agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

sábado, maio 04, 2013

Engaiolada de sorriso preso

AdivinhaaDiva: pós-gênero?


Foto: Frederico Caiafa

No dia 05 de abril de 2013, aconteceu, durante o Festival Roda de Rock, AdivinhaaDiva, com as presenças de Carolina Botura, Flávia Fantini, Leandro Acácio e eu. Realizamos, durante nossos encontros anteriores, leituras de alguns trechos do livro de Daniel Paul Schereber, "Memoirs", de 1903. Nele, o autor, toma notas a respeito de seu estado mental e físico, e também das muitas experiências interiores estranhas que tivera. Em seu sistema delirante, tal como se revela nas "Memoirs", Schereber:
 -Sentia que tinha a missão de redimir o mundo e reconduzi-lo a seu estado de bem aventurança.
-Tal missão deveria ser precedida da destruição do mundo e pela transformação de sua pessoa em mulher.
-Já transformado em mulher, Schreber seria a companheira de Deus, e desta união surgiria uma raça melhor e mais saudável de homens.
Flávia sugeriu textos de Beatriz Preciado, que é uma participante ativa do atual debate sobre os modos de subjetivação e identidade, não somente na Espanha, como também em distintos debates internacionais. Seu livro “Manifiesto Contrasexual” (Barcelona: Opera Prima, 2002) tornou-se uma referência indispensável à teorização queer contemporânea. Carolina Botura sugeriu, para pensar mais sobre o corpo híbrido, um vídeo:http://www.youtube.com/watch?v=NYTJpHeVVeQ.
Leandro quis explorar máscaras gigantescas, desenhadas por ele, para um "devir-pintor". E aconteceu, conforme Guimarães Rosa, no conto Substância, do livro "Primeiras Estórias", "o não-fato, o não tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, em em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor." Amanhã nos encontraremos para conversar e ver as imagens, trocar os perceptos,  comentar os afetos, pesquisar.






quarta-feira, maio 01, 2013

dancemos, dancemos tod@s, senão estaremos perdid@s!

é engraçado que, ao parafrasear pina para fazer meu título e falar de uma condição hoje vital para mim, defrontei-me também com a marcação de gênero. e com a percepção do modo como estas duas questões - a dança e o feminismo - estão, a meu ver, em muitos momentos do meu trabalho, misturadas... explico.
sábado, dia 27 de abril, participei da performance de rua "dançar é uma revolução!". essa ação, organizada por um coletivo (não-organizado) de mulheres, pretende-se mensal e itinerante. a idéia é que, no último sábado de cada mês, mulheres se reúnam, em alguma praça de belo horizonte, para dançar contra a violência.
na primeira vez que fizemos, foi como uma resposta ao convite do one billion rising, evento de ordem mundial que tem a seguinte chamada (aqui em versão livre): "uma em cada três mulheres será agredida durante toda a sua vida. 1 bilhão de mulheres agredidas é uma atrocidade. 1 bilhão de mulheres dançando é uma revolução". lembro-me que o dia marcado para acontecer a ação, no mundo, havia sido 14 de fevereiro. no entanto, em várias cidades do brasil a coisa estaria acontecendo no sábado, dia16.
foi legal observar isso porque, ao receber um convite de uma amiga de londrina, pelo face, para participar da ação no dia 14, ou seja, para dançar em qualquer lugar, em minha cidade, pensei que seria interessante fazer isso coletivamente (acredito muito que pelas experiências anteriores do obscena com a marcha mundial das mulheres e com outras performers feministas com quem dialogamos sempre, experiências sempre muito produtivas, do ponta de vista político e estético) e, como estava muito em cima da hora para fazer na quinta, acabei chamando esses grupo de mulheres parceiras, colaboradoras, a desenhar, para o sábado 16,  uma dança/ação coletiva na praça 7, lugar tradicional de protesto na cidade.
partimos de alguns elementos já desenvolvidos pelo obscena - como a idéia de dançar cada uma a sua música, com fones de ouvido, como na ação performática festa no metrô - e de outros, que surgiram de símbolos do movimento feminista, como a cor roxa para nos vestirmos; ou das ações individuais, como a escrita a giz no chão - que desenvolvo em minhas ações desde 2008 - ou o cartaz da resistência negra, empunhada por luana tolentino.

e assim fizemos: de roxo e branco, cada uma com um set musical diferente, que escutava em seus fones de ouvido, dançamos juntas, na praça: eu, joyce malta, lissandra guimarães, clarissa alcantara, flavia fantini, debora fantini, hozana passos, luana tolentino, romênia reis, raquel medeiros, leticia castilho, thálita mota, kristoff silva, áurea carolina, scheylla bacelar... 
ah, foi bom. ver uma mulher que passou por ali, parar e dançar conosco, porque "já apanhou muito e agora não apanha mais. nunca mais".foi bom dialogar com a cidade a partir do corpo e do giz. misturar, à minha dança, e à dança das outras, palavras que falavam da gente e da situação contra a qual lutamos diariamente e em razão da qual estávamos ali.
daí, a partir desse dia, uma de nós, letícia castilho falou: não seria ótimo se a gente dançasse toda semana, até as pessoas começarem a falar "ó, ali estão aquelas mulheres que dançam contra a violência..."?

