agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

terça-feira, dezembro 07, 2010

MOSTRA DIÁLOGOS OBSCÊNICOS: programação


P R O G R A M A Ç Ã O:

Sexta, dia 10.

19 horas: apresentação do novo projeto do Obscena: "Corpos Públicos, Espaços Privados? Invasões no corpo da cidade".
20 horas: Apresentação do projeto Cena Aberta, do CCUFMG e dos grupos parceiros que o integram.


Sábado, dia 11.

9 às 12 horas: Diálogos Obscênicos com o Coletivo Vago (Davi Pantuzza, Elisa Marques e Nian Pissolati). Imediações e instalações do CCUFMG
14 horas: Intervenções Obscênicas nas imediações do CCUFMG (Joyce Malta, Lissandra Guimarães e Erica Vilhena)

15: 30 horas: Fazendo Programa, com Saulo Salomão e Leandro Acácio

18 horas: Compartilhando pesquisas (Nina Caetano) e mais Diálogos Obscênicos (conduzido por Clóvis Domingos)



MOSTRA DIÁLOGOS OBSCÊNICOS


Local: Centro Cultural da UFMG (Av. Santos Dumont, 174, Centro)

Data: 10 e 11 de dezembro / Sexta às 19h e sábado de 9 às 21h

Entrada Franca


Nos dias 10 e 11 de Dezembro, o Obscena convida “muita gente” para dialogar com o público: os artistas do agrupamento independente de pesquisa cênica farão a apresentação de seu projeto de pesquisa, “CORPOS PÚBLICOS, ESPAÇOS PRIVADOS? Invasões no corpo da cidade”, que, tendo iniciado em 2010 com experimentos performativos realizados em espaços públicos de BH, passa a ser desenvolvido, a partir de novembro deste ano, em parceria com o projeto Cena Aberta 2010/2011. O Cena Aberta contemplou, para residência no CCUFMG, além do Obscena, os grupos Olho Nu e Umacompanhia.

Na mostra “Diálogos Obscênicos 2010”, o Obscena vai, para além de apresentar o projeto e a parceria, desenvolver uma série de ações relacionadas à sua pesquisa: aprofundando seus “diálogos obscênicos” junto a outros coletivos artísticos da cidade, o agrupamento convida, para essa primeira mostra, o ColetivoVago, com o qual realizará, na parte da manhã, experimentações práticas e discussões. Na parte da tarde, é a vez de cada um dos pesquisadores do Obscena apresentar/realizar elementos de suas pesquisas individuais, na forma de intervenções e apresentações orais, além de exposição de imagens.

Criado em 2007, o Obscena – composto atualmente pela dramaturga Nina Caetano, pelas atrizes Lissandra Guimarães, Erica Vilhena, Joyce Malta e Patrícia Campos e pelos atores Clóvis Domingos, Saulo Salomão e Matheus Silva – vem buscando a experimentação de ações que possam intervir no cotidiano da cidade e a criação de uma rede colaborativa, tanto por meio da interação entre os pesquisadores do agrupamento, como por meio da realização de workshops, de ações integradas e de trocas com outros artistas e com instituições sociais, tais como a Marcha Mundial das Mulheres (movimento feminista e anti-capitalista de ordem internacional) e o Centro Reeducacional São Jerônimo, que visa a reinserção social de adolescentes do sexo feminino em privação de liberdade.

Em 2008, os elementos temáticos e poéticos investigados pelo agrupamento durante o desenvolvimento do projeto de pesquisa "Às margens do feminino, texturas teatrais da beira" (contemplado pelo Fundo de Projetos Culturais da FMC de Belo Horizonte) geraram, além de mostras processuais e fóruns de discussão, alguns trabalhos como “Vendo-me por quilo, compre-me a prazo: classificados dos jornais” e “Baby Dolls, uma exposição de bonecas”, intervenção urbana que já se apresentou em vários festivais de teatro e performance no Brasil, inclusive no FIT-BH 2010.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Provocações obscenas de Luciano Dias

Para este nosso recente projeto de pesquisa que pretende discutir as questões do Poder, Corpo e Espaços Urbanos tivemos dois encontros muito importantes com o pensador e filósofo Luciano Dias que nos trouxe um pouco do pensamento de Michel Foucault.

