agrupamento independente de pesquisa cênica
Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Paulo Maffei, Sabrina Batista Andrade e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena, Leandro Acácio, Nildo Monteiro, Sabrina Biê e Saulo Salomão.
São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra de artistas como Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.
Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.
A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.
quarta-feira, setembro 23, 2009
BATE-PAPO COM CHRISTINA FORNACIARI
PARA MIM, FICARAM ALGUMAS QUESTÕES:
-ATÉ QUE PONTO APROXIMAR FISICAMENTE DAS INTERNAS, E QUAIS TIPOS DE RELAÇÕES ESTABELECER? JÁ QUE PERCEBEMOS QUE A RELAÇÃO HIERÁRQUICA, PROFESSOR- ALUNO NÃO É NADA ADEQUADA.
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IMAGEM E LÍNGUA
BUCCI APONTOU QUESTÕES E FEZ CONSIDERAÇÕES (DE MANEIRA BEM SARCÁSTICA, DIGA-SE DE PASSAGEM) SOBRE O OLHAR E A IMAGEM NA SOCIEDADE ATUAL. PONTOS QUE ACREDITO SER DE GRANDE RELEVÂNCIA PARA O OBSCENA, OS QUAIS DESCREVO ABAIXO:
-ATÉ QUE PONTO FAREMOS SACRIFICIOS FARMACOLÓGICOS E ESTÉTICOS PARA CORRESPONDERMOS ÀS EXIGÊNCIAS DOS OLHARES EXTERNOS?
-O OLHAR SEMPRE É EXIGENTE, TANTO QUE A PROPAGANDA SE UTILIZA DESTE OLHAR ATÉ EM BANHEIROS PÚBLICOS;
-A IMAGEM ESCRAVIZA A MULHER , TORNANDO-A AMANTE DESTA SUBSCERVIÊNCIA MERCADOLÓGICA;
-DIVERTIR-SE É ESTAR DE ACORDO COM AS REGRAS DO ENTRETENIMENTO;
-O CAPITAL REMUNERA OS OLHOS COMO EM UM ESCAMBO;
-A IMAGEM PROPORCIONA UM PRÉ-GOZO, MESMO QUE INSTANTÂNEO;
-A MERCADORIA SOMENTE EXISTE QUANDO ELA É EXCLUSIVA, OU SEJA QUANDO ELA EXCLUI.
- O CORPO COMO SUPORTE DO DISCURSO VISUAL TEM TOTAL RELAÇÃO COM O MEDO DE SER REPROVADO PELO OLHAR.
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A criação de novos olhares através do exercício artístico/teatral
Sua visita se tornou especial ( partiu de um convite de Erica Vilhena) pelo fato de que no próximo sábado iniciaremos o projeto "DIÁLOGOS OBSCÊNICOS" com as jovens internas do Centro de Reeducação Social São Jerônimo aqui em Belo Horizonte. Nossa proposta nos próximos dois meses é tentar um díálogo artístico com essas jovens mulheres a partir de uma série de procedimentos artísticos e performáticos.
A conversa com Christina foi muito interessante devido a alguns aspectos abordados por ela, tais como:
- Ter calma no processo de trabalho dando cada passo em consonância com o ritmo e tempo do grupo e valorizando e incentivando cada momento vivido. É importante começar do mais fácil para que cada uma possa se sentir capaz de participar das atividades.
- Valorizar aquilo que elas têm como refência cultural: música, filmes, revistas etc. São materiais que podem ser utilizados na criação e improvisação de cenas.
-Propor exercícios e atividades mais corporais e deixar que as palavras venham aos poucos, isto é, mais prática e menos teorizações. Uma vez que o corpo se encontre menos defensivo e mais relaxado e aberto, aí se tornam possíveis mais conversas e reflexões.
- Importante trabalhar com o audiovisual pela questão da imagem e depois a possibilidade de se verem e se reverem. No exercício artístico a RECRIAÇÃO DE SI MESMO.
- Os exercícios do Teatro do Oprimido do Augusto Boal são muito interessantes e apresentam perspectivas não somente artísticas mas também sociais e políticas.
-A proposta mais potente é a abertura para novos olhares e pontos de vista sobre o mundo, o Outro e si mesmo. Não trata-se de um procedimento de reabilitação, mas a possibilidade de experiências novas, singulares e capazes de produzir deslocamentos e descobertas.
- Instalações corporais, de objetos pessoais ou construídos, enfim, a dimensão plástica e performática de variadas atividades. Falar do pessoal para se chegar ao universal.
Acredito que oferecer a PRESENÇA HUMANA já se configura como poética e política da existência. Fica nosso desejo de continuar dialogando com Christina.
terça-feira, setembro 22, 2009
Procedimentos domesticados e espetacularizados?
São três vetores que me chamaram a atenção no que presenciei nos trabalhos e me provocaram algumas questões: o espaço, o tempo enquanto duração e a natureza ou forma do experimento. Vou tentar passar por estes tópicos.
No caso dos "Desejos classificáveis", avalio que foi uma experiência interessante pelo fato de ter provocado alguns movimentos e deslocamentos no olhar dos transeuntes da cidade. O experimento que priorizou a imagem e ação dos atores e não qualquer tipo de texto ou fala, provocou pelo estranhamento de algumas imagens. Tudo foi sendo construído de forma orgânica e isso trouxe uma presença mais dilatada dos atores. Ficou evidente que Marcelo atua neste procedimento através de sua corporalidade presentificada no entorno e no centro da ação. Só que em alguns momentos isso se perde e Marcelo fica muito de fora, distraído e atuando muito como um diretor ou o responsável pelo acontecimento. Isso se dá por exemplo quando é ele que entrega os folders do evento Terças Poéticas e deixa claro que a ação faz parte de uma programação do Palacio das Artes.
Considero que a intervenção se mostrou muito leve e perdeu uma agressividade potente que sempre existiu nela. Para mim isso se deve pelo fato do espaço escolhido ( um espaço artístico, o que deixa claro do que se trata e acho mais potente criar ambiguidades ) a duração ( somente 20 minutos onde o trabalho não acontece e perde força ) e a forma como a ação acontece, isso porque influenciada por fatores externos como o fato de estar dentro de outro evento. Para mim essa concessão é pouco interessante porque retira a força e a violência da ação. Questiono então Marcelo, Didi e Patricia: não seria perigoso demais atender outras expectativas e perder algumas linhas de força da pesquisa? O que perceberam, descobriram e problematizaram com essa experiência? Certamente novas percepções surgiram. O procedimento não acabou por se domesticar? O que se ganhou e se perdeu? Pergunto porque me interessa identificar todas as possibilidades existentes. Nas ruas a ação de vocês não os coloca mais em risco e traz a possibilidade de um "CORPO VULNERÁVEL"? A opção de participar deste evento ( o lançamento do livro ESCRITURAS BORDADAS ) dialoga e provoca a pesquisa de vocês em que sentido?
Aguardo as respostas para que um diálogo se estabeleça.
Quanto ao "Baby Dolls" na Praça da Estação tive a sensação de que o trabalho ficou disperso e sem força. O espaço ficou maior que a ação e tudo muito "policiado" e espetacularizado demais. Havia um público ali convidado para assistir uma peça de teatro?
Aconteceram imagens potentes e até belas, mas isso é muito pouco. Faltou talvez mais risco e presença das atuantes. Acabou que também ficou leve e gostoso de se ver...O mesmo se deu em relação ao tempo: uma passagem muito rápida da exposição para a cidade das mortas. Faltou mais tempo distendido, mais calma e escuta e tudo foi muito veloz, que a passagem não alterou nada. Faltou tempo de exposição das imagens a se contraporem à velocidade da cidade e dos passantes.
Pergunto: o que é ocupação? E o que é intervenção? Serão a mesma coisa?Existem pontos aí a serem investigados. A ação pede mais tempo, mais exaustão, mais "tatuagens", sujeiras e restos no corpo da cidade?
O procedimento terminou e o rastro não ficou.
Nina deixou 14 marcas no espaço, foi a última a abandonar a ação e senti nela a densidade do trabalho, tinha uma presença diferenciada. Pude sentir a potência desta escrita.
Pergunto: será que a ação não pede mais riscos, espaços diferenciados e novas formas a se experimentar? Não estará já se fixando? Penso na destruição como forma de reconstrução.
João me revelou que se ateve ao olhar e reação dos passantes frente ao procedimento. E o que foi percebido? Como seu trabalho atinge o procedimento? Longe, perto, claro ou escondido? Mas que altera, não resta dúvida.
Ficam aqui meus rastos, restos, memórias e ficções dessas deambulações obscenas.
Cadê o risco, a margem e dúvida?
Esta minha escrita tem um pouco disso tudo e exponho assim minha pesquisa de espectador, mas necessito de diálogo, conflitos e questões. Senão corro o risco de ser um crítico e ter a última palavra.
Quem vai me questionar?
segunda-feira, setembro 21, 2009
Setembro, obscena no são Jerônimo.

O agrupamento de pesquisa Obscena, através de uma parceria com o Euler, que atualmente trabalha como professor do instituto São Jerônimo, viabilizou este contato entre o agrupamento e a instituição.
Fizemos alguns encontros com este professor do instituto São Jerônimo.
Levantamos questões que fossem pertinentes para estabelecer este dialogo e a partir daí fomos para as propostas individuais de cada pesquisador onde elaborou, uma forma pratica de dialogo com as internas do instituto.
Hoje é o segundo dia que vou ao São Jerônimo, tudo parece uma aventura,
conhecer novas pessoas, dialogar com elas e ver o que vai sendo possível de trocar.
