agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

quarta-feira, junho 17, 2015

Performance e fracasso

 “A PERFORMANCE PLEBE DO CREDIÁRIO: AUTOBIOGRAFIA FINANCEIRA EM TEMPOS DE CRISE ECONÔMICA" –  (texto de Clóvis Domingos sobre o trabalho e artigo de Isaque Ribeiro escrito em colaboração com os professores Mariana Muniz e Marcos Alexandre da UFMG). 


No referido artigo o autor se propõe a narrar e refletir sobre o processo de criação da performance artística Plebe do Crediário, objeto de sua pesquisa teórico-prática de mestrado. Para tanto, o autor destaca os principais elementos presentes em sua ação: a utilização de sua memória pessoal, a relação entre arte e vida (aspecto inerente ao exercício performático) e um posicionamento crítico sobre as ferramentas e estratégias do capitalismo sobre nossas vidas, nos convidando a nos tornarmos eternos “devedores” e mantenedores do status quo.

Imagem de Paola Parentoni

O autor nos instiga a pensar a arte da performance como uma possibilidade direta de contestação aos sistemas vigentes, ao se inserir no cotidiano e tentar provocar rupturas em nossos comportamentos condicionados. Nas palavras do autor “ o trabalho do performer trata de ativar a percepção, impor quebras ao estabelecido e destacar a latência do vivo” (RIBEIRO, 2014, p.155). Dessa forma, o performer agiria como uma presença desestabilizadora em seu meio, desnaturalizando o óbvio e criando conflitos nas leituras e signos rígidos de nosso tempo e espaço. Um provocador e criador de fissuras, cuja prática permeia ações que desafiam a ordem estabelecida e causam ruídos nos discursos instituídos.

Podemos pensar a prática da performance como uma voz dissidente, não só no campo das artes, mas também nos espaços públicos e sociais. No caso da ação Plebe do Crediário, essa se forjou a partir de dimensões subjetivas, relacionais, conviviais e de caráter urbano. A presença de ações artísticas ao invadirem a cidade, acaba por tensionar determinados espaços e códigos e propor experiências com forte apelo lúdico, social e político.

A arte nas ruas pode funcionar como uma prática de resistência numa cidade comumente projetada como espaço asséptico e espetacular (a “cidade outdoor” na expressão de JACQUES, 2003), empobrecido de relações humanas e afetivas, no qual o isolamento e o anonimato imperam. Uma cidade que privilegia, em sua maior parte, o consumo e a propaganda. No caso da performance de Ribeiro, me voltam à lembrança as inúmeras vezes que fui interpelado, no centro de Belo Horizonte, por pessoas me oferecendo cartões de crédito ou outro tipo de negócio. Fora nossa intensa e veloz movimentação pela cidade, o que a configura mais como um espaço de passagem e menos de ocupação e permanência.


A performance Plebe do Crediário foi realizada do segundo semestre de 2009 até o final de 2010 e em seu processo de criação, podemos apontar a composição de quatro fases: a coleta de comprovantes de venda (referentes às compras efetuadas pelo performer em sua vida cotidiana como um ato de colecionar e perceber-se um consumidor e devedor em potencial), a confecção de origamis (a transformação dos recibos em origamis, acreditando-se na lenda de que a dobra de mil tsuros provocaria a realização final de um desejo, no caso: quitar as dívidas); os pedidos de empréstimos ( desejo de se experimentar novos riscos e perigos) e a ação final ( a apresentação pública da obra em espaço aberto e a troca de um tsuru por dinheiro doado pelos transeuntes). (RIBEIRO, 2014, p. 151).

Interessa-me agora descrever e refletir sobre a última fase da referida performance, por abranger aspectos como participação, risco, acaso e acontecimento.

Em seu artigo, Ribeiro nos conta que sua proposição inicial era ficar “encerrado” dentro de uma caixa de vidro realizando trocas com os passantes da rua e de alguma forma denunciar a prisão a que todos nós estamos condenados. O artista-pesquisador ouve comentários de todo tipo: da solidariedade à agressividade. Interessante pensar que sua presença cria uma interrupção no tempo-espaço da cidade. Temos uma imagem no mínimo instigante: um homem vestido de terno podendo simbolizar ao mesmo tempo um prisioneiro. Ou um funcionário de uma repartição que empresta dinheiro? Tal dispositivo espacial e cênico, acaba por acionar algum tipo de interação e curiosidade das pessoas diante de algo inusitado e no mínimo estranho.

A performance só pode acontecer se as pessoas de alguma forma participarem. Essa participação, a meu ver, seria como uma coautoria dos moradores da cidade. São eles que alimentam a obra, potencializam sua provocação e alargam as possibilidades para novos acontecimentos. Produzem leituras e significados dissidentes sobre a obra em questão. Ao mesmo tempo, para o performer, se trata de um momento de risco e vulnerabilidade. Tudo pode acontecer. No espaço das ruas não há a proteção de um território fechado e já definido como “lugar de arte”. As pessoas que param e ali permanecem criam “sociabilidades alternativas chamando atenção para as questões que permeiam a nossa cultura” (ARANTES, 2012, p.185). Dessa forma a obra acontece coletivamente.

Já a presença do performer acaba por problematizar o sistema econômico e denunciar o fracasso do mesmo. Se há sempre a recorrência da presença de anunciantes da “felicidade prometida” e seus sorrisos e doces promessas (pela ação de se adquirir um cartão de crédito), no caso da performance de Ribeiro, temos a enunciação do fracasso e do engodo dessa mesma promessa. Eis um cidadão expondo e incorporando as mentiras do sistema e mais, solicitando a ajuda pública. Uma “outra versão” nos é mostrada nessa intervenção (ou interversão) artística urbana. Poderíamos ler Plebe do Crediário também como uma contraversão, ou até mesmo, “contravenção”, num sentido mesmo de ilegalidade ao desmascarar o discurso neoliberal.

