agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

domingo, junho 15, 2014

Salve, Padilha, cheia de graça!


Um grande tecido, um enorme véu vermelho traça o chão da Guaicurus, lugares de luxúria, de gozo, o espaço da mulher. A mulher padilha na cama do motel. A mulher padilha que batalha no/com o corpo o dinheiro forçoso do capital diário. A mulher padilha que é mulher cotidiano.

- Aí, vem a pomba gira! Isso é candomblé.

As pessoas nos falavam o que era aquilo. Nos diziam o que estavam acontecendo. Uma mulher que joga pétalas de rosas em mulheres da vida, mulher do sexo, prostitutas, putas! Em mulheres pobres, moradoras de rua. Mulheres à margem. Padilha é a margem das mulheres, e lá ela estava.

O que se ouvia das pessoas era extremamente interessante, as definições eram várias.

- Que noiva mais triste.

- A noiva de satanás!

Uma moça veio em minha direção dizendo:

- Isto é espiritual, não é? Parece, né?

É muito interessante como em nosso país, religioso, realmente, isso é confirmado quando algo é feito com matérias e quesitos que estão neste imaginário da religiosidade.

O véu!

Rasgando em vermelho o acinzentado das ruas da Guaicurus, interrompendo o fluxo de subida e decida dos homens e seus desejos rasgados sob as calças jeans.

A mulher que ficou lá em cima é matéria cá embaixo, as pétalas são distribuídas pelas ruas e os olhares pasmados dos passantes parecem não acreditarem no que veem. Que figura seria aquela, vendada, vestida como umas das trabalhadoras dos estabelecimentos que atendem o prazer do macho insaciável.

Não sei se é espiritual, prefiro não pensar assim. Mas sinto ser do lugar do sensível, de uma lógica do sentir, sim, Padilha é uma ação que mexe com as sensações das pessoas, o corpo afeta-se com a presença daquela figura, as pessoas se movimentavam, vão atrás. Um homem chegou a voltar a rua e observar, ficava olhando de longe a Padilha no passeio aguardando o sinal abrir para atravessar.
Padilha é uma ação muito forte e cada vez é um acontecimento completamente diferente do outro, como quando Padilha grávida jogou pétalas à uma senhora moradora de rua que chorou e cantou à Padilha. 

Padilha é um troço fantástico.

Só vendo para sentir.

RUA DO ENCONTRO NUMA NOITE OBSCENA


Uma Rua do Encontro numa Noite Obscena

No cardápio-libreto oferecido aos convidados da festa-show SONORIDADES OBSCÊNICAS pôde-se comer e beber um pouco de tudo: poesia, umbanda, manifesto, teatro, dança, música, dublagem, entre outras delícias...

Dos vinte e um números/quadros desse “teatro de Revista” contemporâneo, três deles tinham presentificada a palavra RUA: “Rua da Passagem”, “Se essa rua fosse minha” e “Bloco na rua”.

SONORIDADES OBSCÊNICAS transformou o espaço da Casa de Passagem numa RUA DO ENCONTRO: ruídos, corpos dançantes, vozes em coro, risos e muito amor numa celebração coletiva. Não havia centro nem periferia. Éramos multidão. Todos e ninguém específico.

A força desse encontro me transtornou! Em minha corpografia urbana espaços, sensações, memórias e manifestações se atualizaram conjuntamente: os protestos sociais, as rodas de samba, os terreiros de umbanda, os bares da Guaicurus, as festas juninas e os blocos de carnaval. Aglomeração. Tudo foi transe, transa e trânsito para a transformação. Da discotecagem à discoMOLECAGEM: a festa foi modo de existência. Vivenciamos a criação de uma rua porosa na qual todos tem direito igual. Diferença e Alegria.

Ali um pedaço do Brasil foi campeão na Copa das HUMANIZAÇÕES!
Do estádio-corredor saímos comemorando a vitória do Encontro, empunhando um enorme tecido feito bandeira/coberta que nos irmanou e lançou para a rua da VIDA, na qual a verdadeira política aconteceu pelo  jogo dos afetos e das relações.

