agrupamento independente de pesquisa cênica
Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.
São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.
Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.
A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.
terça-feira, junho 29, 2010
Performações ou Deformações?
performando no performações

Os espaços esvaziados da vida pública nossa de cada dia nos informam de quê? O que temos feito de nossas vidas, com nossas vidas nesse vai-e-vem entre espaços privatizados, fechados, impermeáveis às diferenças? Como a arte tem agido/reagido a tudo isso? Afinal, já há muito que a arte saiu dos museus. Ou não? Será que temos conseguido fazer uma arte pública, política, urbana?
Qual o lugar da performance na relação entre espaços privatizados e as ações de corpos que resistem, no exercício de sua existência política?
Essas foram algumas das provocações lançadas pelo coletivo Zona de Interferência para o encontro Performações (proposto por eles como contrapartida da residência, dentro do projeto Cenário do CCUFMG): reunião de artistas/performers para discutir performance e ocupação de espaços públicos. Estavam presentes, além do Zona, nós do obscena, Maurício Leonard e Paulo Nazareth.
A discussão, que aconteceu de seis às nove da noite do sábado dia 26 de junho, foi muito interessante e profícua. Mediada por Denise Pedron, que iniciou pontuando algumas questões sobre o conceito de performance, tivemos a apresentação do trabalho, em vídeo, do Maurício e a discussão da experiência vivenciada por Paulo, ao sair caminhando pelas ruas da cidade com um peixe na boca. O obscena apresentou seu trabalho e discutiu um pouco sobre algumas ações performativas que, de quatro às seis, realizamos, nas imediações do Centro Cultural da UFMG:
1. Reperformando Moacir ou ovacione seu país. Reconvocando uma ação de interrupção – que tinha como mote a discussão sobre as possibilidades políticas da cena contemporânea (Lehmann) – proposta pelo pesquisador Moacir Prudêncio nos inícios dos trabalhos do Obscena, essa intervenção consistiu em pregar bandeiras do Brasil que continham, em seu amarelo gema, a inscrição: “ovacione seu país” e colocar abaixo da bandeira uma caixinha com ovos crus. Realizamos eu e Saulo, nas imediações da arena de comemorações da copa (inclusive em um poste na entrada da arena), em “homenagem” ao nosso país, à seleção brasileira e ao prefeito Márcio Lacerda.
2. Filas para o nada ou Fila de artistas aguarda liberação para utilização da praça pelo povo sem pagar aluguel. Proposta por Clóvis – instigado pelas provocações do Zona – para pensar a conformação dos corpos, as filas para o nada propõe a construção de filas que não sirvam a um fim: pegar o ônibus, pagar as contas, comprar ingresso. Realizada em frente à arena de comemoração da copa (espaço proposto por Joyce, ao iniciar a fila com seu casaco amarelo gema), no local de atravessar a rua, atrapalhou o trânsito e causou ruídos.
3. Mulher painel ou mulher não é bola de futebol. Continuação da investigação que Lica e eu realizamos, a mulher painel junta um experimento anterior, testado na praça sete em dia de Marcha Mundial das Mulheres ao desejo de experimentar um novo material em minhas ações: o plástico (ai, Ricardo Carvalho, muito obrigada pela dissertação de mestrado sobre a educação de meninas e o modelo Barbie que você me enviou!!!). O experimento consiste em cobrir o corpo de uma mulher com notícias de jornal, propagandas, fotos de revistas, relacionando estatísticas e dados da violência contra a mulher, à exposição corporal excessiva, imposta pela mídia, à reprodução de clichês corporais e imagens do feminino. Com a aquisição do plástico, ganhamos em dinâmica e em “plasticidade”: conseguimos criar formas, quase uma roupa, a partir dos jornais: com um cone na cabeça, uma saia jornal e peitos de silicone-papel, Lissandra parecia um ser de outro mundo, algo entre o humano e o neutro, o vazio. Muito interessante o que ela conseguiu provocar ao se postar em frente ao telão que passava o jogo EUAxGANA, ao circular pela arena, ao se postar ao lado das bandeiras de ovacione. As formas corporais que criava, ao se colocar disponível à leitura, como um verdadeiro painel.
Em tempo: selecionei, para o painel, algumas especiais da copa: as mulheres bombadas do imperador Adriano (que, de vez em quando, confunde algumas com uma bola e bate nelas pra ver se obedecem, no que é defendido pelo goleiro Bruno, aquele que espanca prostitutas e que agora é suspeito de assassinar a mãe de seu filho), notícias do assassinato (também por um jogador de futebol, seu ex-marido) de ana cláudia com 14 facadas e claro, a memorável frase do nosso querido convocado para a seleção 2010, felipe mello: bola boa é igual mulher de malandro, a gente bate e ela obedece (diferente da jabulani, que parece uma patricinha: não gosta de apanhar...)
Em tempo: duas meninas (entre 7 e 9 anos, circulavam absolutamente sozinhas pela praça), ao me verem colocar mais uma notícia nela e enrolar seus braços com filme plástico ficaram doidinhas. Uma me pediu para que eu a vestisse assim também, com a roupa de papel, os braços de plástico. Na menina, não tive coragem (nem vontade) de pregar nenhum dos materiais que eu trazia, a não ser as tarjetas escritas com “URGENTE” (que espalhei por todo o seu corpo) e uma bandeira do Brasil (que ela solicitou) e que preguei em seu ventre. Acredito que elas queriam acompanhar a mulher painel, mas acabaram circulando um pouco comigo e se integrando à fila.
Depois pegaram alguns ovos e criaram um jogo constante de perigo para a performer: constantemente sob a ameaça de ser ela, e não a bandeira, ovacionada.
quarta-feira, junho 23, 2010
sexta-feira, maio 14, 2010
RESUMO DE ENTREVISTAS - AGRUPAMENTO OBSCENA
FIZ UMA SÉRIE DE ENTREVISTAS QUE SE RELACIONAVAM AO MEU OBJETO DE PESQUISA NO MESTRADO (UFMG). VISANDO À DISPONIBILIZAÇÃO DE TAIS ENTEVISTAS ÀS PESSOAS QUE ACESSAREM O BLOG, FAÇO UM RESUMO DESTAS ABAIXO:
O objetivo da presente pesquisa é analisar os procedimentos cênicos do Núcleo Teatral Obscena, agrupamento independente de pesquisadores, no projeto “Às margens do feminino: texturas teatrais da beira”, realizado em 2008, sob a perspectiva da aproximação física entre o espectador e a cena na sociedade espetacularizada. Para tanto, realizou-se uma revisão bibliográfica do conceito de sociedade espetacularizada a fim de identificar os procedimentos cênicos realizados pelo Núcleo que se aproximem deste recorte.
Procedimentos obscênicos: Relatos - ERICA VILHENA
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento mercado de buceta
O procedimento cênico ‘mercado da buceta’ foi gerado no intuito de questionar os dispositivos de educação da mulher e para isto a performer Erica Vilhena utilizou brinquedos que em miniatura representam a organização de uma casa, ou seja, desde a primeira infância a criança do sexo feminino já é adestrada a compreender a administração do lar e suas especificidades.
• Pesquisadoras participantes
Este procedimento foi gerado de forma individual, mas em sua exposição a performer contou com a participação ativa dos demais pesquisadores do OBSCENA. Durante sua primeira execução os demais do OBSCENA deveriam destruir a composição por ela montada (embaixo do Viaduto Santa Tereza).
• Preparação para o procedimento (se existir)
Este procedimento é composto na rua. Não há uma preparação no sentido tradicional da atividade de uma ator (aquecimento corporal e/ou vocal), por exemplo. A performer chega ao local da execução e lá mesmo monta o ‘mercado da buceta’ que consiste num tapete feito de páginas de revistas femininas e brinquedos que reproduzem uma casa em miniatura.
• Qual é a relação que este procedimento deseja (desejou) estabelecer com o espectador transeunte?
Este procedimento desejou estabelecer com o transeunte a mesma relação ativa que foi solicitada aos demais integrantes do OBSCENA, a performer solicitou a Nina Caetano que escrevesse no chão a seguinte frase: ‘DESTRUA ESTA IMAGEM’; para que os passantes lessem e desmontassem aquilo que estava ali exposto.
Procedimentos obscênicos: Relatos - DIDI VILELA
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento “É homem? É mulher?” Reticências...
