agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

segunda-feira, setembro 15, 2014

Cena dissidente e estridente: SONORIDADES OBSCÊNICAS em Ouro Preto.


Para a apresentação do show Sonoridades Obscênicas na festa de encerramento do I Seminário de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFOP, na última sexta dia 12, um novo roteiro performático/multi-temático foi criado.

A dedicatória do show foi para figuras históricas da cidade como dona Olímpia, Efigênia Carabina e todos os negros e negras que construíram e constroem a cidade. Fora a saudação aos escravos, aos libertos e libertinos, incluindo aí os bêbados e poetas. A relação mítica e mística com a cidade se intensificou.

Com a coordenação musical de Sabrina Biê mexemos em alguns arranjos e ainda tivemos a presença intensa da cantora e atriz Thaiz Cantasini que leu poemas e cantou “Carcará”. Mais uma atualização ouro-pretana com essa participação especial dessa “mulher em chamas”.

Novos poemas surgiram como o “Pau Feliz” de Elisa Lucinda na voz de Frederico Caiafa e “A língua lambe”, um poema pornográfico do Carlos Drummond de Andrade na voz de Sabrina Biê. Distribuímos nesse momento pirulitos de coração vermelho para a plateia que lambia e se beijava... A intertextualidade está sempre presente nessa experimentação. Foi uma noite bem erótica.

Recuperamos o momento “Classificados” da cidade: anúncios sexuais, de cura, de vendas e concomitante a formação de um “trenzinho da alegria” corporal. Aqui a produção de corpos libertos experimentando novas formas de prazer. Mas prazeres dissidentes.

Isso sem falar nos figurinos repaginados e maquiagens sempre novas! Aqui surge uma questão: comecei como anjo de túnica , depois anjo de sunga até finalizar como indígena, ainda vestindo uma camisa de seleção brasileira. Uma passagem da cristianização ao paganismo. Do civilizatório ao selvagem. Isso devido ao fato de sermos um país cristão e Ouro Preto uma cidade extremamente católica. Foi uma desfiguração e decomposição de uma colonização europeia! E também uma crítica ao aspecto religioso que vigora em nosso país e viola nossos direitos humanos. Uma série de leis são vetadas devido à dificuldade de se fazer política de forma laica e realmente democrática.

No poema final (que breve publicarei) surgiu o corpo que deambula na cidade histórica entre as igrejas e os bares. Entre o céu e a terra (ou será o inferno?). Entre o sacrifício e o vício. Entre o pecado e o prazer. Entre a identidade e a diversidade. E escrevi sobre uma memória de bares que não existem mais em Ouro Preto e foi emocionante porque as pessoas reagiam intensamente e falavam nomes de inúmeros lugares. Afeto e memória de ESPAÇOS nos quais o corpo é FESTA, ENCONTRO, DIVERCIDADE, FELIZ-CIDADE!

E mais: espaços de liberdade de se estar, amar, expressar, transar e transitar. Um exemplo: o delicioso BARRABÁS (saudade do Wallace), bar alternativo de uma cidade de Jesus e de cruz! Espaço de resistência numa sociedade estruturalmente conservadora e heteronormativa.

Atualização, experimentação, paródia, ironia, deboche e fatos e acontecimentos passados em revista e revisão com.....POESIA, MÚSICA, DANÇA E TESÃO! Daí meu interesse nessa performatividade política do trabalho. Os cantos de umbanda ecoando como vozes dissonantes numa cidade predominantemente cristã. Show de protesto, festa de rua, sarau poético-político e teatro de revista contemporâneo.

Poéticas da Recusa

Foi uma apresentação desafiante. Nas palavras de Matheus: “um touro teimoso”. Não para ser dominado, mas conquistado. Lidávamos o tempo todo com o excesso, o caótico, o disperso, o estranho etc. Mas foi maravilhoso sermos “devorados” por aquilo que já acontecia anteriormente à nossa chegada. Não há como recusar o ACONTECIMENTO!

Não há como recusar a VIDA INTENSA!

Se há a possibilidade de uma recusa, essa para mim, se dá no campo das capturas de nossa alegria e DESEJO de se efetuar micropolíticas. De se criar micro-espaços. De se instaurar micro-utopias. Zonas autônomas temporárias. Espaços arejados.

SONORIDADES recusa o acabamento, o fechamento de formas, o não perceber os outros, a imposição de uma presença, a pretensão de ser mais arte que vida, a proibição de corpos manifestos ou corpos “many-festas”. Tudo isso porque penso que desejamos inventar, ainda que momentaneamente, um outro espaço, outras formas de existência que seriam poéticas também de uma recusa. Mas numa maneira

[…] de recusar todos esses modos de manipulação e de telecomando, recusá-los para construir modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com o desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que são os nossos (GUATTARI E SOLNIK, p.22, 2007).


E a força revolucionária da festa! Nos modificamos, modificamos os tempos, o espaço, modificamos corpos e sensações. Saímos de lá modificados e molhados pelas águas do desejo e do encontro. Tudo isso gerado pela Alegria. Pois:

a ética e a estética da alegria supõem uma boa dose de loucura não psiquiátrica, de poesia, de arte, isto é, do inútil. A alegria, como o desejo, é inútil, quer dizer, revolucionária. Só a alegria e o desejo são revolucionários. Eis porque a alegria não é uma produção de uma consciência domada, ressentida, analisada, divinizada ou divãnizada (LINS, p.54, 2008).

No final a celebração e a instauração de uma cidade na qual “todo mundo irradia magia”. Cidade-água, fluída, acolhedora porque “a força que mora n'água não faz distinção de cor”... Foi uma noite de amor!!!

Referências:

FURTADO, Beatriz; LINS, Daniel(org). A Alegria como Força Revolucionária – ética e estética da alegria. In: Fazendo rizoma: pensamentos contemporâneos. São Paulo: Hedra, 2008.

GUATTARI, Félix e SOLNIK, Suely. Micropolítica - Cartografias do desejo. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.

6 comentários:

Clarissa Alcantara disse...

Eu sinto, eu vejo, eu presencio, do alto da vista de um mar aberto longínguo, as grossas montanhas das minas e o céu, e as gentes e os espíritos ouropretanos, eletrizados por essas sonoridades obscênicas que não param de se avolumar em sua força transmigradora, correndo solta fora da cena mundo afora !!!

Clarissa Alcantara disse...

Que escrita, Clóvis, bendita!! Ouça! Tocam sinos de todas as igrejinhas. Salve essa Gira!!!!

Nina Caetano disse...

clarissa, clarissa... tão distante!
também te vejo aqui.
beijos de saudades de você que nem te vi.

Leandro Silva Acácio disse...

Alegria, alegria benfazeja bate em mim ao ler seu texto, meu amigo!
Vem assim, como um espanto!
Bravíssimo!!!

Monteiro Zé disse...

E se fosse preciso traduzir o que foi o Sonoridades Obscênicas em Ouro Preto, a tradução já estaria feita por estas belas e verdadeiras palavras do Clóvis.

Clóvis Domingos disse...

Gente, que bom ler as reverberações desse texto. A experiência em Ouro Preto ainda vibra em mim. Obrigado pelos comentários e trocas. Vamos que vamos!!!!