A instituição esta toda bem cuida, limpa, paredes bem pintadas, na verdade a estrutura física é bem diferente do que eu imaginava.
Entramos e saímos em varias portas e sempre acompanhados pelos agentes de segurança, tudo me parece tranqüilo.
Lá de fora já se ouve a voz dessas garotas, tão novas mais já cheias de
“Cicatrizes, feridas....”
Depois de destrancar, abrir, fechar, passar por corredores, chegamos ao pátio, elas estão vestidas azul e branco, umas com calças azuis de moletom ou brim outras de bermuda.
Os cabelos esta bem cuidados a grande maioria com unhas feitas.
E alguma diz assim a Erica: “e aí doidinha, beleza?” e por aí, varias outras já começam também a cumprimentar, comigo que estava chegando ali pela primeira vez junto a elas recebo: olhares. Eu disse: oi, elas: oi beleza, você também mora no Floramar? Eu disse: não nós trabalhamos juntos.... ( referindo a Erica)
Este primeiro dia foi mesmo uma forma de aproximação, apenas para conhecer,
Criar algum vinculo.
Sábado 19 de setembro de 2009,
Adolescentes/Mulheres
Lembranças
Saudades dos filhos, da mãe.
Lembranças dos amigos
Mais um dia de trabalho no instituto São Jerônimo, Saulo, João e Lica são os Obscenicos presentes nesta tarde.
Chegamos com filmes, bastão, revistas, livros e uma vontade imensa de revelas.
Logo na entrada, já encontramos com algumas conhecidas, algumas lembro do nome, outras não, cumprimentamos, sorrimos e demos apertos de mão, como se estivéssemos selando algo de bom que estaria por vir.
E não foi diferente.
“Para conhecer um preso ou uma presa, basta ter contato com uma pessoa pobre que não teve garantidos proficuamente seus direitos econômicos, sociais e culturais e que, por este motivo, muitas vezes não conseguem exercer plenamente seus direitos civis e políticos. Lógico que não são todas as pessoas pobres que vão para prisão. Mas indivíduos com este perfil são vulneráveis a ingressar no sistema de segurança......
São os cidadãos considerados de segunda classe pelo Pode Publico...”.
Lica, sugeriu uma biblioteca ao ar livre e montamos, foi maravilhoso, com colcha de retalhos, livros, revistas e almofadas. Deitamos, sentamos e algumas preferiam ficar de pé rodeando a colcha de retalhos estendida ao chão.
Muitas não se misturavam, então preferiam pegar o que lhes interessavam e procuravam outro canto, pelo que percebi uma forma que elas encontram para tornar a convivência menos atrituosa.
Na colcha de retalhos tecemos prosas, trocamos experiência de vida, à medida que alguma via alguma imagem, uma fotografia nos livros, elas lembravam de uma época da sua vida e acabavam falando, desabafando, falamos também da gente, contamos casos, rimos, escutamos, algo de bom aconteceu ali.
O desejo de sair é latente, xxx reclama que sua cabeça esta doendo, yyyy chora no canto da quadra escorada no ombro da amiga.
O jogo com bastão:
Aconteceu de forma bem sutil, começamos com uma dupla, eu e ttttt jogamos bastão, estabelecemos uma confiança, chegando a ficarmos bem distantes e arremessamos o bastão sem medo. Depois João também entra no jogo, uma outra garota também chega.
Ficou mais animado, lançamos desafios, olhamos olho no olho estabelecemos uma regra: “quem errar sai” o desafio deu gás maior na parada, uma mistura de nervosismos e vontade de vencer ou não..... Talvez uma forma de ludibriar o tempo, que para elas ali parece passar tão lento, é o que elas dizem.....
O jogo de basquete:
João e eu aproximamos em momentos diferentes e juntos brincamos de um jogo: 21 com a bola de basquete que acontecia entre duas garotas, João lembra de um tempo que ele já foi esportista, compartilhou algumas técnicas e é verdade, funcionou mesmo.... Tanto para elas quanto para mim.
Os filmes:
Convidamos algumas garotas para assistir um curta metragem “Jardim das Cores” de Guilherme Reis, levei este filme que trata de um universo infantil propositalmente, para ver o que acontecia ali, pois sei que algumas delas são mães, assistimos, quando chegou ao final uma garota perguntou: “ não tem filme de tiro? Gosto de filme que fala de bagulho e tiro....” então passei um outro onde passava um pouco por este universo, elas gostaram mais, no final fizemos um rápido bati papo, onde cada um falou de suas impressões dos filmes exibidos.
È hora de ir embora, passo perto de hhhhh uma garota que estávamos conversando e ela de uma certa forma esta bastante envolvida nas atividades que estamos fazendo, ela me chamou para dançar um fank que estava tocando na radio , coincidentemente o mesmo do dia que a conheci.
Neste primeiro dia ela falou da sua vida.... hoje quando estávamos despedindo mais uma vez a mesma musica repeti, dançamos um pouco em uma roda , depois Lica chegou ... dançamos ...
“Prisão perpétua é a morte e eu volto sim
Você é a parte boa que existe em mim...”
Precisamos ir até mais....
“Pedindo de joelhos pra Deus me Proteger.
Na vida loka é assim parto pro tudo ou nada
Sem saber se volto, só tenho você por mim
Então não me abandona amor eu te imploro...”
e realmente, nosso tempo ali, naquele sábado, já estava esgotando...
“ até semana que vem..., até. Tchau.... até mais... ooooo lembra de trazer a musica é mc romeu...”
“ Hoje perdi meu bem eu rodei,
Mas troquei foi tiro a riviria
Armaram pra mim
Quem foi eu não sei
Me entrguei pra te rever um dia.
Hoje, fico por aqui.
Abraços,
S.S
sexta-feira, setembro 18, 2009
bonecas domesticadas
quarta-feira, setembro 16, 2009
DEAMBULAÇÕES OBSCENAS- UMA NOVA PESQUISA
Com as questões vivenciadas no e pelo Obscena tenho deambulado pela UFMG e mais precisamente em meu projeto de mestrado. Em variadas trocas com outros grupos artísticos e de pesquisa cênica tenho "raspado" muitos conceitos, dúvidas e inquietações. Enfim, no ato de deambular de lá para cá, em todos e vários sentidos, o Obscena se faz presente, se faz encontro, se faz lugar de produção de novas subjetividades e construção de relações coletivizadas.
Na deambulação se encontra o OUTRO, o diferente, o acaso, o risco e o obsceno. Nas palavras de LACAN : "IR ALÉM DA CENA, NÃO É VER MAIS, MAS SE TORNAR OBSCENO." Não temer ou se defender das multiplicidades ou acontecimentos que escapam da lógica do sentido, ou então, estão em outras lógicas com ou sem sentido. Há de se reiventar novas formas.
Duas deambulações me atravessam:
- as pesquisas do Obscena
- a intervenção artística com as jovens do São Jerônimo. Aqui recupero minha pesquisa anterior sobre o feminino e a escuta dele, no caso agora, através da juventude. Aqui se mesclam pensamentos artísticos, estéticos e meus estudos de psicanálise.
Meu desafio : como estar dentro e fora do agrupamento? Como ser um espectador-pesquisador?
O que fica de uma ação performativa na cidade? O que o Obscena faz hoje é performance, teatro ou é o quê? Como espectador posso interferir també? Enfim.....acho que é isso.
Eu também entendo que o transeunte da cidade quando se depara com uma ação do Obscena age e deambula de alguma forma. Deambula nas suas percepções e leituras do acontecimento. Deambulação física, mental, cultural etc. Abrir-se a outro tipo de experiência e contato. O mesmo se daria para quem faz a ação? Haveria então uma deambulação recíproca? Ou antes uma AFETAÇÃO ou AFECÇÃO?
Deambular de lá para cá, caminhar, criar movimentos, abalar certezas, interromper, incomodar,suportar o vazio e o não-saber, perguntar. Isso está presente nas pesquisas dos obscênicos?
AINDA QUE CONSERVADOR
DESEJO SER HOMEM
DESEJO CASAR
DESEJO TER FILHOS
DESEJO NÃO MENSTRUAR MAIS
DESEJO UM PRÍCIPE
DESEJO SER MAGRA
DESEJO AMAR INCONDICIONALMENTE
DESEJO SER MAIS BONITA
DESEJO FAZER FACULDADE E CASAR
DESEJO SER FELIZ
DESEJO TER BUMBUM MAIOR
DESEJO NÃO SER TRAÍDA
ACOPLAR AS IDÉIAS AO NOSSO PROCEDIMENTO DESVIAVA UM POUCO O NOSSO CURSO, MAS DESEJÁVAMOS EXPERIMENTAR, MESMO SABENDO QUE O PALÁCIO DAS ARTES DARIA UMA CATEGORIZAÇÃO DE ARTE AO NOSSO TRABALHO, OU SEJA, FICARIA MAIS CLARA A IDÉIA DE PERFORMANCE, MENOS DILUÍDO O LIMITE ENTRE O REAL E O FICCIONAL JÁ QUE ESTÁVAMOS EM UM LOCAL CATEGÓRICAMENTE TEATRAL.