Caminhar pelas ruas belorizontinas, explorando espaços não convencionais. Essa caminhada teria muito mais um caráter de instalação/ocupação espacial, do que realmente um compromisso em criar algo estruturado cenicamente. O objetivo era trabalhar com o risco e o acaso nas grandes avenidas de Belo Horizonte, compondo e criando jogos de improvisação junto aos transeuntes, dentro de um acontecimento real, fazendo desse acontecimento o limite tênue entre realidade e ficção.
• Pesquisadoras participantes
Didi Villela
• Preparação para o procedimento (se existir)
Depois de maquiado e vestido como uma camisola preta e curta, fiz alguns alongamentos e alguns exercícios de respiração. Antes de começar a caminhada fiquei um tempo debruçado sobre uma janela observando e me “alimentando” do ritmo noturno da cidade.
• Qual é a relação que este procedimento deseja (desejou) estabelecer com o espectador transeunte?
O trabalho se deu a partir das minhas vivências reais na rua, numa investigação individual, e meu objetivo era provocar a sensibilidade dos transeuntes da rua, trazendo à tona fantasias, preconceitos, lembranças, desejos e indagações sobre o tema estudado em questão, que no meu caso foi a relação do travesti com a loucura.
Eu me apropriei dos espaços explorando o limite do real e do ficctício. Eu estava entregue a todos os acontecimentos noturnos desde o prazer até o medo. Eu vivenciei determinadas situações de risco, em um grande jogo performático junto aos transeuntes. Eu não tinha um personagem estruturado e minhas ações surgiam a partir de objetos que eu encontrava no espaço. E a partir desses, eu criava uma zona de jogo num diálogo com espaço e com transeuntes.
Assim, escolher a rua como espaço, me facilitou explorar, de maneira mais real, a proximidade para com o público, fazendo-o um elemento presente e ativo durante o acontecimento teatral. Meu objetivo então, de maneira geral, era que os espectadores/transeuntes, numa zona fronteiriça entre o teatro e o espaço real da rua, rompessem com todos os limites da representação cênica e do ficcional, instalando-se diretamente no interior do processo, como testemunha e participante de todo o evento performático. Desse modo, pretendi testar o limite tênue entre o que se pode ser criado dentro de uma ficção e realidade, entre verdade e representação, num jogo teatral que confundisse o espectador.
Procedimentos obscênicos: Relatos CLOVIS DOMINGUES
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento “Escutadores”: Estabelecer uma relação de proximidade e confiança com uma mulher da cidade, que através de um convite para um procedimento artístico, confessa suas dores para um desconhecido ( o pesquisador) dentro do banheiro feminino de um Teatro. Uma escuta íntima, tensionando questões como arte, teatro, representação, presença e tornando a mulher-participante desta experiência uma atuante e espectadora de si mesma.
• Pesquisadoras participantes: Erica e Lissandra, além das mulheres da cidade. ( tem um relato da Erica no blog sobre esta experiência).
• Preparação para o procedimento (se existir): eu vestia uma roupa branca e colocava um banco para que a mulher-participante se sentasse. Recebia cada uma na porta do banheiro e depois ficávamos os dois sozinhos e eu pedia o relato de uma história e memória de dor, perda ou abandono. Não intervinha perguntando nada e deixava que cada experiência se esgotasse em seu tempo próprio. Finda a experiência, eu agradecia a colaboração da mulher para minha pesquisa e pedia permissão para passar um pouco de perfume nos pulsos ou então brindávamos a experiência com duas taças de champanhe e algumas perguntavam para que e eu respondia ; “ para perfumar tua dor” ou “um brinde à tua dor”. Elas achavam “estranho” e diziam que a vivência parecia mais um confessionário do que uma obra de arte ou cena de teatro.
• Qual é a relação que este procedimento deseja (desejou) estabelecer com o espectador transeunte? De ESTRANHAMENTO. Primeiramente a escuta é das mulheres, já que nosso tema era o feminino marginalizado. Juntei a isso a pesquisa das pomba-giras e a escuta e acolhida de dores de seus fiéis nos terreiros, principalmente, os problemas de amor e de sexo. De alguma forma é como repetir este ritual de escuta e convidar a mulher a um ato de exposição de sua fragilidade e um exercício de memória. Estranhamento porque as mulheres não entendem a experiência como arte, acham que o que ouvi vai virar um texto de teatro e eu respondo que a cena já aconteceu, este encontro no espaço privado e íntimo do banheiro. Ninguém assistiu a nada, pelo contrário, participou contando sua história , que só foi escutada por mim e pela mulher narradora.
Procedimentos obscênicos: Relatos – NINA CAETANO
• Descrição objetiva (em média 05 linhas) do procedimento (da intervenção urbana) baby dolls (estamos utilizando o termo procedimento para as atividades de pesquisa, como, por exemplo, a caminhada performática, que vão gerar materiais de criação)
Baby dolls, uma exposição de bonecas se configura como uma estrutura aberta e de natureza processual, na qual as relações com o espaço e transeuntes produzem modificações. A estrutura é de montagem dos espaços das bonecas (nichos de exposição), seguida pela demarcação dos corpos com giz e escritas até uma intensificação e junção das três performers para uma marca coletiva, finalizando com a desmontagem dos espaços e permanência de rastros da ação no espaço utilizado.
• Pesquisadoras participantes: a dramaturga Nina Caetano (escrita performada) e as atrizes Lissandra Guimarães, Erica Vilhena e Joyce Malta (composição das bonecas).
• Preparação para o procedimento (se existir): as pesquisadoras se encontram, em geral, duas a três horas antes da realização da intervenção para preparar seus materiais e definir o modo de ocupação do espaço determinado (definição pautada no reconhecimento do espaço e da percepção crítica de intervenções anteriores: o que foi interessante, quais ganhos a intervenção teve etc.): qual das atuantes chega primeiro, se haverá exploração do percurso de chegada etc.
Após essas definições, fazemos uma preparação física individual (aquecimento corporal, alongamento). No meu caso, além disso, eu faço um aquecimento da escrita, uma espécie de colocação no fluxo da escrita: revejo minhas anotações textuais e faço alguns exercícios de escrita automática, a partir dos materiais de repertório e daqueles coletados na pesquisa que faço nos dois, três dias que antecedem a realização da intervenção.
• Qual é a relação que este procedimento deseja estabelecer com o espectador transeunte?
A intervenção nasceu da idéia de “interrupção” do cotidiano do cidadão, de propor uma ação que fizesse com que ele (ou ela) interrompesse a trajetória planejada do seu dia e se detivesse na tentativa de apreender o acontecimento que se apresenta diante dele. Há o desejo de questionar os estereótipos e imagens do feminino e de possibilitar o surgimento de fóruns (debates entre os cidadãos presentes na ação) sobre questões relativas à mulher: violência, feitichização do corpo, direitos da mulher, igualdade entre os sexos etc.
Há, ainda, o desejo de integração do transeunte na ação e de sua participação ativa: muitas meninas interagem com a intervenção ajudando a “montar” a boneca loira e, muitas vezes, se montando também, como boneca. Algumas pessoas se deitam no chão, manifestando o desejo tanto de ter seus corpos desenhados como de marcar corpos ou de escrever dentro de seus limites.
sexta-feira, maio 07, 2010
ESPAÇO DO GRUPO 171: NOVA RESIDÊNCIA ARTÍSTICA DO OBSCENA
Estou muito animado e não vejo a hora de iniciarmos nossa pesquisa neste novo lugar.
Na reunião discutimos possíveis projetos, debates e atividades internas. As coisas vão se delineando um pouco.
