agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clarissa Alcantara, Clóvis Domingos, Davi Pantuzza, Erica Vilhena, Frederico Caiafa, Joyce Malta, Leandro Acácio, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano e Saulo Salomão, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra dos artistas plásticos Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena realiza seu projeto MULTIPLICIDADES OBSCÊNICAS: relações coletivas no corpo das univer-cidades, em parceria com o CCUFMG, dentro do projeto Cena Aberta. Como parte da residência artística, mostras processuais de compartilhamento da pesquisa são realizadas ao longo do ano. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 14 às 18 horas, na sala 03 do CCUFMG e, nesses dias, são realizados tanto experimentos práticos de invasão no corpo da cidade, quanto discussões teóricas e práticas corporais internas ao agrupamento.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

Sábado, Março 17, 2012

O artista e a cidade

Foto de Thiago Franco- Ação/invasão obscênica no Dia Internacional da Mulher

"Não temos nenhuma dificuldade em admitir que a cidade, no sentido mais amplo do termo, possa ser considerada um bem de consumo, ou melhor, até mesmo um imenso e global sistema de informações destinado a determinar o máximo consumo de informações. Mas a única possibilidade de conservar ou restituir ao indivíduo uma certa liberdade de escolha e de decisão e, portanto, de liberdade e disponibilidade para engajamentos decisivos, inclusive no campo político, é colocá-lo em condições de não consumir as coisas que gostariam de fazêlo consumir ou de consumi-las de maneira diferente da que gostariam que as consumisse, de consumi-las fora daquele tipo de consumo imediato, indiscriminado e total que é prescrito, como sistema de poder, pela sociedade de consumo.

Trata-se, em suma, de conservar ou restituir ao indivíduo a capacidade de interpretar e utilizar o ambiente urbano de maneira diferente das prescrições implícitas no projeto de quem o determinou; enfim, de dar-lhe a possibilidade de não assimilar, mas de reagir ativamente ao ambiente". (ARGAN, 1998, p. 219)

"O artista – integrado ou apocalíptico que seja – não pode deixar de existir no contexto social, na cidade; não pode deixar de viver suas tensões internas. A economia do consumo, a tecnologia industrial, os grandes antagonismos políticos que delas derivam, a disfunção do organismo social, a crise da cidade são realidades que não se pode ignorar e com relação às quais não se pode deixar de tomar – mesmo involuntariamente – uma posição". (ARGAN, 1998, p. 221)

ARGAN, G. C. História da Arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998.



Santa Maria da Mala - Ação obscena no dia 08 de Março

Foto de Thiago Franco


05 de Março de 2012.

Joca Amore,

ainda estou nas ONDAS do Experimenta-Experimenta da Gruta de ontem....momentos de plenitude, sustos e acontecimentos....corpos nômades obscênicos fluindo num mar de cores, formas e sons...Muita vida, muita presença, intensidades até agora aqui momento instante ai, que delícia!!!! Olha a delícia, sinta as delícias que sinto também daqui.

Bom que aceitou participar comigo da ação SANTA MARIA DA MALA. Voltou a imagem das bonequinhas desmembradas no teu trabalho do BABY-DOLLS e acho ótimo tudo isso se re-linkar noutra parceria e criação. Então provocaremos a cidade com malas e pedaços de corpos femininos, um pouco em memória ao crime de mais de 80 anos com a Maria Féa, e também porque infelizmente continuam esses crimes bárbaros contra as mulheres. E a ação no dia 08 de Março, junto à MARCHA MUNDIAL DE MULHERES, vai ser mais uma colaboração nossa. E também vamos jogar com o espaço, a cidade, as placas e corpos proibidos dos outros obscênicos.

Então, só pra lembrar: duas malas, roupas brancas, pedaços de manequim e pensei também em bonecas de plástico, panos branco e preto e jornal do dia.

Faltou mais alguma coisa?
Pensei da gente fazer a ação com muita calma, dando tempo de se formar uma imagem para os passantes.....

Bjos,
Clóvis.