Uma ação artística que promove a inscrição do dissenso e do desassossego num espaço que insiste em permanecer homogeneizado. Nesse ponto já é possível identificarmos uma forma de operação política. Para Diéguez (2011, p.47) tem-se hoje a emergência de estados efêmeros de encontro que “dão espaço a gestos de dissidência e diferença, e que por isso invertem as relações com o que nos rodeia’.

Em minha opinião, ao assumir-se como sujeito devedor e fracassado, o performer des-vela a condição de todos nós, numa abrangência que se desloca do pessoal para o coletivo. Num exercício cuja a “politicidade do íntimo” (LONGONI, 2001) atinge de frente nossos desejos consumistas e no contato com as pessoas as convida a um posicionamento. Acredito que a referida performance possa ter causado certo mal-estar na cidade por revelar que nosso cartão seria mais de débito do que de crédito. Oscilaríamos entre o papel do consumidor e do mendigo. Tal abordagem me ocorre pela posição do performer de permanecer sentado, numa alegoria corriqueira e habitual da corporalidade de um pedinte. Pedinte de socorro. Um corpo rendido, coisificado e cansado. Agora refém da “bondade de estranhos”. Recordo-me de um grafite num muro da cidade: “cartão de crédito: servidão voluntária”. O sistema se enriquece com nossa adesão e atestado de “constante pobreza”.

Mais novos acontecimentos emergem e alteram essa experiência: fiscais da prefeitura cobram alvará de autorização da realização do trabalho e diante da negativa exposta, exigem a retirada da caixa que circunda o artista. Com a saída da estrutura o performer se vê corpo-a-corpo com os passantes. Escuta conselhos, ganha ajuda, recebe uma garrafa de água. A intervenção dos agentes da prefeitura causa uma alteração radical na proposta. Como um “complicador cultural” (FABIÃO, 2008, p.237) agora o performer precisa sentir “a vida como sinônimo de imprevisto” (COHEN, 2002, p.97) e se dispor a abraçar aquilo que lhe acontece.

Imagem de Camila Buzelin

Penso na relação entre performance e alteridade: a abertura e escuta do outro. Se o performer deseja provocar e desestabilizar, também é necessário se disponibilizar para ser provocado, remexido e desprogramado. Não se trata de uma presença impositiva, mas compositiva. O performer como amante do desconhecido, nunca quer dominar nada e ninguém, mas se fragiliza e se assume humano e falível, exatamente aquilo que se nega a fazer as estruturas de Poder. Até porque para mim o exercício da performance se apresenta mais como uma experiência e um jogo a serem partilhados e menos um produto a ser apresentado ou vendido. Aquilo que acontece no contato com os outros se transforma em material e desafio para ambas as partes. Arte relacional e dialógica.

Uma “partilha do sensível” (RANCIÈRE, 2005), do visível e do vivível. A convivência com a diversidade “não necessariamente no nível de coletividades massivas, mas também de micro-comunidades e micro-encontros”. (DIÉGUEZ, 2011, p.47). Pensar a performance como uma micropolítica.

O artista arrecadou, através da ação vivenciada, dinheiro suficiente para liquidar as dívidas feitas, mas para mim, sua aprendizagem se deu a partir do momento que passou a perceber o quanto somos influenciados a gastar sempre mais e não nos demos conta dessa “teologia da necessidade” (CASTRO, 2008).

Nesse aspecto, podemos fazer um paralelo no que se refere à questão da produção artística pelo viés da prática da performance. Como arte híbrida e “colada” à vida, acredito que seu existir se condiciona a partir de uma necessidade de urgência. Precária, a performance não necessita de condições financeiras que a comprometam enquanto desejo e realização e se assume como “aqui e agora” com aquilo que se possui no momento. Daí a presença corporal e ativa do performer e sua abertura a todo tipo de interferência. Como um manifesto vivo e urgente, o programa a ser vivenciado por um performer não pode esperar pela aquisição daquilo que não existe, se produz com aquilo que se é possível. Isso pôde ser exemplificado pela performance Plebe do Crediário.

Nas palavras de CASTRO (2008) “contra a teologia da necessidade, uma pragmática da suficiência”. O performer, numa analogia com o nativo indígena, não deseja se tornar um senhor da verdade e da razão. Não aceita ser condicionado pelos ideais de desenvolvimento econômico. Sua arte se dá na imanência do corpo, na instabilidade do momento, na precariedade da vida, na aceitação da morte e na suficiência do seu desejo enquanto agente de um discurso, crítico de uma norma, artivista de uma revolta. Ainda que ele não consiga mudar o mundo, seu modo de viver e fazer arte não está ancorado no princípio capitalista, ele ainda se alimenta, ainda que utopicamente, da construção de uma sociedade mais humana e solidária. Pelo menos assim vivo meu projeto como performer.


Referências consultadas:

ARANTES, Priscila. Rede, arte e sociedade: utopia ou distopias. In: Arte e Tecnologia: Modus Operandi Universal. Instituto de Arte da Universidade de Brasília. Brasília: UNB, 2012.

CABALLERO, Ileana Diéguez. Cenários Liminares – teatralidades, performances e política. Urbelândia: Editora EDUFU, 2011.

CASTRO, Eduardo Viveiros. O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno. Disponível em: https://www.ufmg.br/boletim/bol1618/2.shtml  Acesso em: 18 de Maio de 2015.

COHEN, Renato. Performance como Linguagem: criação de um tempo-espaço de experimentação. São Paulo: Perspectiva- USP, 2002.

FABIÃO, Eleonora. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. In: Sala Preta: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, ECA-USP, São Paulo, n.08, 2008.

JACQUES, Paola Berenstein. Apologia da Deriva – escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

LONGONI, Ana. La politicidad de lo intimo. Homenaje a Tosco. In: Teatro al Sur. Revista Latinoamericana. N.19, edición especial V, Buenos Aires, Argentina, 2001.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do Sensível. Rio de Janeiro: Editora 34, 2005.