Quero nesta postagem apenas registrar a nova residência artística do Obscena. Ou melhor: quem disse que o Obscena tem casa ou é de ficar em casa?
terça-feira, maio 04, 2010
Avaliação do 12º Festival Recife do Teatro Nacional, por Valmir Santos
Avaliação do 12º Festival Recife do Teatro Nacional
quarta-feira, abril 14, 2010
ação reação
claro que quero guardar aqui a devida proporção entre o trabalho que ela realiza e as possibilidades do que podemos fazer a partir dos objetos relacionais que inventarmos! não estamos no campo da psicanálise (embora, é claro, tocaremos no sujeito)... lembrando de merleau-ponty e da questão do corpo tão presente no texto do sperling, interessa-nos, acredito, a percepção no seu sentido mais físico, ou melhor dizendo (junto com a pessoa que sofreu a ação/reação dos o.r.), na pele.
várias texturas e pesos. sons.
lembrei-me, o tempo inteiro, do trabalho que clóvis e lissandra realizaram quando do projeto (de agosto a dezembro de 2009) "diálogos obscênicos" - junto às adolescentes em privação de liberdade do s. jerônimo. nesse trabalho, a partir da ativação da percepção pelos sentidos do corpo, eles realizaram uma experiência vivencial que colocou a todas em estado de criação.
lembrei-me também muito do workshop "como se fabrica uma mulher" que realizamos no recife e da questão do corpo embalagem.
as conexões começam a ter lugar. as coisas se colocam em movimento...
barbie tóxica. plástico embalagem. obra. ocupação.
está na hora da ação.
sábado, abril 10, 2010
Uma pérola de Lygia Clark
" Por Deus, a vida é sempre para mim
o fenômeno mais importante,
e esse processo quando se faz e aparece
é que justifica qualquer ato de criar,
pois há muito
a OBRA para mim
é cada vez menos importante
e o
RECRIAR-SE ATRAVÉS DELA
É O QUE É ESSENCIAL."
Que as leituras de artistas como Barrio, Oiticica, Clark, entre outros, nos traga novas respirações e experimentações!!!!!
A arte de Clark, para mim, se situa num espaço onde a SUBJETIVIDADE DO ESPECTADOR-PARTICIPANTE APAREÇA EM TODA SUA POTÊNCIA E ELE SE TORNE UM CRIADOR.
quarta-feira, abril 07, 2010
baby dolls no fit-2010!
e vamos lá! (será que sai mesmo???)
terça-feira, abril 06, 2010
corpo + arte = arquitetura (sperling, parte II)
estavam presentes eu, joyce, clóvis, saulo e davi pantuzza, ilustre (e querido, querido) convidado obscênico que já veio nos atiçando com outro texto (diálogo sobre o não-objeto, de ferreira gullar). para essa segunda parte, ter lido o texto sugerido por davi (e o complementar: teoria do não-objeto) me ajudou muito na compreensão da relação dessa artista com o objeto, da qual fala sperling. ajudou, inclusive, para pensar a questão que deixei como provocação na última postagem e que se referia ao abandono da moldura dramática.
ferreira gullar diz, ao final do segundo texto, sobre as experiências tachistas e informais (que nada têm a ver com a obra de clark ou oiticica, que ele localiza na noção de não-objeto): "em lugar de romper a moldura para que a obra se verta no mundo, conservam a moldura, o quadro, o espaço convencional, e põem o mundo (os materiais brutos) lá dentro. partem da suposição de que o que está dentro de uma moldura é um quadro, uma obra de arte. é certo que, com isso, também denunciam o fim dessa convenção, mas sem anunciar o caminho futuro".
é possível quebrar a representação em um palco italiano, ou em um espaço destinado ao teatro?
mas, voltemos ao texto e às discussões em torno da obra de clark, também iluminadoras para nossa investigação. no trecho que trata de oiticica, sperling já salientava a questão entre corpo e espaço: "ao espaço geometrizado, conformado por limites claramente estabelecidos (representação-observador, dentro-fora), contrapõe-se um espaço topológico contínuo, conformado por gradientes de aberturas de participação e circulações, que se estruturam mutuamente. as variadas conexões possíveis entre os gradientes são o solo sobre o qual se desenham malhas de experiências. caráter de labirinto, ambiente aberto para o viver" (pg. 125). e ele novamente salienta que "como componente ativo desse campo estruturado está o ser participante - seu corpo - antes, na arte, denominado espectador e, na arquitetura, usuário" (pg. 125).
a arquitetura - bem como a "incorporação do gesto do participante e de seu espaço-tempo vivencial" - é noção-chave na discussão sobre clark. segundo sperling, ela propõe (no lugar dos binômios estanques artista-criador e espectador-receptor) um campo artístico vivencial ativado pelo ato (ou gesto) do participante (antes espectador, contemplador da obra). ou seja, um redesenho do campo artístico, em que artista, público, ação, espaço e tempo estão implicados e são interdependentes (pg. 127).
para ela, a obra artística, mais do que uma proposta, é uma proposição, uma virtualidade (potência): "a obra como ato de fazê-la" (pg. 128). ao tornar o espectador participante, ou melhor, ao propor a ele se tornar, pelo ato, participante, o propositor (o artista) não define essa participação previamente: "ela é experienciada no ato mesmo de concretizá-la" (pg. 128). a fruição da obra deixa de ser contemplação, ela é um "processo de experiência" (sperling salienta que, na raiz, a palavra experiência fala de uma colocação fora dos limites).
continua...
terça-feira, março 30, 2010
e a pesquisa começa a tomar pé
para o primeiro round, a leitura do texto de david sperling - corpo+arte=arquitetura - sobre a obra de hélio oiticica e lígia clark. nessa segunda, conseguimos ler a primeira parte - que trata de oiticica - e deixamos a segunda parte, sobre clark, para segunda que vem. a discussão foi rica e bastante acirrada, pois é impressionante como as questões de artes plásticas alimentam as proposições em teatro! pelo menos, no que tange às discussões das artes plásticas a partir, mais radicalmente, da década de 60 no brasil, as questões parecem ser as mesmas (ainda que os veículos sejam outros): a obra processual, o público participante, rupturas com os padrões de representação, a busca do corpo e da presentificação...
já familiarizados com essas questões por conta de nossa pesquisa da obra do artista plástico artur barrio (um dos eixos norteadores do trabalho desenvolvido em 2008/2009), aqui estamos retomando para aprofundar mais ainda nossas experimentações performativas: a proximidade é grande!
algumas noções presentes no texto acenderam nossos olhos e pensamento, como o cruzamento entre arte e vida, presente na obra dos três artistas (aqui, incluo barrio) que vão propor "experiências artísticas vivenciais centradas no corpo" (pg. 117) e a noção da obra/exposição como projeto ("experimentar o experimental": pg. 118)), como algo a ser concretizado nessas experiências vivenciais, ou seja, nesses processos de construção coletiva da obra, em que público se torna participante. aqui, a idéia da obra como um "organismo vivo" (pg.119) é muito presente. o projeto, em oiticica, funcionaria como uma "montagem de espaços como suportes para acontecimentos", pois, é a partir de "estruturas abertas que [ele] sugere e espera a ocorrência de comportamentos diversos". espera-se "ações de múltiplos agentes - artistas e público - de modo simultâneo e descontínuo, em diálogo não linear" (pg. 121).
a partir dessas questões, foi inevitável a aproximação com alguns trabalhos já desenvolvidos dentro do obscena, como a intervenção urbana baby dolls, sobre a qual muito se discutiu. nesse trabalho vê-se, também, uma relação profunda com os percursos labirínticos levantados por oiticica em sua proposta do éden:
"O espaço-entre, de inúmeros possíveis, é desenhado pelos cheios e vazios das ausências e presenças das proposições (...); labiríntico nos percursos e nas narrativas construídas de uma a outra pelo público participante. (...) tem-se a existência de um corpo situado numa determinada relação espaço-temporal, implicado na ação que protagoniza" (pg. 123).
a questão do corpo perspassa toda a discussão do texto e talvez, nas artes plásticas, seja um ponto-chave... mas e nós, para quem o corpo já é o centro de nosso trabalho? em relação ao teatro, quais são as questões relativas à quebra da representação? como elas se apresentam? ou, mais precisamente, qual seria o veículo que corresponderia a essa ruptura da tela ou do suporte (nas artes plásticas) para o corpo? seria o simples abandono da "moldura dramática"?
