agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

domingo, dezembro 06, 2009

Recife, onde a lama é a insurreição - parafraseando Chico Science é claro...

Há 72 anos nasceu uma menina, era um ano difícil, mãe de mais três, Eleonora Mariano Grillo de Vilhena dera luz a sua caçula e para continuar a história da família o nome seria também Helena, Maria Helena, assim como foram suas tias, avós, bisas e por aí vai. 1937. A família morava num sítio em Passos, o pai, José Sebastião Grillo de Vilhena, um professor ginasial matinha sua mãe em casa junto à sua família, também havia Sara, uma prima distante que viera ajudar na lida da casa. Ursulina, a matriarca, restringia a alimentação da nora, mesmo esta estando grávida. Aos primeiros netos, Zélia e Edésio, ela reservava a melhor parte e à Terezinha, a até então caçula, uma parte a menos. Maria Helena ao chegar demorou-se o quanto pode ao seio, mas a tensão familiar secava Eleonora.

Maria Helena tinha 03 ou 04 anos e cantarolava feliz enquanto os vizinhos depositavam flores no caixão do pai. Hoje ela completa 72 anos.

Hoje eu tenho 30, mãe. Há uma semana estive em Recife/PE trabalhando. Só hoje tento dizer sobre o que vivi. Darei então à você, no seu aniversário, a mulher na qual me transformei, a mulher que luto para ser todos os dias e também a menina que você ‘pariu’ a contragosto de vários médicos, devido as seus adiantados anos.

Assim como dizia Chico Science - ‘é só equilibrar sua cabeça em cima do corpo, procurando antenar boas vibrações, procurando antenar boa diversão’... Em Recife foi difícil equilibrar a cabeça, o coração bateu forte diariamente, não houve descanso. Não houve a hipocrisia salutar da mulher mineira e não houve a disfarçada discrição masculina belorizontina, houve sim o olhar duro das mulheres dum estado que mais as mata no Brasil, houve sim os urros surdos e debochados dos homens que nos vêem como cabritas, que se espanta, que se tange e se encurrala.

Hoje, mãe eu venho lhe dizer que não me dobrei, meu corpo foi firme, segurei o olhar, segurei-me em mim e encarei-os. Não há palavras, não há necessidade destas para se fazer entender, o corpo age, ele se faz entender. Eu venci a Erica, eu a encarei nos olhos de cada uma daquelas e daqueles com os quais intervi e interferi pelas ruas de Recife. Sim, ela mesma, aquela que a Senhora sempre advertia, sim, aquela que se escondia, aquela que tinha medo, mas um medo que a senhora nunca entendia da onde vinha e eu te digo – vem de mim mesma, eu tenho medo de mim, finjo não me ver, calo meus desejos e opiniões por medo de reprovação, por medo de desagradar e não ser amada. Sou brigona, claro, mas sou submissa também, e muito. Submeto-me a mim mesma, a meu julgo, a meus medos e assim fico apática. Perco o rebolado. Mas, lá não, lá eu não pude fraquejar lá eu não tive onde me esconder, tudo o que até então esteve seguro e a salvo – foi-se. Houve um esgarçar da minha carne, alma tudo. Meu organismo revirou-se, não consegui agradar, não pude. Minha força não se submeteu, eu não me submeti a mim e tranquei-me para entender o que se dava.

Assim o trabalho com o Baby Dolls transcorreu – RUA DA IMPERATRIZ, FEIRA DE CASA AMARELA, VÁZEA, ESTAÇÃO TERMINAL DO METRÔ DO BARRO E PRAÇA DA BOA VIAGEM, a nova fase boneca que compus, o novo tapete, materiais que me deslocaram da intervenção que até então havia feito e me colocaram em outros graus de dificuldade e exposição. Senti-me mais produto, mais industrializada, mas seriada. Não que isto tenha trazido empatia dos transeuntes, não, não mesmo, o saco preto na cabeça é, como diz nina, macabro! Sim, Maria Helena, instalei no meu corpo peças de roupa duma possível puta e em minha cabeça um saco preto de lixo. Anulei minha identidade em prol duma generalidade, não há nada de heróico nisso, só sou mais uma que não quer ser mercadoria, nem de si mesma.

