agrupamento independente de pesquisa cênica
Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.
São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.
Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.
A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.
sábado, outubro 23, 2010
Um novo ciclo obsceno
segunda-feira, outubro 11, 2010
sexta-feira, setembro 10, 2010
quinta-feira, agosto 19, 2010
NEM TÃO BONECAS: CARTA OBSCENA
CARTA ABERTA À POPULAÇÃO DE BH E A TODOS OS INTERESSADOS
Queremos não só relatar o amadorismo, o desrespeito e a ignorância que marcaram a 10ª edição do FIT-BH – do qual participamos com um dos trabalhos locais selecionados em edital público – mas também exigir a discussão da política cultural de privatização de espaços públicos, mercantilização e consumo da arte implementada pela gestão de Márcio Lacerda, a qual encontra reflexo no modo de organização desenvolvido pelo Festival Internacional de Teatro deste ano. Para isso, vamos fazer uma rápida recapitulação dos eventos que compuseram a “novela” FIT.
Apesar desse importante festival ter sua realização garantida por lei e contar com dotação orçamentária e previsão bienal, em março desse ano – a cinco meses do FIT acontecer e em pleno processo de seleção dos grupos locais – a Fundação Municipal de Cultura anuncia seu cancelamento, alegando desde falta de verba até escassez de bons espetáculos para compor a grade. Diante da reação da classe artística, a FMC volta atrás em sua decisão – sendo o retorno tão autoritário, arbitrário e leviano quanto o cancelamento, pois não há diálogo nem consulta à população, ou justificativa real em relação às decisões. No mesmo dia do anúncio de Thaís Pimentel, presidente da FMC, demitem-se os curadores do evento, Richard Santana e Eid Ribeiro e, em seguida, o coordenador geral, Carlos Rocha. No dia 12 de abril, ela anuncia o novo modelo de gestão do FIT: a coordenação será assumida pelo corpo de diretores da Fundação, o que permite o alinhamento da “coordenação às diretrizes institucionais da FMC”.
Com nossa intervenção urbana selecionada a integrar a programação (resultado publicado em abril), aguardamos a comunicação da FMC para podermos, como em todo festival do qual já participamos com Baby Dolls, negociar as condições de apresentação. No dia 10 de junho, preocupados porque não havíamos recebido ainda nenhuma comunicação, entramos em contato com o secretário da comissão de seleção, André Ferraz, para iniciarmos as negociações e recebemos como retorno um breve email da coordenação do FIT avisando que seríamos comunicados em breve das datas, horários e locais de apresentação.
Temerosos com a pouca comunicação e dispostos a garantir a realização da intervenção em suas especificidades artísticas, dirigimos um email no qual explicávamos claramente as condições de realização de nosso trabalho. Ficamos aguardando e não obtivemos retorno. Após insistência, obtivemos resposta de que não seria possível integrarmos a programação descentralizada do Festival e enviamos, então, nova proposta, centralizando a nossa ação em uma ocupação das estações de metrô.
Nesse mesmo email, reiteramos as condições levantadas por nós desde nossa primeira comunicação: a impossibilidade de existir um aparato de divulgação nos locais de intervenção e a solicitação para que não fosse divulgado o horário em que ocorreriam as ações. Fomos informados de que nossa proposta tinha sido repassada ao coordenador Rodrigo Barroso e que ele entraria em contato para resolver as pendências. No dia 5 de julho, ainda sem retorno algum, recebemos da produtora Ana Jardim uma solicitação de rider técnico.
Novamente preocupados com a falta de comunicação do FIT e com o silêncio em relação às nossas questões, apelamos para as redes sociais e no dia 11 de julho postamos uma mensagem no Facebook de Rodrigo Barroso, solicitando uma reunião pessoal para definir nossa participação no Festival. No mesmo dia, ele retornou, também pelo Facebook, com garantias de admiração e respeito pelo nosso trabalho, mas ainda com informações gerais, da mesma ordem das recebidas anteriormente. Ou seja, a negociação não avançava.
Cientes da urgência de solucionarmos os termos do contrato de modo claro e transparente, fizemos contato telefônico com Barroso, fechando então as estações de metrô Minas Shopping (proposta mantida por ele) e Vilarinho (sugestão nossa), além das imediações do terminal rodoviário. Nesse contato telefônico, novamente colocamos nossas condições e, em relação à divulgação, ficou ACORDADO que não haveria, nos locais de realização das intervenções, NENHUMA FORMA DE DIVULGAÇÃO do FIT ou da ação em si: banners, spots etc. Em relação ao horário, Barroso informou da necessidade de oferecer ao público as informações, mas ficou de estudar uma alternativa – a colocação na grade do período de ocorrência das ações (fim da tarde, horário de almoço) – para a qual nos daria retorno. No dia 12 de julho, mais de um mês depois de nosso primeiro contato e sem que tivéssemos obtido, de fato, uma resposta satisfatória da FMC, recebemos outra comunicação sumária, já definindo os horários de apresentação e, em seguida, a carta de oficialização de nossa participação no FIT, assinada por Barroso.
Na primeira semana de agosto, fizemos uma visita técnica aos locais de realização da intervenção e, já no primeiro local visitado, a Estação de Metrô Vilarinho, fomos informados de que o FIT não havia enviado notificação de qualquer atividade no local, mesma informação obtida mais à frente, na Estação Minas Shopping. Somente o terminal rodoviário tinha sido comunicado de nossa atividade e somente nele tínhamos sala de apoio. Nessa visita, nosso produtor negociou diretamente com o metrô a liberação das catracas e pontos de apoio, necessidades que a produção do FIT havia afirmado não ter conseguido resolver, tendo nos informado que teríamos de arcar com os tickets necessários à realização da intervenção. Enviamos no dia seguinte um email a Ana Jardim, informando-a das nossas conversas e das negociações firmadas pelo nosso produtor, além do plano de desenvolvimento da ação.
No dia 10 de agosto, demos início às nossas intervenções e já nos deparamos com o descaso e a má vontade da equipe de produção que, sem entendimento do trabalho, pressionou o encaminhamento da intervenção para o local onde, pasmem! estava todo aparato de evento que, segundo o ACORDO FIRMADO COM RODRIGO BARROSO, precisamente NÃO DEVERIA ESTAR LÁ: banner, controle de público e presença de pesquisador/entrevistador durante a realização da intervenção. Questionado sobre a presença do banner, o produtor respondeu: “se não gostam de divulgação, porque estão em um festival?”