terça-feira, março 23, 2010
somos incontornáveis e irreversíveis
Pacaembu, em torno das quatro horas da tarde do dia 18 de março de 2010. ponto final de uma caminhada que durou dez dias, de campinas a são paulo. caminhada na qual marcharam cerca de 3 mil mulheres. mulheres do brasil inteiro, de rondônia ao rio grande do sul. mulheres metropolitanas, mulheres rurais, mulheres índias, mulheres atrizes, mulheres donas de casa. mulheres moças, mulheres idosas, saudáveis, doentes. mulheres que apanham de seus maridos, mulheres que nunca se casaram nem nunca se casarão. heterossexuais, lésbicas. negras, brancas, loiras, ruivas, morenas, mulatas, índias, mestiças. muheres gritando palavras de ordem: "seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!" "eu não sou miss, nem avião, minha beleza não tem padrão!", "não sou modelo de passarela, a minha vida não é novela!", "se cuida, se cuida, se cuida seu machista! américa latina vai ser toda feminista!" e muitas outras mais... até hoje na minha cabeça ecoam as frases que ouvi no único dia que passei lá, ao lado dessas mulheres que enfrentaram 10 dias de caminhada, sob o sol e sob a chuva, andando cerca de 10 quilômetros por dia... eu também gritei e marchei, suei e me cansei, fotografei, filmei e registrei na minha cabeça esse momento histórico. à minha frente e às minhas costas uma fila imensa de mulheres vestidas de roxo. a energia incrível, pois essas mulheres não paravam. prosseguiam firmes, incitavam as outras, dividiam seu protetor solar, provocavam os homens com os quais cruzavam pelo caminho: "joão, joão, cozinha seu feijão" josé, josé, cozinha se quiser! raimundo, raimundo, limpa esse chão imundo! chiquinho, chiquinho, cuida do filhinho! erasmo, erasmo, eu quero meu orgasmo!", respondendo a seus gestos obscenos e aos gritos de volta pra cozinha: "mulher não é feita pro forno e pro fogão, a minha chama é da revolução!" foi lindo, foi emocionante. na chegada a são paulo - andamos quatro quilômetros até a estação de osasco, pegamos o trem metropolitano e descemos em barra funda, para caminhar mais dois quilômetros até o pacaembu - centenas de outras mulheres nos recebiam como heroínas, quer dizer, recebiam essas mulheres que caminharam dez dias (eu estava ali de gaiata, bem na comissão de frente, pois tinha embarcado no vagão errado). me arrepiei em vários momentos. nessa chegada ao metrô de barra funda. na caminhada por são paulo, junto à batucada de mulheres que abria a marcha... ao saber de uma índia que casara com um bêbado, tivera quatro filhos, tinha tido a coragem de abandoná-lo (embora, como declarou, ainda amasse o safado) e tinha se tornado cacique, depois que sua comunidade havia destituído o antigo cacique para colocá-la no lugar. ao saber da história de uma mulher do amazonas que voltaria para casa naquela quinta, mas só chegaria lá na quarta seguinte, depois de viajar 22 horas de barco... ah, mulheres... incontornáveis e irreversíveis...
enquanto isso, o brasil ultrapassa a alemanha e a frança e chega ao 2º lugar de maior consumidor de cosméticos do mundo (só perdendo pro japão), posto já conquistado em relação às plásticas (só perde para os EUA). enquanto isso, muitas mulheres continuam a se ver como mercadorias, valendo por sua aparência e juventude.
enquanto isso perdurar, seguiremos em marcha. até que todas sejamos livres...
terça-feira, março 16, 2010
DA PERTURBAÇÃO DOS SENTIDOS E DOS ESPAÇOS
Na Praça Sete, lugar vertiginoso, algo realmente aconteceu, perturbou e deslocou....
Havia uma nervosidade provocada pela ação, muitos gritos, muita gente rondando os espaços, muita circulação de corpos e tentativas de explicação daquele "ritual de teatro e macumba", segundo uma mulher que assistia revoltada àquilo tudo.
Cada "boneca" com seus objetos configurava um espaço dentro do espaço maior, quase pequenos nichos, e assim havia uma ocupação mais ostensiva do lugar, mesmo quando este era abandonado pelas performers. Os objetos instalados mantinham a mesma força dos corpos em movimento, havia uma circularidade, uma transitividade, tudo isso realmente produzia uma perturbação nos sentidos. Um ritmo interessante desta cena obscena, um contágio, um estranhamento, uma invasão potente e provocadora.
Nichos ocupados, imagens desenhadas, espaços configurados, corpos metamorfoseados e de repente o espaço era abandonado, mas algo ficava ali. A visualidade dos objetos, as formas da instalação, as cores, as deformidades, tudo isso gerava curiosidade e capturava o transeunte.
O abandono, herança de Barrio, não só o abandono dos objetos e corpos no chão ( como no momento com a Nina), mas o abandono da representação, dos objetos que educam e seduzem a mulher, tudo foi para o chão, perdeu a mesa, a cama, o fogão e mudou de lugar, decaiu ou precisa urgentemente decair.
Uma encenação descentralizada, rizomática, afectada por vários olhares, comentários e reações extremas de agressividade e repúdio. Vi mulheres virando o rosto, mulheres rindo de tudo, mulheres reclamando daquela "palhaçada" na praça da cidade.
Ação concentrada, tempo ágil com tempo dilatado, corpos metamorfoseados, textos fortes sendo lidos e comentados pelas pessoas, a praça realmente invadida, rabiscada, transtornada e incomodada. Mulheres-objeto ou objetos-mulher? Corpos deformados, monstruosos e concentrados.
Até no final da ação, foi fantástico ver o recolhimento dos restos e objetos. Artistas concentradas, agredidas e agressivas e mesmo ao abandonar o local é possível "confundir e provocar", e lá vai Erica com um saco preto no rosto puxando seu carrinho e ao passar pelas ruas criando mais perturbação, nervosidade e não-saberes.
Novos elementos nesta ação: invasão, ocupação, circulação , perturbação , deformação e abandono.
DA PERTURBAÇÃO DOS SENTIDOS À DOS ESPAÇOS MUITA COISA ACONTECEU...
terça-feira, março 09, 2010
dia internacional da mulher
ontem, fizemos mais uma intervenção de baby dolls na praça 7. do outro lado da avenida, no outro quarteirão, as companheiras da Marcha Mundial das Mulheres faziam sua caminhada/protesto. policiais da tropa de choque espalhados por toda a praça, prontos para conter o bando subversivo e perigoso das mulheres.
do nosso lado, vários deles se postavam em torno da macdonald´s, como a protegê-la... ai, ai...
não é à toa que a marcha associa o machismo ao capitalismo, estão completamente interligados. a proteção policial ilustra bem essa ligação.
como ilustram as propagandas e promoções que lotam não só esse dia, mas o mês da mulher porque, afinal de contas, "um dia só é pouco" para nos homenagear...
"toda mulher é cheia de desejos. a Suggar faz tudo para atendê-los." e vemos o desenho de uma mulher sorridente, cercada por balõezinhos de pensamentos (seus desejos) preenchidos por modernos eletrodomésticos... o que mais uma mulher desejaria?
"dia internacional da mulher: participe e concorra a um dia inesquecível no spa one day"... claro, além de eletrodomésticos modernos, um dia inteirinho de cuidados com a beleza.
promoção seda:"concorra a sapatos, vestidos e a consultoria de..." promoção do twitter: "participe e ganhe uma bolsa!"
e por aí vai.
ao ligarmos a televisão, vemos, predominantemente, a mulher em dois papéis: a gostosa da cerveja e a limpadora de casa, cuidadora do lar... e dá-lhe gleidy sachê, veja multiuso, repelente de inseto... e dá-lhe cuidar do maridinho, da família e do lar...
segundo a antropóloga mirian goldenberg, no brasil ainda a figura masculina é super valorizada, fazendo com que a mulher, para se valorizar, recorra ao "capital marital", termo que ela cunhou para designar o marido conquistado e exibido como um troféu. afinal, que adianta eu ser profissional reconhecida, qualificada e respeitada, se não tiver um marido provando que, apesar disso, eu continuo a ser mulher, feminina, delicada e dedicada ao lar?
enquanto isso, islaines continuam a ser assassinadas por seus capitais maritais que, em contrapartida, não as valorizam.
já repararam que um homem, por pior que esteja (como bem destacou a lissandra durante a intervenção realizada no último sábado, na mesma praça, ao ser abordada por um sujeito em condições pessoais precárias), ainda se sente superior a qualquer mulher e a aborda do alto de sua arrogância?
afinal de contas, como diria uma garota de programa que anuncia nos classificados, nós engolimos tudo, sem frescura.
terça-feira, dezembro 15, 2009
Última reunião do ano de 2009
Obscena é construção, desejo, trabalho e pesquisa.
O ano de 2009, sem um projeto mais institucionalizado, foi um ano de desafios, crises e descobertas. Destaco a projeção do BABY DOLLS: UMA EXPOSIÇÃO DE BONECAS e o projeto DIÁLOGOS OBSCÊNICOS com as jovens internas do São Jerônimo. Fora outros momentos como congressos, eventos e mesas de debates onde falamos um pouco das pesquisas do agrupamento.
