agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Davi Pantuzza, Erica Vilhena, Joyce Malta, Leandro Acácio, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano e Saulo Salomão, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra dos artistas plásticos Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena realiza seu projeto Corpos públicos, espaços privados: invasões no corpo da cidade em parceria com o CCUFMG, dentro do projeto Cena Aberta. Como parte da residência artística, mostras processuais de compartilhamento da pesquisa têm sido realizadas ao longo do ano. A próxima mostra está prevista para final de setembro. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 14 às 18 horas, na sala 03 do CCUFMG e, nesses dias, são realizados tanto experimentos práticos de invasão no corpo da cidade, quanto discussões teóricas e práticas corporais internas ao agrupamento.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

Terça-feira, Outubro 04, 2011

Os Irmãos Lambe e lambe


No regionalismo brasileiro o lambe-lambe é um fotógrafo ambulante que geralmente fica postado em praças e jardins públicos. Em Belo Horizonte a profissão vem sendo pouco a pouco extinta, com a proibição da atuação dos lambe-lambes na vida urbana. Motivados por essa inspiração aliada a toda discussão e prática fomentada pela pesquisa do Obscena – sobre novas formas de ocupação e revitalização (concreta e imaginária) de espaços públicos/privados da cidade – realizamos a intervenção urbana “Lambe-lambe”, ou, como gostamos de brincar os “Irmãos Lambe e lambe”. Brincadeira que vem do fato de que eu e meu amigo Clóvis, proponentes da intervenção, sermos muitas vezes confundidos como irmãos, devido nossa parecença. Um o retrato do outro.

Por essas e outras, nosso “Lambe-lambe” consiste na ação de... fazer retratos. E em uma cadeia de desdobramentos, as imagens são depois reveladas e enviadas pelo correio às pessoas fotografadas com uma carta por nós assinada.

Na mise en perf da ação vamos trajados a caráter (numa alusão às avessas do black tie). Para a foto, nossos convidados são sentados à frente de um quadro com o título/manchete “PROCURO-ME”*, como se fosse uma página de um jornal poético-lírico-sensacionalista. Antes do momento do clique, Clóvis pergunta ao fotografado: Qual seu local preferido na cidade? Para nós a pergunta sugere novas perspectivas na atitude de PROCURAR, que migra do EU lírico e reflexivo para EU relacionado ao espaço urbano: territorialidades de fluxos e de afetos/afetações.

Assim como a imagem, a resposta a essa pergunta traz vozes com sentimentos e pensamentos íntimos que muito nos interessa. Vozes que engendram um diálogo entre a intervenção em si e o participante, entre o participante e a cidade, entre a cidade e o cotidiano. “Uma clínica da rua”, tal como bem disse Clóvis.

Nessa lembrança/homenagem à figura do lambe-lambe PROCURAMOS um fragmento da paisagem urbana, um pedaço da cidade, uma vida arrancada do anonimato pelo retrato falado da fotografia.

Uma revelação: Gosto muito do modo como o nosso parceiro do Obscena Matheus pensa. Em uma de nossas conversas ele disse que a fotografia não revela, mas sim desvela. Desvelar tem um sentido muito bonito de cuidar/zelar pelo outro, por uma situação, um ser. Talvez, seja isso também o que a intervenção “Lambe-lambe” PROCURE: desvelar para ressaltar, no bom trato da reprodução de uma memória e de uma imagem.

* O quadro "Procuro-me" faz parte da obra "Tropicália ou Panis et Circences" de Ana de Oliveira.

2 comentários:

Nina Caetano disse...

muito interessante essa idéia do revelar desvelar: plena, me parece, dos fluxos afetivos que atravessam esse trabalho que busca criar, na cidade, uma ação (reação?) sensível e lúdica.
procuro-me!

Clóvis Domingos disse...

Leandro querido, estou emocionado! Que belo relato! Sim, nossa ação deseja des-velar, cuidar da cidade e dos habitantes dela. Re-velar as paisagens humanas, faces dos moradores, valorizar suas presenças e reforçar que somos nós a CIDADE.
Que bom ter você nessa empreitada tão afetiva e necessária. Obrigado por compartilhar essa "clínica da rua". Abraços, Clóvis.