RIBEIRO, Isaque. A Performance Plebe do Crediário: Autobiografia Financeira em Tempos de Crise Econômica. In: Fronteiras e alteridade: olhares sobre as artes na contemporaneidade. Org: Maurilio Andrade Rocha, José Afonso Medeiros Souza. Belém: Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA, 2014.

quinta-feira, junho 11, 2015

Cartografia rizomática dos afectos da Festa deambulante: Deseos Obscênicos

Sutilezas brotam de corpos febris.

Corpos montados desmontam-se e amontoam-se e deslizam pelas ruas de BH. Derramam-se. Não se contêm e explodem purpurina. Ofuscam feito raio laser. Rasgam o cu com a unha, meu bem! Uma fechação que abre lugares. Permissão da fechação. Celebração dos rabos. Rabos formigando. Mais um gole de conhaque. Quero esquentar o peito, o rabo, as pernas, meu corpo todo. Isso me esquenta, me dá febre. Sigamos, ciganos! Agora não pergunto mais aonde vai a estrada! Quero ficar ensopada de suor! Salgadinha! Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada! Pode me chamar de bixa louca! bixo doido! Besta desembestada! Cheiro de piroca está rolando no ar/ Piroca, oba! / Me comendo o dia inteiro, me esporrando no sofá. Um vestido sofá rosa que girava. Fui Gira. Celebração do cu! Tem cu, tem cu, tem cu. Todo mundo tem cu. Rodopiei e me perdi de mim. Aliviei-me de mim. Fiz da faixa-pedestre uma faixa-dissonante do deboche. Ritual delirante. Preciso de um motivo para celebrar a vida? Não, comemoro instantes. A alegria nunca cansa de revolucionar e suprir a servidão aos poderes transcendentais, seja do Eu, do Tirano ou do Igual. Viva esse trem, uai! Trem de doido destrilhado, fora da linha. E desaguamos no bairro Savassi, com o peito lavado, embriagados de conhaque e risadas. Já estávamos gloriosos, divinos, refrescados. Desencardimos a alma!

Afete-me com seu desejo.

Ooooooooo! uau! Nossa! Vixe! Uhhhhhhh! Meu Deus do céu! Puxa! Coisa linda do universo! Fiu Fiu! Não tô acreditando! Acho que vou ter um treco! Minha nossa senhora imaculada do perpétuo socorro! Ueba! A-haaaaaaaaaaaaaai! Amei! êêêêê lá em casa! Puta que pariu! Escââândalo! Uh tererê! Maravilhoooooosa! Ai, ai, ui, ui! Eu não mereço tudo isso! Tudo isso é só pra mim? Eu hein Rosa? Muito doido! Tuuuuuuudoooooo! Afemaria! Olha a ola aí! Putz! Tudo de bom! Arrasou viado! Quê isso?! Uh - lá lá! Me leva que eu vou! Caraca! Oh my God! Arrasou Paris!


quinta-feira, maio 28, 2015

Festa ambulante e “deseos obscênicos”: encontros na cidade

Preparativos- Aquecimentos- Agenciamentos

O desejo de encontrar e trocar experiências com o coletivo artístico toda deseo. Surge a possibilidade de um festar na e pela cidade. Primeiras conversas: circular com um corpofesta e instaurar pequenas e temporárias festividades em locais de passagem e de aglomeração. Nomadismo noturno. Derivações espaciais. Ambiências festivas. Estados de festa. Acontecimentos e acometimentos alegres. Diversidades e encontros. Festa como ação gratuita que surge pela força dos acasos. Festa que pede participação. Segunda conversa: Corpos festeiros. Baderna, algazarra, comemoração. Carnavalizar. Criar situações. Risco, arriscar presenças. Desejos. Festa no ônibus? Mapas? Festa marcada ou invasão de corpos festivos? Uma TAZ (Hakim Bey)? Uma fechação? Os situacionistas estão chegando...



Minha cartografia afetiva- atletiva:
Uma escrita infestada começa aqui. Jogo perfográfico. Mapa sensitivo: o que ficou “dançando” em meu corpo. Memórias. Presenças. ConversAÇÕES.

Primeira parada: Bar da Cledir. “Tá rolando bafo puro!” Cerveja, alegria, paquera, corpos carnavalescos e muita excitação. Interação com a rua. O passeio do bar “infestado”. Chega Bárbara (uma moradora de rua que é trans) e a partir dos figurinos das personas começa a identificar as novelas da Rede Globo. Plim, plim! A gente causa... Point da concentração, esquentando os tamborins, tamancos, tamanhos, talentos. E mais cerveja. Um brinde! Levantem os copos. Levante de corpos. Um brinde? Não blinde nossos corpos. Vai ou não vai? Qual bus a gente entra? Qual bonde a gente forma? Vamos dar uma pinta, um rolé nos bares do Maletta?




Sim.

Lá vem a gaiola das loucas, dos loucos, dos alterados, vagabundos. Vagabundear como política dos afetos. Vaga, vagamos... vaga bunda, vago mundo, vaga noite. Vaga. Tem vaga, tem espaço, pode chegar.... vaga livre. Vagalumes, mariposas, risos, bebida, luminosidades... Pisca, pisca, pesca atenções, pesca movimento. Pisca vida! Pisca, pisca. Pica, picada na noite que só começa!

Segunda parada: Bar do Olympio no Maletta. “Luz na passarela, chegaram elas”. Somos foco, festa, fetiche, fichas, bichas, fechação...  Uma boate se inaugura. Festa dançante, noite generosa, música boa. Flashes, flechas, gentes que chegam e dançam coletivamente. Coreografia toda deseo, corpos inflamados, show gratuito, o público vibra... Festa, foco, somos fuleiros. Performance é fuleiragem (Medeiros, Bia). Contágio, peste, alegria como revolução e revolta. Re-voltam-se os corpos montados, pintados, pintudos, tesudos, carne viva! Fogueira, noite feiticeira. Os seguranças não sabem se nos contém ou se nos convém. VEM! Vem, vem, vem... Paisagem festiva. Chega Davi e seu violão.

