agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Performances da Indignação

Sábado à tarde, 03 de Novembro, em plena Praça da Estação de Belo Horizonte, um movimento estranho de pessoas chamava a atenção de quem por ali passava. De um lado havia um expressivo grupo de jovens sentados no chão. Eles conversavam, se pintavam com jenipapo e  produziam cartazes coloridos com o escrito “somos todos kaiowás”. Depois prendiam esses cartazes nas árvores. Presenciei pessoas parando e conversando sobre aquilo. Isso seria uma performance na cidade? Mas de que natureza?


Do outro lado, uma mulher pintada como indígena, ocupava um espaço branco que aos poucos se manchava com a criação e exposição de pequenas cruzes feitas de durex vermelho, algumas retiradas de sua boca. Uma cruz silenciava uma voz, um grito, um choro de dor e revolta.  Em outros momentos, essa mulher se sentava em sua cadeira também vermelha (parecia um trono ou um altar sagrado) e apenas mostrava algo escrito para as pessoas curiosas que paravam. Palavras como genocídio, a saga dos índios, a História do Brasil, entre outras, eram apresentadas como numa narrativa de filme. Mas o olhar da mulher, seu silêncio, suas pausas corporais, a fixação das cruzes no tecido aberto no chão, tudo isso remetia à violência e sangue. Um protesto em meio à correria da cidade. Uma instalação plástica triste e ao mesmo tempo bela. Uma obra de arte.

Essa intervenção coletiva, organizada através de redes sociais, demonstra a força da ação de uma parcela da sociedade civil, que se indigna diante da ameaça da morte anunciada pelos nossos índios guaranis kaiowás. Se de um lado havia um grupo de jovens engajados numa causa social que se tornou nacional; de outro, o que perturbava era a ação artística criada pela performer Nina Caetano.




                                                       Fotos de Whesney Siqueira


O trabalho “O Espaço do Silêncio” de Nina (pesquisadora do agrupamento Obscena) pode se configurar como um ato artístico e político. Numa conversa logo depois do evento, ela relatou que o convite foi destinado a vários artistas para que cada um pudesse criar sua ação de indignação. Para ela: “uma ação artística como uma posição em relação a esse silêncio sobre a situação dos índios no Brasil, esse genocídio que vem ocorrendo há 512 anos. E a gente deixa acontecer. Eu também. Todos nós”.

No texto “Práticas e poéticas do político” (2012) a autora Ileana Diéguez aponta para a existência de um traçado de performatividade e teatralidade nas ações e manifestações sociais e políticas que ocorrem em alguns países da América Latina. Para a autora haveria uma prática de uma cidadania, que não apenas obedece, mas se posiciona como dissidente do sistema e busca a visibilidade de questões desprezadas pelo poder do Estado. Haveria a “alta política” (a oficial) e o “político”, ou na minha leitura, o micropolítico. Aquilo que podemos operar e transformar no cotidiano, no pequeno mesmo, fazendo não mais uma revolução, mas um levante. Haikim Bey em seu livro “TAZ” (Zonas Autônomas Temporárias) fala disso. O levante aparece e desaparece logo depois. É nômade, temporário e não capturável. Um ataque às estruturas de controle, essencialmente às ideias.

Interessa-me a relação entre arte e ativismo. Ou então artivismo. Corpos insurgentes. A prática de uma indisciplina pela poesia e provocação. Desejos de rebelião e contestação dos fatos. Arte para suscitar acontecimentos e acometimentos variados.

Outro artista indignado, Leandro Acácio, também pesquisador do Obscena, veio criar seu ato de manifestação e performação. De cara pintada e vestindo um longo tecido vermelho, ele se colocou com uma corda no pescoço, amarrada numa árvore. Metáfora do suicídio diário dos índios kaiowás. Houve certa tensão nesse momento. A polícia surgiu e questionou o perigo dessa ação. Mais uma instalação, uma imagem oferecida, um corpo paralisado e rendido a criar outro “espaço do silêncio”.

Numa leitura dessas performances percebo a importância desses artivistas ocuparem um pedaço de terra na cidade. Como os índios kaiowás, nós também estamos perdendo nosso direito ao espaço público. São invasões silenciosas e silenciadoras a nos constranger, restringir e ameaçar. Estratégias de submissão e medo. Tudo em nome do lucro, do desenvolvimento industrial, da Copa do Mundo, da propaganda de uma cidade como modelo a ser seguido.