Refletir sobre as atuais formas de disciplina e controle na sociedade contemporânea foi um exercício muito interessante e revelador. Talvez hoje estejamos mais "vigiados e vigilantes" do que nunca. As pedagogias da sexualidade e "normalidade" trabalham o tempo todo e a cada momento novos discursos são produzidos e "incorporados" pelas pessoas.

Vou tentar trabalhar sobre a questão do corpo, enquanto território no qual se produzem e se articulam discursos e saberes sobre o que é saúde e doença. Parece-me que hoje cada vez mais há um investimento sobre a doença e sabemos com Foucault, que corpos doentes se tornam mais frágeis e dóceis, assim, mais disponíveis à normalização. Não apresentariam perigos e ameaças à ordem social. Haveria um projeto de homogeneizar a todos. Como nos provocou o Luciano: a DIFERENÇA é que precisa se manter como uma atitude de resistência.

Vou aliar a este estudo ( in process) alguns conceitos da Psicanálise, pois muito interessa-me a produção de metáforas, e hoje as enfermidades são difundidas o tempo inteiro e todos nós temos uma forte vocação para nos tornarmos doentes potenciais. Sentimentos e reações, antes considerados parte da vida de cada um, são aos poucos PATOLOGIZADOS, e a vida com seus dissabores e desafios precisa ser medicalizada.

Não são as doenças que me preocupam (ficar doente, até onde eu sei, faz parte da existência), mas as METÁFORAS forjadas a partir delas. (Susan Sontag escreveu obras sobre este tema e vou pesquisá-las).

Verificamos hoje, muitos sujeitos fragilizados e impotentes, diagnosticados como doentes e demandando o "cuidado de si" para o exercício e poder de Outros.

O QUE É SAÚDE?
O QUE É DOENÇA?
O QUE É VIVER?
O QUE É CALMARIA?
O QUE É DESASSOSSEGO?

quinta-feira, novembro 25, 2010

mulheres de programa

hoje, 25 de novembro, fiz mais uma programa.



como sempre, não o fiz sozinha... que graça teria?
melhor seria dizer: nós o realizamos. 11 mulheres e um bendito fruto.
tornar real um programa é organizar um plano de risco e colocá-lo em ação. para desprogramar corpo e meio...

"mulheres painel em deriva pelo hipercentro de belo horizonte oferecem seus corpos para serem lidos. nestes, notícias de jornal se misturam a imagens de mulheres e a escritas improvisadas".

dando prosseguimento à investigação do feminino que a gente vem realizando (lica e eu), tínhamos proposto para as mulheres da marcha mundial das mulheres uma ação coletiva para o dia internacional da não violência contra a mulher. seria uma ótima ocasião para recolher mais imagens junto com anna e taynara, as moças da m.m.m. com quem estamos realizando uma parceria de trabalho para desenvolvimento de material audiovisual.
elas, para seu trabalho final na oi kabum. nós, para desenvolvimento de nossas questões.

a idéia era criar uma multiplicação, uma seriação de figuras femininas que, marcada por certas semelhanças - as mulheres teriam em comum os corpos/roupas de jornal - e circunscrita em uma determinada área, tenderia a provocar interrupções no fluxo cotidiano da cidade, um possível estranhamento.

com a necessidade das mulheres da marcha se concentrarem nas manifestações mais diretas e sem tempo hábil para prepará-las para a ação que pensávamos, acabamos por decidir convocar outras performers de belo horizonte que imaginávamos comungar em termos não só de linguagem, mas também de interesse temático ou de atitude política.
email, facebook e, em breve tempo, conseguimos um bom número de mulheres interessadas em realizar uma ação conosco.

como disse, fomos onze ao total. dessas, seis saíram, efetivamente, de mulheres painel: lica, letícia castilho, sílvia andrade, marcelle louzada, viviane (preciso saber seu sobrenome) e patrícia campos, pesquisadora que integra a rede colaborativa do obscena.
todas as outras (nina, marta, juliana, anna e taynara) e o bendito fruto, fernando, ficamos no necessário apoio: dentro de sala e no acompanhamento/registro na rua. afinal, temos que estar preparadas para tudo (também seria interessante saber o sobrenome de todas/o para os créditos nas fotos/imagens).

