapeca. 100% completa. Sexo anal total. Gosto do que faço.
Corpo receita sexo beleza corte cabelo cor unha esmalte batom inverno verão diet light in out Enterrada a jovem de 14 anos encontrada estuprada e morta.
Moda revista filhos baby sitter babá empregada carro seguro colégio celulite flacidez plástica estética beleza jet bronze limpeza de pele completa eletrólise depilação de última geração massagem redutora massagem relaxante drenagem linfática vácuo com endermologia e arte.
Uma mulher é feita de arestas, becos, buracos. De sangue, veias, garganta. Uma mulher é feita de voz, pernas, pensamento e útero.
A mulher objetos atravessa as avenidas, avança para a Praça da Estação. Caminha entre os pontos de ônibus e deita-se na passagem dos pedestres.
A dramaturga tem especial afeição pelas passagens de pedestre. O chão é liso e inclinado. O espaço é razoável e atrapalhamos o trânsito.
sábado, setembro 20, 2008
15 de setembro: Louca por oração
Sexta feira 02 de setembro– Transgressão política
Foi o procedimento de Marcelo Rocco e a proposta era sair de travesti pelas ruas como candidata à vereadora, ou seja, prometendo legalizar a prostituição. Começamos às 19 horas. Eu estava maquiado, cabelos soltos, um vestido branco que aderiu ao meu corpo, um sobretudo preto e uma bota preta. Estava impecável! Dessa vez, as pessoas não tiveram muitas dúvidas a respeito de minha feminilidade, pois todos, de modo geral, acreditavam que eu era uma mulher e prostituta. Começamos nossa peregrinação saindo do teatro Marília. As pessoas olhavam muito e começamos a entrevista: “Você concorda com a legalização da prostituição? Você acha que legalizando, os travestis, as mulheres terão mais proteção, com direito às férias, carteira assinada, etc? E o que você acha do SUS dá assistência para os transexuais quanto às cirurgias plásticas de colocar silicone?”. Eu e Marcelo percebemos que a maioria dos homens eram mais favoráveis do que as mulheres sobre a questão da legalização. Muitas foram as respostas, mas a que mais me impressionou foi a de uma casal que nos disse que se houver a legalização muitas crianças irão se prostituírem. Perguntamos a um catador de latinhas e ele disse que aceita a puta, mas não as drogas. Entramos numa loja Evangélica e vendedora disse que na Bíblia o homem foi criado para ficar com mulher e vice-versa, constituir uma família, etc. Ela não concorda em legalizar, mas é uma opção de vida dessas pessoas, pois cada um tem o livre arbítrio. Enfim, o mais interessante disso tudo foi que quando eu ia lançando as minhas propostas como candidata, alguns homens e mulheres me olhavam de cima a baixo, sobretudo os homens, mas logo em seguida que eu dizia que era travesti os olhares mudavam e o preconceito se expandia...
sexta-feira, setembro 19, 2008

Sinto-me revirada por dentro. Três partos são filmados. Um uma violência. Sinceramente, é uma violência. Três cesáreas e um parto normal. Meu ventre chega a doer. Doer. Reviro-me no sofá. É triste vê-las sair do hospital cansadas, felizes e sem a menor idéia do que as espera. Os pais tensos, sem dinheiro. Casas apertadas. As irmãs mais novas seguem o mesmo caminho e treinam sem cessar ao longo do dia: imitam os cuidos com as bonecas. O gesto se prolifera. A função se apresenta e se representa na brincadeira. A imagem se estagna, ao longo de anos ela é repetida às meninas mais novas e por estas assimiladas. O que fazer? Quando percebo no procedimento mesmo da ‘brincadeira de casinha’ os corpos são dóceis aos objetos, nos os acatamos com nossos gestos. Claro, somos mulheres conscientes e em exercício de nossa feminilidade e mesmo assim somos dóceis.
Ozana já nos falara dessa realidade quando nos encontramos no início do ano. E hoje sinto o mesmo engasgo, ou hoje sinto mais? Sim. Eu sinto mais. Isto é mais real. Percebo mais claramente o que é programado em mim e tendo lidar com isso todos os dias. Este é meu exercício performático: escapar do ‘mercado da buceta’. Reconhecendo diariamente os meus gestos repetitivos, minhas ações programadas, meus momentos de ausência, de displicência diante de mim e da minha feminilidade. Puxo o períneo respiro fundo e sigo em frente. Sempre adiante.
