agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

terça-feira, março 16, 2010

DA PERTURBAÇÃO DOS SENTIDOS E DOS ESPAÇOS

Na quinta-feira passada pude acompanhar mais uma vez, ao acontecimento cênico-performativo "BABY-DOLLS: UMA EXPOSIÇÃO DE BONECAS". Percebi que esta intervenção urbana cada vez mais se dinamiza, se recria e se potencializa na confrontação e interrupção dos fluxos dos transeuntes da cidade.
Na Praça Sete, lugar vertiginoso, algo realmente aconteceu, perturbou e deslocou....

Havia uma nervosidade provocada pela ação, muitos gritos, muita gente rondando os espaços, muita circulação de corpos e tentativas de explicação daquele "ritual de teatro e macumba", segundo uma mulher que assistia revoltada àquilo tudo.

Cada "boneca" com seus objetos configurava um espaço dentro do espaço maior, quase pequenos nichos, e assim havia uma ocupação mais ostensiva do lugar, mesmo quando este era abandonado pelas performers. Os objetos instalados mantinham a mesma força dos corpos em movimento, havia uma circularidade, uma transitividade, tudo isso realmente produzia uma perturbação nos sentidos. Um ritmo interessante desta cena obscena, um contágio, um estranhamento, uma invasão potente e provocadora.

Nichos ocupados, imagens desenhadas, espaços configurados, corpos metamorfoseados e de repente o espaço era abandonado, mas algo ficava ali. A visualidade dos objetos, as formas da instalação, as cores, as deformidades, tudo isso gerava curiosidade e capturava o transeunte.
O abandono, herança de Barrio, não só o abandono dos objetos e corpos no chão ( como no momento com a Nina), mas o abandono da representação, dos objetos que educam e seduzem a mulher, tudo foi para o chão, perdeu a mesa, a cama, o fogão e mudou de lugar, decaiu ou precisa urgentemente decair.

Uma encenação descentralizada, rizomática, afectada por vários olhares, comentários e reações extremas de agressividade e repúdio. Vi mulheres virando o rosto, mulheres rindo de tudo, mulheres reclamando daquela "palhaçada" na praça da cidade.

Ação concentrada, tempo ágil com tempo dilatado, corpos metamorfoseados, textos fortes sendo lidos e comentados pelas pessoas, a praça realmente invadida, rabiscada, transtornada e incomodada. Mulheres-objeto ou objetos-mulher? Corpos deformados, monstruosos e concentrados.

Até no final da ação, foi fantástico ver o recolhimento dos restos e objetos. Artistas concentradas, agredidas e agressivas e mesmo ao abandonar o local é possível "confundir e provocar", e lá vai Erica com um saco preto no rosto puxando seu carrinho e ao passar pelas ruas criando mais perturbação, nervosidade e não-saberes.

Novos elementos nesta ação: invasão, ocupação, circulação , perturbação , deformação e abandono.

DA PERTURBAÇÃO DOS SENTIDOS À DOS ESPAÇOS MUITA COISA ACONTECEU...

4 comentários:

Nina Caetano disse...

ei, clovito!
que bom te ter de volta ao baby dolls, comentando, acompanhando, nos provocando com teu olhar sempre atento...
a intervenção continua a se alterar e a nos alterar, todas nós work in process, mulheres em processo.

Davi Pantuzza Marques disse...

Que ótimo, Clóvis! Não pude comparecer nesse dia, mas adorei a imagem do abandono. Que marcas ficam, quandos os corpos saem, o que fica? que vazios são esses que são criados? A ausência é plena de provocações!
O abandono me levou também para um decadência, uma imagem que intriga, provoca, desloca.

Abraços,
Davi

Clóvis Domingos disse...

Davi, que bom ter você aqui também colaborando com esta pesquisa.
Vejo sim uma poética do abandono neste procedimento obsceno e obscênico: elas abandonam IMAGENS aos transeuntes e neste abandono (necessário)cada um tenta criar sua leitura daquele acontecimento.
Um vazio que se torna pleno porque esvaziado. E nesse vazio, gerado no abandono, novas coisas surgem, novas realidades e ficções. Daí a potência desta obra: algo que não cessa de se inscrever, provocar e acontecer.
Um abraço,
Clóvis.

Erica Vilhena, vulgo Nêga. disse...

Olás a todos! Essa quinta-feira de fato foi potente, mulheres e mais mulheres incomodadíssimas com nossa presença e indignadas por não explicarmos o que fazíamos, como diz Nina, não é possível explicar é preciso agir! Somos e estamos em construção! A metamorfose dos corpos provoca: crianças fascinadas com a Babie de Joyce, homens deslumbrados com a possível noiva de Lica e mulheres intrigadas pela ausência de mina face! Os olhos vendados, seja pela sacola preta seja pela calcinha, retira minha individualidade e isto projeta-se de alguma forma em todas as que me vêem passar...Somos todas Clandestinas!