em evidente alusão a um tempo de guerrilhas, acabei por nomear a ação de ação performática 25 de novembro. letícia veio a caráter, vestida pra guerra. cada mulher painel construiu sua singularidade... silvia com seus sapatos de jornal e guarda-chuva, patrícia de "chanel", marcelle com sua cachorra e viviane de rainha... lica com sua mitra, aráutica...


nos corpos números de violência, bundas plastificadas e sorrisos cor de rosa. olhos roxos e palavras editadas. desprogramando. desprogramando. desprogramando.

CONVITE DE DEFESA DE MESTRADO DE CLÓVIS DOMINGOS

O Programa de Pós-Graduação em Artes da Escola de Belas Artes da UFMG

Tem a honra de convidar para defesa de Dissertação de Mestrado

TÍTULO: “A CENA INVERTIDA E A CENA EXPANDIDA: projetos de aprendizagem e formação colaborativas para o trabalho do Ator”

CANDIDATO: Clóvis Domingos dos Santos

ORIENTADOR: Prof. Dr. Antônio Barreto Hildebrando

BANCA EXAMINADORA:

Prof. Dr. Denise Araújo Pedron – titular- PUC/MG

Prof. Dr. Fernando Antonio Mencarelli– titular–EBA/UFMG

Prof. Dr. Luiz Otavio Carvalho Gonçalves de Souza – suplente - EBA/UFMG

Prof. Dr. Maurílio Andrade Rocha – suplente - EBA/UFMG

LOCAL: Escola de Belas Artes

Av. Antonio Carlos, 6627

Campus Pampulha - Tel (31) 3409-5260

http:// www.eba.ufmg.br/pos

Dia 26 de novembro de 2010, (sexta-feira) às 10:00 horas no espaço vermelho do prédio de Teatro da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais

terça-feira, novembro 23, 2010

desnaturalizando as coisas

ontem iniciamos nossa residência artística no centro cultural da umfg.
e foi em alto estilo.
na parte da tarde, lisssandra e eu nos encontramos com o grupo de mulheres que irá, junto conosco, realizar uma ação performática feminista no dia 25 de novembro. conseguimos um bom grupo, de mulheres interessantes e interessadas: da marcha mundial das mulheres, mas também performers de belo horizonte.
foi uma boa conversa, com a definição do programa da ação.
quinta, performaremos o programa que pretende, com uma multiplicação de mulheres painel, causar uma interrupção no fluxo do cotidiano. provocar estranhamentos...

à noite, luciano dias veio falar conosco sobre foucault, corpo e poder. foi muito, muito profícua a discussão e as questões que se apresentaram nessa primeira conversa. a desnaturalização das coisas muito me interessou. colocar em questão, suspeitar do que parece natural...

é natural separar mulheres de homens, meninos de meninas, na educação física, por exemplo? homens jogam futebol, mulheres fazem ginástica?
é natural o casamento e os filhos, destino de toda mulher?
é natural que cuidemos dos filhos?
é natural que sejamos valorizadas (ou desvalorizadas) por nossas posturas sexuais?
é natural que o ciúme controle as relações e que estas se configurem como relações de posse?

preciso reler foucault... principalmente a história da sexualidade. isso é urgente.

sexta-feira, novembro 19, 2010

Uma experiência Obscen[ic]a


(por paulo maffei)


Proposta: Passear pelo centro da cidade (Belo Horizonte – MG), utilizando elementos do sexo oposto. Dia 25 de Outubro de 2010, horário: 19h. Sou convidado a participar da experiência. A proposta que já havia sido definida anteriormente pelo agrupamento, previa que as pessoas se dividiriam em duplas, onde uma estaria caracterizada com elementos do sexo oposto e a outra a seguiria pelo passeio a ser realizado, através de mapas desenvolvidos pelos propositores da situação e que foram trocados antes do inicio da experiência. Aquele que seguiria o propositor investigaria as reações e acontecimentos oriundos deste passeio, por parte dos passantes da cidade.