COMEÇAMOS O TRABALHO. PATRICIA E DIDI DEITADOS. CARNES AO REDOR: MUXIBA, PELE, RESTOS DE VACA E GALINHA. COMO ESTÁVAMOS ACHANDO O NOSSO TRABALHO UM TANTO DIDÁTICO E VERBORRÁGICO, EXPERIMENTAMOS RETIRAR A FALA, APENAS GESTOS PARA UMA NOVA PROPOSIÇÃO. PRECEBI NESTE MOMENTO QUE A FALTA DE VERBO DEIXOU NOS ATORES UMA LEVEZA MAIOR, RETIROU A AGRESSIVIDADE QUE BUSCÁVAMOS EM NOSSO DISCURSO. MAS AS IMAGENS ERAM CRIADAS. OS TEXTOS NO CHÃO ERAM O COMBUSTIVEL DAS CONSTRUÇÕES: DORA: HOJE SOU DOR. MARIA: BEBE, COME, PROCRIA. E DESEJOS. CARLOS: DE NOITE CARLA. JÁ TINHAMOS O NOSSO DISCURSO E NÃO PODÍAMOS NOS DESPRENDER TOTALMENTE, ENTÃO TRABALHAMOS TAMBÉM OS TRANGÊNEROS: DIDI TROUXE OS DESEJOS DELE, SOBRE MASCULINIDADE, SOBRE O QUE É SER MACHO. ENTRE AS IMAGENS FORMADAS, CONSTRUÍMOS:
-A TENTATIVA DE SER MAGRA, BELA, PRINCESA;
-O CORPO EXPOSTO COMO CARNE;
-AS POSIÇÕES FEMININAAS SEXUAIS DO UNIVERSO MACHISTA;
-OS DESEJOS DO CORPO;
- A ANIMALIZAÇÃO DAS PESSOAS;
-A COISIFICAÇÃO DAS RELAÇÕES;
DIDI E PATRICIA SE ANIMALIZARAM SE MISTURAVAM À CARNE, SE TRANSFORAMVAM EM COBRAS, PIRANHAS, GALINHAS.COMIAM RAÇÃO. SAIAM, DEIXANDO OS RESTOS DE CARNE E ESCRITOS PARA TRÁS. TRABALHARAM OS TEXTOS CONSTRUINDO IMAGENS SOBRE O FEMININO E SOBRE OS CORPOS. EM UMA MISTURA DE SERES HUMANOS COISIFICADOS.
terça-feira, setembro 15, 2009
cadê o salto no escuro?
terça-feira, setembro 01, 2009
Inquietações Obscênicas...
Participar destes eventos colocou-nos diversas questões e a que me move agora é a relação entre o ato performativo e a formação do indivíduo. Será a ação interventiva ou performativa também potente na construção da cidadania? Como a ação performativa pode realmente interferir no presente construindo brechas e espaços para a geração de identidades autônomas? E por que tal inquietação se dá em mim? Creio que muito devido à mudança de eixo que impus a minha trajetória profissional, pessoal e intelectual. É na crise e no caos que surgem as potências e como não há lugar para mim que não este optei por ser uma ‘facilitadora’ do projeto PRO JOVEM (FMC e Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social) que atua junto a coletivos de adolescentes de famílias cadastradas no Programa Bolsa Família (Governo Federal) e também pelo trabalho com jovens adolescentes do Centro Reeducacional São Jerônimo, destinado a meninas entre 13 e 18 anos que infringiram a lei. Um trabalho totalmente novo e no qual terei de me reinventar, pois não sou nem de longe uma arte educadora.
Percebo que há um reajuste no foco do meu trabalho, passei o ano de 2008 direcionando minha pesquisa junto ao OBSCENA partindo de questões pessoais. Estas motivaram meu caminho em busca dos elementos e ferramentas da educação destinada às mulheres. Minhas limitações, frustrações e necessidades me impulsionaram ao entendimento daquilo que se caracteriza como o gênero ‘feminino’. A gama de instrumentos para a composição deste encontra-se desde o nome do bebê até os tabus destinados à população feminina. Através dos ‘procedimentos cênicos’ – no OBSCENA utilizamos este termo para designar ações individuais e/ou grupais que efetivamos ao longo de 2008 – e da aglutinação destes compus a imagem ação ‘Santadonadecasa’. Uma intervenção urbana que não compartilha da simpatia do público feminino. Isto devido à exposição de utensílios domésticos? Ou devido à imagem estagnada da mulher que carrega em sua boca seu molde? Ou será que em tempos de Mulheres Melancia, Jaca, Melão e Abacaxi é difícil encontrar reflexo nesta que se apresenta tão coberta em panos? Ao longo de nossas exposições – ‘Baby Dolls – uma exposição de bonecas’ fruto da fricção das pesquisas da dramaturga Nina Caetano e das atrizes Erica Vilhena, Joyce Malte e Lissandra Guimarães - em alguns cantos do centro urbano de BH – Pça da Savassi, Pça 7, Pça da Estação – observei a curiosidade das adolescentes, a irritabilidade das jovens acima dos 20 anos e a indignação das senhoras. Será este fato a constatação do acirramento dos códigos sociais destinados à mulher e à sua submissão à sociedade paternalista e capitalista?
Bom, uma vez que as adolescentes se mostraram mais instigadas pelo trabalho, por que não ir até elas e averiguar o quão afetadas estão por esta ordem social? Creio que por isto cheguei aos trabalhos aos quais me dedico agora neste segundo semestre. Desejo encontrar-me com estes jovens adolescentes e instigá-los. É necessário agir sobre eles com imagens e ações diversas às incutidas pela cultura de massa. É necessário criar junto a eles brechas para suas expressões. Assim retorno a Artaud (1896-1948), as bases precisam ser revistas e revisitadas, é necessário re-compreender a cultura
“Nunca como neste momento, quando é a própria vida que se vai, se falou tanto em civilização e cultura. E há um estranho paralelismo entre esse esboroamento generalizado da vida que está na base da desmoralização atual e a preocupação com uma cultura que nunca coincidiu com a vida e que é feita para reger a vida.”
Os coletivos de adolescentes encontram-se em áreas de risco social. Eles moram na área limítrofe da guerra civil que enfrentamos no Brasil há anos. O tráfico, os assassinatos pelas mãos da polícia ou pela própria justiça do local, este é o cotidiano. As jovens do São Jerônimo já ultrapassaram a linha tênue entre o risco social e a criminalidade. Um fator comunizante é a ausência da figura paterna, a mãe é santificada e sobrecarregada por toda a responsabilidade sobre a família. O acesso aos bens de consumo é significativamente restrito e da cultura não é diferente. Mas, eles têm fome, querem pertencer, querem também inscrever sua história na história da cidade.
Tento aqui e agora traçar um paralelo entres as duas realidades que apresentam: jovens em livre processo de formação e criação de suas expressões e jovens reclusas e em progressiva estagnação do processo de formação e criação de suas expressões. Os adolescentes dos coletivos mesmo com sérias dificuldades na aquisição de bens culturais estão amparados por um aparelho governamental que se esforça em mantê-los ‘ocupados e afastados’ da criminalidade; as jovens do São Jerônimo romperam a barreira do socialmente aceitável e encontram-se reclusas num aparelho governamental destinado às suas reinserções no convívio social. A força criativa dos primeiros ainda não foi subvertida pelas drogas, tráfico e homicídios; já nas jovens reclusas esta força encontra-se totalmente calcada na justiça do ‘olho por olho, dente por dente’, a agressividade é a arma empunhada dentro da instituição, o corpo é uma armadura e a voz expressa em monossílabas e grunhidos. Mas, é justamente aí, nesta armadura que se expressa suas potências. Agora o desafio é transformar este corpo institucionalizado em corpo autônomo. Mas como? Ainda não tenho respostas, somente inquietações.
Os jovens dos coletivos responderam muito positivamente às dinâmicas propostas. Cada um guarda suas singularidades, como dizia minha mãe: ‘_ um tem que empurrar e o outro segurar’; expansão e contenção são as ações que terei de empreender em cada.
O ato performático como ação cidadã – utilizando exercícios teatrais para a construção do indivíduo (Esta prática desenvolvo junto aos coletivos de adolescentes, por hora vou abordar somente esta frente de trabalho uma vez que o trabalho com as jovens do São Jerônimo está ainda na construção duma confiança mútua)
E é este viés que tenho utilizado para impulsionar os jovens dos coletivos para um exercício de autoconhecimento e reconhecimento de sua situação/localização sócio cultural e assim estimular a criação e desenvolvimento de ações que permitam burlar a ordem geral da sociedade, que visa estratificar as camadas sociais e estagnar o indivíduo em seu processo de autonomização. Para tanto exercícios de narrativas acerca de si mesmo e da sua vida cotidiana são a matéria prima para geração de questões fundamentais para nossa formação como cidadãos – Quem sou eu? Onde estou? O que faço? Eles têm muita energia e é preciso incentivá-los a gastá-la, ou melhor, aplicá-la diariamente na busca do próprio caminho. Ir em busca daquilo que eles não têm em suas comunidades e tomar posse de suas auto expressões. Creio que este exercício é uma ferramenta na luta contra esta dita ‘cultura’ que Artaud suscita, a Indústria Cultural. Como os próprios jovens disseram: ‘_ a Favela tem cultura também, aqui a gente também faz nossa história!’ e é atrás disto que estou: do que é pertinente a eles, às suas famílias, à suas comunidades. Desejo insuflar os seus desejos de compartilhar com jovens de outras regiões e assim formarmos uma rede de agentes que estão inseridos na sociedade de consumo e que fazem uso de suas arestas para gerar meios e possibilidades de ações efetivas para si.