achei essa idéia tão linda. levei tão a sério, que resolvi propor um grupo no facebook para organizarmos essa ação. senão semanal, como se mostrou inviável, pelo menos mensal. e uma questão para mim era: como torná-la mais marcante, inclusive para nós?
no mês seguinte era março e resolvemos fazer a ação no dia internacional das mulheres. por um lado, foi muito interessante a integração à marcha e desenvolvê-la junto com o obscena. por outro, a ação, em si, perdeu a força, diluiu-se em uma massa que, por sua vez - o que foi ótimo! - ganhou força nessa junção coletiva, como também ganhou força os corpos que traziam representações individuais - do véu muçulmano ao corpo machucado - em performances que ocorriam a todo momento.

foto: Matheus Silva


agora, em abril, optamos em dançar na praça da rodoviária e dancei com o corpo escrito, dancei com várias palavras de ordem em meu corpo, desde "não é não" e "meu corpo, minhas regras" até "dançar é uma revolução", ou com dados concretos, como aquele da chamada: "1 a cada 3 mulheres será agredida" ou a estatística brasileira, "10 mulheres mortas por dia". e, para mim, a ação, feita assim, foi bem reveladora!

 Foto: Nina Caetano


a dança se revelando quando, com a escrita no corpo, as palavras também sugeriam movimentos, para serem vistas. para serem lidas. foi uma experiência bem interessante, principalmente ao pensar que ela vem de uma trajetória de ações investigadas dentro do obscena, de experimentos que lidam com aquilo que tenho chamado de escrita performada: a escrita no calor da ação performativa.
vejo isso desde baby dolls, com as primeiras escritas a giz no chão (na verdade, vejo antes: desde a vitrine dos corpos prostituídos, proposta por marcelo rocco, ainda no teatro marília, em 2008) até espaço disponível, anuncie aqui, intervenção realizada pelo obscena no evento corpolítico, em março de 2013, passando pelas mulheres painel, experimentadas em diálogo por lissandra guimarães e por mim junto a outras mulheres, como, por exemplo, na ação performática 25 de novembro... nela, é evidente também os rastros de ações lúdicas, como a já citada festa no metrô...
por outro lado, vem se intensificando, cada vez mais, a relação com a dança. dentro do processo das ondas, um material que vinha me instigando dizia respeito à jinny, talvez a personagem mais corpo de virginia, e eu já havia até brincado com a idéia de uma dança de palavras e de tecer um tango com elas - clarissa já havia até feito uma primeira versão musicada disso... e, recentemente, fred caiafa propôs trabalhar também a partir da dança, do que ele está chamando de uma dança de afetações.
com o interesse cada vez mais nítido de levar as ondas para as ruas, resolvemos, então, eu e ele, sair - e para isso chamamos joyce, em primeiro lugar, para dialogar conosco a partir de seus materiais sonoros e performáticos, e também todos os demais, incluindo clóvis, que não está nas ondas, mas está - para uma deriva dançada pelo centro da cidade. essa deriva tinha o intuito de traçar um mapa psico-geográfico-corporal, uma corpografia das luzes e sombras da cidade.
fomos eu, fred, joyce, clóvis e leandro. nos encontramos às sete, na praça da estação, e rumamos em direção ao viaduto de santa tereza, pela andradas. joyce, com o gravador, captava nossas vozes e os sons do centro nervoso. nós todos nos lançamos em distintas experiências.
eu parti em busca da sombra. e como era múltipla e tênue! como a cidade é iluminada! ou, como disse clóvis, ensolarada... além da sombra, uma frase me guiava: estou coberta por carne quente. como as palavras escritas no corpo, no outro dia, essas palavras inscritas na pele guiavam meu movimento. em diálogo com as sombras. e com as luzes que passavam.
quando chegamos embaixo do viaduto de santa tereza, a configuração do trabalho se alterou. se antes, o movimento era de ordem bem individual, ali ganhou uma dimensão mais coletiva. trabalhávamos em um mesmo fluxo de ações. recuperamos movimentos já improvisados nas ondas. ensaiamos dançar com a arquitetura e com os passantes. ações surgiam fugazes, como o prolongado aplauso aos usuários de um ônibus que parara no sinal fechado.
da próxima vez, quero experimentar o giz.


p.s. a primeira foto, com filtro roxo, é de davi madureira victral.

segunda-feira, abril 22, 2013

Maneiras de Fazer - TRANSEUNTES : ESTUDOS SOBRE PERFORMANCE (UFSJ)

MANEIRAS DE FAZER pretende ser um espaço de conversas e trocas com grupos de pesquisa cênico-performática. Desejo de ampliar a rede artística. A estreia é com o grupo de pesquisa TRANSEUNTES da Universidade Federal de São João/MG. Fiz o convite ao pesquisador e professor do Curso de Teatro da Universidade, Marcelo Rocco, que também participou por muitos anos do Obscena.

