obscena
"arte é uma palavra para se desencardir do hábito"
agrupamento independente de pesquisa cênica
Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clarissa Alcantara, Clóvis Domingos, Davi Pantuzza, Erica Vilhena, Frederico Caiafa, Joyce Malta, Leandro Acácio, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano e Saulo Salomão, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas.
São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra dos artistas plásticos Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.
Atualmente, o Obscena realiza seu projeto MULTIPLICIDADES OBSCÊNICAS: relações coletivas no corpo das univer-cidades, em parceria com o CCUFMG, dentro do projeto Cena Aberta. Como parte da residência artística, mostras processuais de compartilhamento da pesquisa são realizadas ao longo do ano. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 14 às 18 horas, na sala 03 do CCUFMG e, nesses dias, são realizados tanto experimentos práticos de invasão no corpo da cidade, quanto discussões teóricas e práticas corporais internas ao agrupamento.
A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.
Sábado, Março 17, 2012
O artista e a cidade
Santa Maria da Mala - Ação obscena no dia 08 de Março
05 de Março de 2012.
Joca Amore,
ainda estou nas ONDAS do Experimenta-Experimenta da Gruta de ontem....momentos de plenitude, sustos e acontecimentos....corpos nômades obscênicos fluindo num mar de cores, formas e sons...Muita vida, muita presença, intensidades até agora aqui momento instante ai, que delícia!!!! Olha a delícia, sinta as delícias que sinto também daqui.
Bom que aceitou participar comigo da ação SANTA MARIA DA MALA. Voltou a imagem das bonequinhas desmembradas no teu trabalho do BABY-DOLLS e acho ótimo tudo isso se re-linkar noutra parceria e criação. Então provocaremos a cidade com malas e pedaços de corpos femininos, um pouco em memória ao crime de mais de 80 anos com a Maria Féa, e também porque infelizmente continuam esses crimes bárbaros contra as mulheres. E a ação no dia 08 de Março, junto à MARCHA MUNDIAL DE MULHERES, vai ser mais uma colaboração nossa. E também vamos jogar com o espaço, a cidade, as placas e corpos proibidos dos outros obscênicos.
Então, só pra lembrar: duas malas, roupas brancas, pedaços de manequim e pensei também em bonecas de plástico, panos branco e preto e jornal do dia.
Faltou mais alguma coisa?
Pensei da gente fazer a ação com muita calma, dando tempo de se formar uma imagem para os passantes.....
Bjos,
Clóvis.
Desenhos de Leandro Acácio após exposição de ideias
07 de Março de 2012-03-17.
oi clovito,
que bom!
muitas ondas ainda por aqui....
obrigada pelo convite, um prazer. as imagens estão em minha cabeça desde a última quinta. hoje separei um jornal: em 3 anos, 454mil mulheres são agredidas
levarei nosso materiais. hoje já saio da gruta com a sua mala achada para caminhar com ela amanhã.
bora lá, pra rua.
um beijo,
Joyce.
13 de Março – depois da ação realizada:
Joyce querida,
fiquei avaliando a nossa ação do dia 08 de Março. Nossa, foram intensidades muito diferentes, né? As coisas foram "esquentando" aos poucos e chegou num acúmulo poderoso e perigoso com a gente (do OBSCENA) correndo feito loucos na frente da Marcha e se jogando no chão e abrindo as malas revelando pedaços de corpos femininos.
Foi uma manifestação cênico-performática muito potente, com uma dimensão plástica também, a tensão dos corpos, o congelar das imagens dando tempo para as pessoas criarem suas leituras. Tudo muito bom...
Legal termos "jogado" com o Leandro (sintomático porque ele inclusive delirou com nossas ideias e desenhou alguns esboços da ação), com as performers ( A Leticia Castilho com a burca, a Lica com a classificação zoológica da mulher; a Luciana Cesário caminhando com aquela costela nas costas), com o espaço, entre nós mesmos. Aconteceram COMPOSIÇÕES OBSCENAS, travestidas, provocativas, invadimos aos poucos a cidade, criamos interrupções, afrontamos lugares como lojas e pontos de ônibus, percebemos os lugares de PASSAGEM e os espaços de CONCENTRAÇÃO. Houve escuta, cuidado e jogo.
