agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

sexta-feira, outubro 17, 2008

ESCRITO TARDIO.RELEXÃO SEMPRE EM TEMPO

Segunda-Feira. Procedimento do Marcelo. Porão. Atuam Saulo e Didi.

RELATO A PARTIR DA PROVOCAÇÃO DA ERICA – 22/09/08
Despachando textos

Qual é a sua questão, enquanto pessoa-criador? O que você está querendo discutir aí?
Toda vez que esta “provocação” vêm á tona, de alguma forma nos deixa a todos, em situação desconfortável. Ao passo que nos faz buscar o ponto de partida do nosso trabalho e rever o percurso e o que tem prevalecido.
Ontem, a provocação (com tom sempre exagerado e austero bem característico e que dá margem sempre a algo além da própria provocação) da Erica mediante o procedimento do Marcelo, certamente fez cada um revisitar o próprio umbigo. E, naquele exato instante, refletir, criticar, provocar a própria criação que vem desenvolvendo.
Acho necessário, ao mesmo tempo que cruel e delimitador. Me pergunto se querer “definir” não é também a ânsia de manipular um trabalho que precisa ser refletido num resultado e não necessariamente num produto. Ou, não será o momento de dizer que estamos no final e precisamos definir, assim mesmo, como está? Mesmo compreendendo que a questão levantada refere-se á questão da “pessoa criadora”. E não do material em si. Embora estas coisas se confundam.
Eu, particularmente, nem de longe consigo encerrar o trabalho iniciado. É possível fechar? Sim. Obter resultado algum? Sim.Mas, não tenho certezas alguma, já que outras questões vão surgindo e transformando as idéias e ou sugestões iniciais.
Inicialmente queria trabalhar a partir da Pomba Gira e com os seus elementos de identificação numa gira. Mesmo sem saber, inicialmente, como.A medida em que fui “explorando”-num sentido mais imagético e menos prático -, possibilidades para achar um ponto interessante, concluí que seria pertinente dispor mulheres com estes elementos. Alguma leituras sobre a entidade, sobre a formação da mulher, desde o édem, me fizeram considerar o confronto entre os opostos.
Destruir imagens do feminino construídas na mulher mediante a aquisição no corpo, de comportamentos alheios á estas imagens.
Sobretudo, um
comportamento
“livre” e “primitivo”.
De vermelho e preto .Pés descalços e uma taça á mão. Da Pomba Gira ficou estes objetos característicos e a abertura para uma intervenção livre no cotidiano da cidade.Embora, aparentemente simples, tenho tido dificuldade em encontrar mulheres que queiram submeter-se a tal procedimento. A intervir de forma tão despojada e em relação com o espaço urbano.
As mulheres acham até bacana o convite.Ficam empolgadas. Num primeiro momento afirmam não saber o que de fato é uma Pomba Gira.Num segundo, retornam e questionam sobre o andar descalças.
Num terceiro, sobre a Pomba Gira, sua energia.Num quarto momento, me mandam uma mensagem adiando para outro dia e num quinto, nunca mais me ligam.
O medo que se instaura ao falar de Pomba Gira é geral.Mesmo sem conhecer o que é e como é, e talvez por isto,torna-se inviável uma disponibilidade para o procedimento: colocar-se neste, como mulher.
E uma coisa é evidente, as mulheres não sabem do que se trata em essência, mas, dispensam um temor.Neste sentido,minhas reflexões parece que ganham sentido.Se a virgem é espelho , portanto, da imagem da mulher social ideal, a Pomba Gira é a negação disto. A cultura da negação está imposta e tem grande influência, percebe-se.O demônio sempre esteve pintado de vermelho e preto, razão pela qual uso tais cores, assim como a “puta” passou para a margem, quando este modelo ideal, pautado na religião, se instaurou.
Se o Brasil ainda é o maior país católico e todos fomos criados, direta ou indiretamente sobre os conceitos da moral cristã,tudo que vier contra isto, não será consciente ou inconscientemente negado? Em nós, por nós?
Outra questão que me suscitou e provoca: quem deveria negar quem: a Pomba Gira a mulher? Ou a mulher a Pomba Gira? Será isto procedimento prático ou pesquisa teórica?
O preconceito é imenso e desafiador.Desenvolver um material palpável que aborde todas estas questões surgidas, vejo como uma longa estrada a percorrer, a pé e descalço.
Porém, voltar sempre a estas questões, é edificante por que nos obriga a deixar um pouco mais claro o nosso desejo. E estar diante de uma provocação como esta, da Erica, nos torna mais excitados a ponto de buscar conteúdos mais esclarecedores e fazer emergir mais perguntas.
Para concluir,
mais que atrizes,
quero mulheres preservando todos os seus atributos femininos,
suas ideologias, vontades, desejos, sua história, seus medos, sua coragem, sua consciência, para se submeterem a uma intervenção nos espaços urbanos,
com liberdade, travestidas com os adereços e trajes concernentes ao universo da Pomba Gira, sem representá-la
O que isto provoca em você enquanto mulher?
O que esta intervenção provoca no outro? E no espaço?
consegue se sustentar, nesta intervenção á deriva?Consegue ser?

2 comentários:

Erica Vilhena, vulgo Nêga. disse...

Caro Obscênico Idê!
Quando solto de forma tão impertinente, reconheço, tal provocação desejo simplesmente compreender o que está a incomodar meu companheiro marcelo rocco. pois a temática levantada por sua longa e distinta pesquisa es mui grande e ainda não consigo ver através dos seus procedimentos o que de fato o incomoda.
.SARAVÁ.

IDE JUNIOR disse...

Comungo de sua questão,não é um crítica,ao contrário,considero-a como provocação mesmo e nem estou colocando isto em questão,a frase é apenas um "aposto especificador",que reforça uma questão que considero "forte" nas suas falas.
Axé sempre!Saravá!