Na última reunião de quinta, discutimos o texto "Corpografias Urbanas: A Memória da cidade no corpo" da Paola Berenstein Jacques. Um texto que discute as relações entre o corpo cotidiano e ordinário das pessoas com o corpo espetacular da cidade.
A autora descreve a existência de uma cartografia da cidade, que seria como um mapa, o projeto arquitetônico, o espaço planificado e organizado. Nesta cartografia acontecem as coreografias dos passantes e transeuntes, que pela movimentação corporal executam e dançam os passos guiados pelo projeto arquitetônico. Podemos pensar, por exemplo, na dinâmica das ruas: carros e pedestres coreografam o tempo todo: são paradas, fluxos, interrupções, temporalidades, tudo isso controlado e calculado de forma que a cidade funcione. Só que nas coreografias, nossos corpos apenas obedecem às ordens dadas e se repetem numa dança maquinal e numa relação funcional com o corpo urbano.
Mas a autora sugere a possibilidade de uma CORPOGRAFIA: uma experiência de dentro da cidade, uma vivência no corpo urbano, numa movimentação e relação mais singular e afetiva. Uma ideia de inscrição de uma memória no corpo. Uma interação entre corpo e cidade. Abrindo frestas de percepção, podemos experimentar diferentes corpografias no contato com a cidade: medos, afetos, bem-estar, hostilidades etc. Essa escrita (grafia) acontece no corpo e a partir do corpo.
Os estudos corpográficos podem ser realizados a partir de errâncias sobre a cidade. Estas seriam ações de se perder para poder se encontrar com uma "cidade outra", ou melhor, uma cidade que atravessa a corporeidade de quem nela vive. Nestas errâncias o corpo pode experimentar lentidões, acasos, encontros etc. Pode se desorientar para se reorientar sob novas bases ou fluxos de percepção. Haveria aí, de fato, uma incorporação da cidade.
As invasões do Obscena sobre o corpo da cidade têm nos ajudado a perceber isso: a "cidade-dentro" e não mais "a cidade de cima", uma cidade outdoor, asséptica e desencarnada. Mas em nossas vivências temos tocado na pele, no corpo, sentido o cheiro da cidade, sua carne viva e pulsante. As experiências de deriva propostas por Davi, o recolhimento de objetos abandonados nas ruas possibilitando a criação de uma casa nômade e aberta debaixo de uma marquise, por Saulo e Leandro, o garimpo de papéis escritos por gente anônima no chão das ruas da cidade realizado por mim etc.
Leandro questionou algo que me marcou: é possível ser um estrangeiro numa cidade totalmente planificada? Mateus e Davi questionaram se o "se perder" seria apenas espacial ou poderia ser um estado de se perder nas intenções, fluxos temporais ou até mesmo nos espaços já conhecidos?
Uma lembrança: saímos numa deriva, eu, Davi e Leandro. Num determinado momento, Davi pára e sente o vento que passa. Abre os braços e dá forma ao vento. Incorpora uma sensação. As pessoas também páram e olham o gesto estranho de Davi.
São as CORPOGRAFIAS vivenciadas a partir das sensações e afetos individuais que podem de alguma forma romper com as COREOGRAFIAS coletivas organizadas e atualizadas nas CARTOGRAFIAS da cidade.
Um convite a investirmos em corpografias urbanas de resistência.
Quais memórias ficaram ou ficam em nossos corpos da relação com os espaços da cidade? Em quais lugares de Belo Horizonte tivemos experiências significativas?