Ontem assistimos o curta-metragem do Saulo Salomão intitulado PARTE DE MIM NA PRIMAVERA , feito com imagens que ele recolheu com as jovens mulheres do São Jerônimo. Um documentário interessante, poético e com um olhar de quem muito se envolveu com aquela realidade. O trabalho com vídeo é mais uma textura para nossas pesquisas, assim como as maravilhosas fotografias do João Alberto de Azevedo. Acredito que ainda chegaremos à uma miscelanea destas linguagens, um diálogo mais forte e provocativo, estamos ainda caminhando.
Minha pesquisa é um pouco de todas as pesquisas, acompanhei as práticas de todos e aprendi muito.
A residência artística no Centro Cultural da UFMG não funcionou bem, estamos buscando novas ocupações, é um agrupamento nômade.
Ainda em construção esta possibilidade de uma rede de colaboração e criação. Até onde individuais e até onde coletivos? Como sermos independentes e dependentes ao mesmo tempo? Afinal se nos juntamos é porque desejamos construir uma ponte com e para os outros. Caso contrário faríamos tudo sozinhos...
Como alimentar e ser alimentado? Como provocar, trocar, colaborar e construir este lugar que se institui pela força do desejo?
O QUE QUEREMOS PERGUNTAR E INVESTIGAR EM 2010?
domingo, dezembro 06, 2009
Recife, onde a lama é a insurreição - parafraseando Chico Science é claro...
Maria Helena tinha 03 ou 04 anos e cantarolava feliz enquanto os vizinhos depositavam flores no caixão do pai. Hoje ela completa 72 anos.
Hoje eu tenho 30, mãe. Há uma semana estive em Recife/PE trabalhando. Só hoje tento dizer sobre o que vivi. Darei então à você, no seu aniversário, a mulher na qual me transformei, a mulher que luto para ser todos os dias e também a menina que você ‘pariu’ a contragosto de vários médicos, devido as seus adiantados anos.
Assim como dizia Chico Science - ‘é só equilibrar sua cabeça em cima do corpo, procurando antenar boas vibrações, procurando antenar boa diversão’... Em Recife foi difícil equilibrar a cabeça, o coração bateu forte diariamente, não houve descanso. Não houve a hipocrisia salutar da mulher mineira e não houve a disfarçada discrição masculina belorizontina, houve sim o olhar duro das mulheres dum estado que mais as mata no Brasil, houve sim os urros surdos e debochados dos homens que nos vêem como cabritas, que se espanta, que se tange e se encurrala.
Hoje, mãe eu venho lhe dizer que não me dobrei, meu corpo foi firme, segurei o olhar, segurei-me em mim e encarei-os. Não há palavras, não há necessidade destas para se fazer entender, o corpo age, ele se faz entender. Eu venci a Erica, eu a encarei nos olhos de cada uma daquelas e daqueles com os quais intervi e interferi pelas ruas de Recife. Sim, ela mesma, aquela que a Senhora sempre advertia, sim, aquela que se escondia, aquela que tinha medo, mas um medo que a senhora nunca entendia da onde vinha e eu te digo – vem de mim mesma, eu tenho medo de mim, finjo não me ver, calo meus desejos e opiniões por medo de reprovação, por medo de desagradar e não ser amada. Sou brigona, claro, mas sou submissa também, e muito. Submeto-me a mim mesma, a meu julgo, a meus medos e assim fico apática. Perco o rebolado. Mas, lá não, lá eu não pude fraquejar lá eu não tive onde me esconder, tudo o que até então esteve seguro e a salvo – foi-se. Houve um esgarçar da minha carne, alma tudo. Meu organismo revirou-se, não consegui agradar, não pude. Minha força não se submeteu, eu não me submeti a mim e tranquei-me para entender o que se dava.
Assim o trabalho com o Baby Dolls transcorreu – RUA DA IMPERATRIZ, FEIRA DE CASA AMARELA, VÁZEA, ESTAÇÃO TERMINAL DO METRÔ DO BARRO E PRAÇA DA BOA VIAGEM, a nova fase boneca que compus, o novo tapete, materiais que me deslocaram da intervenção que até então havia feito e me colocaram em outros graus de dificuldade e exposição. Senti-me mais produto, mais industrializada, mas seriada. Não que isto tenha trazido empatia dos transeuntes, não, não mesmo, o saco preto na cabeça é, como diz nina, macabro! Sim, Maria Helena, instalei no meu corpo peças de roupa duma possível puta e em minha cabeça um saco preto de lixo. Anulei minha identidade em prol duma generalidade, não há nada de heróico nisso, só sou mais uma que não quer ser mercadoria, nem de si mesma.
Bom, faça comigo a jornada:
1º dia – chegamos às 18:40h, mas como lá não tem horário de verão, ganhamos 1h!!! O cheiro do mar ao longo do caminho para o hotel se misturava com as descargas dos carros, muito trânsito. No hotel, no Pina um dos bairros ao longo da Avenida Boa Viagem, um concurso de misses, todas muito maquiadas e acompanhadas da mãe e/ou família. Bonecas por toda parte e seriadas. Mesmo sendo de estados diferentes os padrões de beleza quase que anulam as reais belezas de cada região do pais, sem falar nas misses contratadas para representar estados outros... ‘sede não é nada, imagem é tudo’.
2º dia – café da manhã maravilhoso! É bom ressaltar!!! Saímos para visitar os lugares das intervenções. Estes foram muito bem escolhidos, a Prefeitura é quem produz o Festival e tiveram sensibilidade e compreensão do trabalho, Olorum Modupé!
Só ficou pra trás a Praça da Boa Viagem. O tempo é curto e o sol aqui anda rápido.
Rua da Imperatriz – 1ª intervenção ‘Baby Dolls, uma exposição de bonecas’ em Recife. É uma rua de calçadão e comercial, há sempre um vendedor na porta chamando os clientes, brincando ao microfone com fundo musical tecnobrega. Utilizamos o camarim dum cine teatro muito antigo e belíssimo que me foge o nome agora. O filme do Chacrina está na tela e nós passamos pé ante pé por detrás, nosso ‘anjo especial’ do dia foi Williams, o coordenador das ações descentralizadoras do Festival, está ansioso, nós também. Em silêncio me arrumo, é o primeiro dia da ‘mulher do saco’, apelido ganhado lá para a 1ª fase da minha boneca. A rua da intervenção está próxima, mas as calçadas são cheias de bancas e com buracos, tenho que me concentrar. Nosso tempo é outro agora com as modificações da minha boneca, re-conversamos as chegadas e nos conectamos umas às outras, é hora. Eu e Lica montamos a noiva e saio. Puts, respirar é preciso, ver não é preciso! A rua é cheia, as pessoas passam o dia nela, guio-me pela igreja que está à frente, sua sombra me serve de mapa, os ouvidos se aguçam, os motoristas aqui são pé quente e não há muitos semáforos. Alcanço o início da Imperatriz. Ainda não me fiz notar. Aqui não é a roupa curta, aqui é a cor! O vermelho da meia é o primeiro a ser olhado. Percebo que Joyce está já no tapete, há uma roda em torno da banca de revistas. Passo por Nina, entro no meio das pessoas, me ajunto à roda que assiste Joyce. Aos poucos começam a se incomodar comigo ali, saio e vou em direção ao entulho que havia escolhido para apropriação. Paro, olho e coloco a bolsa no chão. Inicio o processo. As pessoas vão se chegando, o vendedor de água começa a cantarolar ‘compra água e assiste a mulher do saco’. Lica chega. A noiva arrasta as mulheres à sua volta, ela e elas com várias sacolas nas mãos. Sinto tudo isso como uma onda, rebatemos e retornamos e assim repetidas vezes. Experimentei retirar o saco e olhar a platéia que se formou à minha frente, daí em diante montei a Santa, mas não sei se foi o melhor revelar o rosto... a não identidade incomoda mais eu creio.
Duas meninas nos acompanham até o camarim. Thais que virou boneca no tapete de Joyce e sua amiga. Ambas são pedintes no centro, vem com seus pais para ganhar o dia nas ruas. Elas saem com lanches nas mãos e nós vamos para o hotel, Recife começa a se mostrar.
As integrantes de movimentos feministas e artistas mulheres estiveram presentes e se fizeram notar na ação, MARAVILHA! Elas nos convidam a participar duma ação que ocorrerá no dia seguinte, 25/11, dia nacional da não violência contra mulheres, mas temos intervenção no mesmo horário, mesmo assim o recado está e será dado!