Para saber mais: www.transeuntesperformance. blogspot.com.br

A seguir publico nossa conversa:

 
1- Como é realizar ações cênico-performáticas numa cidade histórica?Como ela influencia na criação de ações? O espaço também performaria? Pergunto isso porque penso que a própria arquitetura histórica já se apresenta como uma intervenção na paisagem urbana.
Esta questão é muito interessante, uma vez que a própria paisagem torna-se cenário para a ação. Estamos, neste momento criando uma ação sobre “vitrinismo nas lojas”, e a arquitetura de SJ nos ajudou facilmente para esta ação, para a construção do Luxo. No entanto, como cidade histórica, os cidadãos e os turistas, encaram certas ações como "teatrais", no sentido convencional e com aplausos no final, nos forçando, em muitos momentos, a trabalhar em outros locais que não carregam a "carga" histórica na paisagem urbana. às vezes, fazemos ações espalhadas pela cidade para causar um estranhamento ao transeunte, não ficando tão clara a noção de performance.

2- Quais têm sido os procedimentos de pesquisa do grupo? Como vocês funcionam? Onde se encontram? Quantas vezes por semana?

Nos encontramos duas vezes por semana, seria muito interessante você ter facebook (talvez não tenha por razões políticas), pois te colocaria no nosso grupo, lá postamos diariamente nossas ações, fotos, etc. Inclusive, meu projeto de Doutorado paira sobre a diferenciação entre cidade histórica e metropolitana quanto às ações performáticas, vou descrever abaixo alguns procedimentos do grupo, aliás, muito influenciado pelo Obscena: 

(esta foi a primeira ação do grupo em 2012)
Procedimento “Corpo-espera”
 
Descrição do procedimento: Performers com vestes coloridas e partes dos corpos pintados ficam imóveis em meio ao centro de São João Del Rei. Todos os performers aguardam algo. Mas, o que esperam? 
 
Diálogo com o público: O teatro ainda pode incomodar? Esta pergunta foi o mote inicial da pesquisa que gerou o procedimento em questão. Em meio às amplas conceituações relativas à Performance Artística, ou Performing Art, estudadas pelo grupo, houve certos denominadores em comum que interessavam a este como objeto de estudo, tais como: O incômodo e a provocação que a performance pode gerar. Este procedimento artístico-performático provocou: “Então, corpos parados são corpos artísticos? Isto é arte? Falta do que fazer. Bando de loucos” (extraído das anotações do caderno do entrevistado). Estas foram algumas das definições ouvidas pelos performers e pelo autor do presente texto durante a apresentação de “Corpo-Espera”, pois os transeuntes necessitavam enquadrar aquilo que viam em algo aceitável ao olho nu, ou seja, algo que fosse inserido na padronização comum que usualmente damos às pessoas, objetos e tudo mais que alcança aos olhos. O caos não pode perdurar. Ele deve se ordenar, se encerrar em um ponto normatizado para o “bem-viver”. 
 
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os corpos parados em meio ao calçadão interrompiam, literalmente, o transeunte, pois este precisava mudar o seu percurso, caso desejasse dar continuidade aos seus passos, já que os performers estavam próximos uns dos outros e, de certa forma, atrapalhando a trajetória cotidiana alheia. Ao ser interrompido por “Corpo-Espera”, o espectador pôde decidir dialogar com a obra, ou continuar o seu caminho. Logo, as intervenções são capazes de deformar as linhas que definem as cidades, exigindo um novo olhar dos transeuntes. Desta maneira, entende-se que a cena contemporânea intervindo nas ruas, apropria-se de interações face a face com os espectadores. Esta ótica possibilita uma leitura que dilui os limites da teatralidade para assimilar ao espectador um caráter real.

Sendo assim, alguns passantes se permitiam ver, outros riam, e outros tentavam entender, dialogar, perceber o entorno. O cotidiano deixou de ser, momentaneamente, apenas local de passagem, passando a ser visto sob outra ótica. As cores reluzentes dos performers atacavam, invadiam as ruas. Uma performer não se conteve em dar cor apenas às suas roupas, banhando o seu corpo com muita tinta. Tais cores ultrapassaram a performer que estava em um estado extra-cotidiano. A “espera” dos performers contaminava muitos espectadores que, por vez, resolveram esperar também, pois algo poderia acontecer: “Vai ser apresentação teatral?” indagou uma senhora. “O que vai acontecer aqui?” – Perguntou uma mulher curiosa enquanto estava de mãos dadas com a sua filha, parecendo sair de uma escola formal (devido ao uniforme usado pela criança). Os performers apenas esperavam, gerando mais dúvidas nos cidadãos passantes. O lugar da espera era subjetivo, pois os performers aguardavam múltiplos acontecimentos. Em um relato posterior à performance, os atores explanaram, um a um, sobre os motivos individuais criados a fim de darem motivação à espera: esperando o ônibus, esperando um homem, esperando a morte, esperando o celular tocar, esperando a chuva que não vem, esperando um homem sair do caminho. Portanto, o procedimento “Corpo-espera” propôs uma vivência com o espectador transeunte através dos corpos dos performers, atuando fisicamente próximo ao espectador, atingindo o mesmo, não pelo verbo, mas pela percepção dos sentidos. Com isto, as imagens dos corpos parados foram geradoras de sensações responsáveis para manter o espectador próximo, em contato com o procedimento, em um jogo que também possibilitava o afastamento, o desinteresse, e o devaneio

  (este abaixo foi o segundo procedimento, ATUALMENTE ESTAMOS TRABALHANDO COM A TEMÁTICA "CONSUMO" ABANDONAMOS UM POUCO A "MULHER") 
Procedimento “Mulher-Utensílio” (esta proposta foi feita pelas alunas – mulheres, influenciadas por ongs feministas e sugeri vários textos do Obscena)

Descrição do procedimento: Donas de casa realizando suas atividades diárias em frente ao centro de compras. A ideia da repetição mecanizada das tarefas cotidianas. A submissão dos corpos femininos frente aos corpos masculinos. O lugar da mulher: A mulher que acopla o lar doce lar, a mulher que passa o ferro, passa a vida, passando a roupa. A mulher de ferro. A mulher que se ferra. A mulher que limpa e sorri. A mulher que apanha e sorri. A mulher que dá e sorri. Coisa de mulher. Mulher coisa. A mulher moderna que trabalha fora, que faz o seu varal. A mulher que não gosta do que vê no espelho. 
 