Nesse momento tivemos a real dimensão do quão despreparadas estavam as pessoas que assumiram nossa produção. Ao longo da intervenção, fomos insistentemente abordados pela coordenação do metrô, pois a ORGANIZAÇÃO DO FIT AINDA NÃO HAVIA COMUNICADO A REALIZAÇÃO DO EVENTO AO METRÔ. Insistentemente tentamos que os produtores presentes assumissem o controle e resolução da situação, mas isso não ocorreu. Eles apenas assistiam nosso produtor se esmerar para permitir que nossa ação se realizasse assim como havia saído na programação, mas não como tinha sido selecionada para acontecer.
Após o término, deixamos clara a necessidade de falarmos com eles, mas os produtores simplesmente se esconderam, sem oferecer água, lanche e sem, sequer, nos informar onde o transporte nos aguardava. Indignados com o rumo que as coisas estavam tomando, entramos em contato com a produção por telefone e por email, para informar de não havia a possibilidade de executar nossa ação nas condições do primeiro dia e solicitando reunião para reorganizarmos o trabalho, mas, uma vez mais, não obtivemos retorno.
No dia 11/08, novamente o amadorismo e má-vontade da produção se mostraram: para o transporte dos materiais e do pessoal ao terminal rodoviário, foi enviada um van completamente cheia de bancos, adequada ao transporte de um grupo grande de pessoas sem bagagem. Dividimos o transporte com o carro de uma das integrantes da ação e nos dirigimos ao local, onde verificamos que a sala de apoio estava sem condições mínimas de uso: suja, sem água, luz ou lanche. Verificamos também que os produtores, designados para nos auxiliar, estavam, ao invés disso, “vigiando” o banner afixado na entrada da rodoviária, enquanto nosso produtor providenciava, junto aos funcionários do terminal, as soluções para nossas necessidades. Chamamos novamente a produção para uma conversa em relação às condições negociadas para as nossas apresentações e obtivemos o seguinte retorno: “Caso vocês não façam nestas condições, a FMC suspenderá o pagamento do cachê”.
Indignados com o absurdo da situação e percebendo que com a produção não conseguiríamos resolver nada, novamente apelamos para as redes sociais e deixamos uma mensagem no Facebook de Barroso. Diferentemente da primeira vez, quando obtivemos um pronto retorno, ficamos sem resposta. Como também ficaram sem resposta os telefonemas e recados deixados na secretária eletrônica do referido coordenador. Fizemos uma reunião e resolvemos, apesar de todo o desrespeito e desconsideração por parte da organização do FIT, cumprir nossa parte no acordo até o fim e realizar a última intervenção.
No dia seguinte, ao iniciarmos nosso percurso em direção à estação Minas Shopping, recebemos um telefonema da produtora Ana Jardim informando que a intervenção não poderia ser realizada na Estação, devendo ser realizada na rua. Diante da nossa recusa, ela, aos berros, nos ameaça novamente com o não pagamento.
Demos prosseguimento à ação – conforme programação do próprio FIT e plano de ocupação traçado e comunicado à produção do evento – e chegamos à estação Minas Shopping, onde um aglomerado de pessoas aguardava. Como o FIT não havia comunicado à chefia do Metrô a realização do evento, nem havia solicitado a liberação para uso do espaço, começamos a ser pressionadas, por funcionários da CBTU, a nos retirar do local.
No melhor estilo Kafka, ao coro do metrô se juntaram os produtores do FIT que, eximindo-se da própria responsabilidade, pedem nossa retirada. Diante de nossa reiterada recusa, informam que estamos, então, por nossa própria conta e risco.
Sob clima tenso, a intervenção prossegue até ser interrompida por um funcionário da CBTU. Com o protesto do público presente, a confusão se instala e exigimos, então, um esclarecimento por parte da produção. A produção alega que NÓS não temos autorização para realizar a intervenção no lugar, esquecendo-se de que a LIBERAÇÃO DO ESPAÇO constante na programação é RESPONSABILIDADE do FIT. Diante da evidente incompetência, irresponsabilidade e despreparo da organização do evento, o público se junta às performers numa ação de intervenção pela cultura de BH, deitando-se no chão e deixando as marcas de seus corpos e os escritos de seus protestos marcados a giz.
Ao final de tudo, com o circo armado e os fatos escancarados, recebemos, finalmente, um comunicado da FMC que, agora, se digna a falar conosco: a coordenadora Solanda oferece, entre pedidos de desculpas e esperanças de que não fiquemos tristes com o Festival, uma nova apresentação para sanar nossos transtornos.
Não, FMC. Não queremos panos quentes nem douração de pílulas. Mais do que “tristes com o FIT” estamos INDIGNADOS. Não queremos uma apresentação extra, quando tínhamos três em que poderíamos realizar perfeitamente o nosso trabalho.
QUEREMOS RESPEITO, DIÁLOGO, CONSIDERAÇÃO. QUEREMOS SEMINÁRIO DE AVALIAÇÃO NÃO SÓ DO FIT, MAS DAS POLÍTICAS CULTURAIS IMPLEMENTADAS POR ESSA GESTÃO. E, por último, queremos lembrar que não há luta sem ranger de dentes. Lembrar que as pessoas não sorriem quando estão sendo massacradas, desrespeitadas, manipuladas. Elas gritam, elas berram, elas lutam bravamente. Não esperem de nós atitudes menos combativas.
Fraternalmente,
Obscena
Agrupamento Independente de Pesquisa Cênica
sábado, agosto 14, 2010
(Re) Ações Obscênicas

Dia 04/08, primeira semana de trabalho do Obscena pós férias. Retornamos determinados a explorar mais as ruas de BH, independente de qualquer condição.
Sigo para o trabalho, trago comigo 4 sacolas de roupa de calcinha à cachecol. São restos de mim, produtos dum desejo, dum presente que cumpriram já comigo sua estadia, agora é hora de abandonar estas cascas. Resolvo torná-las em trouxas de roupas, trouxas de mulheres roupas e dependurá-las na estrutura de ferro que há embaixo do Viaduto Santa Teresa. É um espaço hostil, com vários moradores de rua que dominam a área e sente-se incomodados com nossa presença, um deles passa e avisa para tomarmos cuidado com as fotos, outro se aproxima e diz que aquilo que fizemos ‘parece mais é Carandiru!’ e pergunta que hora será o teatro.
Desde 2008 trabalho com o abandono, o que do meu corpo pode ser deixado no corpo da cidade e quais as formas de executar isso? São questões que me perpassam. Como deixar meu sopro nesse concreto?
