
Local: Praça da Savassi, point das bonecas de belo horizonte.
Proponente: Nina e Lica
Executantes: Lica, Nina, Nêga e Joyce.
Dia 13 de outubro. Venho de uma semana de muito trampo e muito rock. Muito álcool, poucas horas de sono e ouverdose de produção. Estou lenta. Muito lenta. Minha cabeça não funciona: a buceta e sua vida no mercado de trabalho. Eu a buceta cansada e momentaneamente alienada. Sim, era assim que me sentia naquela segunda-feira, sugada. Cheguei na casa de Nina e ainda não tinha claro o quê e com o quê trabalhar... perdida. Por fim, as roupas de Nina me trouxeram um problema: roupas pequenas para meu corpo cheio. O paradoxo do corpo natural e o corpo da moda. A estética da beleza formatada, prevista e afirmada pela mídia. Mesmo assim saí para a Savassi com um nó na boca do estômago: não sabia o que fazer, sentia-me alienada do espaço para onde íamos, sentia-me inerte nessa segunda. Descemos do carro. Lica com suas sacolas, hoje em menor número. Joyce já de boneca com seus ‘clones’ de plástico numa bolsa a tira colo. A Savassi com os bares tomando as calçadas. Vitrines. Lica começa sua trajetória, logo é notada. Joyce é possível. Uma boneca seriada e possível. Uma lente e grau na realidade. Um ângulo pouco mais agudo, quase imperceptível para um distraído. Ela multiplica sua imagem e semelhança. Lica multiplica em objetos o objeto mulher domesticado. Eu tentava encontrar um ponto de incomodo, ainda estava alienada. Aos poucos a fumaça dos carros foi-me trazendo o lugar para minha respiração, atravessei a Cristóvão Colombo e juntei-me as demais frente à Melissa. Comecei a me inspirar naquelas bonecas, nas nossas e nas demais, e saquei as roupas, a maquiagem, o salto e fui-me transformando aos poucos numa desajeitada e incabível boneca. Rosa? Não conseguiu ser. Bela como as das Vitrines? Não, suas medidas não são ideais e suas roupas estão fora de moda. Exarceba na maquiagem, o ridículo daquele corpo tentando caber onde não havia como. É preciso ser magra. Seriada para caber nas roupas das Vitrines. As três agora desfilam e vez em quando deitam-se no chão para que nina teça suas mulheres mortas. Comecei a perceber uma certa idiotice naquela minha situação. Gerou-se em mim uma alegria imbecil, esse estado creio que foi um entorpecimento causado pelas inúmeras vitrines e a mira das câmeras. Neste procedimento decidimos assumir a câmera e nos relacionar com ela. Eu sorria numa felicidade idiota. Um sorriso vazio de senso crítico e impotente de qualquer natureza anárquica, mas que por sua repetição possibilitou perceber organicamente o que o espetáculo da cultura do consumo nos causa. Vejo Túlio com um sorvete da Mac nas mãos, chamo-o, ele resiste, por fim cede. Vem a meu encontro e oferece o sorvete, diz que quer trocar e eu pergunto pelo o quê, ele sorri e não responde... Pergunta se vou sempre ali e respondo que só vou quando quero ficar bonita, uma mocinha nos observa e eu direciono a mesma pergunta a ela, sua resposta é seca:_não tenho com o que me divertir aqui porque não tenho acesso às lojas de grife... Fiquei a me perguntar o que ela fazia ali, mas ela se foi.
Três locais foram mais potentes: porta da Mac, porta da Loja de Enxovais e porta da loja Rede. Nesta última quase fomos contratadas pelo gerente para promover a loja de comésticos... Eu fiquei a imitar a moça do banner da porta com seus lábios sensuais prontos a serem consumidos.
Bem, três bonecas foram construídas: a noiva; a boneca seriada; a boneca que não cabe.
É isto.
.SARAVÁ.