.SARAVÁ.
domingo, setembro 14, 2008
Um ser no Asfalto
Foi o dia do meu procedimento que ocorreu na praça sete, na avenida Afonso Pena. As 18h 40 foi para o camarim do Teatro Marília e comecei a me vestir: uma camisola preta curta, batom borrado na boca, óculos escuro, pés descalços, algumas gazes cobrindo o corpo. Estava tudo preparado, bastava a avenida para saudar os meus passos! Sai do Marília e foi caminhando em direção à praça sete. Ao passar do lado do Palácio das Artes entrei na fonte que ficava à sua frente e comecei a dançar! Dançava sobre uma chuva de cores, reflexo das iluminárias afixadas no chão dessa fonte. Parecia uma criança!E eu saltitava, corria, e ao mesmo tempo me policiava com medo de ser pego por alguns policiais. Foi uma imagem bonita de um ser homem-mulher, meio puta, meio louca ( as pessoas não conseguiam denominar essa figura andrógena ) versus a classe elitista. Uma interferência perfeita,que feria toda a estrutura arquitetônica do grande palacete de artes. Em seguida, segui em frente pela avenida e parei em uma esquina. Escutei vozes de muitas pessoas orando. Olhei para o alto de um prédio e de lá surgia os murmurinhos. Ajoelhei na calçada e olhei insistentemente para o alto, batendo palmas e seguindo o culto evangélico. Os transeuntes passavam e me olhavam estranhamente e na entendiam nada! Até que um pivete sentou–se comigo na calçada e conversou comigo, perguntando onde eu morava. Eu respondi: em frente ao hospital João XXIII. Ele tirou do bolso muitas moedas de vários valores e me ofereceu uma única moeda de 0,25 centavos. Ele disse: Você quer essa moeda? Dá pra comprar uma bala, um docinho. Eu agradeci e perguntei a ele onde ele morava. Ele me respondeu que há alguns dias atrás ele morava na cadeia. Nesse instante eu me arrepiei por inteiro! Tentando disfarçar de maneira mais harmoniosa e o mais natural possível e perguntei: Cê tem um cigarro aí? Ele respondeu que não e me contou que estava preso porque matou seu irmão. Eu perguntei: Ele era chato? Ele me respondeu que era insuportável! Eu não entrei em detalhes e falei que precisava dar uma andada! Despedimos um do outro e fui seguindo... o dono da banca de jornal me deu uma bala e um pirulito quando eu passava! Agradeci e finalmente cheguei na praça sete. Parei em frente a um bar de música ao vivo e fiquei dançando. Vários rippies ficaram a me vigiar e um deles me parou e disse: sabe o que eu mais gostei em você? A sua loucura... esse seu jeito de dançar feito bombinha livre... esses pés descalços, a sua liberdade é ótima! Você é loucona! Eu gosto disso! Ele me convidou para bailar e eu aceitei. Nesse momento estava tocando a música: Bem - te – vi! Dançamos muito e os amigos dele ficavam empolgados! Esse rippie falou que era boliviano e que não encontrava sentido de vida aqui em BH, mas que naquele instante estava começando a aparecer uma luz de estrela em sua vida. Ele disse: Você é a mais linda estrela de Belo Horizonte! As estrelas merecem ser tratadas de forma especial e por isso vou te dar um anel. Ele rapidamente fez um anel e o colocou nas minhas mãos, seguido de muitos beijos sutis no meu dedo. Dançamos mais um pouco e eu pedi para que o amigo dele ( um hippie de mais idade ) segurasse meu pirulito enquanto dançava! Comecei a cansar e o hippie me pediu um beijo e eu negava. Até que chegou um momento que um outro amigo desse hippie boliviano puxou minha camisola na tentativa de ver o meu peito e ele disse que eu era travesti, veado! Eu rapidamente me mostrei aborrecida com a situação e sentei no chão. O boliviano foi se afastando de mim, enquanto o velho hippie dava esporro no outro hippie, dizendo: “ela pode ser o que quer, ela é livre! Tenha mais respeito seu escroto de merda! Sai daqui sua merda!” O velho começou a dar bordoadas nos braços do outro hippie até ele sair. Depois ele me disse para eu não me importar com esses ratos! Eu disse que queria ir embora e ele me pediu em namoro e me convidou para a gente namorar em frente à Igreja situada na rua Espírito Santo. Eu disse que não podia e que estava cansada! Ele delicadamente me deu um beijo na testa e disse até qualquer dia! E eu fui com minha loucura a transitar por entre lixos e gente, entre olhares repressores e olhares de piedade.