Diálogo com o público: As atrizes performers posicionavam-se em frente à loja de eletrodomésticos denominada “Ricardo Eletro” (região central de São João Del Rei). Cada mulher em seu nicho dava início às atividades cotidianas das donas de casa: lavar, cozinhar, varrer, bordar, depilar-se, entre outras atividades escolhidas previamente pelas performers. A ideia inicial era causar um estranhamento nos espectadores frente à repetição das ações, transformando as figuras femininas em “seres coisificados”, mecanizados pelo dia a dia. Tal ideia pareceu funcionar. A rua como lugar vivo, possuía um conjunto de signos que não parava de circular: Promoções, compras e vendas, anúncios, barulho ininterrupto, etc. Tal vivacidade colaborava com as características de parte daquela cena que, por sua vez, buscava peculiaridades flexíveis e multifacetadas, dando um sentido aberto à proposta, na comunhão de vozes com o espectador. Sendo assim, rapidamente, os transeuntes paravam ao redor da performance, curiosos pelo decorrer das cenas abertas. Naquele dia, a região central estava com um grande fluxo de cidadãos passantes, devido ao “dia das mães”, que proporcionava grande circulação de pessoas e produtos. Os funcionários de diversas lojas saíam para prestigiar (ou desprestigiar) o procedimento. Em frente às lojas em que a performance decorria, um funcionário resolveu aumentar o volume musical de um aparelho de som, cujas músicas eram de origem eletrônica, ampliando a atmosfera perturbadora e caótica das cenas que se seguiam. Os eletrodomésticos em frente às lojas, bem como os preços promocionais dos produtos, auxiliaram na construção cenográfica da “Mulher-Utensílio”, propondo a arquitetura da cidade como lócus privilegiado do fazer artístico. Tal arquitetura proporcionou o acolhimento do espectador transeunte, em uma articulação entre os cenários oferecidos pela cidade e o procedimento em questão, buscando criar novas molduras espaciais no centro urbano, objetivando assim, a troca de experiências entre a cena e o espectador, na fala de Grotowski O teatro é tudo que ocorre entre o espectador e o ator (GROTOWSKI, Jerzi. Em Busca de um teatro pobre). As ações totalmente atípicas para um espaço público, como os fazeres domésticos, causaram um estranhamento ainda maior com a entrada dos performers masculinos a fim de submeterem as mulheres em situações vexatórias, colocando-as em posições domesticadas, em um intenso jogo das questões privadas e públicas, forçando uma reação dos transeuntes, formatando, assim uma resposta dos mesmos. Frente às constantes humilhações em que as performers se faziam passar, alguns espectadores tentaram um contato corporal com as artistas, visando entender, ainda que sob o olhar conteudista, aquela cena. Porém, não obtiveram respostas conclusivas por parte das performers. 

Durante as repetições das ações performáticas, a maioria dos transeuntes ficava ao redor da cena, ora acompanhando com olhares, ora caminhando na mesma direção, provavelmente instigados pelo desfecho daquela ação. As atrizes provocavam os olhares masculinos, desejavam ser vistas, eram expostas às situações de humilhação. Algumas pessoas riam, outras ficavam um pouco irritadas com a interrupção abrupta do cotidiano. Restava então a pergunta: Por que a maioria apenas observava? Faltava mais força à performance? Ou os transeuntes entendiam que aquilo era teatral e, com isto, colocavam-se na posição de contempladores? Estas perguntas são investigadas até hoje pelo grupo em constante processo de descoberta, não obtendo uma resposta conclusiva, mas sim, analítica.


3- Como vocês pensam a aproximação entre artes cênicas e artes visuais/urbanas? Seriam práticas híbridas? Ainda estaríamos de alguma forma fazendo teatro na rua ou desejamos outras formas de  provocações e interrupções? Como escapar de ações "espetaculares" que facilmente seriam chamadas de "isso é teatro"? Ou tal questão não importa para a pesquisa de vocês?

Pode-se dizer que a rua exige uma corporeidade intensiva por parte dos performers, além de múltiplas práticas, que posso afirmar serem híbridas, mesmo porque, no grupo, há arquitetos, jornalistas, cenógrafos, ou seja, o grupo já começou extrapolando o caráter teatral. A experiência de expor o próprio corpo no espaço público, através de novas relações artísticas, explicita o campo de aproximação física entre a obra e a quem ela se refere.



terça-feira, abril 09, 2013

AQUI PERFORMAMOS COM OS MORTOS

Aqui Performamos com os Mortos

Em Ouro Preto, redolente, vaga um remoto estar - presente”.
Carlos Drummond de Andrade

Tudo é intervenção!