Sigo o Mateus. Ele está usando calça social preta, camiseta regata preta, barba por fazer, pêlos no peito (signos atribuído ao gênero masculino), bota plataforma, bolsa de mão de vinil branca, batom (signos atribuídos ao gênero feminino).

Iniciamos o passeio. Percebo movimentos que se contrapõem, pois o traje masculino de Mateus mesclado com os signos femininos, causam um choque, muito maior do que se ele estivesse completamente travestido, porém ao mesmo tempo que sua presença causa um distanciamento daquilo previsto como normal, este distanciamento se refere apenas a mais um elemento desviante no caos da cidade.

Se a linha da cidade esta repleta de informações destoantes, mais uma que destoe a lógica do gênero passa quase que imperceptível... a não ser por três passos depois do propositor passar e os olhos se voltarem para trás, na busca retardada de compreender mais um signo [torto] da cidade.

Outros passantes mais atentos, ao se depararem com um Homem e sua bolsa de mão branca que reluz as luzes da cidade, correspondem com risos, interrupções de conversas, sinal da cruz por parte de um fiel que carregava uma bíblia nas mãos, sustos...

Entramos no Palácio das Artes. Espaço constituído por um público “seleto” [gente da Arte]. Quase não se percebe reações pelas pessoas que se encontram no espaço... no máximo, ao meu ver, um olhar quase que analítico na busca de compreender se aquilo é uma “proposta” ou apenas aquilo o que é.

Seguimos caminho em direção a Praça da Estação... olhares, comentários e etc. ao passarmos enfrente uma faculdade alguns estudantes (Homens) que estavam na calçada começam a mirar aquela presença inusitada... Mateus se distância um pouco destes e para encostando na parede. Os estudantes, como se sentissem no direito, começam fazer piadas para o Mateus: “Oh meu bem”, “Vem cá linda” entre outros. Mateus continua seu trajeto. Sempre nos deparamos com olhares incompreensivos por parte dos passantes, investidos de pré-conceitos depositados por nossa sociedade (não me excluo desta formatação) ao longo de nossa formação: “Isto é de menina”; “isto é de menino”; “menina se porta assim”; “menino se porta assado”. Assim nos formamos enquanto seres humanos, limitados por nossos órgãos sexuais... “Como construir para si um corpo sem Órgãos?”

Vamos para nosso último destino a Praça da Liberdade. Na busca da liberdade, nos deparamos com pessoas que correm ao redor da praça, correm atrás do corpo perfeito. No caminho contrário segue Mateus e sua bolsa branca, sua plataforma e seu batom no lábio. A Praça da Liberdade não se demonstrou liberta. Ao correrem as pessoas passavam rápidas de mais pelo Mateus, e assim tinham que virar o rosto para melhor entender aquele Homem/Mulher que acabara de passar...

Encerramos o percurso.

Impressionante como uma bolsa de mão branca no corpo de um homem – que outrora estando sobre a mesa não causava grandes afetações – se torna tão poderosa simplesmente pelo contraste bolsa de mulher/corpo de homem... Enfim são coisas do gênero...

Paulo Mafei

quarta-feira, novembro 17, 2010

performances no centro de brasília

obscênicos!
muito legal o evento realizado pelos corpo informáticos, de brasília... tudo a ver com a pesquisa que estamos fazendo!
lá, começa no dia 24 de novembro

http://www.performancecorpopolitica.net/

domingo, novembro 07, 2010

relato de experiência

por Patrícia Campos (25 de outubro)

Encontramo-nos em frente a igreja São José e trocamos os mapas como combinado. Um mapa bem traçado dos lugares que teria que percorrer me foi entregue: sete roteiros escritos em um papel rosa.

Vim vestida de homem do shopping cidade.

Cheguei ao shopping com 40 minutos de antecedência do encontro marcado. Sentei e comi um lanche e pensava nas possibilidades que encontraria pela frente vestida naquelas roupas. Não me sentia psicologicamente preparada para experiência que iria viver, não estava em um lugar muito confortável (nunca estamos), mas tive medo e não queria viver a experiência.