Desenhos de Leandro Acácio após exposição de ideias


07 de Março de 2012-03-17.

oi clovito,

que bom!

muitas ondas ainda por aqui....

obrigada pelo convite, um prazer. as imagens estão em minha cabeça desde a última quinta. hoje separei um jornal: em 3 anos, 454mil mulheres são agredidas

levarei nosso materiais. hoje já saio da gruta com a sua mala achada para caminhar com ela amanhã.

bora lá, pra rua.

um beijo,

Joyce.


13 de Março – depois da ação realizada:

Joyce querida,

fiquei avaliando a nossa ação do dia 08 de Março. Nossa, foram intensidades muito diferentes, né? As coisas foram "esquentando" aos poucos e chegou num acúmulo poderoso e perigoso com a gente (do OBSCENA) correndo feito loucos na frente da Marcha e se jogando no chão e abrindo as malas revelando pedaços de corpos femininos.

Foi uma manifestação cênico-performática muito potente, com uma dimensão plástica também, a tensão dos corpos, o congelar das imagens dando tempo para as pessoas criarem suas leituras. Tudo muito bom...

Legal termos "jogado" com o Leandro (sintomático porque ele inclusive delirou com nossas ideias e desenhou alguns esboços da ação), com as performers ( A Leticia Castilho com a burca, a Lica com a classificação zoológica da mulher; a Luciana Cesário caminhando com aquela costela nas costas), com o espaço, entre nós mesmos. Aconteceram COMPOSIÇÕES OBSCENAS, travestidas, provocativas, invadimos aos poucos a cidade, criamos interrupções, afrontamos lugares como lojas e pontos de ônibus, percebemos os lugares de PASSAGEM e os espaços de CONCENTRAÇÃO. Houve escuta, cuidado e jogo.

Saí enlouquecido da ação, fiquei vigoroso, emocionado, sou também mulher. Tenho observado que a cidade tem se tornado espaço de diferentes manifestações. E mesmo na arte, não se trata de ser moldura ou palco, em nosso trabalho de intervenção, é TERRITÓRIO de conflitos, encontros, dimensão relacional mesmo. Programas de ações que se desprogramam, se de-compõem e provocam acontecimentos.

Em duos, trios e num momento mais coletivizado, atuamos e reconfiguramos ações, criando um mosaico de paisagens que habitaram a cidade naquela tarde do dia 08 de Março. Pura rede de afecções. Eu tremia muito...

E o que você achou do trabalho?

bjos,

Clóvis.

Domingo, Março 11, 2012

Cachorros não sabem blefar. Humanos sabem!

Foto de Marco Aurélio Prates

Cachorros não sabem blefar. Humanos sabem!

Para Saulo Salomão, um ator obsceno.


Assumo: esse texto é um blefe. Eu blefo, tu blefas, eles blefam e todos nós blefamos. Somos humanos. Cachorros não sabem blefar. Que pena! Reconheci minha humana condição de blefador após assistir ao espetáculo da Cia Cinco Cabeças agora no Verão Arte Contemporânea em Belo Horizonte. Saí do teatro repleto de indagações fervilhando em minha cabeça. Eu tenho uma ou “cinco cabeças”?

A sinopse é o seguinte: “Caio sempre olha para seu relógio que insiste em marcar o mesmo horário: 9 e 15. O problema não são as pilhas. Provavelmente está quebrado. Ou então cansou-se. O que seria lastimável para um relógio. Adamastor odeia o nome Caio. Cristina não quer morrer virgem e odeia Caio, seu namorado. Caio, que não é o namorado de Cristina, apresenta-se para as pessoas com o nome de Adamastor, pois sabe que assim são capazes de suportá-lo. Adamastor acredita que tartarugas são perigosíssimas. Certa vez perdeu toda sua fortuna para um jabuti. Verônica nunca sabe se está ou se não está nua. Já perdeu vários empregos por causa disso. Alguns porque estava nua. Outros porque estava vestida. Berenice procura seu cachorro. Ele está sozinho em casa e não sabe abrir pacotes de ração e nem a geladeira. E um detalhe importante: ele não late. De jeito nenhum. Talvez não exista. Não existem cães que não saibam latir. E tartarugas que não saibam blefar. Por isso são excelentes parceiras de pôquer. Já os cachorros não. Cachorros não sabem blefar”. Deu prá entender? Tomara que não...