Partilha sobre a PADILHA


Salve Padilha: a Branca de Neve na Guaicurus!

No dia 13 de Junho, sexta-feira, realizamos mais uma “saída” da Padilha no centro da cidade. Todo ano, pelo menos uma vez, experimentamos essa ação cênico-urbana na cidade. Eu e Erica nos colocamos em caminhada pelas ruas. A caminhada, o trajeto, a poética do percurso, do acidente,do inesperado e dos encontros possíveis e impossíveis.

Uma cidade policiada devido aos jogos da Copa do Mundo. Havia algo estranho no espaço. Uma sensação diferente. Dessa vez Erica se relacionou com mulheres, moradoras da rua. Uma delas perguntou: “você é a Branca de Neve?”, enquanto recebia rosas sobre seu corpo. Outra mulher teve medo e disse que não aceitava as pétalas.

Algumas pessoas se aproximaram de mim querendo saber do que se tratava: promessa, macumba ou manifestação contra a Copa? Respondi que não sabia e que apenas carregava o véu da mulher. Um rapaz me perguntou quanto eu cobrava a hora de trabalho. Entrei no jogo e respondi: “vinte reais”. Ele afirmou que eu ganhava bem....

Acompanhei o véu que se arrastava lentamente e fiquei atento a tudo o que me afetava. Fui mentalmente narrando o que percebia/sentia/escutava. Quase um exercício cartográfico. Meu corpo se afetava com o ambiente: o som do véu rastejando e levando uma folha, o cheiro podre das ruas, a água molhada na calçada, as pessoas que se benziam e pulavam o véu para não pisar ou então se desviavam, o homem que colocou dinheiro no cesto de pétalas etc.

Fizemos trocas intensivas com os espaços percorridos. Véu-rabo, véu-asa, véu de noiva, véu-corpo, véu-tapete na porta dos prostíbulos, enfim: muitas imagens, formas, deformações, composições.

Busco os estudos da PERFOGRAFIA: pesquisa desenvolvida pelo Coletivo Parabelo (SP). Se trata de uma aposta no fluxo de trocas que acontecem entre Corpo, Performance e Espaço Público em diálogo com o conceito da cartografia. Afetos e perceptos compõem essa forma de experiência.

Uma fila de pessoas à espera do ônibus se desfez com a passagem da Padilha. Corpos que serpenteiam para não serem tocados pelo contato com o véu. O fato é que o mais forte que aparece é o preconceito religioso com as manifestações afro-brasileiras. Somos um país de crentes. E existe uma hegemonia cristã em nossas condutas e comportamentos cotidianos. A temática do corpo feminino marginalizado talvez não fique em evidência. As pessoas estranham uma presença que num primeiro momento deveria estar circunscrita aos terreiros fechados. A imagem é forte. A reação se dá pela FOTOGRAFIA instantânea e o que ela pode significar e despertar nas pessoas.

Se nós, os propositores da ação, a experimentamos pela perfografia, alguns transeuntes a significam pela fotografia, no sentido visual mesmo e não pelo contato e proximidade. São essas questões que nos interessam investigar agora.

terça-feira, maio 06, 2014

Sonoridades, tecelagens e mixagens

Que noite mais bela nosso último show na Casa de Passagem!

Roteiro atualizado, trazendo questões de uma cidade militarizada, corpos vigiados, mas a subversão pela festa e pela alegria!

Ocupamos espaços diferenciados, dançamos, contaminamos!

Teatro? Só se for de revista.... Cabaré! Zona! Terreiro de macumba!



Depois discotecagem. Discomolecagens! Isso é performance, a festa como modo de existência! Dançar como protesto, prazer, resistência....

Novos figurinos: ousados, lindos e experimentais...

Sonoridades obscênicas, humanas, com gente fazendo festa com gente, batuque, sedução e poesia! RUA DOS ENCONTROS!

Cidade das delícias!!!
Sem polícia!

Liberdade para estar, amar, ocupar, transitar e dançar!

Nessa cidade todo mundo BRILHA!!!!

terça-feira, abril 01, 2014

Para não te esquecer...