Bom, faça comigo a jornada:

1º dia – chegamos às 18:40h, mas como lá não tem horário de verão, ganhamos 1h!!! O cheiro do mar ao longo do caminho para o hotel se misturava com as descargas dos carros, muito trânsito. No hotel, no Pina um dos bairros ao longo da Avenida Boa Viagem, um concurso de misses, todas muito maquiadas e acompanhadas da mãe e/ou família. Bonecas por toda parte e seriadas. Mesmo sendo de estados diferentes os padrões de beleza quase que anulam as reais belezas de cada região do pais, sem falar nas misses contratadas para representar estados outros... ‘sede não é nada, imagem é tudo’.

2º dia – café da manhã maravilhoso! É bom ressaltar!!! Saímos para visitar os lugares das intervenções. Estes foram muito bem escolhidos, a Prefeitura é quem produz o Festival e tiveram sensibilidade e compreensão do trabalho, Olorum Modupé!

Só ficou pra trás a Praça da Boa Viagem. O tempo é curto e o sol aqui anda rápido.

Rua da Imperatriz – 1ª intervenção ‘Baby Dolls, uma exposição de bonecas’ em Recife. É uma rua de calçadão e comercial, há sempre um vendedor na porta chamando os clientes, brincando ao microfone com fundo musical tecnobrega. Utilizamos o camarim dum cine teatro muito antigo e belíssimo que me foge o nome agora. O filme do Chacrina está na tela e nós passamos pé ante pé por detrás, nosso ‘anjo especial’ do dia foi Williams, o coordenador das ações descentralizadoras do Festival, está ansioso, nós também. Em silêncio me arrumo, é o primeiro dia da ‘mulher do saco’, apelido ganhado lá para a 1ª fase da minha boneca. A rua da intervenção está próxima, mas as calçadas são cheias de bancas e com buracos, tenho que me concentrar. Nosso tempo é outro agora com as modificações da minha boneca, re-conversamos as chegadas e nos conectamos umas às outras, é hora. Eu e Lica montamos a noiva e saio. Puts, respirar é preciso, ver não é preciso! A rua é cheia, as pessoas passam o dia nela, guio-me pela igreja que está à frente, sua sombra me serve de mapa, os ouvidos se aguçam, os motoristas aqui são pé quente e não há muitos semáforos. Alcanço o início da Imperatriz. Ainda não me fiz notar. Aqui não é a roupa curta, aqui é a cor! O vermelho da meia é o primeiro a ser olhado. Percebo que Joyce está já no tapete, há uma roda em torno da banca de revistas. Passo por Nina, entro no meio das pessoas, me ajunto à roda que assiste Joyce. Aos poucos começam a se incomodar comigo ali, saio e vou em direção ao entulho que havia escolhido para apropriação. Paro, olho e coloco a bolsa no chão. Inicio o processo. As pessoas vão se chegando, o vendedor de água começa a cantarolar ‘compra água e assiste a mulher do saco’. Lica chega. A noiva arrasta as mulheres à sua volta, ela e elas com várias sacolas nas mãos. Sinto tudo isso como uma onda, rebatemos e retornamos e assim repetidas vezes. Experimentei retirar o saco e olhar a platéia que se formou à minha frente, daí em diante montei a Santa, mas não sei se foi o melhor revelar o rosto... a não identidade incomoda mais eu creio.

Duas meninas nos acompanham até o camarim. Thais que virou boneca no tapete de Joyce e sua amiga. Ambas são pedintes no centro, vem com seus pais para ganhar o dia nas ruas. Elas saem com lanches nas mãos e nós vamos para o hotel, Recife começa a se mostrar.

As integrantes de movimentos feministas e artistas mulheres estiveram presentes e se fizeram notar na ação, MARAVILHA! Elas nos convidam a participar duma ação que ocorrerá no dia seguinte, 25/11, dia nacional da não violência contra mulheres, mas temos intervenção no mesmo horário, mesmo assim o recado está e será dado!

3º dia – iniciamos o workshop ‘como se constrói uma mulher?’ proposto por Nina e Lica, com participação e apoio meu e de Joyce. O Espaço Compassos nos cedeu a sala para trabalharmos, modupé!

08 mulheres apareceram – Andala, Angélica, Flávia, Gabriela, Mariquinha, Mônica, Rebeca, Sandra – todas atrizes, acima dos 20... Mulheres fortes, dentre elas uma paulista e uma gaúcha, Flávia e Sandra, as demais pernambucanas na veia!!!!