A cortina se abre e não sei se estou diante do palco ou de uma tela. As primeiras imagens são puro cinema e tenho meu olhar capturado. E todo um traço cinematográfico perpassa a encenação, se apresentando no desenho do espaço, na atuação dos intérpretes, nos movimentos da luz, na dramaturgia “cortada” etc. Há espera, vazio, silêncio e incomunicabilidade, elementos a tensionar tempo, espaço e narrativa.

Um corte: Engraçado, estamos sempre esperando: Godot, God. Good and Happy Days (Beckett) e o toque de um telefone nos trazendo alguma notícia e nos distraindo do absurdo de existir. Estou nu ou vestido agora?

O relógio se cansou e nos transformamos em reféns de um tempo sem minutos e horas. Mas nessa prisão, às vezes risível e angustiante, é que praticamos nosso esporte preferido: blefar. Blefamos, vivemos e aprendemos. Blefar é enganar, confundir e dissimular. E não há maior dissimulação do que a linguagem e a comunicação. A gente quase nunca consegue dizer o que queria, de fato, dizer. Lançamos as palavras, acreditamos na eficiência delas, mas quando essas chegam aos outros, aí já é outra história. Daí tantos desentendimentos e haja blefe! Pedem-nos lógica naquilo que dizemos, pobres de nós! E até aquilo que nos domesticamos a dizer, dependendo de como o subvertemos em algumas ocasiões, pode instaurar o caos, o non-sense e a confusão.

O espetáculo me trouxe isso: blefamos porque somos animais (mas não cachorros) constituídos pela linguagem. Para isso utilizamos códigos, símbolos, palavras, expressões e por aí vai... Cachorros não falam, não mentem e não odeiam Caio porque esse nome pode lhes remeter experiências negativas. Só nós podemos odiar ou amar Caio, Adamastor, Cristina, Berenice, Verônica e qualquer outro nome. Cachorros quando latem podemos ter certeza de que tem algo acontecendo. Já as coisas nos acontecem, a gente fala, inventa, tenta dar nome e sentido, mas nunca chegamos no É das coisas. (Salve Clarice Lispector!). A linguagem blefa. O sentido escapa e como em Ionesco, surge o estranhamento na linguagem cotidiana. O espetáculo brinca com essa Babel que insiste, re-insiste, resiste às classificações e tentativas de ordem e entendimento.

O trabalho conta com a primorosa direção de Byron O’Neill e um conjunto de atores-colaboradores afinados com a proposta desenvolvida. Cachorros não sabem blefar. Que pena! Humanos sabem. Que maravilha! Até porque não há blefe mais interessante do que criar ficções e histórias, mentiras mesmo. Obras artísticas, como o espetáculo da Cia 5 Cabeças, que forçam o pensamento a estrangular as lógicas dos discursos os quais nos habituamos. Do eu hábito ao eu HABITO há uma enorme distância. E esse espetáculo numa excelente e contemporânea linhagem do Teatro do Absurdo, nos coloca essa questão.

Enfim: Cachorros não sabem fazer teatro. Mas os criadores da Cia 5 Cabeças sabem. E fazem. Eles nos presenteiam com um trabalho que anuncia a promessa de mais um jovem grupo teatral a enriquecer a cena mineira.

Clóvis Domingos.

Belo Horizonte, 14 de Fevereiro de 2012.

Corpoalíngua Obscênico e Ondulante

Alice Floripes


03 de Março de 2012. Casa de Passagem. 23 horas e alguma coisa...Perdi a noção de tempo. Primeiro dia de Experimenta na Gruta. "Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim". Giros. Corpoalíngua obscênico porque obscenidade é estar na presença e beijar o Acaso, o Instante, o Momento.

Foi (é) como uma onda que vem e passa. Águas chamam águas que desaguam em corpos que fluem num mar de Acontecimentos. Escrevo encontros, fluxos, ondulamos ondulantes saltitantes desejantes a vida com seus ruídos... Projeções, sonoridades, vozes, corpos nômades, Clarissa chega e me leva para outro canto, são portas que se abrem. Clarissa serpenteia e voa.

Leio: " Seus rostos esvoaçam como borboletas(...) Tudo ondula, tudo dança. Nada se fixa. Tudo é rapidez e triunfo." (AS ONDAS. VIRGINIA WOOLF).