Estes dias ganhei do pesquisador Clóvis o livro ‘Culturas juvenis – múltiplos olhares’ de Afrânio M. Catani e Renato de S. Porto Gilioli. Já no primeiro capítulo ‘Faces do consumo cultural’(pág.19) me deparo com a seguinte questão
“(...) Ainda que o consumo cultural construa uma imagem positivada da juventude, a diversidade de condições sociais e econômicas nem sempre permite que os jovens possam vivenciar as idealizações de que são objeto. A indústria cultural contribui de forma decisiva para uma série de exclusões e diferenciações entre as múltiplas condições juvenis.”
e mais,
“(...) A juventude é ... tanto ... um mito fabricado por um ramo industrial específico da sociedade capitalista, o da Indústria Cultural, quanto um consumidor cultural a ser domesticado (D. Helder Câmara).”
As observações acima trazem luz ao exercício que propus no primeiro dia de trabalho junto ao Coletivo Vista do Sol (12/08/2009). Pedi a eles que criassem um cartaz com o título – ‘Quem sou eu?’ como material de composição cedi revistas, canetas coloridas e papel branco. A maior parte utilizou imagens que não têm correspondência com a realidade sócio econômica deles, e o mais agravante, as meninas têm as composições mais deturpadas pelas imagens midiáticas dos corpos femininos e os acessórios e modos de agir pertinentes a este gênero. Um modelo aí se reafirma.
Não repeti este exercício com os jovens do Coletivo Arthur de Sá (27/08/2009). A partir da colocação de um dos jovens quanto a expectativa me relação ao projeto, este jovem perguntou-nos se iríamos trabalhar com a cultura afro brasileira, então perguntamos o que era isso para ele _ uai, são nossos ancestrais... Logo, propus que cada um contasse sua história, compreendendo-nos como descendentes de alguém, que também descendeu de outrem... E que principalmente localizassem suas histórias nos locais onde já moraram e moram. Alguns souberam compor bem seu quadro histórico, outros tinham a narrativa mais fragmentada. Este coletivo, talvez por ter um Educador, Ricardo, com um perfil mais assertivo, também se coloca de forma mais contundente que o primeiro citado. Mostrei a eles duas fotografias de Cláudio Versiani – ‘Projeção’. A primeira imagem mostrada é de uma multidão de crianças negras, provavelmente africanas e a segunda é duma arquitetura super higth tech. Pedi que cada um dissesse, ao admirar a foto, uma palavra que resumisse a imagem. Depois traçamos um paralelo entre ambas. O resultado foi estimulante, eles são muito agitados, mas creio que consegui transpor esta energia para o trabalho.
Enfim, estou caminhando.
sábado, junho 20, 2009
CLASSFICADOS E A SÍNDROME DO PEQUENO PODER
ONTEM FIZEMOS UM NOVO PROCEDIMENTO, AS PESSOAS DESTA VEZ, ESTAVAM MAIS DISTANTES QUE A PRAÇA SETE, COMEÇAMOS A MONTAR O NOSSO MATERIAL: CARNES MUXIBENTAS, CORPOS PROSTITUIDOS, CLASSIFICADOS (VER A POSTAGEM ABAIXO). AS PESSOAS COMEÇARAM A SE APROXIMAR. DIDI E PATRICIA COMIAM RAÇÃO, PUNHAM CARNE CRUA, ANIMALIZARAM-SE. APÓS ISTO, LIAM OS CLASSIFICADOS E FAZIAM POSES, POSES DE VENDA, POSES DE PRODUTOS NA VITRINE, POSES DE QUANTO VALE? SILENCIO E POSES. PATRICIA LÊ O PRIMEIRO CLASSIFICADO: LEILA: TRABALHA, COME, PROCRIA, TRABALHA , COME, PROCRIA. NARRA LEILA, SE TORNA A LEILA. DIDI SE OFERECE. COMEÇA A CORRER: CLASSIFICADO- JORGE TRINTA ANOS, ATLÉTICO. DIDI DIZ: TENHO QUE EMAGRECER, E CORRE. TENHO QUE EMAGRECER! TENHO QUE EMAGRECER! TENHO QUE EMUDECER.
COMEÇA UM INTENSO JOGO DE NARRATIVAS, DEPOIMENTOS PESSOAIS.INTERFIRO ATRAVÉS DAS NARRATIVAS. ESCREVO CLASSIFICADOS PRESENTES PARA INTERFERIR NO JOGO. UMA MULHER CONFUNDE A PATRICIA COM PROSTITUTA. A OFENDE, INSTIGA AS COLEGAS A OFENDEREM TAMBÉM. O LIMITE DO REAL É, POR POUCO TEMPO, INSTAURADO.
OS GUARDAS MUNICIPAIS VÊM: CINCO POLICIAIS PERGUNTAM O QUE ESTÁ ACONTECENDO. EXPLICO UM A UM QUE É UMA INTERVENÇÃO. INSATISFEITOS ELES PERGUNTAM NOVAMENTE, E NOVAMENTE, E NOVAMENTE. DESEJAM QUE A GENTE SAIA DE LÁ.
O ENGRAÇADO É QUE UM DIA ANTES TEVE INTERVENÇÃO DE PALHAÇO. PALHAÇO PODE. CARNE EXPOSTA NÃO. NÃO PODEMOS AGREDIR AO BOM GOSTO BURGUÊS. PESSOAS PEDINDO ESMOLA E PASSANDO FOME NA PRAÇA NÃO AGRIDE O BOM GOSTO BURGUÊS. PEDEM PARA TIRARMOS OS PAPÉIS COLADOS NO CHÃO. EU ENROLO E NÃO TIRO. PEDEM NOVAMENTE. O CHEFE DA GUARDA MUNCIPAL FAZ QUESTÃO DE DIZER: SOU CHEFE! ATESTANDO SEU PODER. DIZ QUE NÃO PODEMOS SUJAR A PRAÇA (NINA PASSOU E DEIXOU SEUS ESCRITOS COM GIZ), RESPONDO CINICAMENTE: SE NÃO PODEMOS SUJAR A PRAÇA VOU TIRAR MEUS SAPATOS! PEÇA A TODOS PARA ANDAREM DESCALÇOS.
O CHEFE FICA MAIS ZANGADO E DE REPENTE EU VIRO A INTERVENÇÃO E PASSO SER O ASSUNTO MAIS INTERESSANTE. OS GUARDAS FALAM QUE PRECISAMOS DE ALVARÁ. RESPONDO A ELES SE A MISÉRIA NA RUA PRECISA DE ALVARÁ TAMBEM, OU SE JÁ FOI ACEITA PELA PRAÇA. EXPLICO PARA ELE SOBRE SEU PODERIO. ELES COMEÇAM A PRESSIONAR PARA SAIRMOS DE LÁ. TRANSEUNTES FICAM DO NOSSO LADO E DISCUTEM COM ELES. ISTO NOS DÁ MAIS TEMPO. TERMINAMOS E RAPIDAMENTE VAMOS EMBORA. NÃO PUDE DEIXAR OS CLASSIFICADOS COMO DAS OUTRA VEZES, POIS ESTAVAMOS SUJANDO O CHÃO. ESCREVI UM CLASSIFICADO SOBRE O CHEFE DA GM: FELIPE. 32 ANOS. CHEFE DE POLÍCIA. GOSTO DE MANDAR. NÃO GOSTO DE SUJEIRA. GOSTO DE PODER. GOSTO DE FODER COM OS OUTROS.
quinta-feira, junho 18, 2009
CLASSIFICO-ME
APÓS A SABATINA SOBRE POSSIVEIS CAMINHOS DIRECIONADOS, REELABOREI, JUNTAMENTE AOS ATORES DIDI VILELA E PATRICIA CAMPOS, FORMAS DE INTERVENÇÕES NA RUAS EM UMA MESCLAGEM DE CLASSIFICADOS- DEPOIMENTOS - VIDA PRIVADA, SAINDO DO LUGAR HABITADO PELA PROSTITUIÇÃO PARA CAMINHAR NA VIDA ORDINÁRIA.
PRECISAVA SENTIR A REAL NECESSIDADE DE INSTAURAR A RUA COMO LUGAR DO ACONTECIMENTO DOS CLASSIFCADOS INCORPORADOS AO COTIDIANO.
O PROCEDIMENTO:
FIQUEI NA DIFICIL INQUIETUDE SOBRE O MEU LUGAR DE DIRETOR: INTERFIRIR OU NÃO DIRETAMENTE NA OBRA DURANTE A AÇÃO? OPTEI POR INTERFIRIR, POIS MEU MATEIRAL SERIA MAIS VISIVEL E PALPÁVEL. MAS COMO INTERFIR SEM PARECER DIRECIONAR AUTOMATICAMENTE, INTERROMPENDO A CENA ATRAVÉS DA AÇÃO?
ATRAVÉS DOS CLASSIFICADOS.
COLOCARIA MEUS ESTIMULOS ATRAVÉS DE CLASSIFICADOS PRÉVIOS, LEVANDO A UMA IDÉIA DE DIREÇÃO PERFORMÁTICA, GERANDO ELEMENTOS DE CONCATENAÇÃO AO TODO, POIS EU PERCEBERIA O CAMINHO DA CENA E ESCREVERIA AS PRÓXIMAS AÇÕES ATRAVÉS DO CLASSIFICADO GERADO NO MOMENTO:
CLASSIFICADOS
Lúcia. Livre. Come, bebe, procria. Come, bebe, procria. Come, bebe, procria.
CLASSIFICADOS
Carina. Fica na banheira com chantilly. Fã da Luciana gimenez. Hoje sensação. Amanhã dona de casa.
CLASSIFICADOS
carla. Não vê prazer no seu trabalho. Trabalha com o prazer.