3º dia – iniciamos o workshop ‘como se constrói uma mulher?’ proposto por Nina e Lica, com participação e apoio meu e de Joyce. O Espaço Compassos nos cedeu a sala para trabalharmos, modupé!
08 mulheres apareceram – Andala, Angélica, Flávia, Gabriela, Mariquinha, Mônica, Rebeca, Sandra – todas atrizes, acima dos 20... Mulheres fortes, dentre elas uma paulista e uma gaúcha, Flávia e Sandra, as demais pernambucanas na veia!!!!
Saímos para uma caminhada performática. Cadê as mulheres nas ruas? É a pergunta que não quer calar. Os prédios antigos fechados, lacrados, outros em pleno uso. Extremos todo o tempo pelas ruas do Recife Antigo. Os homens inquietam-se com este bloco feminino, uma se destaca e eles dizem que esta está procurando homem... no marco zero um vendedor de sombrinhas de frevo nos oferece e sua companheira coloca-as nas mãos de todas, a cena é linda. Diante da escultura de Brennand, sob a bancada rente a margem do Capibaribe, Lica se ergue também em forma e Nina a sinaliza com fita zebrada. Andala, ao lado, instala pedaços de cascas de laranja e as abandona. Retornamos e pelo caminho nos instalaremos. Numa caçamba Nina e Joyce se colocam, Rebeca e outras também se instalam, é uma rua muito movimentada com muitos funcionários almoçando nas calçadas. Fiquei no registro o tempo todo! Isto me dá liberdade de criar imagens das mulheres em ação. Faço comunhões/oposições entre corpos e arquitetura, conversas e objetos aleatórios que encontro pelo caminho. A câmera me é muito bem vinda! Neste registro é preciso estar atenta à imagem e ao áudio, as pessoas reagem muito e os sons que produzem têm de ser também composto nesta ‘edição do instante’, ihihh!!! Este termo já usam né, kkkk!! Nina, me apropriei!
2ª intervenção Baby Dolls – Pátio da Feira de Casa Amarela. É mercado antigo, 1930. Um bairro populoso e tradicional em Recife pela festa de Nossa Senhora da Conceição. Passeio mais livre na feira, entre barracas os homens me chamam de ‘dama da noite’, se riem do saco em minha cabeça, entro no mercado. Entre lojas passo. ‘é dia das bruxas no mercado?!’ alguém grita. Continuo, passo por Joyce, vejo Lica às voltas com suas fotografias. Nosso tempo de chegadas e trajetórias foi mais uma vez revisto devido ao trabalho de ontem. Instalo-me na parte de dentro do portal da entrada principal, meu tapete atravessa a passagem. Na calçada Joyce e Lica se colocam, as pessoas se aglomeram, adolescentes fazem auê, senhoras nos olham ávidas e teimam em ficar e seguir-nos. Alguns homens chegam mais perto, seus olhares são mais sutis, eles percebem a relação com a violência e há uma certa vergonha em seus corpos, outros não, se colocam mais garbosos ou debochados. Uma mãe e sua filha, de uns 7 anos, acompanham toda a ação, a menina tenta se desgarrar da mão da mãe para ir ao tapete de Joyce, mas não consegue. Eu fico ali a observá-la. Desde ontem estou experimentando me mover mais já que agora tenho mais tempo. Criar imagens nos outros tapetes também é muito interessante. Compor com as outras bonecas no e pelo espaço amplia o sentido da intervenção para mim. A anja que nos acompanhou, Hammai, registra-nos com avidez, ela é forte e artista também, falou-nos muito sobre a violência na cidade e os tabus. Ao final, mulheres se aproximam para agradecer a experiência, estão emocionadas e nós também, deveras.
Hoje optei por não revelar o rosto na passagem da ‘mulher do saco’ para a ‘santadonadecasa’ e é mais forte a não identidade!
4º dia – não participei do workshop, fiquei no hotel me revirando entre a cama e o vaso, kkk! _Num guenta, toma leite!, diz bocudinha!
As mulheres trabalharam com seus objetos e iniciaram a composição de suas ações/intervenções.
3ª intervenção Baby Dolls – Várzea. Este bairro é grande e já pertenceu a família Brennand, holandeses que se instalaram na região e numa antiga olaria da família hoje temos o Instituto Brennand. O local é a praça Pinto Damásio, ampla e plana, com quadras e áreas com brinquedos para crianças, há um palquinho ao fundo onde senhores jogam dama. Um homem me pára e quer falar comigo, me chama de meu amor e pega na minha mão, começa a me puxar sutilmente, me desvencilho e sigo, o sol me cega, preciso atravessar a rua. Vou para uma sombra, assim enxergo melhor, a luz refletida pelo saco não ajuda em nada. Passo para a outra parte da praça, esta é maior. Dou uma volta, duas, olho por vários ângulos para escolher onde me instalar, Joyce já está à direita frente, Lica posa numa árvore, é magnífica a composição com o rosa ao fundo – branco/verde/rosa – paro. Atrás de mim uma quadra onde um grupo de mulheres da 3ª idade se exercitam ao comando da professora de educação física, crianças giram por todas as partes e de repente a praça até então calma se alarde com as bonecas que se instalam. A cada dia sinto-me mais calma na nova trajetória de chegada, antes era a erica na tora, agora é a ‘mulher do saco’ e ela precisa ser vista, apreciada, depreciada e assim instalada. O caminho agora é outro. Espero, como todos os dias, Nina vir marcar meu território com a frase ‘Rainha do Lar’, eu gosto mesmo é de ‘santadonadecasa’ tudo junto mesmo. Ela escreve e saio a andar, já com a santa. Os homens do jogo de damas nem se abalam. As mulheres da ginástica saem atrás de nós ou se agrupam por perto. Há muitas crianças e quando vejo Joyce trás consigo duas meninas/bonecas!! Duas!!!!
Nina escreve avidamente, o chão é ótimo, percebo que uma moça com o filho que a acompanha, quando o giz é solto no chão ela não espera, agarra-o e põe-se a escrever! Esta foi primeira vez que tive vontade de escrever. Nosso anjo de hoje foi Jeová, nos fotografou e se riu de nossas bobeiras de mulheres. Mas, contudo, contudo os anjos têm sido os motoristas!! Axé!!
Os dados estatísticos têm recheados nossos corpos grafados no chão, são da cidade, será que a população sabe? Sim! Sentem na pele.
5º dia – voltei ao workshop ‘pra rever as amigas que um dia...’ após uma experimentação individual e mostra dos roteiros de ações, saímos com as sobreviventes – Sandra, Mariquinha, Angélica, Andala e Gabriela. Nina, Lica e Joyce nortearam a ação e elas se somaram ao Baby Dolls. Paramos na dita rua movimentada do centro antigo, onde noutro dia Nina e Joyce se instalaram durante a caminhada. Eu com a câmera em punho como uma arma em fogo! Sigo-as. Engulo alguns que passam. É hora do almoço, a calçada está cheia, há várias barracas de comida e elas se põem a ser digeridas. Os homens no ponto de táxi se alvoroçam, querem colocar moedas no meu cofrinho, ergo-me e mastigo o pretendente com sua própria imagem na câmera, ele se encolhe, não estão acostumados a reação feminina, esta quase não existe. Grupos de curiosos se formam e debatem o que se passa. Mulheres dizem de Joyce morta no chão – ‘antes ela do que eu!’, outras se inquietam, não querem que ela seja de fato atropelada. O trânsito se acumula. Ônibus param para ver! Eu corro em todas as direções, capto conversas, histórias de violência contra a mulher são narradas com indignação por uma senhora que não se intimida com minha presença. Saímos e deixamos os rastros, eu aguardo um pouco, ainda respiro o burburinho, ainda sinto a onda se espraiar...