Hoje: 50 anos do golpe militar no Brasil.

E ainda persistem a injustiça, o esquecimento, o silenciamento e o negacionismo de uma época de horror e censura.

Daí propomos um PROCURO-ME, perguntando e procurando por tantos jovens mortos e alguns até hoje desaparecidos!





Irmãos Lambe-Lambe (OBSCENA/BH)
Ação: "Para não te esquecer: LUTA, substantivo feminino".
Parceria: Frente Popular pela Memória, Justica e Verdade (BH) e Instituto Helena Greco (BH).

Eu não te esqueci, Nilda Maria Carvalho Cunha!

sábado, março 29, 2014

DANÇAR É UMA REVOLUÇÃO: Que bom te ver viva! 1 de Abril



Que bom te ver viva Nilda Maria
Que bom te ver viva Sebastião
Que bom te ver viva memória
Que bom te ver viva saudade
Que bom te ver viva luta

Que bom te ver viva vida
Que bom te ver viva viva!
 
 
 

Desta vez, em memória das mulheres que foram mortas pela ditadura e que ainda são, por seus resquícios repressivos, faremos o Dançar é uma revolução no dia 1o de abril de 2014, terça-feira, a partir das 16h, na praça Sete (na esquina/quarteirão do Psiu), em Belo Horizonte.
 

Vista-se de preto, traga seu cartaz, giz, modo de expressão.

Prepare seu set musical e seus fones de ouvido, caixinhas, batuque ou dance o som da rua ou do seu coração.


Venha, mulher, homem, essa dança é sua!

sábado, março 22, 2014

RESISTINDO EM PARALELO


O mapa, ainda em branco, gera mapa lateral. As pernas, que não acompanham o corpo, gera corpos na horizontal.Se a montanha não vem até nós, caminhamso até ela. Seus corpos maquiados, por alguns segundos, estranham a si mesmas. Me estranham, estranham a todos. O lugar muda, a rua muda, todo mundo muda.Mudou, de certo jeito, um modinho de ver. "Minha mão direita está livre", meu Deus!. "Minhas costas não estão doendo"." Eu estou me sentindo poderosa". " Eu sou mulher"."Obrigado pela oportunidade". Já que o meu corpo não pode, eu empresto as minhas idéias ao seu e a gente se conecta ao corpo do mapa, ao mapar do corpo. Construo ações paralelas que me soam na verdade, como uma ação única, que se desdobra em outros espaços como forma de se encurvar para se encontrar em outros momentos. Com elas,Resisto não desisto!Com elas, Estou dentro, em paralelo. 

segunda-feira, março 17, 2014

Os errantes

Todo nomadismo é a inauguração de um novo mundo.

Lá, aqui, ali e acolá.
Errâncias artísticas...
Acontecemos,
tecemos
com
isso
aquilo
ali
acolá
contaminAÇÕES.



Conta prá mim das tuas ações
visões
e confusões?

Por onde andou?
Com quem?
O que deslocou?
O que descolou
e te soltou
do mundo
do formalismo?

Todo novo mundo é
a inauguração de um nomadismo.

sábado, março 08, 2014

Sou mulher

"Eu não preciso ser mulher e nem ser homem. 
 Mais do que identidades,
 Estou laçado por humanidades.

 Em "Baby-Dolls: uma exposição de bonecas" como em outras ações do  Obscena, não se trata de falar de um gênero ou da mulher especificamente, mas revelar a mulher marginalizada e violentada que existe em mim, na criança, no velho, no mais macho dos machos e em vocês".  

(trecho de minha fala na Mesa de Debates "A Performance no Trabalho Autobiográfico", UFOP, 2009).
  

quinta-feira, março 06, 2014

Carta enviada aos fotografados durante a ação Irmãos Lambe-Lambe. Evento: Perpendicular - 6ª edição SESC Palladium - BH Set 2013


Para:
Belo Horizonte, 26 de novembro de 2013.
Ilustre e muy querido amigo,
Saludo!