Uma teia foi-se formando com as trouxas de roupas mulheres, contei com a presença ativa afetiva dos pesquisadores do OBSCENA, como também dos artistas colaboradores Matheus, Fred e Patrícia. Não houve direcionamentos, simplesmente apresentei os materiais e convidei ao trabalho. A proposta de Saulo foi muito próxima à minha e logo unimos nossas instalações e reorganizamos a paisagem.
Nina e Lica trabalharam com a Mulher Painel, na qual o corpo de Lica é suporte ambulante de notícias sobre o gênero feminino, da saúde ao assassinato ela exibe aos transeuntes sua roupa páginapainel.
Joyce espelhou post’s pelas pilastras com frases que expressam bem a situação da cultura em BH. Em outra ação ela saca uma meia fina do bolso e enrola o cabelo tentando ridiculamente formatá-lo dentro duma toca. Enquanto isso seu celular toca a música “little boxe’s’ (creio que é esse o nome).
Clóvis propôs a fila para o nada e é interessantíssimo como com o perdurar desta os transeuntes vão se incomodando com aquela ‘falta de propósito’.
Reiniciamos nossas atividades – ocupação da cidade em reação à privatização sistemática do espaço público!
sábado, agosto 07, 2010
Obscenos nas ruas de Belo Horizonte
sexta-feira, julho 23, 2010
breve relato de viagem
20 de julho, terça-feira, 07:49 da manhã. acordo sobressaltada! esqueci de colocar o despertador e daqui a dez minutos seu gilberto vai bater na minha porta. embarque para garanhuns! às oito estou pronta para partir (davi vai me matar de saudade).
seu gilberto passa recolhendo todas as babies: depois de mim, lica, joyce e nega... aeroporto, avião. felizes! rio de janeiro. conexão recife. 15:36 de la tarde: recife... ah...
chegada ao aeroporto de lá, carro para garanhuns! que chique... vamos de tucson (o carro é lindo, um arraso, mas o porta-malas não nos cabe. inveja da zafira de seu gilberto...)
17:03 saímos do aeroporto, rumo ao festival. joyce arrasando na direção, com unhas rosa choque (já prenúncio de sua "barbie" baby boneca). três horas e meia depois, estávamos na cidade fria (é verdade, lá faz frio. mas não tanto... o negócio é que garoa...). o povo, como sempre, especial e caloroso (elias, carlinhos lira, fofos).
mas estávamos exaustas e após reconhecer e escolher o espaço de nossa intervenção, fomos comer e dormir na casa que a produção alugou para receber os grupos. dia seguinte, às 9:30 da manhã, a van viria nos buscar.
às 08:20 levantei-me e... garoa. garoa. e garoa. o dia inteiro, sem trégua. as ruas molhadas. o ponto lindo que havíamos escolhido - com lojas, casinha de polícia, marquise branca e porta de santo antônio - já com poças e suave garoa de tempos em tempos... o que fazer?
lica indaga se existe algum tipo de galeria coberta ou algo tipo um shopping... e a lembrança vem: mercado! apresentamos em mercado, em casa amarela recife! não há um mercado municipal, público, na cidade? eles relutam, mas por fim nos apresentam ao mercado 18 de agosto. perfeito! bem popular, com lojas que vendem a granel, vendem roupas, vendem carne... (mais tarde ficamos sabendo - infelizmente, só depois que realizamos o trabalho lá - que o lugar é ponto de prostituição. na verdade, ponto de exploração sexual de meninas, de adolescentes).
pronto! é aqui que vamos fazer. rapidamente voltamos ao ponto de apoio - a hora já avançava, já eram quase três... - para que joyce e lica se aprontassem, bem como a nega. eu, claro, já tava pronta (como não sou atriz, estou sempre "pronta", armada com meu giz).
lica resolveu sair do ponto de apoio e ir caminhando até o mercado. eu a acompanhei e foi bem interessante vê-la agir na cidade (linda e singela como estava, causou comoção na população masculina local): vê-la posar na marquise/tenda branca, cenário perfeito para sua noiva... interagir com os guardas, posar em frente à casinhola da polícia... posar em frente à porta de santo antônio, vê-la chegar ao mercado.
cruzar com as outras performers... segui a noiva um tempo. logo algo começou a se instaurar no lugar, era perceptível a surpresa, o interesse sobre a natureza do que estava acontecendo (ao mesmo tempo, no entanto, uma equipe toma conta do local, evidenciando sua natureza de evento: câmeras, apoio).
vejo joyce se instalar num ponto, montar seu tapete pink de pelúcia. a nega circula pela local, lúgubre figura de saco preto na cabeça (seu enigma permanece até o fim). vou encontrá-la em meio aos açougues e bares do segundo andar.
lissandra arma seu nicho junto aos grãos a granel, no qual já posara de noiva e proprietária. logo, os corpos começam a cair, logo a transformação (ah, soubesse eu da história do lugar! mas a produção também é estrangeira - de recife - e também desconhece a natureza dos espaços. como ter essas informações a tempo para poder jogar com elas na ação? elias comenta como havia sido preciosa nossa participação, primeira ação a acontecer no local: agora eles iam considerar o mercado como possível para a ocupação do festival). apesar disso, o universo parece conspirar a nosso favor e o impacto não é menor. não tocamos menos. afinal, essas meninas circulavam por lá, bem como os homens que as prostituem. as pessoas da cidade circulavam por lá. uma senhora, no final, chorava. marlene. depois ficamos sabendo o por quê: uma mulher de sua família havia sido morta pelo homem que devia amá-la... afinal, falamos de coisas que estão acontecendo o tempo todo em todo lugar. aqui, isso é inegável. aqui, como sempre, as mulheres estão sedentas e interagem.
ao final, distribuo o giz entre elas: elas desenham, escrevem.
acabamos já em cima da hora de partir para recife (em função do nosso vôo) e saímos, sob a neblina, ainda a tempo de lá chegar e tomarmos a merecida cerveja em um samba na rua da moeda, no recife antigo...
ah, pernambuco! os nossos encontros apenas começaram...
terça-feira, junho 29, 2010
Performações ou Deformações?
performando no performações

Os espaços esvaziados da vida pública nossa de cada dia nos informam de quê? O que temos feito de nossas vidas, com nossas vidas nesse vai-e-vem entre espaços privatizados, fechados, impermeáveis às diferenças? Como a arte tem agido/reagido a tudo isso? Afinal, já há muito que a arte saiu dos museus. Ou não? Será que temos conseguido fazer uma arte pública, política, urbana?