CLASSIFICADOS
Sergio. Não gosta de seu trabalho na fábrica. Gosta do prazer da guaicurus.
CLASSIFICADOS
Isadora. Já foi Dora. Hoje é só dor.
CLASSIFICADOS
JOANA, MULHER SOLTEIRA QUER CASAR, ARRUMAR MARIDO.
LIMPA, PASSA E APANHA.
CLASSIFICADOS
SUELEN, GOSOTOSA, FAZ DO JEITO QUE VOCÊ GOSTA.
CLASSIFICADOS
MARILYN, LOIRA SENSAÇÃO, PARECE UM CHOCOLATE DE TanTO QUE DERRETE. 20 REAIS. ATENDE EM CASA DE HOMEM CASADO.
CLASSIFICADOS
CINTIA, MORENA FOGOSA. TEM TANTO FOGO QUE SEU BARRACO PEGOU FOGO, TEVE QUE VIVER NA RUA AOS 17 ANOS, SOZINHA.
CLASSIFICADOS
SONINHA, PARECE VIRGEM. ESTA DÁ PRÁ CASAR DE GRINALDA
CLASSIFICADOS
ÉRYCA. SORRI QUANDO PRECISA DE TRABALHO.SORRIA VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADA
CLASSIFICADOS
MARTA, FAZ TUDO QUE VOCÊ GOSTA, APANHA CALADA, SEM DAR UM GEMIDO. IMITA CACHORRA, GATO, PIRANHA, PERIQUITO, PAPAGAIO, COBRA SÓ ATENÇÃO.
CLASSIFICADOS
VERÔNICA, TRAVESTI MULATA, ATIVA E PASSIVA, AMÉM. COBRA 15, 00. ATENDE NA RUA, LEVA PEDRADA NA RUA.
CLASSIFICADOS
GISELE, TIPO BARBIE. LINDA, OLHOS AZUIS. TIPO BARBIE, NÃO MENsTRUA. TIPO BARBIE, PARECE QUE NÃO TEM VIDA. TIPO BARBIE. TEm SELO DA ESTRELA.
CLASSIFICADOS
JENIFER, ADORA GRINGO, ELES VEM E FAZEM A FESTA. 17 ANINHOS. O SONHO DO CONSUMO DO HOMEM CONTEMPORÃNEO. AFINAL, QUEM QUER A MULHER VELHA E PARIDA EM CASA.
CLASSIFICADOS
SUELY. COM Y. SEU NOME ERA JORGE. HOJE SUELY.
CLASSIFICADOS
Carlos. Bem dotado. 23 por 25. Atende em casa, apartamento, mora sozinho. Faz academia todo dia, toda hora. Talvez para esquecer que mora sozinho.
CLASSIFICADOS
Agnaldo. Negão sarado. Atende casais. Venha para a fantasia. Aqui você se veste do que quiser e eu finjo que gosto.
CLASSIFICADOS
Leila. Faz frente e verso. Morena peluda. Pagando depila. Pagando faz tudo. Pagando faz até programa infantil.
CLASSIFICADOS
Julinha. Safadinha. Sorri e acena a....
CLASSIFICADOS
Jéssica. Branquinha. Sem celulite. Depilada. Com a boca aberta. Boneca inflável.
CLASSIFICADOS
Lucila. Boca fechada. Discreta silêncio absoluto. Atende homens e casais. Venha para uma fantasia a três. Apanhava do pai. Discreta. Calada. Como sua mãe.
CLASSIFICADOS
Branco. Venha se deliciar no meu corpo. Deslize no tobogã.
CLASSIFICADOS
Jurema. Assiste novelas todos os dias. Não perde um comercial. Seu marido não perde a rua guaicurus nenhum dia. Sobe e desce
CLASSIFICADOS
Luana. Morena bombom. Morena melancia. Morena do tchan. Morena que nunca é lembrada pelo seu nome.
CLASSIFICADOS
Gisele. Peituda. Bunduda. Ta bom, né? Só isso que interessa. Prá que conversar.
CLASSIFICADOS
Lulu. Travesti jeitosinha. Veio do interior. Seu irmão era policial. Homem é macho. Ficou sem tímpano.
CLASSIFICADOS
Laura. Quente. Garantia de muito prazer ou o seu dinheiro de volta. 4 reais ou um bom champagne. Basta um jantar e casa.
CLASSIFICADOS
Morena. Garota nova. Foi apaixonada. Agora trabalha no sobe e desce. Shopping Center
CLASSIFICADOS
Garota shopping Center. Faz as compras. Quer casar. Adora carros. Não sabe dirigir. Adora caminhões e caminhoneiros.
CLASSIFICADOS
Léo. Sarado. Fica 24 horas na academia. Fez jiu jitsu. Prá que conversar. Eu quero é mulher. De boca fechada.
CLASSIFICADOS
Garota monalisa. Sorri , sorri. Será Que ela é feliz?
CLASSIFICADOS
Jander. Tipo cowboy. Segura peão. Macho que é macho cospe.
CLASSIFICADOS
Letícia. Imita cachorra. Galinha. Piranha. Vaca. Todos os animais que os homens gostam de chamar a mulher.
CLASSIFICADOS
Lola. Adora lolar com você.
CLASSIFICADOS
Flávia. Sonhadora. Tipo princesa encantada. Vai prá Disney se vender.
CLASSIFICADOS
Leca. Garota fast food. Pode comer rapidinho.
CLASSIFICADOS
Elaine. Garota tipo bbb da globo. Bonita, boba, banalizada.
CLASSIFICADOS
Larissa. Deixou de estudar prá casar. Tem 3 filhos. Não usa camisinha. Respeita a ordem da igreja.
CLASSIFICADOS
Joice. Obesa. Ninguém quer casar, só pagar barato.
CLASSIFICADOS
SHEILA e Luzia. Atendem juntinhas. Precisam de amor. 20 reais.
CLASSIFICADOS
Bruno. faminto. Tipo bbb. Bombado. Banalizado. Boneco de pelúcia.
CLASSIFICADOS
Serena. Sonha em ser mulher. Ser mulher é agradar o homem. Ficar bonita para ele.
OS PANOS PRETOS NO CHÃO, OS ATORES DEITADOS. CLASSIFICADOS A MOSTRA. LETRAS GARRAFAIS. CARNE. CARNE DE AÇOUGUE. COSTELA. PATINHO. MULHER. TRAVESTI. ELEMENTOS COM FIGURINO PARA AJUDAR NA CONSTRUÇÃO. RAÇÃO DE CACHORRO. PATRICIA GRITA: O SEXO É O LADO PECAMINOSO OD CASAMENTO, DEVEMOS TIRAR ELE DO CASAL E COLOCÁ-LO NOS CLASSIFICADOS. POSES DE FOTOS. MODELOS. MANEQUINS. POR QUANTO CADA UM SE VENDE. DIVERSO TIPOS DECARNES JUNTO AO CORPO DOS ATORES. DIDI TRAVESTI. PATRICIA MULHER PROSTITUIDA. POSES CAMINHANDO Á ANIMALIZAÇÃO. SER HUMANO DOMESTICADO. CONSTRUÇAÕ DAS NARRATIVAS. POR ENQUANTO É SÓ CAOS.
segunda-feira, junho 15, 2009
a vida chama

A vida chama. Acordo à nove e onze da manhã, 9+11=20=2, o duplo, a parceria, la vie. Mais um casal chega às últimas conseqüências da violência doméstica: a filha de uma conhecida, 16 anos, é assassinada pelo marido em frente a filhinha de pouco mais de um ano. A vida chama. O que eu farei, através do meu trabalho de ações/situações criadas pela cidade para depor contra tal realidade que assola a humanidade. Pessoas se matam diariamente, destroem a vida do outro aos poucos ou a retiram dum só golpe, como se deu ontem com esta moça. E como ela outras mais pelo Brasil e mundo.
O que seu trabalho significa? Alguém na rua me pergunta. É necessário que eu escreva uma legenda para que chegue mais fácil? As mulheres são as que mais questionam, os homens sacam, comentam. Nós estamos emburrecidas mulheres? Pergunto-me aonde estão as mulheres? Pois nas bonecas nós tropeçamos todo santo dia.
É necessário lutar. Minha arma de combate: minha ação nas ruas. Montar a ‘santa dona de casa martirizada’ em BH tem sido esclarecedor quanto à forma feminina de pensamento difundida na cidade. O culto à beleza da carne da mulher como artifício propulsor de vendas e manutenção da indústria capitalista é evidente nos corpos e atitudes femininas. Saltos. Calças jeans com lycra, cabelos ‘suuuper liso’ prancha de cerâmica e escovas hidratantes à base de inúmeras matérias primas: frutas, fermentados, chocolates... mulheres em série, como aponta firmemente a ação de Joyce. A realidade que vivemos é tão emburrecedora, a alienação é geral e para mim é necessário criar ostensivamente ações e situações que tragam à tona fortes interrogações acerca do que construímos como sociedade diariamente. Quais ações temos em relação a sociedade na qual vivemos? Nossa atitude cidadã está tão anulada que somos levados a crer que não há nada a se fazer senão trabalhar cegamente, pagar as contas, gerar mais filhos e tudo isto em prol de uma grande máquina desumanizadora de gente.
A vida chama.