Estamos em Belo Horizonte. Revendo as fotos e preparando as cartas para enviar. Deu saudade e vontade de lembrar... Instantes que passamos juntos e que se aproximam do íntimo, do particular. Cada vez que fazemos a ação dos Irmãos Lambe-Lambe, trabalhamos com um tema, ora relativo ao local em que estamos, ora aos sentimentos e memórias comuns. Compartilhamos o tema no contato com o fotografado para suscitar uma troca, um diálogo. Durante a 6ª edição do Perpendicular no SESC Palladium, raptamos o tema do evento – “Como resistir?”.
Saiba que foi um dos temas que mais nos propiciou uma conversa transformadora, capaz de também fazermos revelar as nossas impressões à resistência e, por meio disto, reavivarmos nossa força, nossa vontade de ser. De fugir a regra e a exceção.
De brincadeira, pegamos a metáfora do escudo. Escudo como parte de nós, heróis da resistência. Serão traços, indícios ou vestígios da infância?
Resistir? Não resistir? Suportar? Como resistir ao passado, à memória, à pressão, ao acaso, à dor, ao poder, ao tempo, no tempo, ao medo, a nós mesmos?
Se resisto... insisto.
Mande notícias! Escreva-nos!
P.S.: Talvez, hoje, uma carta seja um gesto de resistência.
Um abraço forte e fraterno dos amigos e admiradores,
Hasta luego!

Leandro Silva Acácio e Clóvis Domingos (Irmãos Lambe-Lambe)





quarta-feira, março 05, 2014

Na memória da minha pele

Minhas percepções sobre a experiência do jogo 2 para um futuro estudo:




- Ao nos dirigirmos para o metrô com os manifestos escritos me veio a sensação de que eles eram missivas/cartas para a cidade. Cartas - escritas inéditas, poéticas e singulares- para serem lidas.

- Forte a ideia de produção de um discurso pessoal (numa escrita performática) que visa a um endereçamento ( o que reforça a necessidade da presença de outros).

- Sobre a dificuldade e medo de aproximação com as pessoas no metrô: o registro corporal da civilidade social e o ato performático/interventivo como uma ação de risco e exposição. Da civilidade para a intimidade.

- A subversão ou contra-uso do espaço: ao ler para duas mulheres meu manifesto, falar do meu passeio ali ( o metrô como espaço lúdico), mostrar meu mapa e criar dialogias (ambos atuamos e rompemos o silêncio) uma forma de estranhamento se efetuou. Eu falava do meu prazer em criar textos no metrô e uma mulher me relatou sobre a dificuldade diária de se utilizar o meio de transporte. De um não-lugar para a criação de um lugar, ainda que efêmero.

- O questionamento da "utilidade" da escrita: "você é um escritor? publica isso? para quê então? " também traz um certo incômodo na abordagem.

- A tensão produzida pela escrita de algo pessoal para ser partilhado no espaço público.

- A dificuldade de se abordar as pessoas: quais estratégias? se apresentar? Ler direto e ver o que acontece? Pedir licença? Inventar alguma ficção? Medo de ser rejeitado? Possibilidade de ser rotulado como louco? Receio de ser invasivo? Receio do manifesto ser interpretado como uma "cantada?

- A conversa que é produzida após a leitura do manifesto: " nossa, que profundo! é isso mesmo! todo mundo está em seu universo, ninguém conversa aqui". Camadas de leitura. Li para três mulheres e um homem.

terça-feira, março 04, 2014

Manifesto contaminado: fone de ouvido/fome de ser ouvido

Publico meu manifesto escrito em "corpofluxo-metrô" e lido para alguns usuários:

"O celular é uma célula solitária.
 Adeus, adiar o encontro com as moléculas
 e as molecas que querem brincar.

 Estação ELDORADO?
 É o dourado
 é ouro quando alguém me escuta
 e me reconhece!

 Eu desejo mais vida aqui
 e lindos passeios para nós...

 Estação VILARINHO?
 Não.
 Prefiro: vila rindo!
 Fila indo.