Qual o lugar da performance na relação entre espaços privatizados e as ações de corpos que resistem, no exercício de sua existência política?
Essas foram algumas das provocações lançadas pelo coletivo Zona de Interferência para o encontro Performações (proposto por eles como contrapartida da residência, dentro do projeto Cenário do CCUFMG): reunião de artistas/performers para discutir performance e ocupação de espaços públicos. Estavam presentes, além do Zona, nós do obscena, Maurício Leonard e Paulo Nazareth.
A discussão, que aconteceu de seis às nove da noite do sábado dia 26 de junho, foi muito interessante e profícua. Mediada por Denise Pedron, que iniciou pontuando algumas questões sobre o conceito de performance, tivemos a apresentação do trabalho, em vídeo, do Maurício e a discussão da experiência vivenciada por Paulo, ao sair caminhando pelas ruas da cidade com um peixe na boca. O obscena apresentou seu trabalho e discutiu um pouco sobre algumas ações performativas que, de quatro às seis, realizamos, nas imediações do Centro Cultural da UFMG:
1. Reperformando Moacir ou ovacione seu país. Reconvocando uma ação de interrupção – que tinha como mote a discussão sobre as possibilidades políticas da cena contemporânea (Lehmann) – proposta pelo pesquisador Moacir Prudêncio nos inícios dos trabalhos do Obscena, essa intervenção consistiu em pregar bandeiras do Brasil que continham, em seu amarelo gema, a inscrição: “ovacione seu país” e colocar abaixo da bandeira uma caixinha com ovos crus. Realizamos eu e Saulo, nas imediações da arena de comemorações da copa (inclusive em um poste na entrada da arena), em “homenagem” ao nosso país, à seleção brasileira e ao prefeito Márcio Lacerda.
2. Filas para o nada ou Fila de artistas aguarda liberação para utilização da praça pelo povo sem pagar aluguel. Proposta por Clóvis – instigado pelas provocações do Zona – para pensar a conformação dos corpos, as filas para o nada propõe a construção de filas que não sirvam a um fim: pegar o ônibus, pagar as contas, comprar ingresso. Realizada em frente à arena de comemoração da copa (espaço proposto por Joyce, ao iniciar a fila com seu casaco amarelo gema), no local de atravessar a rua, atrapalhou o trânsito e causou ruídos.
3. Mulher painel ou mulher não é bola de futebol. Continuação da investigação que Lica e eu realizamos, a mulher painel junta um experimento anterior, testado na praça sete em dia de Marcha Mundial das Mulheres ao desejo de experimentar um novo material em minhas ações: o plástico (ai, Ricardo Carvalho, muito obrigada pela dissertação de mestrado sobre a educação de meninas e o modelo Barbie que você me enviou!!!). O experimento consiste em cobrir o corpo de uma mulher com notícias de jornal, propagandas, fotos de revistas, relacionando estatísticas e dados da violência contra a mulher, à exposição corporal excessiva, imposta pela mídia, à reprodução de clichês corporais e imagens do feminino. Com a aquisição do plástico, ganhamos em dinâmica e em “plasticidade”: conseguimos criar formas, quase uma roupa, a partir dos jornais: com um cone na cabeça, uma saia jornal e peitos de silicone-papel, Lissandra parecia um ser de outro mundo, algo entre o humano e o neutro, o vazio. Muito interessante o que ela conseguiu provocar ao se postar em frente ao telão que passava o jogo EUAxGANA, ao circular pela arena, ao se postar ao lado das bandeiras de ovacione. As formas corporais que criava, ao se colocar disponível à leitura, como um verdadeiro painel.
Em tempo: selecionei, para o painel, algumas especiais da copa: as mulheres bombadas do imperador Adriano (que, de vez em quando, confunde algumas com uma bola e bate nelas pra ver se obedecem, no que é defendido pelo goleiro Bruno, aquele que espanca prostitutas e que agora é suspeito de assassinar a mãe de seu filho), notícias do assassinato (também por um jogador de futebol, seu ex-marido) de ana cláudia com 14 facadas e claro, a memorável frase do nosso querido convocado para a seleção 2010, felipe mello: bola boa é igual mulher de malandro, a gente bate e ela obedece (diferente da jabulani, que parece uma patricinha: não gosta de apanhar...)
Em tempo: duas meninas (entre 7 e 9 anos, circulavam absolutamente sozinhas pela praça), ao me verem colocar mais uma notícia nela e enrolar seus braços com filme plástico ficaram doidinhas. Uma me pediu para que eu a vestisse assim também, com a roupa de papel, os braços de plástico. Na menina, não tive coragem (nem vontade) de pregar nenhum dos materiais que eu trazia, a não ser as tarjetas escritas com “URGENTE” (que espalhei por todo o seu corpo) e uma bandeira do Brasil (que ela solicitou) e que preguei em seu ventre. Acredito que elas queriam acompanhar a mulher painel, mas acabaram circulando um pouco comigo e se integrando à fila.
Depois pegaram alguns ovos e criaram um jogo constante de perigo para a performer: constantemente sob a ameaça de ser ela, e não a bandeira, ovacionada.
quarta-feira, junho 23, 2010
sexta-feira, maio 14, 2010
RESUMO DE ENTREVISTAS - AGRUPAMENTO OBSCENA
FIZ UMA SÉRIE DE ENTREVISTAS QUE SE RELACIONAVAM AO MEU OBJETO DE PESQUISA NO MESTRADO (UFMG). VISANDO À DISPONIBILIZAÇÃO DE TAIS ENTEVISTAS ÀS PESSOAS QUE ACESSAREM O BLOG, FAÇO UM RESUMO DESTAS ABAIXO:
O objetivo da presente pesquisa é analisar os procedimentos cênicos do Núcleo Teatral Obscena, agrupamento independente de pesquisadores, no projeto “Às margens do feminino: texturas teatrais da beira”, realizado em 2008, sob a perspectiva da aproximação física entre o espectador e a cena na sociedade espetacularizada. Para tanto, realizou-se uma revisão bibliográfica do conceito de sociedade espetacularizada a fim de identificar os procedimentos cênicos realizados pelo Núcleo que se aproximem deste recorte.
Procedimentos obscênicos: Relatos - ERICA VILHENA
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento mercado de buceta
O procedimento cênico ‘mercado da buceta’ foi gerado no intuito de questionar os dispositivos de educação da mulher e para isto a performer Erica Vilhena utilizou brinquedos que em miniatura representam a organização de uma casa, ou seja, desde a primeira infância a criança do sexo feminino já é adestrada a compreender a administração do lar e suas especificidades.