Volta ROL, o eterno retorno? O que acontece? Entontece? Piracema. Juntos subimos a correnteza. Cardume alíngua. Juntos, mas singulares. Obscenos porque plurais, separados, serpenteando sonoridades e disformidades corporais. Serpenteia, Agapito! Ágon apita!!! Apita! Chama ! Corpos andarilhos ondulam e experenciam tempo, espaço e FORÇAS... Tudo é artevidasemprejunatasagorasempreinstantejá!

Ou estamos de vermelho e preto ou de branco como agora? Somos feiticeiros sim. Faz-se comida para o alimento desse agrupamento obsceno e nômade. Corpos são casas de passagem, territórios de atravessamentos, obras com brechas e convites à inundações...

Ondulo, ondulo, ondulamos...

Sexta-feira, Março 09, 2012

Quinta-feira, Março 08, 2012

8 de março!



8 de março, DIA INTERNACIONAL DA MULHER, é um dia de luta!
O ato público estadual - que conta com a participação de várias entidades e coletivos de artes, terá início na Praça da Estação e seguirá, com passeata e diversas ações performáticas e interventivas pelas ruas do centro de BH, até a Praça Sete, onde haverá nova concentração.







Participaram da organização do 08 de março, em Minas Gerais: Blogueiras Feministas, ALEM, AMB, ANEL, Brigadas Populares, Associação Cultural Odum Orixá, Obscena Agrupamento, Coletivo Ana Montenegro, Coletivo Marias de Minas/Lavras, Coletivo Nada Frágil, Coletivo Paisagens Poéticas, CAAP/UFMG, CACE/UFMG, CACS/UFMG, COMDIM, Comitê Popular dos Atingidos pela Copa, Consulta Popular, CRESS/MG, Conselho Regional de Psicologia-MG, CSP-Conlutas, CUT-MG, Instituto Albam, Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, Levante Popular da Juventude, MAB, Marcha Mundial das Mulheres, Movimento Mulheres em Luta, Movimento de Mulheres Olga Benário, MPM, MST, PCB, PCR, PSOL, PSTU, PT-BH, Primavera nos Dentes, Quilombo Raça e Classe, Rede Feminista de Saúde, Sind-REDE/BH, Sitraemg, UBM, UNEGRO, Via Campesina.






Quarta-feira, Março 07, 2012

exercícios para o teatro que virá

foto: alice floripes


Agora, estamos a salvo. Já nos podemos voltar a endireitar. Já podemos estender os braços no meio desta vegetação tão alta, no meio deste bosque tão grande.
Não ouça nada.
– Estás-te a afastar, tu e as tuas frases. Agora, puxas-me a saia, olhas para trás e constróis mais frases. 
Vou colocar um farol aqui. Agora, vou embalar a minha taça castanha de um lado para o outro para que os meus navios possam cavalgar as ondas. Alguns afundar-se-ão. Outros despedaçar-se-ão contra os rochedos.
Mas há um que navega sozinho. É o que é verdadeiramente meu.
...
Estou coberta por carne quente.
Aperto o pijama e deito-me por baixo deste fino lençol, flutuando numa luz pálida. 
O começo de um cântico. rodas, cães, homens a gritar, sinos de igreja. o começo de um um cântico.
- No momento em que dobro o vestido, ponho de parte o desejo.
Contudo, sei que vou esticar os pés para que possam tocar na barra da cama; quando a tocar, ficarei mais segura por sentir qualquer coisa de sólido.
Agora, já não me posso afundar, agora, já não posso cair através do lençol. Agora, estendo o corpo neste frágil colchão e fico suspensa. Estou por cima da terra. Já não estou de pé, já não me podem derrubar nem estragar.
É melhor sair destas águas. Mas elas amontoam-se à minha volta, arrastam-se por entre os seus grandes ombros; fazem-me virar; fazem-me tombar; fazem-me estender por entre estas luzes esguias, estas ondas enormes, estes caminhos sem fim.