4ª intervenção Baby Dolls – Estação Terminal do Metrô do Barro. Um mar de gente, isso sim! Ondas de ônibus, metrôs e gente, muuuuita gente! Joyce se coloca na entrada da estação, eu em frente os trailers de lanche à esquerda e Lica a minha frente numa espécie de ‘cercadinho’ onde as pessoas esperam o ônibus. O sol está forte. Um homem se põe a meu lado e pergunta incessantemente por que estou com o saco na cabeça, para isto troca sempre o adjetivo – minha linda, gata, amor... – Minha cabeça dói. Não mostro meu rosto, me transformo na santa e encaro-o avidamente, ele some, não mais o vi ao longo do trabalho. Sinto náuseas. É muita poeira, de todos os tipos, muito barulho de motor, muitos cantares dos vendedores... o caos. O lugar é maravilhoso e não me sinto forte o suficiente com esta dor de cabeça. Respiro fundo e vou caminhar, as pessoas vem e vão, um homem muito negro com chapéu canta ‘o canto da ema’ para Lica, ela em noiva dança altivamente, ele se encanta. O ponto de ônibus vira o salão da festa, há um certo brilho nos olhos das pessoas, eu me coloco ao fundo de santa e observo junto aos demais. Precisaríamos de mais umas quatro bonecas para ocupar este espaço!!! As marcas hoje foram especiais, Lica usou também as pilastras e eu deitei-me logo abaixo para compor.
6º dia – Bate papo sobre o trabalho – Baby Dolls (MG), Bagaceira (CE) e Trupe Sinhá Zózina. Infelizmente não vimos os trabalhos uns dos outros, logo cada qual falou do seu...
5ª intervenção Baby Dolls – Praça da Boa Viagem. O vento é muito forte, foi o que primeiro assustou quando fomos ver este espaço na noite de sexta-feira. É uma praça muito antiga, de frente pro mar e cheia de barracas de roupas e artesanatos. Ao fundo a Capela de Boa Viagem e uma pracinha circular atrás. Nesta que elegemos a ação, não por ser o melhor espaço, mas devido ao vento. Não me sinto bem. Desde ontem estou atravessada!
As participantes do workshop chegaram no hotel para nos organizarmos, elas integrarão a ação. Após voltas e mais voltas subimos para o quarto e nos arrumamos lá mesmo, eu não me sentia nada bem, havia um incômodo, um cansaço e um série de sentimentos que me inquietavam. Hora de arrumar a noiva, minha proposta não é aceita, ela deseja algo como no dia anterior quando montei seu vestido como uma borboleta, volumosa! Travo, não consigo repetir esta forma! No dia anterior eu havia dito isto, enfim, simplesmente não vejo sentido em repetir... travei, não consegui fazer, Lica desmontou e tentou remontar a peça do dia anterior, mas nada, fiquei sem ação. Fui para meu quarto, sentia-me impotente e sem lugar. Quando retorno ela ainda não havia conseguido a forma, o clima não está nada bom e o que fiz foi calar-me. A noiva deste dia não brilhou, ou foram meus olhos que murcharam? Seguimos para o espaço, não me sentia nada, nada bem! Algo se quebrara. Algo me quebrara. A intervenção foi tensa. Uma luta com o vento, com o espaço que direcionava para a formação duma platéia em meia lua... Angélica, Mariquinha e Sandra se integraram a ação, Andala ficou assistindo. Ter mais bonecas e mais materiais para interferir e dialogar no espaço de ocupação é interessantíssimo, creio que amplia a ação e abre fendas nas nossas certezas, nas nossas comodidades. Por mais que lutemos o trabalho tende a se formatar e novas energias dão vigor!
Foi um dia extremamente difícil, senti-me no chão, espremida, espicaçada, mas viva! Uma Erica morreu ali, e hoje mãe, após uma semana eu percebo isso, ficou uma no solo de Recife e a que voltou está mais forte, mais ciente de si, do seu valor como criadora e proponente. E muito, muito mais incomodada com a situação das mulheres. Incomodada com a minha situação.
No sétimo dia descansamos! Williams nos levou a Itamaracá! Conhecemos o Forte Orange e Lia de Itamaracá! Uma grande Mulher e Cirandeira!!!!
Awrè minha mãe, que Oxalá te abenções e Obaluaê te encha de saúde, força e fé! Amo-te muito além dessas palavras, você está nos meus trabalhos, comigo, na mulher que sou e estou!
Awrè Pernambuco, Olorum Modupé!!!!!
Asè!!
quarta-feira, dezembro 02, 2009
Recife no Youtube - Pitadas de Baby Dolls
clique no título para visualizar este vídeo.
Recife I
Praia da Boa Viagem, Recife, Pernambuco. Hotel em frente ao mar. Dia 26.11.2009.
Ontem, pela primeira vez desde que chegamos aqui, pisamos na areia e “butamos” o pé no mar... por pura gratidão.
Gratidão por estarmos aqui, nessa terra abençoada, realizando nosso trabalho. Uma semana em Recife, realizando Baby Dolls pelas regionais da cidade e experimentando, pela primeira vez, realizar o workshop “como se fabrica uma mulher?” exclusivamente para mulheres e com a participação de Joyce e Erica: pela primeira vez friccionando nossos materiais também na sala. E todos os dias essa experiência aqui me arrepia e me transforma. Abençoada a terra, abençoadas nós.
Em Pernambuco, de janeiro a outubro deste ano, 291 mulheres foram mortas. 95% dos seus agressores foram homens, sendo 70% companheiros ou ex-companheiros, maridos ou ex-maridos, noivos, namorados. 70% destas mulheres foram mortas por homens que diziam amá-las. Pernambuco é, hoje, um dos estados nos quais mais se mata mulheres no Brasil. Aqui, em Recife, embora haja 100 mil mulheres a mais que homens, temos a impressão de predominância masculina. As mulheres, não as vemos tanto pelas ruas. Não as vemos tanto pelos bares, desacompanhadas.
Sandra, atriz gaúcha que há seis meses mora em Recife e é uma das participantes do workshop, traz, no segundo dia, um cinzeiro e uma lata de cerveja entre os objetos do “universo feminino” que escolheu para realizar o trabalho conosco. Ela relata que, ao sair do nosso trabalho no dia anterior, resolveu entrar num bar, sozinha, pra tomar uma cerveja e fumar um cigarrro. Era a única mulher do lugar. Uma estrangeira, alienígena.
Aqui, a população que transita livremente é a masculina. Apesar disso (e, talvez, em razão disso mesmo), nunca as mulheres foram tão cúmplices de nós. Aqui a realidade é mais dura. Não é possível fingir que está tudo bem, que somos emancipadas e que o feminismo é um movimento arcaico e obsoleto. Aqui, não é possível ignorar o machismo e fingir que somos donas de nosso próprio corpo e da nossa vontade. Ontem, quando realizamos a caminhada performática pelo Recife Antigo, Andala (atriz recifense) se postou numa esquina. Do lado de cá, ao meu lado, um grupo de homens a olhava e um dizia: “Aquela ali tá querendo homem. Vou arrumar um pra ela”. Outros ameaçavam colocar moedas no “cofrinho” de Erica que, abaixada, registrava tudo. Aqui, a hipocrisia mineira que permite às mulheres de lá achar, no reverso de narciso, que feio é o que é espelho, não tem solo para grassar.
No entanto aqui, como lá, a potência dessas mulheres unidas desarranja, desconstrói, destrói, desordena. Sentimos essa força na Rua da Imperatriz (na primeira intervenção), quando as mulheres do grupo Loucas de Pedra Lilás aplaudiram Joyce ao vê-la arrancar a peruca loira e revelar seus cachos negros. Sentimos sua força em nossa caminhada performática pelo Centro do Recife Antigo, sentimos ontem, no mercado de Casa Amarela, quando alteramos nossos desenhos e relações, fortalecendo nossas imagens e bagunçando os sentidos de quem transitava por lá (pela primeira vez, senti o impulso real e a cumplicidade necessária – o desejo – daquelas pessoas de compartilhar da escrita. Corpos vazios foram preenchidos por outras mãos armadas de giz. Essa mesma força senti hoje, na Várzea, quando as mulheres avançaram, tomando posse do giz e dos corpos. Potência Performática). Aqui, como lá, somos “incontornáveis e irreversíveis”...
Praia da Boa Viagem, Recife, Pernambuco. Hotel em frente ao mar. 29.11.2009.