• Pesquisadoras participantes
Este procedimento foi gerado de forma individual, mas em sua exposição a performer contou com a participação ativa dos demais pesquisadores do OBSCENA. Durante sua primeira execução os demais do OBSCENA deveriam destruir a composição por ela montada (embaixo do Viaduto Santa Tereza).
• Preparação para o procedimento (se existir)
Este procedimento é composto na rua. Não há uma preparação no sentido tradicional da atividade de uma ator (aquecimento corporal e/ou vocal), por exemplo. A performer chega ao local da execução e lá mesmo monta o ‘mercado da buceta’ que consiste num tapete feito de páginas de revistas femininas e brinquedos que reproduzem uma casa em miniatura.
• Qual é a relação que este procedimento deseja (desejou) estabelecer com o espectador transeunte?
Este procedimento desejou estabelecer com o transeunte a mesma relação ativa que foi solicitada aos demais integrantes do OBSCENA, a performer solicitou a Nina Caetano que escrevesse no chão a seguinte frase: ‘DESTRUA ESTA IMAGEM’; para que os passantes lessem e desmontassem aquilo que estava ali exposto.
Procedimentos obscênicos: Relatos - DIDI VILELA
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento “É homem? É mulher?” Reticências...
Caminhar pelas ruas belorizontinas, explorando espaços não convencionais. Essa caminhada teria muito mais um caráter de instalação/ocupação espacial, do que realmente um compromisso em criar algo estruturado cenicamente. O objetivo era trabalhar com o risco e o acaso nas grandes avenidas de Belo Horizonte, compondo e criando jogos de improvisação junto aos transeuntes, dentro de um acontecimento real, fazendo desse acontecimento o limite tênue entre realidade e ficção.
• Pesquisadoras participantes
Didi Villela
• Preparação para o procedimento (se existir)
Depois de maquiado e vestido como uma camisola preta e curta, fiz alguns alongamentos e alguns exercícios de respiração. Antes de começar a caminhada fiquei um tempo debruçado sobre uma janela observando e me “alimentando” do ritmo noturno da cidade.
• Qual é a relação que este procedimento deseja (desejou) estabelecer com o espectador transeunte?
O trabalho se deu a partir das minhas vivências reais na rua, numa investigação individual, e meu objetivo era provocar a sensibilidade dos transeuntes da rua, trazendo à tona fantasias, preconceitos, lembranças, desejos e indagações sobre o tema estudado em questão, que no meu caso foi a relação do travesti com a loucura.
Eu me apropriei dos espaços explorando o limite do real e do ficctício. Eu estava entregue a todos os acontecimentos noturnos desde o prazer até o medo. Eu vivenciei determinadas situações de risco, em um grande jogo performático junto aos transeuntes. Eu não tinha um personagem estruturado e minhas ações surgiam a partir de objetos que eu encontrava no espaço. E a partir desses, eu criava uma zona de jogo num diálogo com espaço e com transeuntes.
Assim, escolher a rua como espaço, me facilitou explorar, de maneira mais real, a proximidade para com o público, fazendo-o um elemento presente e ativo durante o acontecimento teatral. Meu objetivo então, de maneira geral, era que os espectadores/transeuntes, numa zona fronteiriça entre o teatro e o espaço real da rua, rompessem com todos os limites da representação cênica e do ficcional, instalando-se diretamente no interior do processo, como testemunha e participante de todo o evento performático. Desse modo, pretendi testar o limite tênue entre o que se pode ser criado dentro de uma ficção e realidade, entre verdade e representação, num jogo teatral que confundisse o espectador.
Procedimentos obscênicos: Relatos CLOVIS DOMINGUES
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento “Escutadores”: Estabelecer uma relação de proximidade e confiança com uma mulher da cidade, que através de um convite para um procedimento artístico, confessa suas dores para um desconhecido ( o pesquisador) dentro do banheiro feminino de um Teatro. Uma escuta íntima, tensionando questões como arte, teatro, representação, presença e tornando a mulher-participante desta experiência uma atuante e espectadora de si mesma.
• Pesquisadoras participantes: Erica e Lissandra, além das mulheres da cidade. ( tem um relato da Erica no blog sobre esta experiência).
• Preparação para o procedimento (se existir): eu vestia uma roupa branca e colocava um banco para que a mulher-participante se sentasse. Recebia cada uma na porta do banheiro e depois ficávamos os dois sozinhos e eu pedia o relato de uma história e memória de dor, perda ou abandono. Não intervinha perguntando nada e deixava que cada experiência se esgotasse em seu tempo próprio. Finda a experiência, eu agradecia a colaboração da mulher para minha pesquisa e pedia permissão para passar um pouco de perfume nos pulsos ou então brindávamos a experiência com duas taças de champanhe e algumas perguntavam para que e eu respondia ; “ para perfumar tua dor” ou “um brinde à tua dor”. Elas achavam “estranho” e diziam que a vivência parecia mais um confessionário do que uma obra de arte ou cena de teatro.
• Qual é a relação que este procedimento deseja (desejou) estabelecer com o espectador transeunte? De ESTRANHAMENTO. Primeiramente a escuta é das mulheres, já que nosso tema era o feminino marginalizado. Juntei a isso a pesquisa das pomba-giras e a escuta e acolhida de dores de seus fiéis nos terreiros, principalmente, os problemas de amor e de sexo. De alguma forma é como repetir este ritual de escuta e convidar a mulher a um ato de exposição de sua fragilidade e um exercício de memória. Estranhamento porque as mulheres não entendem a experiência como arte, acham que o que ouvi vai virar um texto de teatro e eu respondo que a cena já aconteceu, este encontro no espaço privado e íntimo do banheiro. Ninguém assistiu a nada, pelo contrário, participou contando sua história , que só foi escutada por mim e pela mulher narradora.
Procedimentos obscênicos: Relatos – NINA CAETANO
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento (da intervenção urbana) baby dolls (estamos utilizando o termo procedimento para as atividades de pesquisa, como, por exemplo, a caminhada performática, que vão gerar materiais de criação)
Baby dolls, uma exposição de bonecas se configura como uma estrutura aberta e de natureza processual, na qual as relações com o espaço e transeuntes produzem modificações. A estrutura é de montagem dos espaços das bonecas (nichos de exposição), seguida pela demarcação dos corpos com giz e escritas até uma intensificação e junção das três performers para uma marca coletiva, finalizando com a desmontagem dos espaços e permanência de rastros da ação no espaço utilizado.