- Vamos circular, gente? Tem mais lugares prá gente festejar. Despedida. Despe a dita. Despe esse calor, esse furor, esse desejo de festejar e abraçar a noite.

Terceira parada: Esquina da Rua da Bahia. “Serenata da piroca”. Foi na encruzilhada com a Guajajaras. Momento único. Carrinho de pipoca e canção dedicada a duas trabalhadoras e irmãs: Maria e Isabel. Pipoca, piroca, paçoca, oca. Casa do encontro. E elas se jogam, dançam com a gente, frisson, delícia, um pouquinho de loucura no trabalho, um pouquinho de descanso na loucura. Piroca. Pipoca. Salve Obaluaê! Cura a cidade dessa doença de tristeza, medo e silêncio. Senhor da Saúde dá-nos rebeldia, anarquia, alegria! Encruza, entrecruzam corpos nômades, chegam pessoas, mais festa que se esvai para a faixa de pedestre que se transforma em faixa musical, corporal, libidinal. Dança, gira, roda, ritualiza corpos e carnes. E atravessamos atravessados através do sinal vermelho de perigo, pestigo, peste, desejo... a festa está faminta, quer devorar mais gente. Comidos caminhamos para comer mais espíritos vagabundeantes.

Quarta parada: Café e bar. “Baile da Geni”. Espírito qual é o teu nome? Legião, re-ligião do amor e da alegria. Rodrigo Ferrari pega o violão e lá vem Chico Buarque prá gente reverenciar a Geni e jogar pedra na calmaria da vida. Um baile se forma: dança, rodopio, arrepio, assovio, teatro, te mato, te-ato, te cato, pura epifania... Somos corpo coletivo. Abocanhamos o espaço, mordidas, lambidas, a noite geme agradecida. Fogo, pavio curto, pólvora, incêndios poéticos. Alguma coisa acontece, alguma coisa entontece, festece, tece fios finos fibras, findos estados de prazer. VAMOS SUBIR GENTE? Força no “edí” (cú) e canta prá subir!

Quinta parada: Café Cultura. “Carnaval de Rua”. Já estamos excessivos, excessórios, exceções na ordem pública. Funk, fode, senta, e quem aguenta? De repente um novo bloco de corpos festivos vem chegando e eis um encontro mágico: beco das misericórdias. Corpos inflamados, quem sobe, quem desce, abraços, beijos, trocas, gritos, bando de indígenas devoradores, o tempo cotidiano coitado suspenso.... euforia, eu-folia, manifesta-ação, quem combinou esse momento? Esse corredor? Corre dor, corre normatividade, corre tempo cronológico... abençoados, abensonhados, protegidos pelo deus acaso, uma multidão alegre pára o trânsito, bloqueia qualquer passagem prá pedir passagem pra vida circular sem vergonha e comemorar sua trepada com o inexplicável. Instantes que ultrapassam meu existir. Bloco se desfaz e se refaz, o tempo jaz, a festa leva e traz.




Sexta parada: Igreja de Lourdes. “Performance bandida: ajoelhados e sem pecados”. O trânsito engarrafado, lento e os corpos soltos livres e velozes. Vorazes. Engarrafados com conhaque, agarrados ao espaço aberto e diante do sagrado ajoelhamos para ironizar a instituição do Pecado. Quanto custa o teu pecado? Pecado não existe.... ou se existe é não viver teu desejo, tua obscenidade, teu bailado e ficar ajoelhado esperando esse Deus que na verdade já dança nas ruas, nos corpos anônimos, nos sinais abertos, não fechados.... O tráfego de carros tão devagar, e nós na velocidade dos beijos, carícias, comemorando sei lá o quê, fazendo festa, fresta, fricote, frevo com essa noite que não cansa de gozar e a gente faz amor prá mais amar... O tráfego de carros tão devagar e nele o tráfico de corpos escravos: contidos, contenções, sentados, cansados, com tensões, “vem prá cá, tesões!”- convida a dama da noite. Rumo a praça da Liberdade? Mas a cada parada uma praça da liberdade e da libertinagem a gente cria!




A gente quer andar mais!

 Ambulantes, ambulância prá socorrer o mal estar de uma cidade estratificada, privatizada, mas “Paradise is now”, baby! E a festa ambulante segue e eu sigo outra festa, outras paragens e volto prá casa festejando essa saúde que não cessa, essa fome que não passa, esse cansaço que não cansa, essa alegria que não dorme, esse descontrole que protege, essa faísca-festa de vida que me engole, co-move, movência, mamulência, molecagem, festa brasileira, tupi-guarani, conga, puta, mestiça, festa madame, festa-enxame.



Que o céu da cidade nos proteja, festa benfazeja!

(Imagens de Lissandra Guimarães).


sábado, março 21, 2015

pirateando...

Estamos colocando em prática nossas políticas, micro-políticas, nossas afirmações das diferenças? Ou estamos querendo achatar-nos a uma identificação? E onde nossos corpos não se encaixam? O que fazemos com esse vazio entre?

Imagem: Cris Bierrenbach

quinta-feira, março 19, 2015

Como ativar um pirata-pesquisador?