Nêga.
domingo, junho 07, 2009
Meninas bonecas
Neste dia, optamos por fazer uma interferência no horário de saída de escola e fechamento do comércio, ou seja, no olho do furacão. Joyce testaria sua nova maquiagem, de boneca de louça. Erica o figurino de rainha do lar, dona-de-casa santificada. Eu, o desenho dos objetos e a escrita fora dos corpos. Neste dia também, tínhamos "convidados ilustres", os quais chamamos a participar do trabalho a fim de nos dar um feedback, um olhar para além daquele dos pesquisadores obscênicos que nos acompanham desde o nascimento das bonecas, um olhar "virgem", mas especializado: Mencarelli, professor do curso de artes cênicas da ufmg, Clarissa, pesquisadora da performance, e Júlia Mendes, atriz e jornalista, além de Garrocho, pesquisador e filósofo (que, infelizmente, não pôde ficar até o fim do trabalho para o tão esperado feedback).
Investimos, mais uma vez, na mudança estrutural proposta por Clóvis: primeiro, a instalação da exposição para, somente depois que esta estivesse instaurada, partirmos para as mulheres mortas, desenhos de corpos marcados a giz no chão.
16:30, praça cheia. Eu e Erica escolhemos o local de seu tapete, depusemos as revistas e comecei a escolher imagens. Ela busca a água e logo começa o seu trabalho. Joyce, já na praça, instala seu tapete. Lissandra, de noiva a passear pelos entornos. Terminado o tapete da Nêga, começo a buscar os pequenos objetos que comporão pequenos "quadros" a giz, quase retratos destes objetos mortos.
Os desenhos, infelizmente, não traduzem os objetos que desejo: o pires vira um simples círculo, a bolsa, um retângulo. Tento dar a forma dos objetos reais em seus desenhos a giz. escrevo: brincar de casinha, brincar de boneca. não estou satisfeita. Os objetos escapam ao desenho. Opto por dar vazão à escrita fora dos corpos que ainda não se deitaram: escrevo listas de tarefas da mulher ao lado do tapete de Erica. Ela, então, já com seu figurino montado no cabide-corpo, disponibiliza-o para a marca. Traço a silhueta deste corpo-manequim no chão e nele escrevo. É o primeiro corpo do dia.
O fluxo de pessoas me impressiona. Nunca tivemos tanto "público". A praça, lotada, dificulta a visão das bonecas e mal localizo Lissandra dentro do círculo de pessoas que se formou ao seu redor. Ela me vê, deita-se no chão. Desenho seu corpo. Um bêbado de rua pede: "me desenha também". Ele se deita e faço o contorno do seu corpo ao lado do dela. Corpo de homem. Nosso primeiro e dentro dele escrevo: homem. humanidade. ser humano dotado de qualidades viris como força, coragem.
Desta vez, o ritmo acelerado da cidade acelera o ritmo da interferência. Para mim, ela passa muito rápido e desenho poucos corpos, poucos demais. Quando vejo, as três já estão deitadas na área central, meio dos tapetes. É o sinal do nosso fechamento. Traço seus corpos. O bêbado novamente se deita e, pasmem! Um homem, a caminho da aula, deita-se ao lado dele. Ao lado das bonecas adultas, mais duas, a grata surpresa: duas meninas esperam, felizes, que eu trace seus corpos no chão, que eu torne um pouco mais durável suas presenças em nossa ação. Grata surpresa. Silhuetas de meninas em meio aos corpos das mulheres mortas. O primeiro impulso é aproveitar os corpos e falar da pedofilia. Mas, diante de seus sorrisos, a coragem me falta e prefiro falar da educação das meninas, de seus brinquedos cor de rosa e das qualidades que uma garota já deve demonstrar para ser uma futura mulher capaz de conquistar seu homem e cuidar do seu lar. Uma futura mulher, educada para agradar. Uma futura mulher, cumprindo o papel que nasceu para desempenhar... Futuras bonecas?
quinta-feira, maio 21, 2009
Re Construção da Imagem para futuras 'exposições'
Relato (´rio) 21 de maio de 2009Hoje coloquei-me a trabalhar sobre a roupa de minha boneca. Estava germinando este labor há um tempo e desde os últimos apontamentos entrei num processo de busca de materiais como também de um novo olhar sobre a figura feminina que construo diante dos transeuntes. Mantive a maior parte dos elementos que já utilizava, retirei uns e somei outros. Assumi a imagem 'mulher dona de casa santificada', o martírio que leva à redenção. A tortura diária que leva à santificação, assim como ocorrera à Bárbara, santa católica cuja história alimenta minha pesquisa desde seu início. Mas, a roupa não está mais aplicada a meu corpo e sim duplicada através de um cabide em forma de corpo tronco feminino. Dependurado pelos meus dentes a imagem conserva a agressividade do trabalho. Uma imagem composta de pedaços de panos, um resgate dos retalhos de seda longamente utilizados na pesquisa em 2008. A roupa como armadura, como aquilo que se encaixa por sobre o corpo e nos conforma. Agora me falta colocá-la na rua e expô-la.
segunda-feira, maio 18, 2009
Trecho em obras
Havíamos observado, a partir das colocações de um espectador crítico – Davi Pantuzza – que o tapete único, realizado na última interferência feita, no dia 25 de abril, ao causar uma impressão de fixidez, de imagem estática, de quadro, não atendia à imagem contida na proposta inicial, a qual deveria “configurar um único acontecimento: a exposição. Como se fossem nichos, prateleiras ou vitrines[1]”. Queríamos que as pessoas circulassem entre as bonecas, que tivessem liberdade e interesse em interagir com elas. A partir daí, foi possível perceber que, no lugar do tapete de Erica servir como nicho para as três, deveríamos pensar em nichos individuais e, mais, que estes deveriam refletir as bonecas que estariam neles expostas. Erica, assumindo totalmente a direção de arte do trabalho, propôs também uma maior definição visual das bonecas: para Joyce, vinil na roupa e tapete de pelúcia rosa. Para Lica, construir a roupa de noiva a partir de plásticos de embalagem, os quais deveriam, também, constituir o material para seu tapete.
“É teatro? Propaganda? Protesto?”
“Ela está vendendo o quê?” “Que isso que vocês estão fazendo?”
“Hoje em dia qualquer coisa é arte!”
Arte? Teatro? Performance? Teatro Performativo? Teatro pós-dramático?
As artes contemporâneas da cena têm buscado formas que extrapolam o cânone daquilo que, até o século XX, era conhecido por teatro. Ou, por outra, que do século XVI ao século XX, foi conhecido como teatro e que, na maior parte das vezes, se confunde com a noção de drama e de texto escrito, de obra literária. Quais os paradigmas contemporâneos que permitem mensurar se determinado experimento ou obra é arte? Ou se é teatro? Aliás, pós-cinema e pós-televisão – suportes que, em geral, elegem o modelo dramático como visão de mundo – qual seria a especificidade dessa arte presente e imediata? Qual seria o seu valor?
Sábado, 16 de maio. 11 horas da manhã. Praça Sete. O prédio do PSIU, sintomaticamente ele em obras também, estava coberto de tapumes cor de rosa. Bom augúrio.
Primeiro descemos Lissandra, eu e Erica. Já neste momento, a noiva – linda em seu vestido de plástico de proteger geladeira, branco, ela Branca de Neve – causa impacto. Ela sai pela esquerda: dará voltas na Praça, antes de instalar seu tapete/caixa/casa.
Erica começa a montagem do seu tapete de revistas e brinquedos de menina: brincar de casinha. Ela sugere: “escolha também imagens que você ache que o texto interessa. Pode também escolher pela palavra”. Ali, a escolher imagens para o seu tapete, percebo mais um canal de colaboração: como a criação vai engendrando formas coletivas para o trabalho. Essa textura, tecida a oito mãos, se enriquece a cada dia. A oito mãos, eu disse? Como esquecer as colaborações dos olhares espectadores que nos acompanham? Clóvis, sempre presente e perspicaz, hoje (infelizmente, infelizmente!) não estava aqui para ver o fruto de sua provocação.
Pois neste sábado, dia 16, as mulheres transeuntes brincaram de casinha e de bonecas. Ah, a menina, que encantada com a boneca obscênica Joyce, talvez tenha desejado levá-la para casa... Transeuntes, posaram com a noiva, secretamente a invejá-la, ela, a mulher mais feliz do mundo. Como posaram também os homens que, pais ou noivos, secretamente a desejavam: bela noiva de transparências e calcinhas vermelhas.
Neste sábado 16, uma síntese aconteceu: a ação, mais concentrada e direta, causou espécie (como diriam os literatos). Os escritos a giz ganharam uma relação imediata com cada um desses nichos/bonecas e puderam estabelecer redes de sentido entre um e outro. A partir da boneca de giz de uma, mulher morta no chão, construir significâncias para a outra. De bonecas a mulheres mortas. Samy, 20 anos, loirinha e sapeca como você gosta. Da noiva mais feliz do mundo à dona-de-casa, mulher de cama e mesa. Agradar. Sorrir. Seduzir. Brincar de bonecas. Domesticadas pela TV, sonhamos ser loiras e brancas. Silicone. Botox. Lipoaspiração. A mulher mais amada e desejada do mundo. Corpos blindados para um inventário de tarefas inúteis. Segurar. Casar. Servir sempre para servir melhor. Casar. Casar. Casar. Brincar de casinha. Amar. Apanhar. Perdoar. Esquecer. Não mais ser. Morrer. Ser morta. Destruída. Espancada. Estuprada. Excomungada.
Barbies quebradas. Prontas para o consumo imediato.
Nina Caetano.
[1] Email de 06/10/2008, no qual lancei a proposta de se fazer uma exposição de bonecas.