Saímos para uma caminhada performática. Cadê as mulheres nas ruas? É a pergunta que não quer calar. Os prédios antigos fechados, lacrados, outros em pleno uso. Extremos todo o tempo pelas ruas do Recife Antigo. Os homens inquietam-se com este bloco feminino, uma se destaca e eles dizem que esta está procurando homem... no marco zero um vendedor de sombrinhas de frevo nos oferece e sua companheira coloca-as nas mãos de todas, a cena é linda. Diante da escultura de Brennand, sob a bancada rente a margem do Capibaribe, Lica se ergue também em forma e Nina a sinaliza com fita zebrada. Andala, ao lado, instala pedaços de cascas de laranja e as abandona. Retornamos e pelo caminho nos instalaremos. Numa caçamba Nina e Joyce se colocam, Rebeca e outras também se instalam, é uma rua muito movimentada com muitos funcionários almoçando nas calçadas. Fiquei no registro o tempo todo! Isto me dá liberdade de criar imagens das mulheres em ação. Faço comunhões/oposições entre corpos e arquitetura, conversas e objetos aleatórios que encontro pelo caminho. A câmera me é muito bem vinda! Neste registro é preciso estar atenta à imagem e ao áudio, as pessoas reagem muito e os sons que produzem têm de ser também composto nesta ‘edição do instante’, ihihh!!! Este termo já usam né, kkkk!! Nina, me apropriei!

2ª intervenção Baby Dolls – Pátio da Feira de Casa Amarela. É mercado antigo, 1930. Um bairro populoso e tradicional em Recife pela festa de Nossa Senhora da Conceição. Passeio mais livre na feira, entre barracas os homens me chamam de ‘dama da noite’, se riem do saco em minha cabeça, entro no mercado. Entre lojas passo. ‘é dia das bruxas no mercado?!’ alguém grita. Continuo, passo por Joyce, vejo Lica às voltas com suas fotografias. Nosso tempo de chegadas e trajetórias foi mais uma vez revisto devido ao trabalho de ontem. Instalo-me na parte de dentro do portal da entrada principal, meu tapete atravessa a passagem. Na calçada Joyce e Lica se colocam, as pessoas se aglomeram, adolescentes fazem auê, senhoras nos olham ávidas e teimam em ficar e seguir-nos. Alguns homens chegam mais perto, seus olhares são mais sutis, eles percebem a relação com a violência e há uma certa vergonha em seus corpos, outros não, se colocam mais garbosos ou debochados. Uma mãe e sua filha, de uns 7 anos, acompanham toda a ação, a menina tenta se desgarrar da mão da mãe para ir ao tapete de Joyce, mas não consegue. Eu fico ali a observá-la. Desde ontem estou experimentando me mover mais já que agora tenho mais tempo. Criar imagens nos outros tapetes também é muito interessante. Compor com as outras bonecas no e pelo espaço amplia o sentido da intervenção para mim. A anja que nos acompanhou, Hammai, registra-nos com avidez, ela é forte e artista também, falou-nos muito sobre a violência na cidade e os tabus. Ao final, mulheres se aproximam para agradecer a experiência, estão emocionadas e nós também, deveras.

Hoje optei por não revelar o rosto na passagem da ‘mulher do saco’ para a ‘santadonadecasa’ e é mais forte a não identidade!

4º dia – não participei do workshop, fiquei no hotel me revirando entre a cama e o vaso, kkk! _Num guenta, toma leite!, diz bocudinha!

As mulheres trabalharam com seus objetos e iniciaram a composição de suas ações/intervenções.

3ª intervenção Baby Dolls – Várzea. Este bairro é grande e já pertenceu a família Brennand, holandeses que se instalaram na região e numa antiga olaria da família hoje temos o Instituto Brennand. O local é a praça Pinto Damásio, ampla e plana, com quadras e áreas com brinquedos para crianças, há um palquinho ao fundo onde senhores jogam dama. Um homem me pára e quer falar comigo, me chama de meu amor e pega na minha mão, começa a me puxar sutilmente, me desvencilho e sigo, o sol me cega, preciso atravessar a rua. Vou para uma sombra, assim enxergo melhor, a luz refletida pelo saco não ajuda em nada. Passo para a outra parte da praça, esta é maior. Dou uma volta, duas, olho por vários ângulos para escolher onde me instalar, Joyce já está à direita frente, Lica posa numa árvore, é magnífica a composição com o rosa ao fundo – branco/verde/rosa – paro. Atrás de mim uma quadra onde um grupo de mulheres da 3ª idade se exercitam ao comando da professora de educação física, crianças giram por todas as partes e de repente a praça até então calma se alarde com as bonecas que se instalam. A cada dia sinto-me mais calma na nova trajetória de chegada, antes era a erica na tora, agora é a ‘mulher do saco’ e ela precisa ser vista, apreciada, depreciada e assim instalada. O caminho agora é outro. Espero, como todos os dias, Nina vir marcar meu território com a frase ‘Rainha do Lar’, eu gosto mesmo é de ‘santadonadecasa’ tudo junto mesmo. Ela escreve e saio a andar, já com a santa. Os homens do jogo de damas nem se abalam. As mulheres da ginástica saem atrás de nós ou se agrupam por perto. Há muitas crianças e quando vejo Joyce trás consigo duas meninas/bonecas!! Duas!!!!