Saí enlouquecido da ação, fiquei vigoroso, emocionado, sou também mulher. Tenho observado que a cidade tem se tornado espaço de diferentes manifestações. E mesmo na arte, não se trata de ser moldura ou palco, em nosso trabalho de intervenção, é TERRITÓRIO de conflitos, encontros, dimensão relacional mesmo. Programas de ações que se desprogramam, se de-compõem e provocam acontecimentos.
Em duos, trios e num momento mais coletivizado, atuamos e reconfiguramos ações, criando um mosaico de paisagens que habitaram a cidade naquela tarde do dia 08 de Março. Pura rede de afecções. Eu tremia muito...
E o que você achou do trabalho?
bjos,
Clóvis.
Domingo, Março 11, 2012
Cachorros não sabem blefar. Humanos sabem!
Cachorros não sabem blefar. Humanos sabem!
Para Saulo Salomão, um ator obsceno.
Assumo: esse texto é um blefe. Eu blefo, tu blefas, eles blefam e todos nós blefamos. Somos humanos. Cachorros não sabem blefar. Que pena! Reconheci minha humana condição de blefador após assistir ao espetáculo da Cia Cinco Cabeças agora no Verão Arte Contemporânea em Belo Horizonte. Saí do teatro repleto de indagações fervilhando em minha cabeça. Eu tenho uma ou “cinco cabeças”?
A sinopse é o seguinte: “Caio sempre olha para seu relógio que insiste em marcar o mesmo horário: 9 e 15. O problema não são as pilhas. Provavelmente está quebrado. Ou então cansou-se. O que seria lastimável para um relógio. Adamastor odeia o nome Caio. Cristina não quer morrer virgem e odeia Caio, seu namorado. Caio, que não é o namorado de Cristina, apresenta-se para as pessoas com o nome de Adamastor, pois sabe que assim são capazes de suportá-lo. Adamastor acredita que tartarugas são perigosíssimas. Certa vez perdeu toda sua fortuna para um jabuti. Verônica nunca sabe se está ou se não está nua. Já perdeu vários empregos por causa disso. Alguns porque estava nua. Outros porque estava vestida. Berenice procura seu cachorro. Ele está sozinho em casa e não sabe abrir pacotes de ração e nem a geladeira. E um detalhe importante: ele não late. De jeito nenhum. Talvez não exista. Não existem cães que não saibam latir. E tartarugas que não saibam blefar. Por isso são excelentes parceiras de pôquer. Já os cachorros não. Cachorros não sabem blefar”. Deu prá entender? Tomara que não...
A cortina se abre e não sei se estou diante do palco ou de uma tela. As primeiras imagens são puro cinema e tenho meu olhar capturado. E todo um traço cinematográfico perpassa a encenação, se apresentando no desenho do espaço, na atuação dos intérpretes, nos movimentos da luz, na dramaturgia “cortada” etc. Há espera, vazio, silêncio e incomunicabilidade, elementos a tensionar tempo, espaço e narrativa.
Um corte: Engraçado, estamos sempre esperando: Godot, God. Good and Happy Days (Beckett) e o toque de um telefone nos trazendo alguma notícia e nos distraindo do absurdo de existir. Estou nu ou vestido agora?
O relógio se cansou e nos transformamos em reféns de um tempo sem minutos e horas. Mas nessa prisão, às vezes risível e angustiante, é que praticamos nosso esporte preferido: blefar. Blefamos, vivemos e aprendemos. Blefar é enganar, confundir e dissimular. E não há maior dissimulação do que a linguagem e a comunicação. A gente quase nunca consegue dizer o que queria, de fato, dizer. Lançamos as palavras, acreditamos na eficiência delas, mas quando essas chegam aos outros, aí já é outra história. Daí tantos desentendimentos e haja blefe! Pedem-nos lógica naquilo que dizemos, pobres de nós! E até aquilo que nos domesticamos a dizer, dependendo de como o subvertemos em algumas ocasiões, pode instaurar o caos, o non-sense e a confusão.
