agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

terça-feira, março 23, 2010

somos incontornáveis e irreversíveis





Pacaembu, em torno das quatro horas da tarde do dia 18 de março de 2010. ponto final de uma caminhada que durou dez dias, de campinas a são paulo. caminhada na qual marcharam cerca de 3 mil mulheres. mulheres do brasil inteiro, de rondônia ao rio grande do sul. mulheres metropolitanas, mulheres rurais, mulheres índias, mulheres atrizes, mulheres donas de casa. mulheres moças, mulheres idosas, saudáveis, doentes. mulheres que apanham de seus maridos, mulheres que nunca se casaram nem nunca se casarão. heterossexuais, lésbicas. negras, brancas, loiras, ruivas, morenas, mulatas, índias, mestiças. muheres gritando palavras de ordem: "seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!" "eu não sou miss, nem avião, minha beleza não tem padrão!", "não sou modelo de passarela, a minha vida não é novela!", "se cuida, se cuida, se cuida seu machista! américa latina vai ser toda feminista!" e muitas outras mais... até hoje na minha cabeça ecoam as frases que ouvi no único dia que passei lá, ao lado dessas mulheres que enfrentaram 10 dias de caminhada, sob o sol e sob a chuva, andando cerca de 10 quilômetros por dia... eu também gritei e marchei, suei e me cansei, fotografei, filmei e registrei na minha cabeça esse momento histórico. à minha frente e às minhas costas uma fila imensa de mulheres vestidas de roxo. a energia incrível, pois essas mulheres não paravam. prosseguiam firmes, incitavam as outras, dividiam seu protetor solar, provocavam os homens com os quais cruzavam pelo caminho: "joão, joão, cozinha seu feijão" josé, josé, cozinha se quiser! raimundo, raimundo, limpa esse chão imundo! chiquinho, chiquinho, cuida do filhinho! erasmo, erasmo, eu quero meu orgasmo!", respondendo a seus gestos obscenos e aos gritos de volta pra cozinha: "mulher não é feita pro forno e pro fogão, a minha chama é da revolução!" foi lindo, foi emocionante. na chegada a são paulo - andamos quatro quilômetros até a estação de osasco, pegamos o trem metropolitano e descemos em barra funda, para caminhar mais dois quilômetros até o pacaembu - centenas de outras mulheres nos recebiam como heroínas, quer dizer, recebiam essas mulheres que caminharam dez dias (eu estava ali de gaiata, bem na comissão de frente, pois tinha embarcado no vagão errado). me arrepiei em vários momentos. nessa chegada ao metrô de barra funda. na caminhada por são paulo, junto à batucada de mulheres que abria a marcha... ao saber de uma índia que casara com um bêbado, tivera quatro filhos, tinha tido a coragem de abandoná-lo (embora, como declarou, ainda amasse o safado) e tinha se tornado cacique, depois que sua comunidade havia destituído o antigo cacique para colocá-la no lugar. ao saber da história de uma mulher do amazonas que voltaria para casa naquela quinta, mas só chegaria lá na quarta seguinte, depois de viajar 22 horas de barco... ah, mulheres... incontornáveis e irreversíveis...
enquanto isso, o brasil ultrapassa a alemanha e a frança e chega ao 2º lugar de maior consumidor de cosméticos do mundo (só perdendo pro japão), posto já conquistado em relação às plásticas (só perde para os EUA). enquanto isso, muitas mulheres continuam a se ver como mercadorias, valendo por sua aparência e juventude.
enquanto isso perdurar, seguiremos em marcha. até que todas sejamos livres...

2 comentários:

Clóvis Domingos disse...

Nina, que texto maravilhoso!!!
Obrigado por compartilhar esta vivência aqui no blog.
Mulheres que marcham, lutam e acreditam que é urgente re=inventar o que é ser uma mulher.
abraço,
Clóvis.

Erica Vilhena, vulgo Nêga. disse...

Não há com não me emocionar diante das lembranças suscitadas por suas palavras! Nós, que fomos juntas, que ao longo das nove horas de viagem conversamos sobre nossas feminilidades, nós que há muito nos conhecemos e eu que há muito a tenho como uma segunda mãe, não como não chorar e sentir-me cada vez mais forte em meus propósitos! SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES, LIVRES, LIVRES!!!