(apropriando-me de as ondas, de virginia woolf: cortes, colagens, transformações)

Segunda-feira, Março 05, 2012

"Disse:

__ é tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.


e Polo:

__ o inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. existem duas maneiras de não sofrer. a primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. a segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."


as cidades invisíveis

ítalo calvino

Sábado, Março 03, 2012

A performance morreu? antes ela do que eu

Texto originalmente publicado em outubro de 2009, em www.desautoria.blogspot.com


a performance se tornou um modo do artista falar dele mesmo


(Josette Féral)


Nos últimos meses, Belo Horizonte foi cenário de mostras e festivais centrados na apresentação (e discussão) de performances, como a Mostra Internacional Horizontes Urbanos, a MIP 2 – Manifestação Internacional de Performance e o Festival de Performance de BH. A coincidência deste momento com a presença, no Brasil, da professora canadense Josette Féral, teórica especializada no estudo da cena contemporânea e que tem trabalhado com o conceito de teatro performativo, levou-me a levantar a discussão em torno de algumas questões tocadas por ela na série de cursos – Teoria e Prática do Teatro: além dos limites – que ministrou em agosto último no Programa de Pós-Graduação em Teatro da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Para Féral, falar de performance, hoje, é fazer a “autópsia” dessa arte. Segundo ela, a performance deixou de ser uma manifestação transgressora – porque uma forma esvaziada de seu caráter ideológico – para se tornar um gênero cênico com características formais específicas a ser manipuladas em favor da expressão do artista. Evidentemente, o que está sendo colocado em questão não é a potência expressiva da performance (não se pretende negar ao artista o “direito” de ter em sua arte um meio de expressão), mas o fato de que a performance, que nascera justamente de um forte questionamento do valor da representação e da arte, assuma aspectos daquilo que, inicialmente, ela mesma colocara em crise. Ou seja, ao que chamamos de performance hoje?

Partindo dos estudos de Schechner (Performance Studies) e Huyssen para conceituar performance e tentar apontar quais seriam os seus elementos originais, Féral vai afirmar que estes, precisamente, não estão mais presentes nas manifestações performáticas da contemporaneidade. Inclusive o fato de existir festivais ou mostras nos quais se apresentam performances programadas e, muitas vezes, repetidas e repetíveis, já é, para ela, uma demonstração de sua tese, uma vez que a performance é caracterizada, justamente, por seu caráter de acontecimento.


De fato, no cerne da noção de performance reside uma segunda consideração, a de que as obras performativas não são verdadeiras, nem falsas. Elas simplesmente sobrevêm. “As play acts, performative are not ‘true’ or ‘false’, ‘right’ or ‘wrong’, they happen”, disse Schechner (FÉRAL, 2008: 203).


