No dia 07/07, o Obscena Agrupamento participou d´A Ocupação, evento "chamado" pelo GT de Cultura e Arte da Assembléia Popular Horizontal que, desde sábado, 29 de junho, ocupava a Câmara dos Vereadores da cidade de Belo Horizonte. Muitos artistas atenderam ao chamado e nós, do Obscena, realizamos duas intervenções: Lambe-Lambe e Cadeiras, com a participação especial do obscênico enrustido Admar Fernandes e da performer Carolina de Pinho.
Para Cadeiras, neste dia, optamos em trabalhar com leituras relacionadas diretamente ao nosso momento político, leituras para um "levante". Utilizamos poemas da antologia de poetas neo-barrocos, Vinagre, obras de Hakim Bey, Artaud e Nietzsche, além de notas da Assembléia à população de BH. Abaixo, foto-montagem (fotos de Wagner Alves de Souza) da ação, com alguns dos textos lidos nesse dia.
OPUS OPERA
Opusilânime
O governador é membro
da Opus Dei Cacetada,
Opus Dei Spray de Pimenta,
Opus Dei Tiro de Borracha e da
Opus Dei Bomba de Gás Lacrimogêneo.
Depois de seu impeachment
ele poderia fundar
a Opus Dei Motivo,
Opus Dei chilique,
Opus Dei Mole,
ou Opus Dei Azar.
De todo modo, você já
Opus Deu, Chuchu.
OpuSalmo
É Opus Dando que se recebe
OpuSamba
chegou a hora dessa gente
diferenciada vândala e
cheiradora de vinagre
mostrar seu valor
Opusalada
a pergunta que não quer calar:
voce é Pimenta ou Vinagre?
Opus Day
Se hay gobierno, soy…. Impeachment!
Já deu, picolé de chuchu.
OpuScience
agora é a PP “polícia pacífica”
contra o VVV “violentos vândalos de vinagre”
PP x VVV de que lado voce samba?
Opu S. O. S.
EXISTE PAVOR EM SP
Opus Ó pus
Geraldo Alckmin:
pergunta aí como se diz impeachment em Francês.
Haddad:
larga o camembert e pega o avião! Aqui tá Russo, Mano.
Opuscúlo
Será que agora a mídia vai dar a cara a tapa?
Olho por olho de jornalista:
quem é vândalo, os manifestantes ou a polícia?
*
OpusCopa
A Copa das Como fedem as ações
Beatriz Azevedo (Vinagre)
Nota da Assembleia
Popular Horizontal acerca dos recessos de serviços prestados pela Câmara
Belo Horizonte, 06 de
julho de 2013.
Apesar do esforço dos
ocupantes da Assembleia Popular Horizontal em conversar com a mesa da Câmara
Municipal, como temos conversado com o poder público, não houve interesse por
parte dos vereadores em dialogar. Deixamos claro que nossa relação com os
funcionários e seguranças da Câmara é bastante cordial e cooperativa.
Informamos que em 29 de junho, dia em que foi
votada em regime extraordinário a isenção do ISS das empresas de ônibus, os
vereadores decretaram recesso das suas atividades. Pedimos o esclarecimento da Câmara de
Vereadores sobre a razão da liberação de parte do poder técnico administrativo
e de serviços básicos oferecidos, como o Restaurante Popular, emissão de
carteiras de identidade e Internet Popular quando há a nítida possibilidade que
câmara continue a trabalhar normalmente.Também pedimos a revisão rotineira do
bebedouro, que está sem possibilidade utilização.
Não houve resposta alguma por parte da mesa
diretora, que se recusa a conversar com a Assembleia Popular de Belo Horizonte.
Isso tudo reproduz o modo como os vereadores e instituições lidam com as
demandas da população!
Assembleia Popular
Horizontal de Belo Horizonte
Poder para o povo!