 Fone de ouvido.
 Fone de ouvido.
 fone de ouvido,
 MAS QUEM TEM FOME DE SER OUVIDO?"

domingo, março 02, 2014

Um manifesto UPP: único, político e poético

Wagner Souza me repassou seu manifesto criado e partilhado na cidade em nossa última ação no metrô:

"Por uma vida menos presa
 Por passagens livres
 Por carinhos soltos
 Por afeto desvairado
 Mais beijos
 Menos armas
 Menos armaduras
 Menos julgaduras
 Por amores desarmados!"

sábado, março 01, 2014

Jogo número dois: manifesto público

Projeto: "Corpos estranhos: espaços de resistência".
Nome do jogo: Manifesto público
Local: metrô
Tema: estranhamento/aproximação
Tempo de jogo: uma hora.
Objetivos: ocupar o metrô e criar relações com os usuários.
Verbo da ação: relacionar.

INSTRUÇÕES:

- jogo corporal coletivo de atenção
- escrita de manifesto pessoal (5 minutos)
- sorteio da estação do metrô.
- leitura do manifesto para algum usuário do metrô
- tentativa de criar uma relação de proximidade/estranhamento
- não "representar"
- retorno e partilha da vivência.

Inspiração/provocação:

Vivemos de forma individualista o espaço público , o que:

"sedimentou o silêncio dos cidadãos na cidade. A rua, o trem, o ônibus e o metrô são lugares para se passar a vista, mais do que cenários destinados a conversações". (SENNET, Richard. Carne e Pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008).

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

manifesto para os passantes

Hoje, como ontem, uma pessoa foi morta. Não por acaso uma mulher. E não por acaso, foi morta por alguém que dizia amá-la. Que, não por acaso, é um homem. E não por acaso esse homem culpa a vítima, que ousou “entregar seu corpo” a outro homem. A vagabunda. E não é surpreendente, embora seja triste e assustador, que esse homem tenha encontrado apoio entre muitas pessoas. Homens e mulheres que, como ele, julgam que o corpo dela a ele pertence.
Era nisso que eu pensava, quando Clóvis propôs um novo elemento para a experimentação da última quinta: o manifesto pessoal. Tínhamos 5 minutos para escrevê-lo. E o meu manifesto foi:
“DECLARO QUE, A PARTIR DE HOJE, MEU CORPO É SOMENTE M(EU). EU NÃO PERTENÇO A NINGUÉM. A NINGUÉM NADA DEVO. NEM OBEDIÊNCIA. NEM SATISFAÇÃO. EU SOU MINHA. E NÃO DE QUEM QUISER” – (depois, ao longo do jogo, acrescentei no início: EU, NINA CAETANO).
O jogo dava seguimento ao lance de dados proposto por Flávia em nosso encontro anterior e que propunha que, ao escolher desse modo uma estação de metrô qualquer, para ela partíssemos com o intuito de performar: trajados de modo cotidiano e sem nenhuma preparação.
Dessa vez, a instrução de não “representar” também estava presente. O intuito, aqui, era possibilitar relações com o transeunte, entre a aproximação e o estranhamento. Para isso, Clóvis propôs que abordássemos as pessoas individualmente, ao tornar público nosso manifesto. Lançamos os dados e a estação de metrô sorteada foi a Vila Oeste.

No início foi muito difícil qualquer comunicação. Em vários momentos, pensei que não conseguiria me relacionar com ninguém. Não conseguia coragem para abordar alguém individualmente para dividir algo meu.
Eu havia ficado calada durante o trajeto (embora tivesse ensaiado, algumas vezes, ler o texto. Ou deixa-lo visível em minhas roupas). E agora, naquela estranha e inóspita estação – pura passarela – eu andava. Subia e descia rampa. Escada. Estranhava a paisagem. Decidi caminhar até a av. Amazonas, que passava logo ali embaixo. Andei até ela e estava sob o sol. Árida. Também inóspita. Virei-me e voltei. Decidi ler o texto para mim enquanto subia a rua, na volta à estação. Ao chegar lá, continuava lendo e um vendedor, com o seu carrinho, me olhou. Comecei a ler do início para ele. E o olhava nos olhos. Ele também me olhou. De cara, com um jeito meio lascivo? Até que, ao final, ficou sério e balançou a cabeça, concordando. Surpreso.
Isso me deu coragem e resolvi abordar outros homens. Postei-me atrás de dois que, encostados na amurada de uma das passarelas, conversavam. Comecei a ler. Eles aos poucos notaram o que eu dizia e olharam para trás. Comecei do início, eles se calaram. Quando eu estava terminando um homem passou. Eu o segui e li para ele também que diminuiu o passo, mas não parou.
Percebi que o fluxo continuo me dava coragem. Resolvi ler para mulheres e segui uma senhora, para quem fui lendo à medida que a acompanhava. Eu lia em fluxo.