Sim, somos todos kaiowás. Nós, os cidadãos, os artistas, os moradores de rua, os vendedores ambulantes, os hippies da Praça Sete, entre outros. Sim. Nina Caetano Guarani Kaiowá denuncia a luta indígena e a situação dela mesma como moradora dessa cidade. Quantas praças privatizadas! Lugares proibidos para o uso livre das pessoas. Proibido deitar. Proibido beijar. Proibido pisar. Proibido se manifestar. Proibido performar. “Tem autorização para fazer isso aqui?”.

Ação e Açã

Penso na coragem das pessoas e artistas que se manifestaram sobre uma questão tão urgente e necessária quanto a dos índios kaiowás. Autorizaram-se. Quem pode então nos acusar de que somos todos despolitizados? Esses manifestantes afirmaram o POLÍTICO PELA VIDA.  Pode parecer que foram muito poucas as pessoas que compreenderam a proposta deles. Mas um é MULTIPLICIDADE. Alguma coisa aconteceu sim naquela tarde de sábado. Conversas, dúvidas, fotografias, agressões e xingamentos. E tudo isso se espalhará pelas redes humanas sociais e digitais. E agora pelo meu texto.

O trabalho dos performers não foi apenas uma ação no ou sobre o nosso silêncio de brasileiros. Mas foi uma “AÇÔ, que na língua tupi-guarani significa gritar.   Para mim o silêncio gritou. Forte e pungente. Tento criar agora um “texto-voz” para aumentar a potência desse grito. No chão da Praça da Estação foram derramados pedidos de socorro.

Na performance social dos jovens e na performance artística dos “obscênicos”, o sentido de comunidade e solidariedade  foi resgatado. Lembro uma canção: “Minha gente somos um, seu solo é sagrado e sobre ele andamos UNIDOS”.

Unidas, essas Performances da Indignação cantaram o sangue derramado dos guaranis kaiowás, “filhos deste solo que sempre foi mãe hostil, Pátria Roubada Brasil”.

7 comentários:

Nina Caetano disse...

maravilhoso, clóvis. como sempre, seu olhar atento, curioso e perspicaz me lê. que lindo o açã, o grito. obrigada!

00performer disse...

Um silênciooutro, um grito outro, indianização outra!

mui bem!

Resistência e criação!

Monica Peluci disse...

Mesmo que ocorra ainda que em pequena escala, é muito importante a informação para o público do que acontece realmente e muito melhor quando apresentadas em ações artísticas.
Parabéns pelas performances e pela matéria.

Leandro Silva Acácio disse...

Clóvis querido, quanta beleza em seu texto. Para mim, ele significa mais do que tem consciência de dizer. Sim, sim, açã é uma sacação genial, um grande achado. Obrigadíssimo!!!

Whesney Siqueira disse...

Olá Amor, lindas palavras que me remeteram novamente às imagens daquele sábado. Palavras que lembra-me também do laborioso trabalho que é a reflexão e a ação. Essas duas nos faz querer insurgir contra a desterritorialização aviltante que o "podrer" nos inflige. Mais uma vez parabéns.

Clóvis Domingos disse...

Gente, quero agradecer os comentários publicados aqui e os que recebi por e-mail. É muito bom ter um texto seu lido e dialogado!Esse texto me tomou alguns dias e custei a definir o final dele.Muitas questões! O certo é que desejava unir minha voz aos trabalhos fantásticos que testemunhei. Esse meu texto também deseja ser um manifesto,uma performance artística, uma ação ou um açã!
Abraços!!!

Balaio da Vivi disse...

Clóvis, leio atrasada, mas encantada pela sua narrativa sensível que descreve as performances e traz reflexões que implica todos: artistas, público, cidadãos, moradores de grandes (ou pequenas ou médias) cidades. Todos deveríamos ser atores políticos.

Gostei muito dos conceitos (e ações) que vc nos propõe.
E, além disso, gostei bastante do texto em si. Foi (é) uma leitura prazerosa.

Um abraço.
Vivi.