O espetáculo me trouxe isso: blefamos porque somos animais (mas não cachorros) constituídos pela linguagem. Para isso utilizamos códigos, símbolos, palavras, expressões e por aí vai... Cachorros não falam, não mentem e não odeiam Caio porque esse nome pode lhes remeter experiências negativas. Só nós podemos odiar ou amar Caio, Adamastor, Cristina, Berenice, Verônica e qualquer outro nome. Cachorros quando latem podemos ter certeza de que tem algo acontecendo. Já as coisas nos acontecem, a gente fala, inventa, tenta dar nome e sentido, mas nunca chegamos no É das coisas. (Salve Clarice Lispector!). A linguagem blefa. O sentido escapa e como em Ionesco, surge o estranhamento na linguagem cotidiana. O espetáculo brinca com essa Babel que insiste, re-insiste, resiste às classificações e tentativas de ordem e entendimento.
O trabalho conta com a primorosa direção de Byron O’Neill e um conjunto de atores-colaboradores afinados com a proposta desenvolvida. Cachorros não sabem blefar. Que pena! Humanos sabem. Que maravilha! Até porque não há blefe mais interessante do que criar ficções e histórias, mentiras mesmo. Obras artísticas, como o espetáculo da Cia 5 Cabeças, que forçam o pensamento a estrangular as lógicas dos discursos os quais nos habituamos. Do eu hábito ao eu HABITO há uma enorme distância. E esse espetáculo numa excelente e contemporânea linhagem do Teatro do Absurdo, nos coloca essa questão.
Enfim: Cachorros não sabem fazer teatro. Mas os criadores da Cia 5 Cabeças sabem. E fazem. Eles nos presenteiam com um trabalho que anuncia a promessa de mais um jovem grupo teatral a enriquecer a cena mineira.
Clóvis Domingos.
Belo Horizonte, 14 de Fevereiro de 2012.
Corpoalíngua Obscênico e Ondulante
03 de Março de 2012. Casa de Passagem. 23 horas e alguma coisa...Perdi a noção de tempo. Primeiro dia de Experimenta na Gruta. "Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim". Giros. Corpoalíngua obscênico porque obscenidade é estar na presença e beijar o Acaso, o Instante, o Momento.
Foi (é) como uma onda que vem e passa. Águas chamam águas que desaguam em corpos que fluem num mar de Acontecimentos. Escrevo encontros, fluxos, ondulamos ondulantes saltitantes desejantes a vida com seus ruídos... Projeções, sonoridades, vozes, corpos nômades, Clarissa chega e me leva para outro canto, são portas que se abrem. Clarissa serpenteia e voa.
Leio: " Seus rostos esvoaçam como borboletas(...) Tudo ondula, tudo dança. Nada se fixa. Tudo é rapidez e triunfo." (AS ONDAS. VIRGINIA WOOLF).
Volta ROL, o eterno retorno? O que acontece? Entontece? Piracema. Juntos subimos a correnteza. Cardume alíngua. Juntos, mas singulares. Obscenos porque plurais, separados, serpenteando sonoridades e disformidades corporais. Serpenteia, Agapito! Ágon apita!!! Apita! Chama ! Corpos andarilhos ondulam e experenciam tempo, espaço e FORÇAS... Tudo é artevidasemprejunatasagorasempreinstantejá!
Ou estamos de vermelho e preto ou de branco como agora? Somos feiticeiros sim. Faz-se comida para o alimento desse agrupamento obsceno e nômade. Corpos são casas de passagem, territórios de atravessamentos, obras com brechas e convites à inundações...
Ondulo, ondulo, ondulamos...
Sexta-feira, Março 09, 2012
Macumba Nômade Obscênica
Quinta-feira, Março 08, 2012
8 de março!
8 de março, DIA INTERNACIONAL DA MULHER, é um dia de luta!
O ato público estadual - que conta com a participação de várias entidades e coletivos de artes, terá início na Praça da Estação e seguirá, com passeata e diversas ações performáticas e interventivas pelas ruas do centro de BH, até a Praça Sete, onde haverá nova concentração.