Esse caráter “eventual” da performance parece implicar em várias outras questões. Como conseqüência imediata, podemos dizer que há uma recusa de todo elemento ensaiado, de tudo o que possa ser realizado novamente. Se nos remetermos às experiências mais extremistas de performance, ocorridas no anos 70 e 80, vamos perceber, em diversas delas, ações que não podem ser refeitas, como as mutilações presentes nas bodies arts. Decorrente desse traço, ocorre que a performance parece implicar em uma noção de risco, tanto para o performer quanto para o espectador. Nesse sentido, podemos dizer que ela se traduz, fundamentalmente, como uma experiência, pois o espectador “longe de buscar um sentido para a imagem, deixa-se levar por esta performatividade em ação. Ele performa” (FÉRAL, idem). Além disso, como a performance, em essência, questiona, como já foi dito acima, o valor de representação da obra de arte (nesse sentido, há, nela, uma recusa da mimesis) e o seu valor como arte, decorre que, resultante desse primeiro traço, há, na performance, pouco interesse em se pensar, historicamente, como gênero. Logo, há pouco interesse no registro, em guardar sua própria memória. A performance afirma, na ausência do traço, do registro, a ausência da obra, daquilo que possa ser comercializado.
Para Féral, a performance perdeu, hodiernamente, seu valor de experimentação: ela tem uma forma acabada, é repetida, filmada e vendida. Para ela, é característica deste movimento da performance o fato dela, hoje, se preocupar bem menos com o processo (este é escondido do público) e mais com a produção de uma obra acabada: o tempo já não é colocado em questão. Também o corpo – que tinha papel preponderante no início – vai se tornando um elemento como qualquer outro. A imagem vai tomando seu lugar. E, ironicamente, a performance que tinha questionado o uso dos espaços convencionais, a eles retorna: retorna ao palco e à galeria.
Essa foi, pelo menos, uma parte da configuração das mostras e festivais ocorridos em Belo Horizonte nos últimos meses. Performances – muitas vezes de forma contrária ao seu projeto original – tinham seus tempos, horários e locais de realização determinados pela organização dos eventos, em consonância muito mais com o interesse de seus patrocinadores e apoiadores. Mais do que garantir o caráter de risco da performance – potencializando sua interferência no cotidiano do cidadão e sua ação política – pareceu interessar aos organizadores, de uma maneira geral, garantir o acesso de um público especializado que pudesse fornecer ao evento sua chancela de cultural. Ora, se uma performance se vê restrita a ocupar um espaço determinado não por suas próprias necessidades (de acordo com seu projeto poético), mas por contingências do evento do qual faz parte (o mesmo ocorrendo com seu tempo de apresentação – comprimido em função das necessidades da mostra ou festival de criar um amplo painel ou uma amostragem – e com seu horário), ela se encontra “desinvestida” de todos os elementos que a caracterizam como performance – isto é, como uma manifestação de caráter experimental e eventual – e que a conectam às suas possibilidades políticas. Nesse sentido, o pensamento que rege eventos dessa natureza parecem mais dimensionar a performance no mercado da obra de arte, a qual pode ser “comprada” para ser “exposta” ao público, do que em sua vanguarda.
Pensando mais especificamente no teatro do que na performance, Lehmann vai afirmar que, em relação ao teatro pós-dramático (ou performativo, na concepção de Féral), a possibilidade de ação política está relacionada com o seu modo de representação, isto é, na medida em que ele “impõe seu caráter de acontecimento”, em que ele “manifesta a alma do produto morto, o trabalho artístico vivo, para o qual tudo permanece imprevisível e está para ser inventado”. Ou seja, “o teatro é virtualmente político segundo a concepção de sua prática” (LEHMANN, 2007: 414).
Sabemos que a performatividade não é uma “propriedade” dos objetos, da ação, mas uma dinâmica de relação que investe esses objetos ou essa ação. Ocorre então que, se é necessário, para o teatro, hoje, dar um salto em direção à performatividade, também parece ser necessário, ironicamente, que a performance volte a saltar no escuro.



Referências Bibliográficas

FÉRAL, Josette. Por uma poética da performatividade: o teatro performativo. IN: Revista Sala Preta. São Paulo (ECA/USP), 2008.
LEHMANN, Hans-Thies. O Teatro Pós-Dramático. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.
SCHECHNER, Richard. Performance Studies: an introduction. New York & London: Routledge, 2006.
____________________________. The End of Humanism: writings on performance. New York: Performing Arts Journal Publications, 1982.

Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

N3PS + Obscena experimentam Corpoalíngua Obscênico

Experimenta, experimenta!
corpoalíngua obscênico

Encontro: N3Ps - nômades permanentes pesquisam e performam
Obscena - agrupamento independente de pesquisa cênica

Abrimos as portas da Gruta! no cair da tarde, às 17h, tomados pela experimentação, com drinks, petiscos, cervejas diversas e sinuca.

e Lançamento do livro Corpoalíngua: performance e esquizoanálize, de Clarissa Alcantara.

Quando: Domingo, 04 de março de 2012.
Hora: 17h
Passagem: R$2,65
Onde: Gruta! Rua Pitangui, 3613C. Horto. BH/MG
Informações: (31) 25116770 / 97314356
www.casadepassagem.blogspot.com / experimenta.gruta@gmail.com
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Na edição de março, a Gruta recebe no Experimenta, experimenta!:

corpoalíngua obscênico: ato/processo proposto pelo N3Ps ao Obscena, uma vivência performática do aqui-agora em permanente movimento descontínuo, informe, de arrebatamento. Corpos impuros, obscuros, invadem o espaço da Gruta, com seus mundos íntimos, ruidosos, efêmeros, atônitos, ficcionais, emblemáticos. Gestos sonoros, poemas espacionais, singularidades agônicas, nascem num presente perdido de qualquer intensão, dissolvidos em acontecimento. Arte que provoca vida. Uma experienciação sem acúmulos. A vivência performática iniciada pelo Obscena e pelo N3Ps no sábado, dia 03 de março, abre as portas da Gruta! para a vivência com público, no domingo, dia 04 de março, às 17 horas.