Nina escreve avidamente, o chão é ótimo, percebo que uma moça com o filho que a acompanha, quando o giz é solto no chão ela não espera, agarra-o e põe-se a escrever! Esta foi primeira vez que tive vontade de escrever. Nosso anjo de hoje foi Jeová, nos fotografou e se riu de nossas bobeiras de mulheres. Mas, contudo, contudo os anjos têm sido os motoristas!! Axé!!

Os dados estatísticos têm recheados nossos corpos grafados no chão, são da cidade, será que a população sabe? Sim! Sentem na pele.

5º dia – voltei ao workshop ‘pra rever as amigas que um dia...’ após uma experimentação individual e mostra dos roteiros de ações, saímos com as sobreviventes – Sandra, Mariquinha, Angélica, Andala e Gabriela. Nina, Lica e Joyce nortearam a ação e elas se somaram ao Baby Dolls. Paramos na dita rua movimentada do centro antigo, onde noutro dia Nina e Joyce se instalaram durante a caminhada. Eu com a câmera em punho como uma arma em fogo! Sigo-as. Engulo alguns que passam. É hora do almoço, a calçada está cheia, há várias barracas de comida e elas se põem a ser digeridas. Os homens no ponto de táxi se alvoroçam, querem colocar moedas no meu cofrinho, ergo-me e mastigo o pretendente com sua própria imagem na câmera, ele se encolhe, não estão acostumados a reação feminina, esta quase não existe. Grupos de curiosos se formam e debatem o que se passa. Mulheres dizem de Joyce morta no chão – ‘antes ela do que eu!’, outras se inquietam, não querem que ela seja de fato atropelada. O trânsito se acumula. Ônibus param para ver! Eu corro em todas as direções, capto conversas, histórias de violência contra a mulher são narradas com indignação por uma senhora que não se intimida com minha presença. Saímos e deixamos os rastros, eu aguardo um pouco, ainda respiro o burburinho, ainda sinto a onda se espraiar...

4ª intervenção Baby Dolls – Estação Terminal do Metrô do Barro. Um mar de gente, isso sim! Ondas de ônibus, metrôs e gente, muuuuita gente! Joyce se coloca na entrada da estação, eu em frente os trailers de lanche à esquerda e Lica a minha frente numa espécie de ‘cercadinho’ onde as pessoas esperam o ônibus. O sol está forte. Um homem se põe a meu lado e pergunta incessantemente por que estou com o saco na cabeça, para isto troca sempre o adjetivo – minha linda, gata, amor... – Minha cabeça dói. Não mostro meu rosto, me transformo na santa e encaro-o avidamente, ele some, não mais o vi ao longo do trabalho. Sinto náuseas. É muita poeira, de todos os tipos, muito barulho de motor, muitos cantares dos vendedores... o caos. O lugar é maravilhoso e não me sinto forte o suficiente com esta dor de cabeça. Respiro fundo e vou caminhar, as pessoas vem e vão, um homem muito negro com chapéu canta ‘o canto da ema’ para Lica, ela em noiva dança altivamente, ele se encanta. O ponto de ônibus vira o salão da festa, há um certo brilho nos olhos das pessoas, eu me coloco ao fundo de santa e observo junto aos demais. Precisaríamos de mais umas quatro bonecas para ocupar este espaço!!! As marcas hoje foram especiais, Lica usou também as pilastras e eu deitei-me logo abaixo para compor.

6º dia – Bate papo sobre o trabalho – Baby Dolls (MG), Bagaceira (CE) e Trupe Sinhá Zózina. Infelizmente não vimos os trabalhos uns dos outros, logo cada qual falou do seu...

