Sábado,
dia 23 de setembro, realizamos a ação Irmãos
Lambe-lambe no Centro de Reeducação Social São Jerônimo em Belo Horizonte.
Fomos convidados pelo artista e educador Davi Pantuzza, que também foi
integrante do Obscena. Realizar a
ação num espaço sócio-educativo para jovens do sexo feminino se configurou como
um deslocar-se e desalojar-se. Primeiro porque a ação foi desalojada da rua
para um espaço privativo. A ideia inicial era realizar o lambe numa praça da
cidade: Praça da Liberdade. Mas por motivos de força maior, tal desejo não pôde
se concretizar e então tentamos criar uma praça com flores dentro de um espaço
prisional, o que se constitui como uma heterotopia.
Levamos
flores com cores diferentes, além de tecidos, para que pudéssemos subverter
momentaneamente o espaço duro da Unidade. Outro desafio foi não podermos
utilizar nossa câmera fotográfica e nem ficar com as imagens feitas das jovens
participantes, isso por serem menores e por questões institucionais e de
segurança. Dessa forma, a câmera fotográfica utilizada foi a da Instituição e
Davi ficou responsável de imprimir as imagens para serem entregues às jovens,
enquanto nós enviaremos uma carta.

Uma
característica muito marcante nessa experiência no São Jerônimo (o Obscena já desenvolveu um projeto lá
também há alguns anos) foi a participação interessada das 05 jovens que já
trabalhavam com Davi, que criaram diferentes
e inusitadas composições com as flores, tecidos e corpos. De fato, a
primavera se apresentou nessa experiência!!! Houve um momento no qual elas decidiram
em como o Davi seria fotografado, criando arranjos com flores e tecidos. Isso
para mim revela a força dos laços de afeto e proximidade que foram
estabelecidos. Num ambiente cuja atmosfera é sempre hostil, vivemos momentos de
alegria, criação e encontro.
Depois
de feitas as imagens, tivemos um momento em roda com exercícios de respiração e
conexão corporal. Elas partilharam textos trabalhados com Davi, mostraram seus
cadernos de processo e juntos registramos num tecido nossas sensações,
afetações, a partir de escritas, desenhos, e as flores também vieram se juntar
a esse tapete colorido.
Foi
um lambe diferente, até nossos sapatos foram retirados. Descalços pisávamos num
território comum: o sensível e o humano. Isso me lembrou o texto do Nilton
Bonder, no qual, o autor diz que os sapatos são como identidades que nos
protegem do encontro com os outros na diferença. Ali vivíamos exatamente isso:
diferença, desalojamento, menos identidade e mais ENCONTRO!
Num
determinado momento, uma jovem pediu que juntássemos os dedos e formássemos o
desenho de uma estrela. Alguém falou: a Estrela
de Davi. Interessante porque simbolicamente, em várias culturas, este é um
objeto e escudo de proteção. Acredito que a arte, como campo sensível, nos
proteja do contato com o horror do real. Arte é metáfora, linguagem, tessitura,
elaboração, reconexão e espiritualidade. Arte
é utopia. Criação de um outro mundo paralelo ao mundo do concreto, ao mundo
já estabelecido e às normas vigentes.

Foi um encontro muito bonito porque
desalojado, trazendo poesia e inquietude, feito nas frestas, como
a imagem deleuziana da flor que
emerge em meio ao chão cimentado e cria uma linha
de fuga. A flor que abre e transborda os espaços duros. Volta a imagem dos
vagalumes do texto do Didi Hubermann.
A realidade nunca está dada, há pequenas luzes que brilham em meio à noite! Há
sobrevivências.... Práticas minoritárias, vagalumes, efêmeras, por isso
potentes, se fazem, se desfazem, se refazem. Afirmam os possíveis. Não são
prisioneiras do ideal, mas abraçam o real que nos desafia. Como estar à altura daquilo que nos acontece?
Como
acolher o inverno e fazer dele primavera? Como viver inverno e primavera
juntos? Como viver arte e produção de mundos? Como desalojar e realojar? Procuro-me ou Perco-me? Mas ao me perder encontro com os outros! Encontro as
forças compositivas de um mundo possível. E a rua se criou num espaço fechado.
Mas rua é diversidade, e lá tínhamos tal realidade. Certezas ou formas
pré-estabelecidas podem ser grades que nos aprisionam. A liberdade talvez
habite o risco, o não-saber, a aventura, o perder-se....
PROCURO-ME
PERCO-ME
ENCONTRO-TE!!!
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