No dia também será lançado o livro Corpoalíngua: performance e esquizoanálize, de Clarissa Alcantara.

Nascer do esquecimento é uma operação, o modus filosofante de um teatro desessência, uma filosofia que só pode funcionar no acontecimento. Filosofia do desejo(...) Experimentar agenciamentos: “procurem agenciamentos que lhe convenham”, é o que sai da voz plácida e rouca de Deleuze fazendo tremer muitos corpos. São quatro dimensões, quatro componentes de agenciamento por onde corre o desejo. Eis a “alegria prática do diverso”, único motivo para filosofar, e isto funciona, como funciona! Mas será que pode funcionar como quando se brinca no briquitar da bricolagem? O mesmo que dizer: para passar o tempo, entreter, distrair, discutir, brigar, trabalhar pesado, pelejar, exigindo ocupar-se com rigor de pequenas coisas e, ainda, ficar pensativo, preocupado, cismado, traçando diretrizes, arquitetando, pensando demoradamente sobre um trabalho, um fazer intermitente; bricolar, num movimento de ir e vir de uma arte de inventar, de fabricar algo que, na prática, forma aí seu conceito. Assim mesmo é que filosofia e teatro se atravessam maravilhosamente, e, transversos, riscam a linha por onde vai escapar esse teatro desessência, produzindo em semiótica mista, à resistência de corpos que não aguentam mais.

sobre o N3Ps:
Uma equação disjuntiva de conjunto, uma usina de produção desejante. O N3Ps, nômades permanentes pesquisam e performam, reúne performers-pesquisadores com propostas de pesquisas que se desenvolvem independentes e sobrepostas, predispostas aos deslocamentos, deslizamentos e às contaminações. Feito de acontecimentos singulares, encontros intensivos de eixos deslocados, desliza clandestino por superfícies em desvio, desfigurando rostos e nomes. Atualmente o N3Ps é povoado pelos performers: Aretha Gallego, Clarissa Alcantara, Clóvis Domingos, Frederico Caiafa, Henrique Rocha, Mariana Zippinotti, Matheus Silva, Nicolas Lopes, Sabrina Andrade, Wagner Alves, Viviane de Cássia Ferreira e amigos colaboradores.


sobre o projeto:
www.casadepassagem.blogspot.com / experimenta.gruta@gmail.com




Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

Festa no Metrô - Obscena

Neste dia 25/02 encontro arte e vida

Encontro arte e vida

Dia 25/02(sábado) no Centro Cultural da UFMG:

15h - exibição do documentário "A Porta Larga" (80 min.) de Aleandro Tubaldi, Fernanda Brascia Abreu, Gabriela Hauber e Mariana Borges
16:30h - conversa com os autores
17:30h - hora do café
18h - exposição de materiais e conversa sobre oficinas realizadas nos presídios femininos de Curitiba e Porto Alegre durante o Festival Brasileiro de Teatro - Cena Mineira 2011, com Erica Vilhena, Joyce Malta, Lissandra Guimarães e Nina Caetano (integrantes do Obscena).

Centro Cultural da UFMG
Av. Santos Dumont, 174
Centro

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012

Sábado, Dezembro 17, 2011

Ser Mãe: uma ação obscênica!