Por fim, resolvi abordar uma vendedora e ela foi a única para quem perguntei se poderia ler meu manifesto. Ela concordou, eu li. Ela me olhou. Mas parecia, na verdade, estar olhando para si. Isso também me deu coragem. Ou força. Porque eu, na verdade, já não queria mais abordar ninguém. Mas guardar aquela experiência comigo e levar para outras vezes aquela força e aquela coragem. 

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

sobre corpo e resistência

Flávia nos enviou o texto da Beatriz Preciado : Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad sexual (2002) e destaco esse trecho:

"As práticas contra-sexuais devem ser compreendidas como tecnologias de resistência, ou em outras palavras, como forma de contra-disciplina sexual". (p.19).

Imagem de Clarissa Alcantara



quarta-feira, fevereiro 26, 2014

1 cidade, 1 linha de metrô, 19 estações


os dados são lançados. o mapa está em branco por entre a sequência de estações e o traçado das regionais. 4 jogadores mexem as peças no tabuleiro, andam pra onde querem: pra frente, pra trás, pra trás, pra frente. ui, esse jogo é um tesão! estação central, já estamos performando. 

não há intensidades ou atenções especiais, há diferença. a base, gruta, é puro movimento.





o telefone de alguém toca: alô! ... oi?! ... tudo ... e aí?... eu? ... tô performando ...





quero olhar pela primeira vez. passo de costas pela catraca da estação central. como me tornar um corpo estranho? eu, flávia f., branca, magra, estatura e classe médias, cabelos ondulados, caminhando sobre duas pernas, pouco drogada e um pouco prostituída... por aqui, até onde é visível, tá tudo nos conformes dos podrões padres. ooooops! dos padrões podres.

continuo de costas. um corpo nem tão estranho assim: "é arte!", "expressão corporal!".
um corpo confortável no metrô, com a cabeça deitada no ombro de Joyce, sentada no banco de trás, de costas pra mim, também aconchegada no meu ombro.
um corpo invisível, subindo e descendo duas escadas rolantes umas 7 vezes seguidas sem fazer alarde.
um corpo descobridor de corpos, do "bloco preto" no entorno da estação.

proponho jogos a mim mesma e não os cumpro. sem qualquer acordo, acordo onde a cidade ferve em obras: as grandes, da prefeitura, e as pequenas, casas passageiras construídas por moradores nos passeios das ruas. o que é que eu tô fazendo aqui? cadê o povo? como é que a gente faz no meio disso tudo? se no mapa já há linhas tão fortemente traçadas, como é que a gente resiste, como é que a gente existe? há espaço. há espaço! espaços em branco demarcados por fronteiras fictícias naturalizadas. e não é que a gente acredita?



e dá-lhe polícia ferroviária! tinha tanta, acho que contei uns mil. anticorpos com cacetetes nas mãos e cacetes entre as pernas. gostei mais das moléc(ul)as atrevidas que cruzei no caminho, em comunidades breves, tipo a moça com uma bengala, que trombei enquanto subia a escada de costas: "dá licença, dá licença!", "opa!". e fomos embora.