'Baby Dolls - uma exposição de bonecas'

Relato (´rio) Obscênico, sobre o trabalho de sábado, 16 de maio na Praça 7
Eram oito e meia da manhã e Joyce bate no portão de minha casa. Eu já ansiosa, o dia era especial, pois colocaríamos em prática diversos apontamentos feitos desde a última ‘exposição’. Em especial sentia-me feliz e excitada porque minhas propostas e ‘figurino e adereços’ seria experimentada pelas bonecas de Joyce e Lica. É estranho utilizar os termos figurino e adereço neste trabalho, mas por hora serão estes. Chegamos à casa de Lica e começamos a organizar o trabalho e demais necessidades, discutimos sobre a divisão do espaço a ser ocupado, nesta exposição escolhemos a parte da Praça 7 em frente ao Posto Psiu e para nossa alegria este está em obras e cercado de um tapume rosa! Ajeitei meus objetos no carrinho de feira que ganhei de Nina, que maravilha cabe tudo! Dou os últimos retoques na roupa de Joyce, ajudo Lica a montar a noiva e saímos. Devido ao tempo que gasto para montar o tapete, combinamos de eu e Nina iniciarmos a ação, Joyce e Lica viriam após um certo tempo. A participação de Nina na escolha das páginas de revista foi fundamental. A atenção que ela dá aos textos somou a minha composição e o tapete ficou mais conciso em sua mensagem. Decidi não trabalhar mais com a frase ‘destrua esta imagem’ por perceber que ela não trazia as mulheres para perto e sim as afastava do meu trabalho, logo, como meu desejo é alcançar o interesse feminino preciso ativar, aguçar sua curiosidade para minha exposição. Para tanto propus a Nina que trabalhasse em outra perspectiva, uma vez que ela é a mulher das palavras, convidando as mulheres a brincar de casinha, algo que eu já havia feito e que percebi ser mais potente a realização dos meus desejos.
Trabalhei frente ao tapume, equilibrei meu espaço entre um poste e duas latas de lixo. Dividi minha ação nas seguintes etapas:
1) Chegada e seleção do espaço para montar o tapete;
2) Busca de água para molhar as páginas de revista;
3) Seleção das páginas e início da composição;
4) Vesti o vestido, montar o tapete já com uma ‘roupa feminina’;
5) Seleção de uma frase para responder às perguntas dos transeuntes sobre o que se dava: _ estou montando um tapete.
6) Após a montagem inicio a construção da casinha. O primeiro a ser colocado é o castelinho, sempre à frente do tapete. Os cômodos foram ordenados da seguinte maneira: área de lazer, onde se encontram os bonecos; sala de estar; copa; cozinha; área gourmet.
7) Visto as outras duas peças de roupa, me coloco atrás do tapete, visto a calcinha no rosto, seguro o buque de flores, vassourinha e rodinho e me exponho ao público.
A reação foi de fato totalmente diferente. Percebi que as mulheres não se irritavam ao me ver e sim paravam para observar o que se passava. Admiravam a casinha, os objetos, comentavam entre si, mas ainda não se sentiam confortáveis para intervir nos objetos.
Destas vez nós trabalhamos em acordo com uma proposta feita por Clóvis, primeiro montamos cada nicho das bonecas, estabelecemos a exposição e depois começamos a fazer as mulheres mortas, esta ação de fato tornou o trabalho mais claro. Ao me deitar senti forte o cheiro da cidade, o rastro das pessoas que passavam por mim. Fiquei um bom tempo deitada, Nina estava ocupada com outras escritas e isto foi fundamental para meu trabalho. Minha escuta da cidade se ampliou e percebi diversas características. A calcinha sobre meus olhos, por exemplo, me possibilita uma relação velada com as pessoas ao redor,um mascaramento, elas não se sentem coagidas com meus olhares e eu fico mais livre para observar o que se passa. Este elemento cria também uma imagem santificada, remete aos orixás com seus olhos encobertos, aquele que tudo vê sem ser visto, esta é uma relação que desejo aprofundar. Uma vez que a visão fica velada o corpo se abre para outras escutas. Desta vez estive muito mais sensível e flexível. Retirei do meu trabalho a postura agressiva que até então empreendia e percebi que isto faz com que as pessoas, principalmente as mulheres se aproximassem mais. Na segunda vez que me deitei uma senhora se aproximou, ela pensou que eu passava mal. Perguntou, mas nada respondi, ela saiu, mas voltou e me balançou, notei que ela andava com a ajuda de uma muleta, não vi seu rosto, somente senti seu toque o que trouxe para mim uma sensação enorme de conforto naquela posição em que estava, com o rosto colado no chão sujo e fedido da praça sentindo o movimento das pessoas à minha volta e principalmente a reverberação do trânsito e o tremor do chão. As outras mulheres que estavam em volta explicaram para a senhora que aquilo era uma apresentação e que eu não estava passando mal, senão elas mesmas já teriam me socorrido. A senhora se acalmou e saiu. Eu permaneci imóvel. Senti a cidade de maneira tão forte que todas vezes ao me levantar das mortas meu corpo estava remexido, fiquei meio trôpega, o chão me sugou e me cuspiu de volta, senti-me mais presente e integrante daquela arquitetura urbana. Num dado momento eu, Lica e Joyce fomos para o ponto central entre nossas instalações, nos deitamos e Nina pôs-se a nos desenhar. Ali configurou-se a exposição, um risco de três corpos que compõem a imagem do trabalho. As frases de Nina explicitando o teor de nossas inquietações, certamente fomos mais concisas.
Percebo que necessito criar dispositivos mais eficazes para trazer as mulheres para dentro do tapete. Nesta exposição somente uma se atreveu a brincar com os objetos. O que será que a fez vir? As frases convidativas? A minha ausência, uma vez que estava deitada quando ela se pôs a brincar? Ainda não tenho certezas, mas creio que a alteração da minha energia foi crucial à reação desta mulher, logo preciso de mais atrativos, meu especo precisa ser convidativo! Para o próximo trabalho apostarei no aumento dos objetos da casinha, quero entupir o tapete com miniaturas de eletrodomésticos. Quem sabe assim eu consiga a atenção e ação das mulheres?
TRANSAR MESMO SEM VONTADE
VEJO A BONECA COR DE ROSA DE JOYCE, ELA QUE TRAZ UMA EMPATIA MAIOR COM AS CRIANÇAS. NA ESCRITA DA INSTALAÇÃO DA ERICA HÁ: "BRINCAMOS DE CASINHA", MAS QUEM BRINCA É JOYCE, BRINCA DE BONECA, BRINCA DE SER LOIRA, BRINCA DE SER REVISTA DE MODA, BRINCA DE SER FELIZ. BRINCAR E FINGIR... PARECE UM SINÔNIMO TÃO PROFÍCUO NESTE LUGAR: BRINCAMOS DE FINGIR O TEMPO TODO NA LUTA DE UMA AUTO IMAGEM QUE NUNCA PODE SER DESTRUÍDA PELO TEMPO, DEVEMOS NOS PREOCUPAR COM O QUE O OUTRO PENSA. A RELAÇÃO É ESPECULAR: O ETERNO AZUL E ROSA QUE ABRE O ABISMO DESDE A INFÂNCIA ENTRE O QUE É SER MENINO E O QUE É SER MENINA. A BONECA DE JOYCE É LOIRA, FASHION, METALIZADA, MAQUIADA, DESEMPENHANDO UM PAPEL ADQUIRIDO PELAS BONECAS BARBIES: "CADA SEGUNDO UMA BONECA BARBIE É VENDIDA NO MUNDO...", ESTA CONEXÃO ENTRE A INFÂNCIA E A DOCILIDADE ESPERADA DE UMA MULHER, ASSIM COMO A FEMINILIDADE ESTÃO EXPOSTAS NA NOIVA DE LICA: "ALGUÉM MAIS FELIZ QUE EU"? NÃO HÁ, SEM DÚVIDA, POIS UMA NOIVA VAI ADQUIRIR O QUE FOI PROGRAMADA PARA SER: A DONA DE CASA QUE AMA E PERDOA, SILENCIOSA. A NOIVA ESTAVA COM UM COPO NA BOCA, COMO TODAS AS NOIVAS DEVEM SER: LINDAS, SERENAS E SILENCIOSAS: MONALISA SORRI , MAS SERÁ QUE ELA É FELIZ?
VEJO OS OBJETOS DE LICA NO CHÃO, EM UMA SOLUÇÃO HOMOGÊNEA E HIGIÊNICA, COMO TODA A NOIVA DEVE SER. SINTO FALTA DAS EMBALAGENS TEREM SIM NOMES: OMO DUPLA AÇÃO, CONFORT,ETC. SEI QUE FOI PENSADO NA PROPOSTA CONTRA A PROPAGANDA, TALVEZ PARA NÃO CONFUNDIR O TRANSEUNTE COM SE FOSEE ALGO ASSOCIADO AO COMERCIAL, MAS AS PROPAGANDAS FAZEM PARTE DE UMA DITADURA SEDUTORA PARA A MULHER, PARA A CASADA.
AS PROPAGANDAS NOS INVADEM COM SEUS CÓDIGOS DE BARRA.
SINTO FALTA TAMBÉM DE PRESENTES ACABADOS DE GANHAR, DADOS A UMA NOIVA: TALVEZ DENTRO DE UMA CAIXA DE PRESENTE SEMI ABERTO DEVE HAVER PANELAS, PANOS DE PRATO, ELETRODOMÉSTICOS, ACHO QUE FICA MAIS CLARA A RELAÇÃO DE MULHER E LAR: COM SE FOSSE ASSOCIADO DEFINITIVAMENTE O LAR- A MULHER: A CASA SER O AUTO RETRATO DA MULHER, NO SEU RG APARECE AO INVÉS DE SUA FOTO, O SEU LAR. PRESENTES SEMI GANHADOS SÃO IMPORTANTES PARA ESTA CONSTRUÇÃO, PRESENTES DE CASAMENTO.