Fui paquerada por um atendente da lanchonete, puxei papo. O lanche demorou a chegar, enquanto isso trocava algumas palavras com o atendente. Comi e o atendente (um garoto de uns 19 anos) se despediu de mim. Em seguida fui ao banheiro e me vesti com as roupas. Saí para o encontro.

Já havia estabelecido mentalmente quais seriam as reações das pessoas. Mas não foi como esperava.

Igreja são José: nada! Shopping cidade: as pessoas me olhavam sem enfrentamento, sem desdém, até com certo “respeito”. Entrei em lojas masculinas, fui muito bem atendida. Escolhia roupas entre os homens que garimpavam nas lojas e nenhum incomodo maior. Comecei a provocar as pessoas. Entrei em vários estabelecimentos, entrei em uma livraria e perguntei: Qual desses livros aqui é livro de homem? O rapaz desconsertado me respondeu educadamente que isso não existia. Eu lhe disse: Não sei, só sei que me falaram isso. Conversamos sobre o que lia, era um livro de economia. Vi um livro com título de alguma coisa puta, escrito bem grande na capa, pensei em não, mas perguntei depois: Isso aqui é livro de homem? Não esperei resposta. Fui ao encontro de vários homens sentados em poltronas lendo ou mesmo esperando. Fiz a pergunta a eles: aqui é lugar de homem? Depois constatei que havia uma mulher sentada bem atrás e fui embora. Encontrei mais tarde dois homens em uma banca de livros de economia. O que você está lendo? Livro de economia. É... é livro de homem. Fui ao cinema e fiz a mesma pergunta a um numero de rapazes que me indicaram Tropa de Elite e Piranhas: Sexo, sangue e terror. Saí pelo shopping perseguindo os homens. Sentava ao lado deles e os observava, imitava seus gestos. Eles não me desafiavam, não saiam para longe e na maioria das vezes tentavam agir com naturalidade. Passei a realizar toda minha trajetória em linha reta, desviando apenas das mulheres. Buscava e cruzava pelo meio os grupinhos de homens em pé pelos corredores. Não se afastavam e esbarrava neles aos controncões. Buscava achar entre as pessoas guetos ou pequenos redutos masculinos. Saí do shopping em linha reta em destino aos bares da Guajajaras. Esbarrei em um rapaz e derrubei sua cerveja. Parei por medo, mas não disse nada. “Você está delicada hoje!”. Pedi informação a um morador de rua. Ele me explicou com muita cordialidade vários endereços de bares e me avisou que havia um, mas que não era interessante pessoas como eu e ele entrarmos lá, pois era caro, um lugar mais refinado. Entrei em um boteco, pedi uma cachaça e um cigarro. Fui muito bem atendida.

Palácio das Artes. Senti calor e saí com a blusa levantada. Não me olhavam. Entrei pedi um café. Clovis estava em uma mesa atrás de mim. Pela primeira vez minha barriga não me incomodou. Eu a alisava com a camisa levantada e ninguém olhava, se me olhavam, não era um olhar especial: não me esnobavam, não me desafiavam, não se espantavam demais comigo, não me aprovavam ou reprovavam. Tudo muito natural.

Desde que saí do Shopping questionei se a minha provocação era pertinente. Se o melhor não era mesmo seguir o programa me nutrindo das experiências que cruzassem meu caminho...

Saí do shopping pensando no programa do Clovis que era me acompanhar, prestar atenção em mim e no que acontecia a minha volta e, com toda certeza, essas observações eram observações que me escapavam.

Fui ao banheiro masculino após tomar meu café. Meu corpo de mulher não causava incomodo, nem desejo, nem aprovação ou desaprovação. Entrei no banheiro, um homem usou o sanitário fechado e outro desconcertado lavou as mãos e saiu.

Fui para o supermercado Carrefur. Ainda com calor e a blusa levantada. Não comprei nada. Comecei a procurar o Clovis para saber como ele se comportava dentro de uma situação como aquela e o encontrei em um corredor de frente para mim. Achei muito engraçado seu repertório improvisado para permanecer por tanto tempo no supermercado atrás de mim.

