agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

segunda-feira, outubro 07, 2013

Irmãos Lambe-Lambe no Perpendicular Festival


Lamber a ferida – meu medo está Perpendicular à minha coragem

Estou arrumando casa. Pausa para um café e um momento de respiro. Semana na qual acontece o “Perpendicular Festival : Como Resistir?”. Penso e sinto a ação Irmãos Lambe-Lambe que fiz com Leandro na última quinta, dia 26 de Setembro. Ocupamos o hall de entrada do Sesc Palladium para a realização dessa ação-encontro. Foi uma experiência interessante e agora percebo (relembro) de que saí um pouco incomodado de lá. Avaliando o fato de estarmos dentro de uma instituição cultural e se tal espaço nos havia exilado e afastado um pouco das pessoas da rua.

SIM. Nós é que PROCURAMOS as pessoas para participarem de nossa ação. Nós é que buscamos o con-tato. E isso aconteceu tão fortemente. O que teria me incomodado? Haveria uma sensação de diminuição da potência dessa ação provocada por essa necessidade humana? Haveria em mim alguma expectativa de que esse trabalho fosse assistido, quando na verdade ele acontece com a participação das pessoas? Haveria em mim uma arrogância de artista, de me sentir uma atração e aguardar que fossem as pessoas que se interessassem e se aproximassem de nossa proposta?

Vasculho-me. PROCURO-ME. Pobre super homem!

O fato é que nos des-locamos até os outros, os convocamos, os convidamos para um encontro-conversa. Foi tão bom buscar os artistas participantes do PERPENDICULAR, os visitantes e os funcionários do Sesc. Para os artistas participantes a abordagem foi mais fácil e a nossa ação ficará como um “espaço de memória” com a fotografia revelada e enviada. Uma memória inclusive desse evento acontecido em Belo Horizonte. Agora as cartas ganharão inclusive um destino internacional já que conhecemos performers de outros países.

Nos dirigirmos até as pessoas desconhecidas e que nem sabiam do evento de performance era como nos livrarmos do escudo de Capitão América, adereço lúdico que utilizamos dessa vez numa referência à imagem de resistir como proteção. E sem escudo fomos humildes, humanos e desejosos de inter-locações, inter-locuções e trocas. Foi o Lambe mais íntimo que vivenciamos. Uma ação pública e íntima ao mesmo tempo: confidenciarmos uns aos outros ao que resistimos e com o que nos confrontamos. E por diversas vezes pude expor minha fragilidade e falar dos meus medos. Nossa!!! Será que o ato de me expor também não me causou um desconforto?


 Foto de Fausto Grossi

Será a performance uma confidência pública e íntima ao mesmo tempo? E a reação das pessoas era algumas vezes desconcertante, pois se deparavam também com uma questão pessoal a ser verbalizada para estranhos, nós os Lambes. No espaço da cidade o comum e usual é a informação. Informação é algo funcional, objetivo, direto e civilizado. E civilidade é o comportamento valorizado e esperado para os moradores da cidade. Agora a confidência ou confissão é algo mais subjetivo, delicado e inesperado. Pode ser inoportuno. Pede um tempo maior de fala e escuta. Gera uma hesitação, uma gagueira, um hiato. Confissão sugere confiança. Descobri isso fazendo a ação-encontro!

Escutei tantas outras resistências dos outros e que também são minhas! São nossas. Nesse PERPENDICULAR aprendo que performance também pode ser um ritual de cura coletiva. A cada vez que expus meus medos, mais me aproximei deles, mais nuances descobri, mais marcas, heranças e rostos. Se a gente resiste a gente fica mais escravo. Fui me tornando mais consciente do que sentia e podia inclusive rir daquilo que eu mesmo narrava. Falando para o outro eu me escutava. E deslocava sensações, movimentava medos e descobria coragens. Performar é se vulnerabilizar? Correr riscos?

Não importou se foi dentro ou fora de um espaço institucional, o que contou foi a qualidade do encontro, a delicadeza, as emoções compartilhadas, a fragilidade se transformando em força. Construimos uma Arquitetura do Acontecimento. E ela salva, ela é poderosa, ela merece atenção e respeito. O que nos acontece e como acontece é a grande chave. O artista está longe do super herói que a todos salva e depois se torna um ídolo. A performance me humaniza a todo instante e quebra minhas resistências. Arte que perfura: fere lugares, conceitos, códigos e a nós mesmos.

PROCURO-ME. Era isso. Eu me procurava mais uma vez e precisava da ajuda das pessoas.

PROCURO-ME. PROCURO-ME. PROCURO-TE! E ME ENCONTREI NOS OUTROS! COM OS OUTROS!

Naquela quinta-feira, o Lambe aconteceu pela primeira vez à noite. Um refletor de luz destacava o quadro e a cadeira vazia (espaço de uma instalação) que aos poucos era ocupada pelos corpos resistentes, que brincavam com o escudo infantil performando suas gestualidades para a câmera fotográfica.

Naquela mesma quinta-feira, pela manhã, pela primeira vez em minha existência meu nariz sangrou e senti o gosto de sangue na língua. Susto. Tinha uma performance acontecendo em mim. Lamber a ferida, não para cicatrizar o corte. Mas para saborear a abertura, a rachadura e a aventura de viver!


Um comentário:

Sabrina Andrade disse...

este texto está remexendo, borbulhando meu corpo. este está sedento, embora nervoso, ansioso, diante do desconhecido que a possibilidade de "performar" causa.
muitas questões n(d)esta usina de afetos e afetações intermitentes da arte vida.