A ESCRITA DE NINA É, SEM DÚVIDA ALGUMA, O QUE DÁ SENTIDO ÀQUILO TUDO, É O QUE DEIXA CLARO AS INTENÇÕES DO AGRUPAMENTO, É O TECIDO CONJUNTIVO DESTE CORPO.
A ESCRITA DE NINA NÃO ILUSTRA A IMAGEM, MAS A COMPLEMENTA, FINALIZA, UNE AS TRÊS OBRAS EM CONSTRUÇÃO.
A CÂMERA FILMADORA, AO MEU VER, DEIXOU CLARA A SITUAÇÃO REPRESENTACIONAL, POIS AS PESSOAS JÁ LIGAVAM DIRETAMENTE A CÂMERA À INTERVENÇÃO, E ESTA FICA FAZENDO PARTE TAMBÉM DA OBRA, NÃO CONSIGO DEFINIR SE ISTO, TÃO INTRINSECAMENTE, É INTERESSANTE OU NÃO.
A BONECADA ERICA, ESTRATIFICADA, EM UM CORPO COM CERTEZA MENOS REPRESENTACIONAL QUE AS OUTRAS BONECAS, APENAS UM CORPO MUDO, CALADO, COMO SE FOSSE ACOPLADO AOS OUTROS OBJETOS, PARECE QUE AS REVISTAS DE BELEZA NO CHÃO, AS BONECAS E SUAS CASINHAS SÃO A ERICA, TODOS SÃO COISAS, A ERICA TAMBÉM ESTÁ COISIFICADA, CAUSANDO UM ESTRANHAMENTO IMEDIATO, A CALCINHA NO ROSTO: SERÁ QUE OS HOMENS QUANDO OBSERVAM AS MULHERES SÓ VÊEM A SUA XOXOTA? ENTÃO NO LUGAR DO ROSTO A CALCINHA ESTÁ MELHOR... PARA QUE VER O ROSTO SE SÓ QUEREM VER CALCINHAS E XOXOTAS?
SINTO FALTA, NO ENTANTO DO FIGURINO COMPOSTO, NÃO VEJO UMA NOÇÃO CLARA DE BONECA EM ERICA, MESMO SENDO UMA BONECA DONA DO LAR, CALADA, ACHO QUE A COMPOSIÇAÕ DO FIGURINO FICA PRÓXIMO DEMAIS A ELA, DESTOA DAS OUTRAS BONECAS, FICA SEM UM ELO COGNITIVO, ACREDITO QUE SUA RELAÇÃO COM O FIGURINO DEVE SER MELHOR PENSADA, SENDO UMA BONECA DE PANO, RASGADA, MAS AINDA ASSIM UMA BONECA.
ACREDITO NA GRANDE TRANSFORMAÇÃO QUE SÁBADO NOS DEU. UMA FORÇA EM PLENO CORAÇÃO DA CIDADE, QUE DEIXOU IMAGENS A SEREM REFLETIDAS, E FRASES PARA NUNCA SEREM DESPREZADAS: A QUE EU LEVO PARA CASA É A "TRANSAR, MESMO QUE SEM VONTADE", ELA MARTELA EM MEUS PENSAMENTOS TORTOS.
quarta-feira, maio 13, 2009
"Construindo a Noiva"
A NOIVA
É crucial em nosso trabalho criar um estado colaborativo. Aprender a colaborar numa sociedade do consumo e da ordem. Compreender as necessidades do outro sem esquecer as suas. Fazê-las comungarem para assim criar um terceiro desejo: a criação de algo em comum e neste poder reconhecer a realização de um trabalho à tantas mãos forem necessárias.
Obrigada Bonecas Obscênicas! Tenho aprendido deveras com todas!
quinta-feira, maio 07, 2009
terça-feira, maio 05, 2009
Trajetórias
O ano começou e Erica já em sua nova vida – operária. Sim. Operária do fazer teatral. Ela, aos cinco dias do mês de janeiro já estava a produzir, organizar, despachar, orçar e ‘planilhar’ todas as informações, cotações e disposições referentes aos projetos que é responsável no trabalho ‘seu de cada dia!’ Sente-se útil, mas a quem? Sente-se produzindo, mas para quem? Sim. É necessário não perder o tino. Isto não é uma reclamação e sim uma constatação. É uma mulher que precisa se manter e se manter significa ganhar dinheiro para entregá-lo a quem se deve, mesmo que devamos a quem nem sabemos quem é...
Os trabalhos do OBSCENA só começam em fevereiro e ela já se inquieta. Percebe que está lendo pouco, percebe que o tempo é cada dia mais escasso e as exigências são e serão maiores. É necessário progredir. 2008 fora um ano forte, de muita luta e muitos conflitos, mas e 2009? Ela está bem diferente. Envelheceu. Amadureceu. Perdeu e ganhou. Iludiu-se e voltou ao seu equilíbrio precário. Mas, quem é essa mulher que se apresenta em 2009? Quem é você Erica neste novo ano? Ela não sabe. Sua construção contínua continua. Há frutos já a se colher da pesquisa empreitada em 2008, observações pertinentes e proveitosas, mas ela se inquieta.
Os encontros recomeçam. Já há dificuldade no dia de encontro, ela decide fazer um curso técnico, Design de Interiores, é para trabalhar com cenografia, as ‘questões plásticas’ estão no seu foco deste novo ano. Estas já se faziam presentes em 2008 e agora tudo está mais claro em torno deste desejo. A imagem, ou melhor, a fabricação da imagem! É nisto que Erica quer investir. Ela cada dia mais se distancia da interpretação/atuação. Ela quer liberdade de expressão e não virtuosismo das formas. Sua saúde não anda nada bem. Erica sente-se fraca em fevereiro, isto a faz resguardar-se. Jura que não quer mais colocar seu corpo a serviço dos trabalhos até então desenvolvidos, mas os demais companheiros a questionam: _mas como você vai fazer o ‘mercado da buceta’ sem se instalar nele? Ela fica agressiva e ajeita jeitos desajeitados de reformular o que não tem como, não neste caso. Isto ela comprova no trabalho junto ao ARENA. No mês de Março o OBSCENA fez uma troca com os alunos dos projetos ARENA DA CULTURA/PBH, do qual Lissandra foi professora. Ao montar o ‘mercado da buceta’ Erica não resiste e se coloca na instalação, para sua alegria e alívio dos companheiros de trabalho. Seu medo passou. Sua força estava ali o tempo todo. Ela ama este trabalho, mas uma fraqueza diante da vida e dos seus intempéries a fizeram crer, momentaneamente, que não havia mais o que fazer no OBSCENA... BOBAGENS!
Os trabalhos do OBSCENA têm sido discutir as pesquisas realizadas em 2008. Os artigos resultantes destas. Erica envergonha-se de não ter escrito um. Ela está em divida consigo mesma, sim, é assim que se sente. Clóvis, pesquisador Obscênico, teceu uma monografia acerca do trabalho que Erica desenvolveu. Ao lê-lo ela pode perceber a trajetória construída, mesmo que de forma instintiva houve um crescente lógico entre a opção pelo mito de Santa Bárbara como ponto propulsor e as demais proposições de ocupação, instalação e abandonos. Até a chegada ao ‘mercado da buceta’ no qual ela exibe uma imagem da mulher domesticada e dócil, à mercê da ação alheia e totalmente moldável. É assim que ela vê as mulheres, de geração a geração a história só troca de protagonista, enquanto vivemos na era do botox, silicone e lipos nossas antepassadas estavam à mercê dos espartilhos...Alguns integrantes saíram este ano, Fernando e Didi. Mas, João está firme. Somos 9.
As bonecas prosseguem. Dia 25 de abril foi dia delas se exporem na Praça 7. Incrível como as mulheres se indignam. Os homens param, olham, cobiçam, lêem, mas elas ficam nervosas. Passam. Riem nervosamente. Reclamam. Ignoram. Enfim, um misto de reconhecimento e repulsa. As meninas nos são caras. Elas sempre estão de rosa, assim como nossa exposição. É possível flagrar uma e outra com caixas da Barbie, estampas da Barbie, acessórios da Barbie. Tudo é Barbie. A mulher deve ser tão bonita, legal e transada quanto a Barbie, assim a vida muito mais rosa, não acham?

Após este trabalho Erica percebeu que é necessário trazer as mulheres transeuntes para dentro da sua exposição, seu nicho. Recuperar uma ação proposta em 2008, na qual ela convidou as mulheres do público para brincar de casinha pode trazer para sua ação mais efetividade do que a proposta do ‘mercado da buceta’ com a frase/comando: ‘Destrua Esta Imagem’. É necessário colocar as mulheres para repetir as ações inúteis do dia-a-dia e verificar se a partir disto se gera um pensamento crítico sobre as mesmas. A simples ação de brincar com os objetos em miniatura e cor-de-rosa pode trazê-las para um estado mais conectado consigo mesmas e assim a percepção da cultura patriarcal capitalista impregnada em seus corpos. Não há o desejo de se criar um fórum após a brincadeira para discutir seus valores e sim gerar nas mulheres algo que a princípio não se note, mas que silenciosamente se instale um incômodo e que este prossiga deteriorando imagens estáticas. Este é o desejo de Erica.