O Obscena propôs uma série de intervenções cênico-performáticas como parte da programação do Simpósio Internacional Corpolítico, ocorrido em Ouro Preto entre 11 e 15 de Março de 2013.
Simultaneamente aconteceram cinco ações poético-urbanas: “Salve Padilha, cheia de Graça” (que começou na Ponte Marília de Dirceu e terminou na Igreja do Rosário); “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (que ocupou a Feira de Artesanato perto da Igreja de São Francisco de Assis e vários lugares do centro da cidade); “Infravermelho” (também realizada na Ponte Marília de Dirceu) e “O Espaço do Silêncio” (que juntamente com “O Suicidado”), que se instalou na Praça Tiradentes.

O pesquisador e performer Matheus Silva afirmou que criamos um “mar vermelho” que invadiu a cidade barroca. Sim, nossas presenças afetaram o cotidiano de Ouro Preto. Mas também acredito que a cidade performou. Cidade misteriosa, de pura teatralidade, misto de religião e espetáculo, paisagem habitada por moradores, turistas, estudantes, heróis e espíritos, espaço vertiginoso no qual o passado e a História respiram juntos.

Nas palavras de Alexander Freitas (2009:146): “o espaço arquitetônico de Ouro Preto, metaforicamente, como a maré cheia, preside uma invasão – uma imposição – da imagética setenticista ao presente”. Uma forte intervenção urbana.

E penso que nossas ações, no presente, de alguma forma, atualizaram o passado. Foram invadidas por fatos históricos e pelo imaginário coletivo existente em Ouro Preto. Os espaços interviram sobre nossos trabalhos artísticos numa tessitura de tramas da memória. As igrejas e o som dos sinos, o silêncio dos cemitérios, as ladeiras e seus candelabros, a arte sacra, tudo é intervenção.

Fiquei pensando: o que seria performar num espaço teatralizado que grita suas cores e formas? Que espetaculariza sua História? Lugar que cotidianamente acontece uma performance dos moradores e personagens de rua? Acredito que seja possível dialogar com esses espaços e suas simbologias. E mais: praticá-los de forma liminar e fronteiriça. Duplicar seus usos e sentidos. Nossas ações e manifestações cênicas “transbordam as taxonomias e configuram-se como corpos mestiços a partir dos entrecruzamentos e hibridações entre os dispositivos das artes cênicas e visuais” (DIÉGUEZ, 2011:51), elementos preponderantes na cultura barroca. Corpos políticos por entrecruzarem tempos e espaços. Abordarei tal aspecto no tópico a seguir.

Espaços Entrecruzados: ATUALIZE AQUI

A cruz é a síntese de dois espaços de poder da arquitetura barroca: a igreja e os cemitérios (FREITAS, 2009). A cruz também é o encontro de duas linhas temporais: de um momento que segue seu fluxo no instante se deparando com um momento já vivido. Morte e vida. Acontecimento e acontecido. Nesse “entre-lugar”, nós obscênicos, acontecemos. 
 

Fotos de Luciane Trevisan

A Padilha de Erica Vilhena se metamorfoseou numa espécie de santa, caminhando descalça como um ato de fé e sacrifício, e depositando oferendas (terços, conchas e pétalas de rosa) nas portas das igrejas que emprestam seus nomes em homenagem às mártires católicas. Um corpo em PROCISSÃO. A cada estação, cada parada, uma ação ritual. Uma Pomba-Gira recatada e bem comportada desfilou pelas ruas de Ouro Preto e a sensação verbalizada pela performer, era de estar sendo vigiada o tempo todo. A iconografia barroca nos revelava que a cidade tem olhos. Muito diferente de uma caminhada perigosa, feita por uma Padilha atrevida, numa outra experimentação ocorrida no baixo centro de Belo Horizonte, nas ladeiras ouro-pretanas sentimos “pulular os olhos-da-cidade, que aqui, são explicitamente metáforas dos olhos-de-Deus” (FREITAS, 2009: 200).

Santa Efigênia, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Pilar ou Marília de Dirceu, entre outras figuras femininas, se atualizaram no corpo peregrino da performer. Inclusive, Erica distribuiu suspiros na conhecida “Ponte dos Suspiros”, no bairro Antônio Dias, local no qual se conta que Marília de Dirceu se encontrava com seu amado Tomás Antônio Gonzaga. Nessa gestualidade performática cruza-se uma composição corporal, espacial e temporal. Reencontro de arquiteturas. Presentificação de um tempo que ainda dura.

Da mesma forma que a questão do suicídio e extermínio dos nossos índios guaranis kaiowás (tratada nos trabalhos “Espaço do Silêncio” e “O Suicidado”) voltou a ser denunciada na Praça central, local no qual Tiradentes foi assassinado. Nina Caetano e suas pequenas cruzes, quase uma santa colocada num altar branco que aos poucos se mancha de vermelho. Leandro Acácio, num esforço de resistência física e psicológica, a sustentar um pedaço de tronco seco corporificando a imagem de um crucificado. O silêncio que se converte em discurso. Leandro e seu “corpo-estátua”. Ambos os trabalhos nos olham, criando quase um constrangimento.

Além da possibilidade de se erguer publicamente um monumento, ainda que temporário (em memória da injustiça cometida contra os expatriados indígenas) sob outro “palco” permanente, a praça. Na ocupação espacial desses dois trabalhos, temos uma teatralidade e performatividade em estado de permanente fricção, atravessadas por narrativas históricas (logo ficcionais) e irrupções do real.