Aquele que atinge seu ideal, por isso mesmo o ultrapassa. [...] É desumano bendizer aquele que nos amaldiçoa. [...] Oh! Meio-dia da vida! Hora solene! Oh! jardim de verão! Felicidade inquieta, de pé na ansiedade e à espera; Espero meus amigos, pronto dia e noite. Onde estão meus amigos? Venham! É tempo, é hora! (Além do Bem e do Mal: Nietzsche)
A RRUA
absurdo
abmudo
abism'undo
tem hora que o silêncio é cheio de gritos.
tem hora que o grito maior é o silêncio.
é que a rua agora
tem perna
tem punho
tem pulso
e pulsa
e empunha
e marcha:
é a rua.
vira a esquina
bate com a cara num muro duro
escuro
que é falange
que é falácia
e tem sempre razão
uma razão que é fogo, ferro, canhão.
aparelho de manutenção
− ordem! moral! algema!,
golpeia!,
− protege!
silencia com relâmpago e trovão.
troveja
apavora
e a rua chora
e não é por vintém.
pode ser tristeza
pode ser horror
pode ser pimenta
pode ser ciência
com a ciência de que tudo é dor.
a rua chora,
mas oferece flor.
o muro para,
mas o mundo cai.
o mudo cai:
a rua dá seu grito
− de guerra!,
não , não é.
o grito da rua
só é de guerra quando a guerra
é o maior grito de paz.
Danielle Takase (Vinagre)

Dito isso, pode-se começar a extrair uma ideia da cultura, uma ideia que é antes de tudo um protesto. Protesto contra o estreitamento insensato que se impõe à ideia da cultura ao se reduzi-la a uma espécie de inconcebível Panteão - o que resulta numa idolatria da cultura, assim como as religiões idólatras põem os deuses em seus Panteões.
Protesto contra a ideia separada que se faz da cultura, como se de um lado estivesse a cultura e do outro a vida; e como se a verdadeira cultura não fosse um meio refinado de compreender e de exercer a vida. Pode-se queimar a biblioteca de Alexandria. Acima e além dos papiros, existem forças: a faculdade de reencontrá-las nos será tirada por algum tempo, mas não se suprimirá a energia delas. (O Teatro e seu Duplo: Artaud)

Se a História É "Tempo", como declara ser, então um levante é um momento que surge acima e além do Tempo, viola a "lei" da História. Se o Estado É História, como declara ser, então o levante é o momento proibido, uma imperdoável negação da dialética como dançar sobre um poste e escapar por uma fresta, uma manobra xamanística realizada num "ângulo impossível" em relação ao universo. A História diz que uma Revolução conquista "permanência", ou pelo menos alguma duração, enquanto o levante é "temporário". Nesse sentido, um levante é uma "experiência de pico" se comparada ao padrão "normal" de consciência e experiência. Como os festivais, os levantes não podem acontecer todos os dias - ou não seriam "extraordinários". Mas tais momentos de intensidade moldam e dão sentido a toda uma vida. O xamã retorna - uma pessoa não pode Ficar no telhado para sempre - mas algo mudou, trocas e integrações ocorreram - foi feita uma diferença. (TAZ: Hakim Bey).
COMEÇO DO MUNDO
O que pode um corpo
morto que se
descobre vivo?
Como se dobra
o sufoco? Como
se alça o asfalto?
Tudo está à flor
da pele e
subterrâneo.
Rua, começo do mundo.
O que pode um corpo?
O que pode um povo?
Nenhuma tropa
de choque esmaga
a resposta que somos.
Eduardo Sterzi (Vinagre)
LEMBRETE
Havia um homem antes da farda:
depois, difícil dizer
visto deste ângulo
a vista turva de gás
confunde a espingarda às mãos, braços, corpo cabeça.
Havia um homem antes da farda:
depois, difícil
o amor à ordem,
ainda que caduque e obrigue
a esquecer como basta
o menor dos impulsos para pedra, faca, estilhaço
rasgar-lhe a garganta.
Havia um homem antes da farda:
depois,
caos, um nada,
anterior talvez à farda
à espera que, de ordem, uma palavra
o preencha,
havia um homem ––
esse verso impossível de lembrar,
se a hora não é de poemas, falhando a voz,
o coturno abafando a garganta, ódio
trêmulo na fumaça dos detritos.
Adriano Scandolara (Vinagre)