agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

sábado, dezembro 01, 2012

AMOREXIA



AMOREXIA – um sintoma performático



Há alguns anos venho pesquisando e experimentando o que chamo de “trabalhos de escuta em exercícios de criação performática”. Em 2007 surgiram: “Fécondation” (Fribourg, Suíça), “ROL” (Ufop, Ouro Preto) e “Se você me abrisse” (Mostra NODO, Ufop).

Já em 2008 realizei junto ao agrupamento Obscena “Escuto histórias de dor e amor” (Belo Horizonte) e em 2009 “Diz-ritmia” (Festival de Teatro de Juiz de Fora). Desde 2011, em parceria com o pesquisador Leandro Acácio, realizamos a ação poético-urbana “Irmãos Lambe-Lambe”, nas ruas de Belo Horizonte. Ação de fotografar e escutar as narrativas dos transeuntes e moradores. Uma clínica da rua. O que escutamos e conversamos se transforma numa carta, que depois é enviada à pessoa juntamente com a fotografia revelada.

No mês passado aproveitei a visita de uma querida amiga de São Paulo e experimentamos pela primeira vez o trabalho “Amorexia”. Mais uma ação de escuta e encontro.

ANOREXIA: distúrbio alimentar que pode causar diversos problemas fisiológicos e psíquicos. Preocupação exagerada com o peso corporal. Dificuldade de se alimentar.

AMOREXIA: invenção artística. Pretexto para falar da vida. Desculpa para celebrar encontros. Possibilidade de ritualizar vivências. Experiência de falar de amor. Será que a dor vai ficar magrinha depois? Uma escuta performática.

DADOS:

LOCAL DA CONSULTA: domiciliar, parte interna. Minha amiga escolheu a cozinha.
RELAÇÃO: íntima, próxima, o verbo é “outrar”.
CENÁRIO: cadeira.
ELEMENTOS: balde com água morna; sal grosso, perfume; lanterna ou velas; aparelho de som; CDs e toalhas limpas.
TEMPO DE DURAÇÃO: variável, livre, indeterminado.
O QUE PODE ACONTECER: encontro, relato, memória, escuta, esquecimentos, ficções, acasos, performance, choro, risos, silêncios e surpresas.
INDICAÇÃO: Amorfina é para vidas amorfas! Amorexia já!
(A ação foi realizada em minha casa à noite. Minha amiga me relatou momentos fortes e depois fui preenchendo o seu prontuário performático).

PRONTUÁRIO POÉTICO PERFORMÁTICO (PPP):

NOME: Dolorida
ESTADO EMOCIONAL: Desiludida
ESTADO CIVIL: Abandonada
ESTADO SEXUAL: “Durmo com Deus e mais nada”...
IDADE: A da saudade
ALIMENTAÇÃO: come por ansiedade
TEM SONHADO? Não.
DATA DA CONSULTA: Sob o signo de Escorpião.

A participante não apresentou queixas graves, apenas memórias de alguns momentos amorosos mais complicados.

UTILIZA ALGUM TIPO DE MEDICAÇÃO PARA OS GOLPES DO CORAÇÃO?

Disse que já tomou:
- Doril, mas a dor não sumiu.
- Rivotril, mas a dor persistiu.
- Ingeriu bebida alcoólica, mas ficou mais melancólica.
- Tentou tomar veneno, mas o peito não ficou sereno.
- Pensou em fazer plástica, mas a alma pediu por ginástica.
- Praticou muito sexo, mas não houve muito reflexo em sua nostalgia...

PERFORMERDIAGNÓSTICO: precisa de sessões de amorexia.

RECEITA:

Não há receita
Palavra pronta ou feita.
Por isso:
“Fala, fala de
Amor!
Amortece tua dor
Amor tece amor
Amor prece
Reforma
Teu ser...
Será que vai desaparecer
Essa dor depois?
Mas quem aqui performa?
Nós dois.

E no final?
Ela abriu seu coração
E eu lhe dei uma canção”.

Quer saber mais? Me escreva e marque uma visita.

12 comentários:

Nina Caetano disse...

eu quero, eu quero, eu quero amorexia!!!!