• Pesquisadoras participantes: a dramaturga Nina Caetano (escrita performada) e as atrizes Lissandra Guimarães, Erica Vilhena e Joyce Malta (composição das bonecas).
• Preparação para o procedimento (se existir): as pesquisadoras se encontram, em geral, duas a três horas antes da realização da intervenção para preparar seus materiais e definir o modo de ocupação do espaço determinado (definição pautada no reconhecimento do espaço e da percepção crítica de intervenções anteriores: o que foi interessante, quais ganhos a intervenção teve etc.): qual das atuantes chega primeiro, se haverá exploração do percurso de chegada etc.
Após essas definições, fazemos uma preparação física individual (aquecimento corporal, alongamento). No meu caso, além disso, eu faço um aquecimento da escrita, uma espécie de colocação no fluxo da escrita: revejo minhas anotações textuais e faço alguns exercícios de escrita automática, a partir dos materiais de repertório e daqueles coletados na pesquisa que faço nos dois, três dias que antecedem a realização da intervenção.
• Qual é a relação que este procedimento deseja estabelecer com o espectador transeunte?
A intervenção nasceu da idéia de “interrupção” do cotidiano do cidadão, de propor uma ação que fizesse com que ele (ou ela) interrompesse a trajetória planejada do seu dia e se detivesse na tentativa de apreender o acontecimento que se apresenta diante dele. Há o desejo de questionar os estereótipos e imagens do feminino e de possibilitar o surgimento de fóruns (debates entre os cidadãos presentes na ação) sobre questões relativas à mulher: violência, feitichização do corpo, direitos da mulher, igualdade entre os sexos etc.
Há, ainda, o desejo de integração do transeunte na ação e de sua participação ativa: muitas meninas interagem com a intervenção ajudando a “montar” a boneca loira e, muitas vezes, se montando também, como boneca. Algumas pessoas se deitam no chão, manifestando o desejo tanto de ter seus corpos desenhados como de marcar corpos ou de escrever dentro de seus limites.
sexta-feira, maio 07, 2010
ESPAÇO DO GRUPO 171: NOVA RESIDÊNCIA ARTÍSTICA DO OBSCENA
Estou muito animado e não vejo a hora de iniciarmos nossa pesquisa neste novo lugar.
Na reunião discutimos possíveis projetos, debates e atividades internas. As coisas vão se delineando um pouco.
Quero nesta postagem apenas registrar a nova residência artística do Obscena. Ou melhor: quem disse que o Obscena tem casa ou é de ficar em casa?
terça-feira, maio 04, 2010
Avaliação do 12º Festival Recife do Teatro Nacional, por Valmir Santos
Avaliação do 12º Festival Recife do Teatro Nacional
quarta-feira, abril 14, 2010
ação reação
claro que quero guardar aqui a devida proporção entre o trabalho que ela realiza e as possibilidades do que podemos fazer a partir dos objetos relacionais que inventarmos! não estamos no campo da psicanálise (embora, é claro, tocaremos no sujeito)... lembrando de merleau-ponty e da questão do corpo tão presente no texto do sperling, interessa-nos, acredito, a percepção no seu sentido mais físico, ou melhor dizendo (junto com a pessoa que sofreu a ação/reação dos o.r.), na pele.
várias texturas e pesos. sons.
lembrei-me, o tempo inteiro, do trabalho que clóvis e lissandra realizaram quando do projeto (de agosto a dezembro de 2009) "diálogos obscênicos" - junto às adolescentes em privação de liberdade do s. jerônimo. nesse trabalho, a partir da ativação da percepção pelos sentidos do corpo, eles realizaram uma experiência vivencial que colocou a todas em estado de criação.
lembrei-me também muito do workshop "como se fabrica uma mulher" que realizamos no recife e da questão do corpo embalagem.
as conexões começam a ter lugar. as coisas se colocam em movimento...
barbie tóxica. plástico embalagem. obra. ocupação.
está na hora da ação.
sábado, abril 10, 2010
Uma pérola de Lygia Clark
" Por Deus, a vida é sempre para mim
o fenômeno mais importante,
e esse processo quando se faz e aparece
é que justifica qualquer ato de criar,
pois há muito
a OBRA para mim
é cada vez menos importante
e o
RECRIAR-SE ATRAVÉS DELA
É O QUE É ESSENCIAL."
Que as leituras de artistas como Barrio, Oiticica, Clark, entre outros, nos traga novas respirações e experimentações!!!!!
A arte de Clark, para mim, se situa num espaço onde a SUBJETIVIDADE DO ESPECTADOR-PARTICIPANTE APAREÇA EM TODA SUA POTÊNCIA E ELE SE TORNE UM CRIADOR.
quarta-feira, abril 07, 2010
baby dolls no fit-2010!
e vamos lá! (será que sai mesmo???)
terça-feira, abril 06, 2010
corpo + arte = arquitetura (sperling, parte II)
estavam presentes eu, joyce, clóvis, saulo e davi pantuzza, ilustre (e querido, querido) convidado obscênico que já veio nos atiçando com outro texto (diálogo sobre o não-objeto, de ferreira gullar). para essa segunda parte, ter lido o texto sugerido por davi (e o complementar: teoria do não-objeto) me ajudou muito na compreensão da relação dessa artista com o objeto, da qual fala sperling. ajudou, inclusive, para pensar a questão que deixei como provocação na última postagem e que se referia ao abandono da moldura dramática.
ferreira gullar diz, ao final do segundo texto, sobre as experiências tachistas e informais (que nada têm a ver com a obra de clark ou oiticica, que ele localiza na noção de não-objeto): "em lugar de romper a moldura para que a obra se verta no mundo, conservam a moldura, o quadro, o espaço convencional, e põem o mundo (os materiais brutos) lá dentro. partem da suposição de que o que está dentro de uma moldura é um quadro, uma obra de arte. é certo que, com isso, também denunciam o fim dessa convenção, mas sem anunciar o caminho futuro".