Sobre a leitura do texto de Iliana Dieguez "Cenários Liminares - teatralidades, performance e política", proposto por Frederico:

Como escancarar e fazer ver aquilo que nos arrebata?
Como praticar uma transdisciplinaridade em nossas ações artísticas? Como combater as vozes solenes, moralizantes, ordeiras? Como fazer suspender nossos automatismos e explorar nossos espaços liminares, em nós mesmos?
Penso que, para isso, é importante questionar-se e fazer-se perguntas como: ainda não estou centralizando o meu pensamento em torno do que faço? O que isso colabora para a prática de um agrupamento? Será que preciso sempre dos exitosos para autenticar meu fazer?
Como funciona uma pesquisa em um coletivo com diferentes funcionamentos e maneiras de produzir?  Como explorar novos métodos, mais cartográficos, mais rizomáticos?
Se há método de pesquisa, trata-se de mergulhar nos afetos que permeiam os contextos e as relações que o pesquisador almeja investigar, permitindo-lhe se inserir na pesquisa e afetar-se com o objeto pesquisado, para produzir um traçado singular do que se propõe a estudar. A cartografia tem como trabalho metodológico a invenção e a implicação do pesquisador, uma vez que baseia-se no pressuposto de que o conhecimento é processual e inseparável do próprio movimento da vida e dos afetos que a acompanham. Na produção cartográfica, é preciso estar atento às desestabilizações que, no processo de trabalho, acometem tanto o pesquisador quanto seu objeto de estudo, seu campo de investigação. . Bem como trata Carmem Gadelha[1]



[1] GADELHA, Carmem. Por uma História do teatro Contemporâneo. In: MUNDIM, Ana Carolina; CERBINO, Beatriz; NAVAS, Cássia. Mapas e percursos, estudos de cenas. Belo Horizonte: Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas – ABRACE. 2014, p.148.

Este não-método trai as dicotomias em favor da genealogia, busca o descentramento, anseia pelas superfícies onde sujeito e objeto perdem unidade porque as grandezas combinadas formam uma trama de indiferenciações, fugindo ao quantificável e às hierarquias. O território é o da multiplicidade, sempre desterritorializado e reterritorializado mais além ou aquém, em jogos com as singularidades. As novas conexões impõem o intercâmbio entre o dentro e o fora (...) e se negam à sobrecodificação, à determinação histórico-conceitual.


Há um resultado a ser obtido? Vou escrachar. Será que isso é assim ou assado? Melhor escrachar!
Como combater as coordenações cínicas e tiranas da utilidade das coisas? Será que podemos ter menos expectativas? Será que o que enfraquece os encontros seriam os atrasos, ou seria a neurose da pontualidade? Um bom funcionamento depende do que? O que é comprometer-se? Será que estou comprometido porque chego no horário, não me atraso, não me ausento?
Escrachar, pôr em evidência. 
Há um regulamento? Há de sempre ficar repisando o que já foi feito? Como ultrapassar nossas auto-afirmações? Elas são necessárias? Será que vamos ficar para sempre repassando o que é que se faz e deixa de ser feito? Quando é que inventamos algo diferente? Vamos parar sempre nossos vôos para ficar falando que não estamos aprofundando? Não seria melhor aprofundar logo de uma vez, contagiar com seu naufrágio?

É preciso ressaltar que esta cartografia é um investimento em uma jornada rumo ao desconhecido. Uma abordagem sobre o corpo e suas potências produtivas, uma vez que não se sabe o que realmente pode um corpo em processo, quais são os seus limites inventivos. As linhas que o rizoma sugere faz fugir dualismos, centralidades e binarismos. Trata-se de produzir na ordem da imprevisibilidade, no risco de corpo que age; precisa-se partir da desnaturalização das leis da normalidade; investir na potência de transformar e dar visibilidade a outros encontros, outros modos de subjetivação que afirmem a vida e a arte em toda sua adversidade. Vale ressaltar, conforme Gislei Lazzarotto[1],



[1] LAZZAROTTO, Gislei Domingas Romanzini. Experimentar. In: FONSECA Tania, M.G. Fonseca (org). Pesquisar na diferença: um abecedário. Porto Alegre: Ganlina. 2012, p. 101 e 102.

Para experimentar vista-se de não senso. Abandone a cronologia e habite o tempo que flui no movimento de pensar. Opte por seguir pelas passagens de novos sentidos e faça do absurdo a matéria do pensamento. Crie palavras para acolher os afetos que se produzem neste percurso. Deixe o método, a explicação e a interpretação desamparados. (...)Trata-se de ultrapassar o que se coloca como limite entre sujeito e objeto para problematizar a relação produzida neste movimento. Implica construir um modo de pesquisar que acolha a experiência que insiste em expressar a multiplicidade que nos constitui. (...) O laboratório está em você. Ande com o pensamento e percorra os afetos que lhe tocam ao pesquisar.

Este entrelaçamento que dissolve funções e refunde funcionamentos rizomáticos entre produto e processo, sujeito e objeto, como também entre teoria e prática, faz do work in progress, de Renato Cohen, e sua elaboração sobre a obra em processo, uma ferramenta importante para a realização de pesquisas:

A criação pelo work in progress opera-se através de redes de leitmotive, da superposição de estruturas, de procedimentos gerativos, da hibridização de conteúdos, em que o processo, o risco, a permeação, o entremeio criador-obra, a iteratividade de construção e a possibilidade de incorporação de acontecimentos de percurso são as ontologias da linguagem. O uso de linhas de força (leitmotive criativos, narrativas) de “irracionalidade”, a incorporação do acaso/sincronicidade, são operações do work in progress, no qual o paralelismo entre o processo e o produto são matrizes construtivas da linguagem. [1]

Como trabalhar em coletivos de pessoas? Como tornar nosso espaço de pesquisa um mar aberto, desconhecido? 



[1] COHEN, Renato. Work in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção. São Paulo: Perspectiva. 2013, p. 1, 2.   

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Salve 07 anos do OBSCENA


No final de novembro o Obscena conversou sobre tantas coisas: a rua, a cidade, os desejos, arte, festa, gente, ENCONTROS etc. E também comemoramos sete anos de existência. Re-existência. Re-insistência. Sempre experimentando diferentes formas de estar, ocupar, pesquisar, ajuntar, compor e nos alimentar. Alimento! Não faltou café nas conversas e um delicioso jantar para celebrarmos nosso instável modo de estarmos nos afetando.