Praça da liberdade. Parei em um bar. Fui gentilmente atendida. Não quis beber nada. Clovis se sentou em uma mesa em frente e me observava. Eu também o observava sem o olhar diretamente. Tomava um chope. Tirei minhas roupas da mala, pendurei-as em uma cadeira. Tirei a roupa que vestia. Vieram me expulsar. Saí da mesa e fui pra calçada. Um grupo de moradores de rua foi observado anteriormente por mim. Não sei o que se passou naquele momento, ampliar minha percepção sobre o que acontecia em torno seria me expor a perigo.

Ridículo! Será um mendigo, um desajustado, um sapatão, um transviado, um drogado entregue a alucinação, um lunático, serão todos performers? O que será que eu significo para quem me vê passar? São questões, sempre.

Pensei durante todo o meu trajeto nas minhas representações cotidianas e nas novas adequações criadas por mim juntamente com os transeuntes a partir das roupas de homem: uma camisa social bege, uma calça também na mesma cor e um sapato social preto e mochila nas costas. Fiquei cansada com a quantidade de elaborações sutis criadas cotidianamente por cada um de nos na vida social e a interdependência que existe entre eu e os outros nessas criações. Como eu queria um salto de liberdade que ainda não foi possível mesmo com aquelas roupas dentro de uma situação que seria originalmente traçada por mim. Comecei a pensar: esse programa é meu?

Terminei de me vesti e fui para o Maleta como havia começado: com roupas de mulher. Tudo termina quando me sento e encontro com as outras pessoas do grupo.

segunda-feira, novembro 01, 2010

macha fêmeo (postagem de Leandro Acácio)

Refletir sobre a questão dos gêneros [masculino e feminino], a partir da idéia e da experiência do cross-dressing (vestir-se com roupas do sexo oposto) é também se colocar grandes indagações: O que constitui uma identidade individual e uma realidade social? Tudo aquilo que somos é construído pelos outros ou nos é (socioculturalmente) dado? Se é construído, é construído de que? Claro que as tensões binárias entre “macho” e “fêmea” ou “masculino” e “feminino” são muito simples, mas servem de parâmetro para iniciar uma reflexão. Comportamentos cotidianos, comportamentos sexuais, trajes, adornos, gestos, modos de andar, roupas, tom de voz, são elementos que apontam, que determinam, modificam e marcam os corpos de uma dada sociedade.

Das sensações - how do you feel about yourself?

Sair de casa vestido de mulher foi [ex]ótico. No início, fiquei escondido no quarto, depois relaxei e pedi opiniões para minha família se a roupa estava boa ou não. Foi divertido. Fui para o local do encontro de táxi. O taxista ficou mudo o tempo todo da viagem. Tentei puxar assunto, mas ele não rendia a conversa. A sensação de usar SAIAS foi gostosa. É fresquinho e confortável. Os BRINCOS incomodaram um pouco, também eram muito pesados e eu não tenho orelha furada.

Do trajeto e das reações das pessoas - how people react to you?

As pessoas se mostravam quase indiferentes. Quando muito, fingem que nem estavam ali e nem era com elas. Muitas voltavam o olhar tentado conferir o que realmente estavam vendo. O que é aquilo? Homem? Mulher?
O primeiro local do percurso foi na Igreja São José. Pedi para alguns fiéis para conversar com o pároco. A mulher foi bastante generosa comigo e intercedeu junto ao assistente do padre. Quando o assistente me viu, ele falou ríspido: - Não, não, não. O padre já está muito velho para isso, volte no horário comercial.
Ao sair da igreja um homem me disse: - É preciso ser forte. É preciso ser uma fortaleza.

Segui o caminho pelo quarteirão fechado da Praça 7 de Setembro. No bar Pop Kid. Tomei um chopp, ouvindo música ao vivo. Tentei olhar para as pessoas, mas todas desviavam o olhar. O fato de estar sentado sozinho também tirava um pouco da naturalidade. O garçom foi bastante cordial. Fui tratado como uma dama.

Subi as escadarias da galeria Praça 7. Dois homens recusaram meu convite para sentar à mesa deles no bar Fórmula 1. Um deles alegou que “já estava esperando um amigo...” Aqui me uni à minha acompanhante Ninon (que até então observava tudo de longe). Achamos melhor assim pois ficar sozinho é pouco natural.