Sete dias em Recife e pus o pé na água duas vezes. A segunda (essa da qual estou voltando agora, entre o não almoço e o aeroporto) – graças! – pus todo o meu corpo até a cabeça. Para agradecer. Agradecer a experiência maravilhosa, transformadora, que vivi neste lugar. Sou eu também – assim como Mariquinha – outra mulher.
domingo, novembro 08, 2009
Mais um diálogo obscênico: o encontro com o N3PS
Foi em Casa Branca, região de Brumadinho, sede do N3PS e muitas trocas aconteceram:
- a experiência do projeto no S. J. foi por nós relatada e Clarissa e Matheus nos criaram novas questões e visões sobre este trabalho. Uma discussão entre o instituído e o INSTITUINTE muito interessante e o fato dos dois agrupamentos que fazem um movimento instituinte a partir das ações dos pesquisadores;
- o desafio de se rotular ou nomear uma prática de fronteiras nas ações e desejos de ambos os agrupamentos, que passam por questões artísticas, filosóficas e políticas. Fazeres que borram conceitos duros e fixos e que se dão no fluxo dos movimentos, devires e acontecimentos. São as forças, potências e afecções que vão delineando nossos trajetos sempre dinâmicos;
- uma caminhada pela mata e a busca de uma vivência livre de qualquer intenção pré-determinada, nômade, aberta e atenta aos fluxos. Acabou que recolhi "restos" da natureza e com eles realizei uma instalação na casa de Clarissa. Recolhi objetos abandonados e perecíveis ( estava lendo muito o Artur Barrio) que geraram uma possibilidade de trabalho....Geraram uma escrita como "prática de si":
"Esse alguém que eu não sei, mas me carregou..."
"O que é que resta? Quem disse que isso é um abandono?"
"Porque tem certas coisas...que não adianta...elas sobrevivem."
( este trabalho foi fotografado)
- o N3PS mostrou o vídeo do Occursus 1 para o Obscena e debatemos várias imagens, impressões e afetamentos;
- Convidei a todos para um momento no estúdio de trabalho e tivemos um ACONTECIMENTO muito forte envolvendo algumas linhas de pesquisa de ambos os coletivos ( estou nos dois, no ENTRE ): O FEMININO, A POMBAGIRA, O CORPO QUE TRANGRIDE, O CORPO PERFORMÁTICO etc. ( Trabalho também registrado com imagens muito fortes que podem se desdobrar em vários outros processos de criação );
- Matheus relatou processo criativo de uma oficina de teatro e escutamos uma partitura sonora com fortes elementos de DESCONSTRUÇÃO que muito nos impressionou. Trabalho em parceria com Clarissa e no N3PS a possibilidade e espaço de contaminAÇÕES...
- Conversas diversas, já que pensar é também criar e fazer......muita comida, muita partilha e trocas: BABY-DOLLS presente, corpo alíngua, esquizoanálise, micropolítica, Cia Ueinzz e ...........e....................e também.......................................................
UM BOM ENCONTRO ( ESPINOSA) QUE ACREDITO TER AUMENTADO NOSSA POTÊNCIA DE AÇÃO E NOSSO DESEJO DE INAUGURAR NOVOS FAZERES E SABERES.
UM ENCONTRO QUE SE DEU NA ALEGRIA QUE PRODUZ VONTADE DE TRANSFORMAR, CRIAR E RESISTIR.
VONTADE DE TROCAR
MAIS
E
MAIS......
só começou, gente...........................
Intervenção do Saulo numa atmosfera de caça às bruxas
Saulo filma e escolhe certos momentos deste filme tão inusitado e interessante. O que restará de tudo isso?
Eu ofereço minha presença, minha atenção e meu desejo de estar junto dessas mulheres tão à margem e tão ao centro.....
sábado, outubro 24, 2009
A MINHA EXPERIÊNCIA NO SÃO JERÔNIMO
BEM, ISTO A PARTE, QUERO DIZER QUE FOI MUITO PROVEITOSO E AINDA NÃO SEI EM QUE EXATAMENTE TAL EXPERIÊNCIA IRÁ ACARRETAR. RESSALTO A IMPORTÂNCIA DO SAULO ESTAR AO MEU LADO, POIS SEU CARISMA COM AS MENINAS FIZERAM PRATICAMENTE TODAS PARTICIPAREM, E TAMBÉM PORQUE ELE ME APOIOU EM TODOS OS SENTIDOS.
PROCEDIMENTO:
ESPALHEI FIGURINOS FEMININOS NA SALA, DESDE LINGERIES, OU ALGO MAIS SENSUAL E "FEMININO", ATÉ ROUPAS MAIS LÚDICAS, COMO AS DE BAILARINAS, OU DE SENHORAS E AS DEIXEI EXPERIMENTAR AQUELES MATERIAIS. A RELAÇÃO DELAS COM AS ROUPAS É IMEDIATA, POIS AS MESMAS QUEREM SAIR DAQWUELE AZUL E BRANCO DIÁRIO QUE UNIFORMIZA A IDENTIDADE E, AO MEU VER, AS TRANSFORMA EM NÚMEROS.
DEPOIS COLOQUEI OS CLASSIFICADOS À DISPOSIÇÃO, EM UMA RELEITURA DE CLASSIFICADOS DE JORNAIS, E DE DESEJOS. ELAS LERAM , RIRAM, E AS PARTES QUE HAVIA APELO OU SUGESTIONAMENTO SEXUAL FORAM AS PARTES MAIS FALADAS. PEDI PARA ELAS ESCREVEREM COMO ELAS SE CLASSIFICAVAM, E QUAL O RÓTULO QUE ELAS ENXERGAVAM, OS RÓTULOS POSTULADOS PELOS OUTROS. ELAS ESCREVERAM , A PRINCÍPIO, TIMIDAMENTE, E POSTERIOREMENTE COM ÊNFASE. NÃO SENTI A NECESSIDADE DE FOTOGRAFAR, POIS ERA UM MOMENTO ÍNTIMO,ACREDITO QUE QUEBRARIA ESTE LUGAR DEPOIMENTAL. DEPOIS ESPALHEI OS CLASSIFICADOS DE JORNAIS NA QUADRA E EM TODA ÁREA EXTERNA, DEIXANDO-AS RELFETIR E PERGUNTAREM SOBRE AQUILO. FALEI DO MEU TRABALHO E DA MINHA PESQUISA.
POSTERIORMENTE, FOMOS BRINCAR DE CORDA, DEIXEI DENTRO DE UM SAQUINHO PERGUNTAS SOBRE O UNIVERSO FEMININO E PEDI PARA CADA UMA QUE PULASSE A CORDA FALAR SOBRE AQUELAS QUESTÕES QUE HAVIA NOS PÁPEIS. ELAS LIAM E PULAVAM A CORDA POSTERIORMENTE, TENTANDO RESPONDER AQUELAS QUESTÕES. APÓS ISSO , DEIXEI-AS LIVRES COM SUGESTÕES DE MUITOS CDS QUE EU HAVIA TRAZIDO E TAMBÉM, BRINCARAM COM OS FIGURINOS.
ABAIXO REPRODUZO ALGUNS DOS TEXTOS PESSOAIS, SÓ DAREI A PRIMEIRA INICIAL DO NOME PARA NÃO HAVER CONSTRANGIMENTO:
CLASSIFICADOS:
A., QUER CASAR, SER MÉDICA, TRANQUILIDADE.
Â, VAI À IGREJA, QUER ESTUDAR, NAMORAR, SER FELIZ.
Q, BAIXA, GORDA, MORENA, MAS APESAR DE TUDO, GOSTOSA.
R., CONSTRUIR FAMÍLIA, CONSTRUIR CASA, SER ENFERMEIRA.
J., PROCURA-SE EMPREGO, NÃO TENHO CARTEIRA ASSINADA, NÃO TENHO EXPERIÊNCIA, NÃO TENHO NADA.
MORENA, BAIXA, PROCURA EMPREGO, DISPOSTA A APRENDER MAIS, PREFERÊNCIA ESCRITÓRIO.
I., MEDO DE PERDER A FILHA
E., EU NÃO SEI SE SER HOMEM É BOM , EU NÃO TENHO PINTO.
E., NÃO APRENDI NADA AQUI.
J., CAÍ NA PISCINA VAZIA, DE CABEÇA. CAIO NA VIDA DE CABEÇA.
J., EU PREFIRIRIA SER HOMEM, HOMEM NÃO AMAMAMENTA, HOMEM NÃO CARREGA FILHOS, HOMEM TEM VISITAS ÍNTIMAS.
P., QUERO IR EMBORA, TER DIPLOMA PARA DAR ORGULHO PRA MINHA COROA QUE JÁ SOFREU POR MINHA CULPA.
D., EU AGUENTO MUITA COISA AQUI DENTRO, QUERO IR EMBORA O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL, EU SOU UMA PESSOA MUITO GENTE BOA.