Um grande respirador- afirmou a Lissandra. Um balão de oxigênio? Talvez sim. Oxigenar vida, desejos, interesses, pesquisas, percepções e grupalidades. Encontro de singularidades e multidões. Espaço que se re-inventa a cada vez que nos encontramos. Invenções artísticas, políticas e poéticas.

Num dos encontros tivemos a presença de Luiz Carlos Garrocho e Daniel Toledo. Deliciosas conversas e provocações. Rede de afetos. Permeabilizar. Arriscar. Perguntar! Tirar as coisas do lugar! Com-partilhar. Des-colonizar espaços, percepções e conceitos. Reafirmar nosso amor pela rua: lugar no qual a vida está sempre acontecendo!


E ainda aconteceu mais um “Sonoridades Obscênicas” e nele a alegria de perceber que somos MUITOS! No texto final uma saudação a todos os coletivos, movimentos, ocupações, artistas e acontecimentos de BH que nos atravessaram e nos formaram nesses tantos anos! Uma homenagem a tanta gente!!!! Pura festa.

Cidade Festejada

Salve Cidade Festejada
Belo Horizonte ocupada
por ações poéticas
cidadãs
Indignadas!
Com ruas invadidas
humanizadas.

Nessa rua tem Encontro?
Salve OBSCENA, VAGO COLETIVO, CONTRAPONTO!

Nessa rua tem um rio?
Salve UNDIÓ, LIO COLETIVO, CONJUNTO VAZIO!

Nessa rua tem poesia?
Salve PORO, PAISAGENS POÉTICAS, KASA VAZIA!

Nessa rua tem flores?
Salve ZONA DE INTERFERÊNCIA, SAPOS E AFOGADOS, OS CONECTORES!

Nessa rua tem contaminação?
Salve QUANDOCOISA, LARANJAS PODRES PERFORMÁTICAS, COLETIVO LIQUIDAÇÃO!

Rastro, roda, rua, risco , rede?
A cidade tem fome e sede
A cidade vive ardendo
Já existe uma vida acontecendo!


E salve todas as formas de ocupação:
DANDARA, ISIDORO, ROSA LEÃO!
ESPAÇO COMUM LUIZ ESTRELA, SALVE A PRAIA DA ESTAÇÃO!

E toda essa gente comum e banida
infecta a cidade com carne e vida!

E toda essa multidão avança e continua!
Vamos botar nosso bloco na rua!


segunda-feira, dezembro 08, 2014

cadeiras e passarinhos

polvo,
posto aqui uma edição de cadeiras com a música de Andrew Bird.
em uma linda quinta-feira de 2012

no youtube

no vimeo



sexta-feira, novembro 28, 2014

PRECISO

To cansado de tanta babaquice, tanta caretice, desta eterna falta do que falar
Como me libertar das minhas prisões?
Do meu eu intelectual colado ao poder?
A contínua necessidade da afirmação de si
Quanta palavra de ordem!!!!
Quantas verdades absolutas!!!
Ai, que preguiça!
Quero romper em mim todo espelhamento,
Com toda operação por semelhança
Ultrapassar o já estabelecido
Os micro fascismos das formas, das anti-formas, de um anti-modelo que se pretende modelo
Preciso trocar com outros modos de produzir arte
Que com desejo se apropriam de outros dispositivos
Que com desejo percebam que corpo não é só um corpo,
Que como desejo investiguem outras relações com a sua própria existência,
que extrapolem o já vivido,
que percebam relações afectivas entre seu corpo e o mundo
Devir-natureza
Que minha troca
gire sem centro, sem rodar só em torno de si
Preciso me descentralizar
Preciso perder-me
Girar e me contorcer com o mundo

Com a vida

domingo, novembro 23, 2014

É permitido criar cartazes - SONORIDADES

- "É proibido colar cartazes" - discursa o pequeno poder.

- "É proibido calar catarses" - responde o artista na rua.

- "É permitido criar cartazes" - inventa/cria um desejo obsceno.

Na variedade dessa invenções de Wagner Alves (abaixo) se revela algumas características do nosso show: intertextualidade, polifonia, bricolagem, paródia, performatividade, obscenidade, marginalidade, ludicidade etc. 

Uma performance das imagens!!!

Esses cartazes "cantam" o show e merecem nosso estudo.

Vou estudar brevemente esses materiais também já criados por Joyce Malta e Débora Fantini.

Obrigado queridos parceiros!!!




Obscena e danças urbanas


A reportagem sobre danças, que inclui ações do  obscena, foi publicada no jornal Pampulha (Belo Horizonte) desta semana e pode ser lida na íntegra neste link:

http://www.otempo.com.br/pampulha/reportagem/baila-comigo-1.947461

quinta-feira, novembro 06, 2014

Cidade Feiticeira em noite das bruxas

Publico o texto final do Sonoridades Obscênicas realizado no último dia 31 de Outubro na Gruta.


Cidade Feiticeira (poema final).




Salve cidade feiticeira.
Bruxa. Faceira.
Profana cigana pagã.
Que morde a maçã
e não morre envenenada.
Não aceita ser dominada.
E ainda dá gargalhada
Na cara do Poder.


Cidade mulher prazer.
Roda essas sete saias.
Rainha Morgana.
Princesa sacana.
Deusa maya!
manda para a fogueira os inquisidores
e salva a nós todos. Teus adoradores.
Abre as pernas. É cheia essa lua.
Deixa eu colocar meu bloco na tua rua.

sábado, outubro 04, 2014

Nessa cidade tinha uma praça


Nessa cidade tinha uma praça

(poema final apresentado no último Sonoridades Obscênicas na festa de encerramento do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto)

Nessa cidade tinha um lugar
que se chamava praça.
Nela se entrava de graça
e podia se festejar.

Mas hoje é um lugar murado
parece uma praça-curral!
O espaço público se tornou privado
e tem gente que acha normal.

Que saudades de uma Belo Horizonte plural!