Descemos para a nossa última parada: Rua São Paulo e ramificações ou pra ser exato o “Sobe – desce” [nome popular dos puteiros do baixo meretrício de Belo Horizonte]. O nome é uma homenagem às escadarias do prédio/hotel repleto de corredores iluminados com luz negra. No sobe-desce fomos muito bem recebidos. Conversamos rapidamente com uma garota em seu quarto. Vimos suas instalações – uma cama redonda e um banheiro basicamente. Ela nos disse que o valor mínimo do programa era de dez reais. Detalhe importante: era aproximadamente 8h da noite e o sobe-desce estava bastante movimentado. Público jovem, na maioria. Fomos para o Scotch Bar. Pedimos cerveja e fichas para sinuca. Como não sabíamos direito as regras, pedimos ajuda a dois amigos que tomavam cerveja por perto. No início hesitaram, depois acabaram nos dando um breve workshop.

Liberal gerou.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Cartografias de um Corpo Errante pela cidade

Durante a "cross-dressing" proposta por Leandro (inspirada em Schechner) fui acompanhante de Patrícia que vestida mais "masculinamente" (será que existe isso?) percorreu pelas ruas e lugares da cidade cumprindo um "mapa estrangeiro", isto é, o percurso trazido por outra pessoa.

Durante este percurso registrei uma cartografia de nossos corpos: Igreja São José- Loja Windsor- Shopping Cidade - Riachuelo- banco de assento no Shopping- Rua- Guajajaras- São Paulo- Praça Sete- afonso Pena- Prefeitura- Palácio das Artes- café do Palácio- pernas que doem- cansaço- Cidade cheia- cidade vazia- deslocamento- é só mais um corpo.... Que mapa será este? Resto de cigarro- banheiro masculino- 21:30h, ela sai do banheiro- saída do Pala´cio- Supermercado- Rua sergipe, nunca passei por aqui- folhas no chão- 21:45h, ela se senta numa mesa e fuma- pobres selecionam lixo dos prédios elegantes- ela troca de roupa no passeio- discussão com rapaz do bar- ela sai andando- caminho para o Maletta. Fim do percurso.


Lista de coisas que recolhi no percurso:
- folheto de igreja
-catálogo de acessórios da Riachuelo
- tampinhas de cerveja
- maço de cigarro vazio
- folhas secas
- postais de propaganda
- nota de compras do Carrefour
- resto de cigarro

Estes objetos sinalizam esta cartografia corporal, são rastros das mãos humanas, são materiais, são concretos, falam de trajetos percorridos, provas de um percurso, cartografam um corpo que passou pela cidade....

terça-feira, outubro 26, 2010

mulher de programa

ontem fiz dois programas.
um programa, segundo Eleonora Fabião (no texto "Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea"), é "um tipo de ação metodicamente calculada, conceitualmente polida, que em geral exige extrema tenacidade para ser levada a cabo, e que se aproxima do improvisacional exclusivamente na medida em que não seja previamente ensaiada. Performar programas é fundamentalmente diferente de lançar-se em jogos improvisacionais. O performer não improvisa uma idéia: ele cria um programa e programa-se para realizá-lo... Ao agir seu programa, desprograma organismo e meio". um programa é uma concepção de risco.
ontem. 16:20. estação central do metrô. uma mulher avança pelos corredores na estação, atravessa a catraca. uma mulher escrita, vestida de jornal. a mulher entra nos vagões, desce nas estações de metrô. ela posta-se. ela quer ser lida. essa é uma mulher painel.
a roupa é feita de recortes, o corpo "tatuado" e plastificado com notícias e imagens. A dramaturgia é tecida aqui por associações/justaposições/aproximações, por vezes irônica. tal jogo, embora produzido pela escolha artística, é necessariamente construído por quem lê. nas costas da mulher painel, vê-se, por exemplo, uma manchete: "mulher morre baleada no olho". próxima a ela, a imagem de uma bela morena, seminua e de olhos verdes, ressaltados pela frase que a anuncia: "que olhos!" a potência irônica está lá, mas será capturada? há a intenção de que ela seja? ou, libertando a leitura, não se libertou também a ação performática da necessidade de ter seus sentidos transparentes e decodificáveis? lá está também a notícia dos abortos ou das garotas violentadas. o transeunte está livre para fazer sua leitura e construir suas próprias imagens.
essa mulher, durante um tempo, passa despercebida. a estrutura institucional ainda não se manifestou. mas logo os seguranças a vêem. eles a interpelam, a seguem, vigiam. ela é potencialmente perigosa, provavelmente propensa a explodir, a qualquer momento, uma ação.