sábado, setembro 13, 2008
O copo de champagne sempre deve estar cheio
Os materiais possíveis dos colaboradores estão tentando unificar, ou pelo menos dialogar mais a partir da idéia do outro.
Falamos também sobre os seminários e possiveis convites de grupos alheios ao Obscena para proporem dinâmicas, ou algo teórico-prático para o público que será convidado.
Como nossa agenda está bem lotada, optamos por acrescentar os vídeos em dias extras do encontro do Obscena.
A Érica pontuou uma questão que também me preocupa: como manter o público para o debate, já que agora as mostras são simultâneas? como fazê-los não se dispersarem, como manter o debate neste certo caos de mostra e ver a percepção do espectador, já que um ponto forte da pesquisa é construir junto a ele e com ele?
Ao observarmos a mostra dos pesquisadores também seremos públicos, e poderemos pensar em diversas colocações diante das propostas que aparecem aos nossos olhos.
Vi a proposta do Idelino corporificado na Lica: Compreendi melhor a sutileza de dois objetos, na verdade a ausência de um, pois Lica estava descalça, e a existência de outro - a taça de champagne em suas mãos.
A sutil decadência de uma mulher de vermelho, desvairada, caminhando pelas ruas ao redor da praça da Liberdade.
Lica fez juz ao nome da praça em sua total liberdade de sentidos desconectada do ser social. do corpo cotidiano do trabalhador discreto e cansado. O vermelho mostrava a sensualidade de uma mulher no cio, a procura, quem sabe, de alguém para manter seu copo cheio, um homem viril para uma mulher audáz, sonora em suas risadas.
Percebo que a ausência de um objeto- os sapatos e a super exposição do outro- o copo, alteravam a rotina daquele lugar, corporificando o desejo vermelho da mulher da boca vermelha, sendo observada por atentos olhos masculinos, presunçosos na possibilidade de ter algo, cujo pagamento talvez seria um pouco de alcóol..
quinta-feira, setembro 04, 2008
calcinhas e doenças
Saída. Malinha, roupa e corpo. Caminhada até esquina. Troca como entrega. Vestir e desvestir em público. Alongar os músculos. Alertar os olhos. Caminhada. A rua pode atacar a gente. A gente pode acatar a rua. A gente pega ônibus, olha as horas, dobra esquina, reclama no trânsito, faz ocorrência, atravessa na linha, sobe degrau, circula a praça, trabalha, vai pra casa. A gente faz tudo sem saber por quê.
A gente não gosta, não conhece e não sabe novidade. A gente vai.
Sobre a mostra, precisamos de mais organização, eu acho.
Seria o mesmo sinal. Quero vender doença venérea (atravessado por Saulo). Na calcinha, na camisinha, na seringa. Quero uma calcinha de cada mulher obscena; uma que não volte mais. Rumo tomado também a partir deste diálogo com um transeunte:
É sobre doença? (espichei a calcinha)
Mas não tem nada escrito! (reaproximei a calcinha. Olhou de perto)
Ah, é sobre doença!
E a mulher, onde está? O feminino vende. O feminino atrai. Homem com elementos femininos vende doença venérea com mais facilidade. Quero realizar. Talvez em outro lugar que não Belo. O tempo que não me deixa.