é possível quebrar a representação em um palco italiano, ou em um espaço destinado ao teatro?
mas, voltemos ao texto e às discussões em torno da obra de clark, também iluminadoras para nossa investigação. no trecho que trata de oiticica, sperling já salientava a questão entre corpo e espaço: "ao espaço geometrizado, conformado por limites claramente estabelecidos (representação-observador, dentro-fora), contrapõe-se um espaço topológico contínuo, conformado por gradientes de aberturas de participação e circulações, que se estruturam mutuamente. as variadas conexões possíveis entre os gradientes são o solo sobre o qual se desenham malhas de experiências. caráter de labirinto, ambiente aberto para o viver" (pg. 125). e ele novamente salienta que "como componente ativo desse campo estruturado está o ser participante - seu corpo - antes, na arte, denominado espectador e, na arquitetura, usuário" (pg. 125).
a arquitetura - bem como a "incorporação do gesto do participante e de seu espaço-tempo vivencial" - é noção-chave na discussão sobre clark. segundo sperling, ela propõe (no lugar dos binômios estanques artista-criador e espectador-receptor) um campo artístico vivencial ativado pelo ato (ou gesto) do participante (antes espectador, contemplador da obra). ou seja, um redesenho do campo artístico, em que artista, público, ação, espaço e tempo estão implicados e são interdependentes (pg. 127).
para ela, a obra artística, mais do que uma proposta, é uma proposição, uma virtualidade (potência): "a obra como ato de fazê-la" (pg. 128). ao tornar o espectador participante, ou melhor, ao propor a ele se tornar, pelo ato, participante, o propositor (o artista) não define essa participação previamente: "ela é experienciada no ato mesmo de concretizá-la" (pg. 128). a fruição da obra deixa de ser contemplação, ela é um "processo de experiência" (sperling salienta que, na raiz, a palavra experiência fala de uma colocação fora dos limites).
continua...
terça-feira, março 30, 2010
e a pesquisa começa a tomar pé
para o primeiro round, a leitura do texto de david sperling - corpo+arte=arquitetura - sobre a obra de hélio oiticica e lígia clark. nessa segunda, conseguimos ler a primeira parte - que trata de oiticica - e deixamos a segunda parte, sobre clark, para segunda que vem. a discussão foi rica e bastante acirrada, pois é impressionante como as questões de artes plásticas alimentam as proposições em teatro! pelo menos, no que tange às discussões das artes plásticas a partir, mais radicalmente, da década de 60 no brasil, as questões parecem ser as mesmas (ainda que os veículos sejam outros): a obra processual, o público participante, rupturas com os padrões de representação, a busca do corpo e da presentificação...
já familiarizados com essas questões por conta de nossa pesquisa da obra do artista plástico artur barrio (um dos eixos norteadores do trabalho desenvolvido em 2008/2009), aqui estamos retomando para aprofundar mais ainda nossas experimentações performativas: a proximidade é grande!
algumas noções presentes no texto acenderam nossos olhos e pensamento, como o cruzamento entre arte e vida, presente na obra dos três artistas (aqui, incluo barrio) que vão propor "experiências artísticas vivenciais centradas no corpo" (pg. 117) e a noção da obra/exposição como projeto ("experimentar o experimental": pg. 118)), como algo a ser concretizado nessas experiências vivenciais, ou seja, nesses processos de construção coletiva da obra, em que público se torna participante. aqui, a idéia da obra como um "organismo vivo" (pg.119) é muito presente. o projeto, em oiticica, funcionaria como uma "montagem de espaços como suportes para acontecimentos", pois, é a partir de "estruturas abertas que [ele] sugere e espera a ocorrência de comportamentos diversos". espera-se "ações de múltiplos agentes - artistas e público - de modo simultâneo e descontínuo, em diálogo não linear" (pg. 121).
a partir dessas questões, foi inevitável a aproximação com alguns trabalhos já desenvolvidos dentro do obscena, como a intervenção urbana baby dolls, sobre a qual muito se discutiu. nesse trabalho vê-se, também, uma relação profunda com os percursos labirínticos levantados por oiticica em sua proposta do éden:
"O espaço-entre, de inúmeros possíveis, é desenhado pelos cheios e vazios das ausências e presenças das proposições (...); labiríntico nos percursos e nas narrativas construídas de uma a outra pelo público participante. (...) tem-se a existência de um corpo situado numa determinada relação espaço-temporal, implicado na ação que protagoniza" (pg. 123).
a questão do corpo perspassa toda a discussão do texto e talvez, nas artes plásticas, seja um ponto-chave... mas e nós, para quem o corpo já é o centro de nosso trabalho? em relação ao teatro, quais são as questões relativas à quebra da representação? como elas se apresentam? ou, mais precisamente, qual seria o veículo que corresponderia a essa ruptura da tela ou do suporte (nas artes plásticas) para o corpo? seria o simples abandono da "moldura dramática"?
terça-feira, março 23, 2010
somos incontornáveis e irreversíveis
Pacaembu, em torno das quatro horas da tarde do dia 18 de março de 2010. ponto final de uma caminhada que durou dez dias, de campinas a são paulo. caminhada na qual marcharam cerca de 3 mil mulheres. mulheres do brasil inteiro, de rondônia ao rio grande do sul. mulheres metropolitanas, mulheres rurais, mulheres índias, mulheres atrizes, mulheres donas de casa. mulheres moças, mulheres idosas, saudáveis, doentes. mulheres que apanham de seus maridos, mulheres que nunca se casaram nem nunca se casarão. heterossexuais, lésbicas. negras, brancas, loiras, ruivas, morenas, mulatas, índias, mestiças. muheres gritando palavras de ordem: "seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!" "eu não sou miss, nem avião, minha beleza não tem padrão!", "não sou modelo de passarela, a minha vida não é novela!", "se cuida, se cuida, se cuida seu machista! américa latina vai ser toda feminista!" e muitas outras mais... até hoje na minha cabeça ecoam as frases que ouvi no único dia que passei lá, ao lado dessas mulheres que enfrentaram 10 dias de caminhada, sob o sol e sob a chuva, andando cerca de 10 quilômetros por dia... eu também gritei e marchei, suei e me cansei, fotografei, filmei e registrei na minha cabeça esse momento histórico. à minha frente e às minhas costas uma fila imensa de mulheres vestidas de roxo. a energia incrível, pois essas mulheres não paravam. prosseguiam firmes, incitavam as outras, dividiam seu protetor solar, provocavam os homens com os quais cruzavam pelo caminho: "joão, joão, cozinha seu feijão" josé, josé, cozinha se quiser! raimundo, raimundo, limpa esse chão imundo! chiquinho, chiquinho, cuida do filhinho! erasmo, erasmo, eu quero meu orgasmo!", respondendo a seus gestos obscenos e aos gritos de volta pra cozinha: "mulher não é feita pro forno e pro fogão, a minha chama é da revolução!" foi lindo, foi emocionante. na chegada a são paulo - andamos quatro quilômetros até a estação de osasco, pegamos o trem metropolitano e descemos em barra funda, para caminhar mais dois quilômetros até o pacaembu - centenas de outras mulheres nos recebiam como heroínas, quer dizer, recebiam essas mulheres que caminharam dez dias (eu estava ali de gaiata, bem na comissão de frente, pois tinha embarcado no vagão errado). me arrepiei em vários momentos. nessa chegada ao metrô de barra funda. na caminhada por são paulo, junto à batucada de mulheres que abria a marcha... ao saber de uma índia que casara com um bêbado, tivera quatro filhos, tinha tido a coragem de abandoná-lo (embora, como declarou, ainda amasse o safado) e tinha se tornado cacique, depois que sua comunidade havia destituído o antigo cacique para colocá-la no lugar. ao saber da história de uma mulher do amazonas que voltaria para casa naquela quinta, mas só chegaria lá na quarta seguinte, depois de viajar 22 horas de barco... ah, mulheres... incontornáveis e irreversíveis...