Balaio da Vivi disse...

hahaha A-DO REI, Clóvis! Quero tbm!!! AMOREXIA já! (Gostei demais da ideia. Da ação. E do "resultado". Gostei tbm da definição de do que vc disse sobre os encontros... Nem sempre eles acontecem.) Tomara que inspire AMORES por aí. Que vire FEBRE! Ardência. Que queime na alma e no corpo. Penso que tem que passar pelo corpo, senão não serve. Por isso, AMOREXIA, não é? Pq passa pelo corpo. Beijocas.

lissandra guimarães disse...

nossa!
percepção profunda
invenção maravilhosa
tratamento fantástico
ação revolucionária
salve clovito!!!
salve e cure!

lissandra guimarães disse...

nossa!
percepção profunda
invenção maravilhosa
tratamento fantástico
ação revolucionária
salve clovito!!!
salve e cure!

Sabrina Andrade disse...

Alquimista Clovis,
O que vejo é que crias uma nova nosologia, profunda, sobre a prática do amar e do não amar.
O sujeito anorexo também é aquele que tem uma visão destorcida da imagem real de seu corpo. Ele sempre se vê mais gordo e feio, o que o faz ter verdadeira repulsa aos alimentos, suprimentos indispensáveis à existência de um corpo. Para um anorexo a comida é a grande vilã do descontentamento produzido pelo encontro deste sujeito com a sua IMAGEM.
Não sei ao certo mas vou me atrever a falar: cria-se uma patologia por falta de amor, ACEITAÇÃO e carinho por este corpo.
E quantos corpos temos? Quantos tipos de anorexias podemos produzir? E o que seria cuidar de um corpo anorexo?
Amorexia!!!
Ai está colocada por você alquimista Clovis, a profilaxia do amor! 
Amorexia que re-altera a imagem de si, proposta em uma cartografia orgânica/inorgânica que permite ao corpo, aos afetos um deslocamento em “cena”... novas possibilidades de constituir-se outros(as)... junto ao encontro e cuidado do amigo.
Quero conversar mais e experimentar também!
Abraços,
Sassá.

Clóvis Domingos disse...

Gente, estou adorando os comentários, muito provocantes e me abrem mais pontos de pesquisa e investigação. Realmente a arte da performance é um "campo expandido", algo que muito me interessa. Obrigado pelas colaborações de vocês, já estou montando um mural de falas e visões femininas sobre essa experimentação e breve desejo praticá-la com cada uma de vocês!Acho que ela será sempre única e desconcertante.
Abraços, Clóvis.

Denise Pedron disse...

Estou curiosa pra saber meu PPP!!!
Adorei!

Frederico Caiafa disse...

Olha, eu não tenho dinheiro, para apagar tamanha exercício. Se for para meu sossego pagaria toda esta reles vida. Quero amorexia! Que dia, que horas, onde podemos fazer esta terapia?
Beijo

MARIA HOLTHAUSEN disse...

Poético, Sensível, Bem humorado.
Adorei Clóvis.
Gosto muito desse seu olhar de aquarela. Por onde passa, ele escorre, deixa marcas, muda as cores e as configurações. Mas como não é sólido, não se desmancha com o ar.
"Livre, leve e solto". Isso não é só um cliché no seu trabalho. È algo que tentamos apreender e que sempre nos escapa. Nesse seu estilo, o mistério é não ter mistério.
Beijos, Saudades.
Manda um grande abraço pra galerinha.

Clóvis Domingos disse...

Gente, que delícia receber mais comentários e provocações. Assim vou descobrindo novas facetas desse trabalho. Vou me dando conta de como ele trata de dor, mas de uma forma leve e divertida. Pode ser o jeito que escrevi o texto. Mas não deixa de se ter esse sentido: rever algo vivido e torná-lo mais leve e até risível. Uma nova pincelada de cor, humor e amor. Obrigado mesmo!!! Experimento- aquarela!!!

Luís Carlos Firmato Silva Lebre disse...

Quero amorexia, quero sentir em meus relatos a dor de ser diagnosticado amante, não amado, desalmado.
Escolho um lugar da casa que me lembre que posso ser dor quando quero. Convido você com toda a parafernalha necessária mostrar-me e posso, sou o que você procura em mim. Talves depois de sabê-lo não mude, mas fortaleça aquilo que de ti exigiu presença.

Clóvis Domingos disse...

Luis Carlos, obrigado pelo comentário. Bonito e precioso o que você escreveu: bom mesmo é sermos diagnosticados como amantes, fazermos a experiência amorosa.Não importa a presença da dor, liberdade é poder doer em casa, na rua, na cidade, na cama, na cozinha, na terra, onde a gente estiver. Sim, vamos fazer amorexia e ver o que acontece!