5ª intervenção Baby Dolls – Praça da Boa Viagem. O vento é muito forte, foi o que primeiro assustou quando fomos ver este espaço na noite de sexta-feira. É uma praça muito antiga, de frente pro mar e cheia de barracas de roupas e artesanatos. Ao fundo a Capela de Boa Viagem e uma pracinha circular atrás. Nesta que elegemos a ação, não por ser o melhor espaço, mas devido ao vento. Não me sinto bem. Desde ontem estou atravessada!

As participantes do workshop chegaram no hotel para nos organizarmos, elas integrarão a ação. Após voltas e mais voltas subimos para o quarto e nos arrumamos lá mesmo, eu não me sentia nada bem, havia um incômodo, um cansaço e um série de sentimentos que me inquietavam. Hora de arrumar a noiva, minha proposta não é aceita, ela deseja algo como no dia anterior quando montei seu vestido como uma borboleta, volumosa! Travo, não consigo repetir esta forma! No dia anterior eu havia dito isto, enfim, simplesmente não vejo sentido em repetir... travei, não consegui fazer, Lica desmontou e tentou remontar a peça do dia anterior, mas nada, fiquei sem ação. Fui para meu quarto, sentia-me impotente e sem lugar. Quando retorno ela ainda não havia conseguido a forma, o clima não está nada bom e o que fiz foi calar-me. A noiva deste dia não brilhou, ou foram meus olhos que murcharam? Seguimos para o espaço, não me sentia nada, nada bem! Algo se quebrara. Algo me quebrara. A intervenção foi tensa. Uma luta com o vento, com o espaço que direcionava para a formação duma platéia em meia lua... Angélica, Mariquinha e Sandra se integraram a ação, Andala ficou assistindo. Ter mais bonecas e mais materiais para interferir e dialogar no espaço de ocupação é interessantíssimo, creio que amplia a ação e abre fendas nas nossas certezas, nas nossas comodidades. Por mais que lutemos o trabalho tende a se formatar e novas energias dão vigor!

Foi um dia extremamente difícil, senti-me no chão, espremida, espicaçada, mas viva! Uma Erica morreu ali, e hoje mãe, após uma semana eu percebo isso, ficou uma no solo de Recife e a que voltou está mais forte, mais ciente de si, do seu valor como criadora e proponente. E muito, muito mais incomodada com a situação das mulheres. Incomodada com a minha situação.

No sétimo dia descansamos! Williams nos levou a Itamaracá! Conhecemos o Forte Orange e Lia de Itamaracá! Uma grande Mulher e Cirandeira!!!!

Awrè minha mãe, que Oxalá te abenções e Obaluaê te encha de saúde, força e fé! Amo-te muito além dessas palavras, você está nos meus trabalhos, comigo, na mulher que sou e estou!

Awrè Pernambuco, Olorum Modupé!!!!!

Asè!!

4 comentários:

Clóvis Domingos disse...

Erica, que carta mais bonita e tocante!!!!! é arte e vida....tudo junto...você, tua mãe, as mulheres, as cidades e as experimentações. Uma escrita inventiva que mistura pessoalidades e universalidades. Um registro precioso e emocionado de como a vivência lá te transformou, te deslocou....Acho que é isso: se a gente se arrisca tudo acontece..... São muitas mulheres na mulher Erica!!!!!!

Erica Vilhena, vulgo Nêga. disse...

é crovito! e tem hora que estas ericas dentro de mim me deixam louca, rs! mas, é isso né, tenho de me arriscar! sempre! axé!

Anônimo disse...

Xi mulher! Adorei o teu momento! (e vim ter aqui nem sei como - atraves do site FincaPé) - mas, talvez porque eu ame as pessoas, ou porque adoro o Brasil, ou porque me enebrie a forma de pensar da mulher brasileira - mais parecida com o meu jeito, do que a generalidade das portuguesas, comecei lendo e não consegui parar!
Você não é poeta mas é mulher/homem/pessoa e ajuda a colorir esse País que eu amo.

Maior Força

Jose

Anônimo disse...

Erica
que depoimentooo!!! =)
Foi muito bom e forteee participar disso tudo. Me marcou tb. O que posso dizer? Obrigada a todas!
Depois venho ver mais o blog e vcs.
Beijos pernambucanos
Angélica Gouveia