enquanto isso, o brasil ultrapassa a alemanha e a frança e chega ao 2º lugar de maior consumidor de cosméticos do mundo (só perdendo pro japão), posto já conquistado em relação às plásticas (só perde para os EUA). enquanto isso, muitas mulheres continuam a se ver como mercadorias, valendo por sua aparência e juventude.
enquanto isso perdurar, seguiremos em marcha. até que todas sejamos livres...
terça-feira, março 16, 2010
DA PERTURBAÇÃO DOS SENTIDOS E DOS ESPAÇOS
Na Praça Sete, lugar vertiginoso, algo realmente aconteceu, perturbou e deslocou....
Havia uma nervosidade provocada pela ação, muitos gritos, muita gente rondando os espaços, muita circulação de corpos e tentativas de explicação daquele "ritual de teatro e macumba", segundo uma mulher que assistia revoltada àquilo tudo.
Cada "boneca" com seus objetos configurava um espaço dentro do espaço maior, quase pequenos nichos, e assim havia uma ocupação mais ostensiva do lugar, mesmo quando este era abandonado pelas performers. Os objetos instalados mantinham a mesma força dos corpos em movimento, havia uma circularidade, uma transitividade, tudo isso realmente produzia uma perturbação nos sentidos. Um ritmo interessante desta cena obscena, um contágio, um estranhamento, uma invasão potente e provocadora.
Nichos ocupados, imagens desenhadas, espaços configurados, corpos metamorfoseados e de repente o espaço era abandonado, mas algo ficava ali. A visualidade dos objetos, as formas da instalação, as cores, as deformidades, tudo isso gerava curiosidade e capturava o transeunte.
O abandono, herança de Barrio, não só o abandono dos objetos e corpos no chão ( como no momento com a Nina), mas o abandono da representação, dos objetos que educam e seduzem a mulher, tudo foi para o chão, perdeu a mesa, a cama, o fogão e mudou de lugar, decaiu ou precisa urgentemente decair.
Uma encenação descentralizada, rizomática, afectada por vários olhares, comentários e reações extremas de agressividade e repúdio. Vi mulheres virando o rosto, mulheres rindo de tudo, mulheres reclamando daquela "palhaçada" na praça da cidade.
Ação concentrada, tempo ágil com tempo dilatado, corpos metamorfoseados, textos fortes sendo lidos e comentados pelas pessoas, a praça realmente invadida, rabiscada, transtornada e incomodada. Mulheres-objeto ou objetos-mulher? Corpos deformados, monstruosos e concentrados.
Até no final da ação, foi fantástico ver o recolhimento dos restos e objetos. Artistas concentradas, agredidas e agressivas e mesmo ao abandonar o local é possível "confundir e provocar", e lá vai Erica com um saco preto no rosto puxando seu carrinho e ao passar pelas ruas criando mais perturbação, nervosidade e não-saberes.
Novos elementos nesta ação: invasão, ocupação, circulação , perturbação , deformação e abandono.
DA PERTURBAÇÃO DOS SENTIDOS À DOS ESPAÇOS MUITA COISA ACONTECEU...
terça-feira, março 09, 2010
dia internacional da mulher
ontem, fizemos mais uma intervenção de baby dolls na praça 7. do outro lado da avenida, no outro quarteirão, as companheiras da Marcha Mundial das Mulheres faziam sua caminhada/protesto. policiais da tropa de choque espalhados por toda a praça, prontos para conter o bando subversivo e perigoso das mulheres.
do nosso lado, vários deles se postavam em torno da macdonald´s, como a protegê-la... ai, ai...
não é à toa que a marcha associa o machismo ao capitalismo, estão completamente interligados. a proteção policial ilustra bem essa ligação.
como ilustram as propagandas e promoções que lotam não só esse dia, mas o mês da mulher porque, afinal de contas, "um dia só é pouco" para nos homenagear...
"toda mulher é cheia de desejos. a Suggar faz tudo para atendê-los." e vemos o desenho de uma mulher sorridente, cercada por balõezinhos de pensamentos (seus desejos) preenchidos por modernos eletrodomésticos... o que mais uma mulher desejaria?
"dia internacional da mulher: participe e concorra a um dia inesquecível no spa one day"... claro, além de eletrodomésticos modernos, um dia inteirinho de cuidados com a beleza.
promoção seda:"concorra a sapatos, vestidos e a consultoria de..." promoção do twitter: "participe e ganhe uma bolsa!"
e por aí vai.
ao ligarmos a televisão, vemos, predominantemente, a mulher em dois papéis: a gostosa da cerveja e a limpadora de casa, cuidadora do lar... e dá-lhe gleidy sachê, veja multiuso, repelente de inseto... e dá-lhe cuidar do maridinho, da família e do lar...
segundo a antropóloga mirian goldenberg, no brasil ainda a figura masculina é super valorizada, fazendo com que a mulher, para se valorizar, recorra ao "capital marital", termo que ela cunhou para designar o marido conquistado e exibido como um troféu. afinal, que adianta eu ser profissional reconhecida, qualificada e respeitada, se não tiver um marido provando que, apesar disso, eu continuo a ser mulher, feminina, delicada e dedicada ao lar?
enquanto isso, islaines continuam a ser assassinadas por seus capitais maritais que, em contrapartida, não as valorizam.
já repararam que um homem, por pior que esteja (como bem destacou a lissandra durante a intervenção realizada no último sábado, na mesma praça, ao ser abordada por um sujeito em condições pessoais precárias), ainda se sente superior a qualquer mulher e a aborda do alto de sua arrogância?
afinal de contas, como diria uma garota de programa que anuncia nos classificados, nós engolimos tudo, sem frescura.