ontem. 19:35. chegamos ao encontro marcado em frente à igreja são josé. já estavam lá clóvis, patrícia, leandro e davi. chegamos eu, lica, matheus e um pesquisador da ufop que vai nos acompanhar, paulinho maffei. logo em seguida chegam saulo, joyce e nêga, além de luciana ramin, uma amiga de são paulo que trabalha com performance vídeo e também quer acompanhar o trabalho do dia.
vamos fazer o programa proposto por leandro no último encontro: uma deriva "cross-dressing". os homens e mulheres que vão realizar a ação, já estão "travestidos": lica de calça e camisa pretas, suspensórios. patrícia também de calça e blusa. joyce de pivete... leandro, de saia azul comprida, camiseta branca, lenço e brincos. matheus de calça e camiseta, mas de bolsinha branca, esmalte, batom e salto alto. saulo de meia calça, shortinho justo, camiseta e chapéu. eles trocam seus mapas (cada um deveria construir um "mapa" para a trajetória/percurso que o outro vai seguir, nas duas horas seguintes, pelas ruas da cidade) e partem, seguidos por nosotros, que, de longe, vamos observar e, se possível, registrar seus percursos e ações.
eu sigo leandro. de cara, ele sobe a espírito santo e entra na igreja são josé. senta-se em um banco da igreja. observa. depois se levanta e se dirige ao salão paroquial (depois ele relata que pediu para confessar com o padre e que, enquanto uma mulher insistia para ele ser atendido, o porteiro deixava claro que era impossível).
por fim, ele desiste e vai embora. eu o sigo até um bar na praça sete, onde ele se senta e toma um chope. também me sento e tomo um chope, bem no meio das pessoas para observar suas reações e tentar captar suas falas. lá, cruzamos com saulo e lu, que o acompanha (davi saiu com lica, nêga com joyce, clóvis com patrícia e maffei com matheus: vamos nos encontrar às dez, no maletta, para relatar as experiências vividas). lá, as reações são discretas.
leandro paga seu chope e sai, sempre comigo na sua cola. entra numa galeria, sobe as escadas e vai até outro bar. pede para sentar em duas mesas, nas quais estão rapazes sozinhos. eles recusam, sempre assustados. sento-me com ele e tomo uma água. resolvemos que, no restante do caminho, vou estar junto com ele. a próxima parada é o "sobe e desce", puteiro da rua são paulo. para lá nos dirigimos. as pessoas nos olham, enquanto atravessamos as ruas. fazem zooms sobre o leandro, sobre o seu lenço, brincos.
chegamos e ele pergunta: "é aqui o sobe e desce?" o homem confirma e nos permite subir. alguns homens estão descendo (não teria nome mais adequado: o sobe-e-desce é constante). chegamos ao primeiro andar. corredores com várias portas. algumas fechadas.
nas portas abertas, mulheres seminuas estão postadas. avançamos até o final do corredor e nos deparamos com uma escada. um cartaz: "no 2º andar, tem mulher". subimos. mais corredores e mulheres.
uma porta aberta, sem nenhuma puta na porta. entramos no quarto, escadinha, cama redonda. ela está deitada, de bruços. perguntei se ela dançava pra gente. ela disse que não, só sexo. "quanto?" pergunto. "no mínimo, dez reais". agradecemos, pensando se pagávamos para conversar com ela.
subimos mais um andar. espaço aberto. um bar ao fundo. sinuca. juke box toca alto músicas insuportáveis. resolvemos ficar ali, e jogar uma sinuca, tomando uma cerveja e fumando um cigarro. mesmo sem dressing, fiz um "cross" comportamental, ficando ali, no espaço dos homens.
quero voltar mais lá. gostei de ser uma mulher de desprogramar organismo (o meu) e meio...