As imagens de uma amordaçada e um enforcado, seus corpos quase imóveis e se torna impossível não se lembrar da morte do famoso inconfidente Tiradentes. Corpos rendidos. Re-ligação de personagens rebelados em tempos diferenciados. Os turistas- espectadores que fotografavam aquele acontecimento cênico registravam o espaço e seu duplo, a sobreposição de tempos, fatos, atos e ventos.

Em “Infravermelho”, mais uma mulher, agora cega, carregando maçãs do amor e tateando o corpo de velhas pedras e muros da cidade. Marcelle Louzada, impossibilitada de ver o que se passava e ao mesmo tempo se oferecendo como um corpo em plena visualidade poética. Um quadro vivo de pintura impressionista. Ela se arrastava, tropeçava, buscava pontos de apoio e também parecia ser uma santa fugitiva de algum altar. Em outros momentos era como ter a visão de um “corpo fantasma” como uma daquelas almas perdidas que rondam o fabulário ouro-pretano. Os olhos tampados, como que furados e vazados, me remetiam à ideia de um corpo torturado.

Em “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (com Matheus Silva, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Flávia Fantini e Sabrina Andrade), a provocação ao comércio local, às feiras, à herança dos exploradores. Nem tudo reluz e nem tudo é ouro. Ainda haveria espaços possíveis em Ouro Preto para se divulgar a venda de alguma coisa? O turismo alimenta a economia e tudo é propaganda, disputa, indicação de hotel e restaurante; se paga para se visitar as igrejas e museus. Até quando seduzidos e viciados pela História?

Além da escolha nessa ação, do corpo como suporte para pequenos textos compondo um cartaz. Também uma possível alusão às placas das repúblicas estudantis anexadas aos corpos dos universitários. Outra aproximação. Anuncie aqui: seu poder, o peso da tradição, o machismo secular, sua perversidade. Anuncie aqui: “Bixo”, lixo, nicho de corpos domesticados. Anuncie aqui a humilhação e a violência, feito as placas com os valores de compra dos negros africanos contrabandeados para servirem de escravos para seus senhores europeus.

No conjunto desta “aparição-presentação” artística tudo dialoga com esse “mar vermelho”: sangue, dor, fé, luxo, ostentação, sobrenatural, espaço e poder.

Uma vez alguém proclamou: “Aqui em Ouro Preto andamos sobre os mortos”. Naquela tarde de quinta-feira, 14 de Março, poderíamos dizer: Aqui performamos com eles. Uma experiência fora do tempo. Eles reviveram através de nossos trabalhos. Pois estão vivos nos espaços que escolhemos ocupar.

Espaços em Branco

Caí numa armadilha? Estarei de alguma forma historicizando uma vivência coletiva numa visão pessoal do que fizemos? Tudo o que aqui está escrito já é passado. Foi-se. É uma cruz. Tudo se afoga com aquele “mar vermelho”: referências, identidades, calendários e contextos.

Que venha o desconhecido e o imprevisível!

Agora desejo olhar para nossas pesquisas como corpos com tatuagens de rena, efêmeras e livres para novos lugares e encontros. Podendo ser bicho, gente, coisa, cor, onda, linha, vôo, nada. Anúncios impossíveis.

Espaços em branco: PERFORME AQUI!

Referências:

DIÉGUEZ, Ileana. Cenários Liminares: teatralidades, performances e política. Tradução de Luis Alberto Alonso e Angela Reis. Uberlândia: EDUFU, 2011.

FREITAS, Alexander. Imagens da Memória Barroca de Ouro Preto: o espaço barroco como educador do imaginário ouro-pretano. Doutorado. Faculdade de Educação. São Paulo: USP, 2009. 308 p.



domingo, abril 07, 2013

Notas do terceiro movimento, de Ondas: estaríamos fadados a um repisamento infindável?



A besta, de fato, acorrentou-se e pateia sem parar, indo a lugar nenhum. Elucubrada de um excesso mental, de uma sobrecarga racional, fica imóvel, batendo as patas em significâncias nocivas, egoicas. Com suas patadas infinitas na praia, cria uma cova rasa do entendimento, de um saber auto-afirmativo e tirano. Esta besta precisa de muita dor para sentir, enfim, seu corpo; precisa que a bajulem, precisa ter certeza de que faz algum sentido no mundo. Precisa colar seu corpo numa lâmpada, feito uma mariposa cega. Precisa que a citem, que a faça se sentir inventando a roda, que seja importante, afinal. Ela permanece presa a estes truques, bem humorada com suas patas.

A besta não quer perder o freio, não quer soltar-se. Quer uma medida, quer o isolamento; cansou-se de sua rede conectiva. Inventou para si uma rede que a prende na praia, que a cobre de sensações de segurança e pertencimento. Este seu patear não produz novas ondas. A besta não consegue amar, nem a si mesma e, portanto, separou-se da natureza. Tem total recusa por ela e seu temperamento intempestivo. Não consegue dançar, fica sempre a ouvir uma mesma melodia melancólica, entupida de ressentimento.