Os passantes - para a ação de Flávia Fantini

Há um mundo em cada metro do metrô
Há muito pra se ver
Há muito que passar
Mesmo que o tempo tarde
Andar devagar, bem devagar
Passo a passo

Passa, passa, passará
O último restará

Há um corpo estranho em cada metro do metrô
Há pouco estava aqui
Há pouco parou lá
Mesmo que a cidade arde
Andar, divagar, bem devagar
Passo a passo

Passa, passa, passará

O último restará

E fica em nossos passos
Outra estação:
A estação de nós mesmos
Que passamos

terça-feira, fevereiro 25, 2014

ENTRAR NO "CORPO" E NÃO SE SENTIR ESTRANHO

Performar já será, pelo "natural" do tempo e das horas, direcionar  o corpo num emaranhado estranho de "perdidos" e refluxos, se quiser desejar ficar dentro do corpo, já amontoado de corpos em performa(ção)(?). Orientar um comportamento, dentro de uma situação, envolverá um esforço e uma motivação, por que permanecer perdido não será, por si só, um performer em ação(ou será?). O mapa, os dados, a gente, as pessoas, os corpos já conhecidos...Onde estão todos? Da janela lateral do metrô, não se via a porta...a porta da gruta. E no meio do caminho, tinha a estação do metrô. E na cabeça, não tinha nada. E no celular, tinha o facebook, mas, na página, não tinha nada. Um mapa, uma pista. E o corpo subiu e desceu, foi pra lá e pra cá...de uma estação a outra. Entrou e saiu dos vagões e do lado de dentro, nem de fora, nada.
Mais a frente, encontrou os corpos amontoados, do lado de dentro, na passagem. A sensação de entrangeiro em terra alheia que, ao retornar ao corpo,  desaprendeu o ritmo da língua materna.Mas, o corpo se "acomoda", aos poucos, na ocupação e no espaço que se organizam num acontecimento solidário. O corpo-mente já se colocam, por assim dizer, nas acomodações de um espaço singelo de resistência/existência.
Na existência do tempo, será uma ação vivenciar? Ou não será também, trazer o vivido? De outras ações, de outros corpos, de outros espaços? Para misturar e "ressigniprovocar'? Hora da pausa.

sábado, fevereiro 22, 2014

um lance de dados jamais abolirá o acaso


 - O jogo de dados levará os participantes a um canto da cidade sorteado no tabuleiro;
 - Na 1ª rodada, 4 jogadores lançarão o dado, 1 vez cada e 1 de cada vez: o jogador avançará no tabuleiro o número de casas correspondentes ao seu lance de dados;
 - Cada estação do metrô corresponde a uma casa no tabuleiro;
 - Assim que o 4º jogador efetuar sua jogada, a estação estará escolhida e todos os jogadores estarão performando: o jogo começa do lugar onde se está;
 - Seguirão até a estação de metrô mais próxima em direção à estação sorteada no tabuleiro. Chegando ao destino, sairão para a rua;
 - Os jogadores portarão somente a roupa cotidiana do corpo e outros pertences básicos que considerarem necessários.