Aqui estou eu com cerca de dois meses de gravidez e não há nada mais concreto na vida que gerar um ser! Bom, pelo menos para mim o 'estado interessante' tem trazido uma sensação de materialidade, realidade, possibilidade de transformação que outrora não ousava pensar... sentia-me ainda limitada, ainda inapta. Estas semanas têm me mostrado uma vida muito além e tudo isso tem sido reforçado pela presença de minha mãe em minha casa, ela acaba de completar 74 anos, dos quais 16 são em luta com o Alzeimer e nestes eu lutei com ela, por ela e por mim. Como seu estado é agora de 100% de dependência os papéis estão literalmente invertidos e me sinto pretensiosamente orgulhosa por cuidar dela, por acordar e ir a seu quarto onde um radinho não se cala, onde a paz do seu cheirinho me cerca de tamanha luz que sinto-me melhor, sinto-me mais forte e mais completa. Na foto acima eu tinha 17 e ela 59 anos, este momento trago forte comigo, pois foi quanto a doença começou a se manifestar e não sabíamos o que se dava com ela.
Esta criança que cresce em meu ventre terá sim uma Erica, Nêga, Mulhe muito melhor para acompanhar seus passos, para auxilia-la a ganhar o mundo e construir sua história, seja ela qual for! Ela é fruto dum relacionamento que se inciou quando eu ainda era uma mocinha de 23 anos e estudava teatro na UFOP, uma menina que se apaixonou por um rapaz de URA que lá morava para trabalhar e desenvolver sua música, Zacca.
Escrevo estas palavras tão pessoais aqui pois para mim vida e arte se fundem e se hoje estou a gerar é porque muito aprendi deste verbo em comunhão com o OBSCENA. Muito experimentei junto a meus digníssimos companheiros, os que já se deslocaram, os que continuam e os que nos alimentam com suas novas presenças! Sou extremamente grata a minha pesquisa acerca do feminino, pois ela me possibilitou fortalecer-me o suficiente para agora gestar esta nossa possibilidade de vida em minhas entranhas!
Salve a vida, salve nossa poética do imediato, salve nossas bonecas, salve nossas kazas, salve Padilha, salve as portas, as vacas e as cachorras, salve o giz que marca no chão o efêmero insustentável da vida!!!!
Que a luz deste novo ser nos traga a consciência de que nossa luta é gloriosa e que nossa marca já está!

AXÉ!

Poéticas do Imediato

Numa conversa com a obscênica Erica Vilhena, ela trouxe uma definição muito interessante sobre a forma de trabalho do Obscena: "nós trabalhamos no IMEDIATO". Isso ficou na minha cabeça e depois comecei a pensar mais demoradamente sobre tal afirmação.

Sim, atuamos no Imediato, no instante, no risco. Quando temos uma imagem ou ideia nos lançamos.
Mergulhar sem rede de proteção. Isso é o imediato. Senão fica muito no mental, no conceitual e não fazemos a experiência.

Vamos para a rua sem muita preparação ou conceito pré-definido, até porque na prática e no encontro/provocação com os espaços e as pessoas, é que as coisas se revelam. Não dependemos de figurinos, textos ou qualquer produção muito elaborada, nosso objetivo é fazer acontecer algo a que nos propomos...senão perdemos o bonde!

O que não quer dizer que o Imediato nos acompanhe o tempo todo. Sempre avaliamos as experimentações, perceber as forças, fragilidades, o que acontece, os sustos etc, tudo isso é PERCURSO DE PESQUISA.

O que soaria como imediatista ou apressado ( o que também é) eu traduzo como URGÊNCIA DE DESEJO. Muitas coisas nasceram e foram depois aprimoradas e aprofundadas devido a uma ação imediata. Isso também me remete a precipitar, isto é, nem sempre dá tempo de termos certeza para nos decidirmos a fazer algo. A vida acontece no RISCO e no SUSTO. Em nossas ações convivem simultaneamente o acaso e a determinação. Sempre uma atitude atencional, uma amplitude de percepções.

Há uma infinidade de significados para IMEDIATO:


Leio essa lista de palavras e ao mesmo tempo penso em várias ações do Obscena que se encaixam nela. Gosto de "palpitante" e "de repente". Já "inesperadoimprevisto" acho lindo e parece ser o que acontece quando alguém se depara com uma de nossas ações. "Contínuo" deve ser porque na ação a gente continua uma ideia ligeira que nos visitou... e "manifesto" é também muito bom, porque algo que surgiu pôde ser manifestado, vivenciado, acolhido e colocado à prova...

Erica, sim, fazemos no IMEDIATO, mas não somos "imediatistas", não queremos resultados rápidos ou respostas superficiais, pelo contrário, queremos processos vivos, desafiantes e palpitantes....não queremos certezas, queremos aventuras, dúvidas e sempre novas leituras do que vemos, fazemos e tentamos provocar com nossas pesquisas.