O círculo está fechado. Onde está a fratura nessa continuidade? Qual a fissura pela qual a besta vê-se em desgraça? Gosta tanto de ser sacal? Precisa ser uma pedagoga impotente? É invadida pelo desânimo e pela indiferença. Perde a consciência dos corpos unidos debaixo da mesa. Existe então um mundo imune às transformações.

terça-feira, março 26, 2013

notas do terceiro movimento (as ondas - virgínia woolf )

(para clóvis ) Quando eu era mais novo, como quase todo mundo deve ter feito, escolhi também meus ídolos. Os personagens de livros, filmes, os cantores ... e tudo ficava nisso, algo assim distante, mas que me motivava muito. Depois, guardei esses ídolos e comecei a escolher novos, que passaram a ser as pessoas que tenho encontrado pela vida. Cada vez mais tenho me apaixonado pelas pessoas que tenho encontrado, não sei se é essa a palavra, mas esses que estão sendo meus ‘ídolos’. E a vida não é igual ao comercial da família doriana.

sábado, março 23, 2013

Corpo obsceno para tempos performáticos


Voltando do período de férias de escrever aqui, depois de um ano muito produtivo, o de 2012, onde presenciei e vivi pesquisas colocadas à prova, no concreto, no seu tempo desejante, cujas velocidades podem alterar-se, modificar, ganhar o corpo que quiser, afirmo: o que une corpos é um desejo producente de criar um acontecimento. O fazer é alimento, seiva, sem denominadores comum, mergulhados na pura diferença. Isso sim pode fazer unir, na máxima distância, um agrupamento. Não acredito que haja algo a ser descoberto, e sim o contrário, algo a ser inventado. Mais importante do que saber para onde irão as próximas ações, quero vivê-las.

Penso que o fazer é um pensar no ato, produzindo novas subjetivações. Reflexão e abstrações muitas vezes enfraquecem um corpo, que precisa se colocar em ação, ao encontro com as multiplicidades infinitas da cidade. A correria, o excesso, a lentidão são componentes mágicos que acredito fazer correr pesquisas em seu leito, profundo e superficial, sem projeções sobre o que se faz. Com Deleuze penso na natureza como campo de forças sem significação alguma, com velocidades infinitas, arrastando blocos de sensações e perceptos. Não há tempo certo, não há mal estar em coisa alguma, há tolices e superstições que são o avesso de um instante movediço, o instante criador e alegre.

O tempo, desde sempre e para sempre, pode apenas territorializar os corpos num não-fazer. As pesquisas podem correr por linhas duras, flexíveis, invisíveis, mutáveis. E a ciência intuitiva na produção de vida? E a armadilha pode ser tentar colocar no plano racional algo que se dá em puro devir, faz e acontece sem necessitar de referência alguma, se dá no encontro imprevisível de corpos e sensações.

Não é preciso fugir de tempo algum, é preciso compor com todos os tempos. Há infinitos tempos cruzando o agora, e quando a alegria acontece, percebe-se o aumento da potência: a gente faz e acontece, eu faço e aconteço, a cidade faz e acontece. O tempo não é senhor, o tempo a gente inventa, para se distrair! Não é preciso fugir de nada, e sim dialogar com demônios e santos. Eu não pretendo nada, não tenho intenções de chegar a ponto algum, quero passear com leveza para o que se cria seja real, e não “imaginativo.”



"Espaço Disponível, anuncie aqui". Intervenção performática do Obscena Agrupamento, realizada em Ouro Preto durante o simpósio Corpolítico. Foto: Frederico Caiafa


Espaço disponível, anuncie aqui

percorrer as ruas atemporais de Ouro Preto,
bando de mulheres,
corpos minoritários
escorrem e compõem
instaurando-se,
fundindo-se.
corpos cuja natureza
quer romper e resistir
em sobrevôos indeterminados.
nômade obscena,
gazela gostosa, uiii!!
Corpo que se refaz em ato efêmero
descontínuo, ininterrupto.
Glamour afetado, mas não banalizado.
Transitar por n sexos é estar desencardido de quaquer território.

quarta-feira, março 20, 2013

Salve Padilha! Santa em Ouro Preto!




Senhora da vida que desliza descalça pela ancestralidade. 
Manto vermelho 
Sangue que se dora
Arte da presença extemporânea.









Fotos: Clarissa Alcantara

terça-feira, março 12, 2013

DIÁRIO DE UM ATOR

11 de março – 2013 hoje, o ensaio começou às 14 horas. chegamos e fomos limpar o espaço, resolvemos jogar água em tudo, limpamos objetos de cena, aquela festa , com direito a balde, vassoura e cantorias. enquanto isso, na cozinha, a água estava no fogo. espaço limpo, é hora de pausa para um café. já estava tudo pronto e começamos os alogamentos, trabalhos pré-expressivos e finalizamos com um jogo. agora, já são 17h30, demos início a outra etapa. vamos assistir aos vídeos-registros dos dois últimos ensaios. é tudo tão estranho ver sua imagem refletida na parede e depois você pensa: é isso? esse é o meu personagem? esse sou eu? depois, você volta pra casa e não consegue dormir, resolve tomar nota: *próximo ensaio: levar fotocópia de uma página do livro do terceiro movimento – são oito movimentos, em "As Ondas", de Virginia Woolf. levar nas versões em português, inglês, espanhol e francês. a escolha da página pode acontecer de forma aleatória, desde que seja do terceiro movimento - que começa assim: "O sol ergueu–se ... olhando para um lado e para o outro, viam, profundamente, entre as flores, as escuras avenidas do mundo sem luz em que as folhas apodrecem e tombam".