Tenho sífilis, cancro mole, candidíase, herpes simples genital, gonorréa, condiloma acuminado / HPV, Linfogranuloma venéreo, granuloma inguinal, pediculose do púbis, hepatite b, AIDS. Quem quiser, é só descer do carro e pegar. Tem
terça-feira, setembro 02, 2008
SEJA REALISTA: LUTE PELO IMPOSSÍVEL
O que me levou a este lugar? Talvez estava perdido após ter saído da vitrine, algo que começava a delinear, uma pesquisa de profundo interesse que se encerrou na frente do Marília.
Andamos pelas ruas entrevistando homens, mulheres, casais, idosos. Queríamos diversificar a composição da enquete.
As questões que se levantaram foram determinadas por inúmeras respostas, ouvimos:
"-A prostituição, o adultério, salvaram meu casamento. disse um senhor
-O homem foi feito para a mulher, a mulher foi feita para a submissão do homem. disse uma senhora
-O governo domina o corpo da mulher, decide por ela. falou uma gerente de compras
-O travesti é o setor da prostituição mais discriminado - disse uma jovem
- Não há problema em se prostituir, mas não na rua. Disse um segurança"
muitas outras falas.
Percebemos que a imagem é importante neste lugar, em que podemos fazer, mas não nos mostrar à exposição pública, a legalização da prostiuição, o direito à carteira assinada, à férias, à aposentadoria de uma profissão milenar, que sustenta grande parte da economia no Brasil, não pode ser feita, mas pode se continuar com ela, às obscuras, gerando lucro fortíssimo no corpo quase escravo, explorado nesta grande sede urbana, em que a movimentação é maior que as do Shopping Cidade, em que os clientes brigam por uma liquidação de carne nova, em que estes mesmos comem os sonhos de meninas do interior (na maioria delas), e se alimentam deste corpo forte, mas cheio de arranhões do tempo. Um homem entrevistado disse que, caso a prosituição venha a ser legalizada as crianças irão se prostituir!! mais??
Outros acreditam que o salário das prostitutas irão diminuir... Pode ser...
Percebemos que os homens eram mais favoráveis à legalização que as mulheres, talvez porque são os que mais usufruem deste serviço...
O moralismo sempre caminhava nas questões munido de argumentos bíblicos: É pecado!
E este aumenta qundo se fala da prostituição do travesti: É pecado maior ainda! Pois é uma humilhação um homem deitar com outro homem...Um homem trajado de mulher, contra a natureza: o sexo anal é pecado!! isto tá na Bíblia!!!
Um catador de latinhas: "Prostituição sim, dorgas não!" Panfletário, não!?
Isto seguiu a noite toda... Duas educadoras expuseram que o aborto pode ser evitado com camisinha.. a prostiuição aumenta o índice de traição... será que existe alguma prostituta que obriga a ereção no homem? Invade sua casa à procura de sexo pago?
Percebo o efeito placebo de se continuar na obscuridade, sem regularização, sem quantificar e assumirmos que somos hipócritas, aceitando a venda legal dos corpos, pois irá continuar querendo ou não ...
Vestida de gase e vento
Didi resolve dançar no Palácio das Artes, em frente à fonte. Aquela visão parecia um rasgo na elite, um arranhão naquele lugar erudito. As pessoas olhavam e riam. Um militar ia fazer algo, mas riu. Absurdo para ele, e todos observaram a dança na fonte. Didi enfrentou, ao meu ver, uma linguagem social determinada, a linguagem da elite, rompeu com este lugar, misturou dois mundos, ainda , é claro , do lado de fora, uma pesquisa interessante para dar continuidade no próximo mês.
Didi vai à praça sete, vestida de gase, preto e vento. os hippies desejam a louca livre. Música ao vivo: Garota de Ipanema. Didi dança a música acreditando ser feita para ela. e Didi gira, deixando um embalo, uma valsa. Um hippie a tira para dançar, oferece um anel, e a encosta em seu corpo em um romantismo exacerbado. Tenta beijá-la, é repelido. Confessa coisas de si, mais coisas intimas que Didi tem nas mãos, nos ouvidos. Esta identificação que ocasiona onde passa, relaciona-se com sua loucura, com seu corpo no espaço, a igualdade aproxima as pessoas, cria comunhão. Didi vai embora, deixando a loucura do lado de fora do Marília.