Hoje: cidade espetacular
Patrulhamento militar
quem é que pode entrar?
quem é que pode entrar?

Em nome de uma falsa proteção
só reforçam a exclusão!
Aqui não entram vagabundo, pobre e favelado
e nos transformam em gado
números
corpos vigiados!

A história da segregação
não é uma cena curta
há muito tempo se estupra
nosso direito de cidadão!

Imagem de Tamás Bodolay


Mas nessa paisagem ainda tem um LUTAR
feito de força, coragem e raça
que todo dia reconstrói uma praça
de uma cidade que a gente quer habitar!

Cidade possível!
Cidade potente
cidade com gente
que não se cansa de gritar:

CHEGA DE MUROS, GRADES E GRUAS!
VAMOS BOTAR NOSSO BLOCO NA RUA!

quarta-feira, setembro 24, 2014

Jogo dos sete erros: Apontamentos perfográficos a partir de “Geografia Inútil” do ERRO grupo


(Experiência vivida no dia 08/09/14 na Praça da Alfândega em Florianópolis/SC. O ERRO grupo tem como integrantes: Luana Raiter, Luiz Henrique Cudo, Pedro Bennaton e Sarah Ferreira. Para saber mais: www.errogrupo.com.br).

1- Parece-me um show musical no centro da cidade. Parece-me uma feira de variedades. Espaço aberto. Parece-me um pequeno grupo de vendedores-ambulantes que desejam conseguir nossa atenção e adesão. Parece-me uma provocação para os transeuntes. Certo ou errado?

2- Eles nos convidam para uma maior aproximação à um espaço improvisado. Uma tenda de ciganos? E nos abandonam lá. Saem e nos deixam reunidos. Algo acontece: as pessoas se olham, se reúnem e se re-conhecem! Somos parte da cidade. Mas somos cidadãos?

3- Começa a música. Anúncio e propaganda da venda do disco vinil da banda Geografia inútil. Quem quer comprar? Vinte reais. Eles nos pedem ajuda. Arte é produto?


4- Carnalidades no espaço público. Ironia: o show vai sendo abandonado pelos integrantes. Quem tem coragem de assumir o fracasso numa sociedade do sucesso? Sobreposição de ações, imagens e situações. Relações nascem no espaço. Roupas trocadas, discos lançados ao vento, capas de disco rasgadas e escritas inauguradas. A cidade-placa surge com suas dramaturgias. A escritura (texto performático) nasce diante de nossos olhos? O que se inscreve? Textos protestos de corpos de carne.

5- Não há mais centro nem margens. Tudo acontece! Surgem os estereótipos de uma visão colonizada do Brasil: carnaval, mulata, futebol, heróis e ambulantes de rua. Que geografia mais inútil! Mistura de teatro de rua e intervenção urbana. Composições espaciais. Vejo um senhor segurando uma placa-capa rasgada do disco. Vejo o Batman nas árvores da praça. Fluxos da vida urbana. Quem performa agora?

6- Caos? Ordem? A Voz do Brasil? Isso é espaço público? Em qual geografia você está aprisionado? E o poste que se transforma numa instalação com objetos, roupas e adereços? Quem faz parte dessa ação na cidade? Aquela mulher ali na praça também “erra”? Embaralhamentos. Sim? Não? Talvez? Erro ou acerto? Paisagens se des-locam. Se há geografia, essa é nômade! Trabalho político. Espaços globalizados? Certezas diluídas. Existem identidades nacionais?

7- A cidade performa. De-forma. RE-forma. O ERRO GRUPO perfura a estabilidade dos espaços. Corpos que brincam de viver! Acontecimento. Anarquia. Escrevemos todos nossos textos e deambulamos nossas poéticas pela praça. Concentração e circulação de corpos, desejos e afetos. Utopias. Uma política da Proximidade. O confronto com os estranhos. A desordem vivifica! “O jogos dos passos cria espaços, tece lugares”. Essa frase é de quem?

( ) Michel Certeau
( ) Michel Foucault
( ) Michael Jackson.

TENTE ERRAR! TENTE!

Vivenciei espaços para o erro. ERRO pára a vida? Ou ERRO PARA A VIDA?

Falta mais erro em nossas vidas?

segunda-feira, setembro 22, 2014

Entre o ouro e o preto, eu quero a nuvem

(Publico o texto final do show "Sonoridades Obscênicas", especialmente criado para a cidade de Ouro Preto).


"Entre o ouro e o preto
eu quero a nuvem
Teu corpo penugem
com teu corpo suar!

Foto de Beatriz Mendes


Entre a igreja e o Bar
eu quero cantar!
Orar
em línguas de bêbado e poeta
quero Ouro Preto aberta
não ter mais que pagar!

E de bar em bar
feito procissão
pedir proteção
pró-tesão
pró- Amar!

Me acabar
em vida
se a bebida
não me lançar
para tuas noites nuas
beijar
tuas luas
e tuas ruas
Louvar!

Pois minha igreja não é barroca
Minha Igreja é o BARROCO
que não existe mais!
Ou então o BARRABÁS!!!
Saudades do Barrabás!

Eu quero um país Barrabás!
Chega de nação de jesus!
Vamos tirar o Brasil da cruz!
Do pecado, da moral e do sacrifício
vamos fazer do prazer um vício!
Chega de escravidão!
Eu quero um país pagão!
Feiticeiro, brincante e plural
porno-político e sexual!

A alegria é meu SANTO FORTE
meu FRIC, meu chilique!
Meu PORÃO TREZE
Minha RUA DA LAMA
Deixa Ouro Preto ir para a cama
fazer amor
sem preconceito de classe, sexo e cor!

Que se feche uma igreja
e se abra um Bar
para a Diferença livremente dançar!

Numa cidade sem palco
sem grades
sem anjos
sem santos
sem gruas!
EU QUERO BOTAR NOSSO BLOCO NA RUA!"

segunda-feira, setembro 15, 2014

Cena dissidente e estridente: SONORIDADES OBSCÊNICAS em Ouro Preto.