domingo, março 10, 2013

Um ROL de impressões de um processo-acontecimento de AS ONDAS

ROL DE SENSAÇÕES - afetações de um espectador

a desmedida dos corpos
Sísifo carregando suas pedras
o espelho não refletiu nada.

a medida das pedras
Sísifo descarregando seu corpo
o espelho não refletiu nada...

as dez medidas dos corpos
Sísifo apedrejando espelhos
não refletiu nada.

as des-ditas dos corpos
Pedras sisificando nada
não refletiu
não espelhando
nothing...

as pedras ditas dos sísifos
mas sísifos corpONDULANDO corpos
espe(lha)rando nada





imagens de Clarissa Alcantara

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Cozinha Performática para um tempo obsceno


Tiramos um período de férias dos encontros do Obscena.  Um bom tempo para se pensar em outras coisas e também se pensar sobre os possíveis caminhos de pesquisa desse agrupamento artístico que já está em seu sétimo ano de existência. Muita gente passou, muitas linhas de pesquisa foram fundadas e investigadas, muitos encontros, muitos desejos e desafios constantes. O que nos une? O que nos alimenta? O que dá sede, seiva, saliva? Qual é o denominador comum?  O que nos diversifica? O que temos descoberto? Para onde apontam nossas próximas ações?

E esse tempo vivido “fora”, me trouxe a própria questão do tempo como matéria de questionamentos, sensações e silêncios. Acho que viemos de tempos muito produtivos e pouco reflexivos. Uma sensação de correria, de excesso, de uma certa superficialidade no que se refere a alguns pontos da pesquisa. E para mim: criação e pesquisa se situam no avesso da pressa. Hoje o “mal estar da civilização” (já nomeado por Freud) se localizaria no que Bauman chama de “mal estar da aceleração”? Não corremos então o risco de estarmos velozes demais?

Quais seriam as linhas de força numa prática de pesquisa? Tempo para observação ativa, tempo para experimentação, tempo para discussão, tempo para re-elaboração e por aí vai. Fora a complexidade de variadas naturezas temporais: meu tempo subjetivo, o tempo dos outros, o tempo de amadurecimento de uma ação, o tempo da cidade etc.

Numa sociedade performativa (cujo tempo é destinado à ação e razão eficazes, vide o lema “Faça tudo rapidamente e não perca tempo”) como fica o tempo das práticas artísticas performáticas? Elas reforçam a aceleração dos corpos e da percepção das coisas ou pelo contrário, criam lentidões e inauguram um tempo do kairós? Estaremos presos numa armadilha?

Como fugir do tempo cronológico faminto por durações e acúmulos de toda ordem? Há uma ideologia perversa das realizações que nos trazem a ilusão de felicidade, sucesso e poder. Tipo: “a gente faz e acontece”. E às vezes fazemos muito e realizamos tão pouco. Não pretendemos criar uma pausa ou uma interrupção (transgressões cotidianas) na velocidade da cidade e das relações? Uma outra vivacidade ou melhor: “viva a cidade”?

Há que se ter tempo para se perceber as “cores e formas da cidade” (nome de uma ação coletiva), sentir seus cheiros, tatear seus espaços e experimentar seus gostos. Descobrir suas possibilidades e proibições. Isso me lembra a arte de cozinhar. Ação que pede tempo e espera. Precisa de preparo, não necessariamente de receita. Cozinhamos um prato para nós ou para os outros. Certamente desejamos oferecer um presente para nosso paladar. Um “presente” também aqui no sentido de presença.

Penso o Obscena como uma cozinha performática poderosa, repleta de temperos, saberes e sabores, produzindo pratos (ações) na maioria das vezes coloridos e consistentes, ainda que um pouco indigestos para o senso comum. Talvez seja o momento desta “maravilhosa cozinha de Ofélia” fechar para um balanço, entendendo que há um tempo para ação e um tempo para reflexão, ou “reflexo da ação”. Talvez nem nós mesmos temos saboreado com vagar as deliciosas especiarias que cozinhamos e oferecemos. Confesso que o ritmo intenso no final do ano passado deixou minha boca seca e sem gosto.

Tempo de diálogo, dúvida e muita conversa entre seus cozinheiros-performers. Tempo de se ajustar o foco. Será esse tempo o de agora? Haverá algum cardápio já sendo pensado e preparado e que merece um investimento coletivo nesse momento, digo, maior investimento e atenção? A montagem de AS ONDAS pode ser esse tempo degustado e aquecido desde o ano passado? Um processo não significa tempo de escuta e experimentação? Não utilizaríamos melhor agora os temperos da teatralidade e da performatividade, que escolhemos lá atrás como ingredientes criativos e culinários?

Uma cozinha performática que respeita e percebe os tempos existentes para cada prato a ser criado certamente pode produzir uma boa mesa e um bom encontro. E mais: alimentar, na medida certa corpos, ideias e desejos. Deliciosa e demorada comida para tempos mortos! Ou quem sabe até permitir que se manifeste primeiramente o apetite e a fome! Mas até para isso precisamos vivenciar uma outra qualidade de tempo. Largo e preguiçoso. Tempo obsceno.