Participaram da organização do 08 de março, em Minas Gerais: Blogueiras Feministas, ALEM, AMB, ANEL, Brigadas Populares, Associação Cultural Odum Orixá, Obscena Agrupamento, Coletivo Ana Montenegro, Coletivo Marias de Minas/Lavras, Coletivo Nada Frágil, Coletivo Paisagens Poéticas, CAAP/UFMG, CACE/UFMG, CACS/UFMG, COMDIM, Comitê Popular dos Atingidos pela Copa, Consulta Popular, CRESS/MG, Conselho Regional de Psicologia-MG, CSP-Conlutas, CUT-MG, Instituto Albam, Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, Levante Popular da Juventude, MAB, Marcha Mundial das Mulheres, Movimento Mulheres em Luta, Movimento de Mulheres Olga Benário, MPM, MST, PCB, PCR, PSOL, PSTU, PT-BH, Primavera nos Dentes, Quilombo Raça e Classe, Rede Feminista de Saúde, Sind-REDE/BH, Sitraemg, UBM, UNEGRO, Via Campesina.
Quarta-feira, Março 07, 2012
exercícios para o teatro que virá
...
Estou coberta por carne quente.
Aperto o pijama e deito-me por baixo deste fino lençol, flutuando numa luz pálida.
O começo de um cântico. rodas, cães, homens a gritar, sinos de igreja. o começo de um um cântico.
- No momento em que dobro o vestido, ponho de parte o desejo.
Contudo, sei que vou esticar os pés para que possam tocar na barra da cama; quando a tocar, ficarei mais segura por sentir qualquer coisa de sólido.
Agora, já não me posso afundar, agora, já não posso cair através do lençol. Agora, estendo o corpo neste frágil colchão e fico suspensa. Estou por cima da terra. Já não estou de pé, já não me podem derrubar nem estragar.
É melhor sair destas águas. Mas elas amontoam-se à minha volta, arrastam-se por entre os seus grandes ombros; fazem-me virar; fazem-me tombar; fazem-me estender por entre estas luzes esguias, estas ondas enormes, estes caminhos sem fim.
(apropriando-me de as ondas, de virginia woolf: cortes, colagens, transformações)
Segunda-feira, Março 05, 2012
"Disse:
__ é tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.
e Polo:
__ o inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. existem duas maneiras de não sofrer. a primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. a segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
as cidades invisíveis
ítalo calvino
Sábado, Março 03, 2012
A performance morreu? antes ela do que eu
Terça-feira, Fevereiro 28, 2012
N3PS + Obscena experimentam Corpoalíngua Obscênico


Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012
Neste dia 25/02 encontro arte e vida
Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012
Sábado, Dezembro 17, 2011
Ser Mãe: uma ação obscênica!

Poéticas do Imediato
Sim, atuamos no Imediato, no instante, no risco. Quando temos uma imagem ou ideia nos lançamos.
Mergulhar sem rede de proteção. Isso é o imediato. Senão fica muito no mental, no conceitual e não fazemos a experiência.
Vamos para a rua sem muita preparação ou conceito pré-definido, até porque na prática e no encontro/provocação com os espaços e as pessoas, é que as coisas se revelam. Não dependemos de figurinos, textos ou qualquer produção muito elaborada, nosso objetivo é fazer acontecer algo a que nos propomos...senão perdemos o bonde!
O que não quer dizer que o Imediato nos acompanhe o tempo todo. Sempre avaliamos as experimentações, perceber as forças, fragilidades, o que acontece, os sustos etc, tudo isso é PERCURSO DE PESQUISA.
O que soaria como imediatista ou apressado ( o que também é) eu traduzo como URGÊNCIA DE DESEJO. Muitas coisas nasceram e foram depois aprimoradas e aprofundadas devido a uma ação imediata. Isso também me remete a precipitar, isto é, nem sempre dá tempo de termos certeza para nos decidirmos a fazer algo. A vida acontece no RISCO e no SUSTO. Em nossas ações convivem simultaneamente o acaso e a determinação. Sempre uma atitude atencional, uma amplitude de percepções.
Há uma infinidade de significados para IMEDIATO:
Erica, sim, fazemos no IMEDIATO, mas não somos "imediatistas", não queremos resultados rápidos ou respostas superficiais, pelo contrário, queremos processos vivos, desafiantes e palpitantes....não queremos certezas, queremos aventuras, dúvidas e sempre novas leituras do que vemos, fazemos e tentamos provocar com nossas pesquisas.