Para a apresentação do show Sonoridades Obscênicas na festa de encerramento do I Seminário de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFOP, na última sexta dia 12, um novo roteiro performático/multi-temático foi criado.

A dedicatória do show foi para figuras históricas da cidade como dona Olímpia, Efigênia Carabina e todos os negros e negras que construíram e constroem a cidade. Fora a saudação aos escravos, aos libertos e libertinos, incluindo aí os bêbados e poetas. A relação mítica e mística com a cidade se intensificou.

Com a coordenação musical de Sabrina Biê mexemos em alguns arranjos e ainda tivemos a presença intensa da cantora e atriz Thaiz Cantasini que leu poemas e cantou “Carcará”. Mais uma atualização ouro-pretana com essa participação especial dessa “mulher em chamas”.

Novos poemas surgiram como o “Pau Feliz” de Elisa Lucinda na voz de Frederico Caiafa e “A língua lambe”, um poema pornográfico do Carlos Drummond de Andrade na voz de Sabrina Biê. Distribuímos nesse momento pirulitos de coração vermelho para a plateia que lambia e se beijava... A intertextualidade está sempre presente nessa experimentação. Foi uma noite bem erótica.

Recuperamos o momento “Classificados” da cidade: anúncios sexuais, de cura, de vendas e concomitante a formação de um “trenzinho da alegria” corporal. Aqui a produção de corpos libertos experimentando novas formas de prazer. Mas prazeres dissidentes.

Isso sem falar nos figurinos repaginados e maquiagens sempre novas! Aqui surge uma questão: comecei como anjo de túnica , depois anjo de sunga até finalizar como indígena, ainda vestindo uma camisa de seleção brasileira. Uma passagem da cristianização ao paganismo. Do civilizatório ao selvagem. Isso devido ao fato de sermos um país cristão e Ouro Preto uma cidade extremamente católica. Foi uma desfiguração e decomposição de uma colonização europeia! E também uma crítica ao aspecto religioso que vigora em nosso país e viola nossos direitos humanos. Uma série de leis são vetadas devido à dificuldade de se fazer política de forma laica e realmente democrática.

No poema final (que breve publicarei) surgiu o corpo que deambula na cidade histórica entre as igrejas e os bares. Entre o céu e a terra (ou será o inferno?). Entre o sacrifício e o vício. Entre o pecado e o prazer. Entre a identidade e a diversidade. E escrevi sobre uma memória de bares que não existem mais em Ouro Preto e foi emocionante porque as pessoas reagiam intensamente e falavam nomes de inúmeros lugares. Afeto e memória de ESPAÇOS nos quais o corpo é FESTA, ENCONTRO, DIVERCIDADE, FELIZ-CIDADE!

E mais: espaços de liberdade de se estar, amar, expressar, transar e transitar. Um exemplo: o delicioso BARRABÁS (saudade do Wallace), bar alternativo de uma cidade de Jesus e de cruz! Espaço de resistência numa sociedade estruturalmente conservadora e heteronormativa.

Atualização, experimentação, paródia, ironia, deboche e fatos e acontecimentos passados em revista e revisão com.....POESIA, MÚSICA, DANÇA E TESÃO! Daí meu interesse nessa performatividade política do trabalho. Os cantos de umbanda ecoando como vozes dissonantes numa cidade predominantemente cristã. Show de protesto, festa de rua, sarau poético-político e teatro de revista contemporâneo.

Poéticas da Recusa

Foi uma apresentação desafiante. Nas palavras de Matheus: “um touro teimoso”. Não para ser dominado, mas conquistado. Lidávamos o tempo todo com o excesso, o caótico, o disperso, o estranho etc. Mas foi maravilhoso sermos “devorados” por aquilo que já acontecia anteriormente à nossa chegada. Não há como recusar o ACONTECIMENTO!

Não há como recusar a VIDA INTENSA!

Se há a possibilidade de uma recusa, essa para mim, se dá no campo das capturas de nossa alegria e DESEJO de se efetuar micropolíticas. De se criar micro-espaços. De se instaurar micro-utopias. Zonas autônomas temporárias. Espaços arejados.

SONORIDADES recusa o acabamento, o fechamento de formas, o não perceber os outros, a imposição de uma presença, a pretensão de ser mais arte que vida, a proibição de corpos manifestos ou corpos “many-festas”. Tudo isso porque penso que desejamos inventar, ainda que momentaneamente, um outro espaço, outras formas de existência que seriam poéticas também de uma recusa. Mas numa maneira

[…] de recusar todos esses modos de manipulação e de telecomando, recusá-los para construir modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com o desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que são os nossos (GUATTARI E SOLNIK, p.22, 2007).


E a força revolucionária da festa! Nos modificamos, modificamos os tempos, o espaço, modificamos corpos e sensações. Saímos de lá modificados e molhados pelas águas do desejo e do encontro. Tudo isso gerado pela Alegria. Pois:

a ética e a estética da alegria supõem uma boa dose de loucura não psiquiátrica, de poesia, de arte, isto é, do inútil. A alegria, como o desejo, é inútil, quer dizer, revolucionária. Só a alegria e o desejo são revolucionários. Eis porque a alegria não é uma produção de uma consciência domada, ressentida, analisada, divinizada ou divãnizada (LINS, p.54, 2008).

No final a celebração e a instauração de uma cidade na qual “todo mundo irradia magia”. Cidade-água, fluída, acolhedora porque “a força que mora n'água não faz distinção de cor”... Foi uma noite de amor!!!

Referências:

FURTADO, Beatriz; LINS, Daniel(org). A Alegria como Força Revolucionária – ética e estética da alegria. In: Fazendo rizoma: pensamentos contemporâneos. São Paulo: Hedra, 2008.

GUATTARI, Félix e SOLNIK, Suely. Micropolítica - Cartografias do desejo. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.