A partir da proposição de Flávia Fantini, lançamo-nos, como disse Clóvis, no “tabuleiro da cidade”. Em 2014, a pesquisa do Obscena vai focar o tema: “Corpos Estranhos: espaços de resistência” e, nela, pretendemos aprofundar alguns aspectos da investigação que estamos realizando desde 2010: o espaço público – aberto – e a domesticação dos corpos. Propor micro ações que possam romper, minimamente, com o controle: inocular um corpo estranho.
E nesse dia – quinta, dia 20 de fevereiro – a percepção que tive foi justamente essa. Mas vamos por partes. Ou desde o início.
Flávia trouxe o tabuleiro – o mapa da cidade recortada pela linha do metrô, com todas as estações marcadas. Explicou as regras e 4 pessoas pegaram os dados: eu, Joyce, Sassá e Matheus. Joyce trouxe um elemento complicador: é possível andar as casas tanto para frente quanto para trás? Com esse movimento, a casa final ficou sendo a estação central.
A partir daquele momento, estávamos performando... mas que diabo é isso???
As coisas performam. Meu olho performa o mundo. Meu corpo em outro estado? Estar no mundo já é performar?
Saímos da Gruta e meu olho capturava a escrita da cidade. Placas. Grafites. Pixos. Anúncios.
“O que a vida quer da gente é coragem”
“Lute pelo seu amor. Cartas. Búzios.”
“Peles Grafitadas. Validadores para usuários de cartão.”
“Trago seu cliente em até 3 dias.”
“Se todos botarem na roda o que tem não faltará p/ ninguém.”
"PAZ"
Meu corpo capturando o vento. O ritmo dos outros corpos. O ritmo da cidade.
Meu corpo seguindo conversa atravessada. Seguindo a sombra. O fluxo. Indo contra o fluxo.
Voltando à percepção que tive, nesse dia.
Estávamos eu e Joyce perto das catracas, que saem para a Praça da Estação. Corredor de acesso às plataformas Eldorado/Vilarinho. Fluxo intenso de passantes. Ritmo acelerado. Na verdade, Joyce já estava lá. Andando no contra-fluxo. Na horizontal, cortava a vertical dos passantes. Lentamente. Eu, vinha andando no ritmo da corrente. Joyce me estancou. Parei. E lá fiquei. As pessoas passavam por mim. Rápidas. Eu parada. Uma estátua em meio à estação. As pessoas passavam. Olhavam. As pessoas passavam. Viam Joyce. Estranhavam. Veio o segurança do metrô. Uma. Duas. Três vezes. Era o anticorpo.



sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Jogo de dados e corpos lançados no tabuleiro da cidade


Um jogo de dados para se invadir/explorar os espaços da cidade.

Começamos bem a pesquisa do Obscena em 2014: “Corpos estranhos: espaços de resistência”.



Flávia Fantini propôs a primeira ação do ano, realizada ontem em Belo Horizonte.

Trouxe um mapa/desenho para nosso jogo coletivo: 1 cidade, 1 linha de metrô e 19 estações.

No lance dos dados teríamos uma estação para ser “experimentada”: a Central.
A provocação foi: sairmos da Gruta e performarmos. Mas o que é performar? Algo a ser respondido no “instante-já” da ação e afetação das ruas e espaços.

Uma ação aberta e plural, logo potente. Uma possibilidade de retorno às ruas. Percebo variáveis muito instigantes nessa proposta: o mapeamento subjetivo, a relação com o acaso, a ideia de jogo, a utilização do metrô (espaço de passagem e de vigilância) como lugar de criação e pesquisa, a construção de apropriações lúdicas e relacionais com a cidade, a diversidade de experimentações dos participantes, a heterogeneidade de se experimentar estados intensivos performáticos etc.

A ação durou cerca de uma hora e meia e para mim se revelou como uma experiência interessante.

Logo depois escrevi um texto de sensações/percepções:

Deriva. Passagem. Estranhamento. Micro-percepções. Encontro com a cidade. O que é performar? Estar na presença? Atenção dilatada. Poética da mobilidade. Não agir e ser agido. Observar. Re-parar. Re-voltar. Respirar. Pirar? Me estranhar? Se afetar. Desejo de mais jogo no metrô. Escutar os ruídos da cidade. Escutar as conversas alheias. Cartografar cores, objetos, espaços e velocidades. Ficar imperceptível. Não representar. Como acontecer? Meditar. O silêncio das pessoas no Metrô. O medo da polícia. Caminhar. Solidão. Multidão. Quero encontrar gente”.

Compartilhamos experiências:
- observar escritas no espaço
- contrapor ritmos das pessoas
- perseguir uma cor ou pessoa
- andar de costas
- andar mais lentamente
- um abraço longo
- ficar parado
- criar blocos corporais e gerar estranhamento
- derivar
- sentir o vento, o balanço do metrô
- formar uma fila para o nada.

Discutimos que já existe um comportamento codificado nos corpos e qualquer alteração gera desconfiança e até irritação. Mateus lembrou da “coreografia”, da cartografia e da corpografia, tópicos que discutimos num texto da Paola Berenstein Jacques.

Gente, temos muito a pesquisar, descobrir e re-inventar! Como resistir na cidade?